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Fábula do Dia   Fábula do Dia
ED 083
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1 carneiro de enxofre contra o dragão de Wawel

Na lenda polonesa de Cracóvia, o sapateiro Skuba vence o dragão do morro de Wawel com uma isca costurada a mão.

O dragão de Wawel sai da caverna à beira do rio Vístula, em Cracóvia, e fareja um carneiro deixado de pé na entrada pelo sapateiro Skuba.

O carneiro de enxofre na boca da caverna

▼
 

“Majestade, me dê um carneiro, enxofre e uma noite de trabalho”, disse o sapateiro Skuba ao rei Krak, no pátio do castelo no alto do morro de Wawel, em Cracóvia.

O rei olhou o rapaz de avental de couro e dedos pretos de cola. Antes dele, cavaleiros de armadura tinham subido aquele mesmo morro com lança e escudo. Nenhum deles desceu de volta para contar.

Debaixo do castelo, na encosta virada para o rio Vístula, havia uma caverna funda. Lá dentro morava um dragão.

Ele saía quando tinha fome. Levava ovelhas do pasto e vacas da beira do rio, e os pastores juravam ter visto o fogo dele iluminar a água à noite. Quando o gado das fazendas próximas acabou, diz a lenda, o bicho passou a exigir gente.

Krak tinha prometido a mão da filha a quem livrasse a cidade do dragão. Vieram cavaleiros de outras terras, a cavalo. Uns ficaram queimados na boca da caverna, outros voltaram para casa sem olhar para trás.

Skuba não tinha espada nem cavalo. Tinha agulha, linha grossa, faca de cortar couro e um plano.

O rei mandou entregar o que ele pediu. Um carneiro gordo, sacos de enxofre amarelo, piche (resina escura de pinheiro, que pega fogo fácil) e sal.

O sapateiro trabalhou a noite inteira na oficina. Abriu o carneiro, tirou o que havia dentro e encheu o couro com enxofre e piche. Costurou com o ponto apertado das botas, para nada escapar pelas emendas.

Antes do sol nascer, carregou o carneiro nas costas morro abaixo e o deixou na entrada da caverna, de pé, como se estivesse pastando. Depois se escondeu atrás das pedras e esperou.

O que o dragão fez com aquela isca, e onde ele foi parar, está na primeira faixa.

Depois vêm os três cronistas que contaram a história, cada um com um herói diferente, e o que o sapateiro deixou de lição.

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I  A Fábula do Dia

O carneiro na boca da caverna

A resposta de ontem

Qual ópera nasceu de outro poema de Tumanyan em 1912?

Foi Anush, do compositor armênio Armen Tigranian. A ópera saiu do poema que Tumanyan publicou em 1892, sobre a pastora Anush, cujo irmão mata o noivo dela por causa de uma luta perdida. Estreou em 1912 em Alexandropol, a atual Gyumri, e virou a ópera nacional da Armênia.

O Dragão de Wawel, lenda de Cracóvia que o cronista Marcin Bielski pôs no papel na edição de 1597 da Kronika polska (Crônica polonesa), segue o carneiro de Skuba até o rio.

O dragão acordou com fome. Saiu da caverna arrastando a barriga nas pedras, sentiu o cheiro de carneiro e não pensou duas vezes.

Engoliu a isca inteira, com lã, couro e costura.

Por um tempo, nada aconteceu. O bicho voltou a deitar na entrada da toca, satisfeito, e Skuba seguiu atrás das pedras, sem respirar alto.

O fogo por dentro

O enxofre começou a queimar dentro da barriga. Na lenda, o fogo que o dragão soltava pela boca nascia dentro dele, e foi esse mesmo fogo que acendeu a carga.

O piche grudou nas paredes do estômago e ardeu junto. O dragão rugiu, cuspiu fumaça amarela e se debateu contra a rocha da encosta.

Ele procurou água para apagar o ardor. A mais perto era o Vístula, que corre ao pé do morro de Wawel.

Um rio inteiro

O dragão desceu a encosta aos tropeços e enfiou a cabeça no rio. Bebeu um gole, e o ardor não passou. Bebeu outro, e mais outro.

Na versão contada em Cracóvia, ele bebeu até o Vístula baixar nas margens. A barriga inchou, esticou e ficou redonda como um tonel de cerveja.

Então a barriga estourou na beira da água.

O estrondo chegou ao castelo. Quando os soldados desceram, acharam pedaços do dragão espalhados pela margem e Skuba de pé na lama, com o avental sujo de fuligem.

Do carneiro não sobrou nada. A costura que Skuba fez na oficina aguentou até o enxofre pegar fogo, como ele tinha calculado.

O prêmio

O rei Krak cumpriu a promessa. Skuba casou com a princesa e ganhou lugar na corte, e a cidade passou a contar a história dele como a do sapateiro que venceu onde os cavaleiros caíram.

As versões populares não dão nome à princesa. A filha de Krak mais famosa nas crônicas, Wanda, tem lenda própria e nenhuma ligação com o dragão.

A caverna continua lá. Chama-se Smocza Jama (Toca do Dragão), fica aberta na encosta do morro e desemboca a poucos passos do rio.

 
 

II  A Origem

Três cronistas, três heróis

O registro mais antigo do dragão está na Chronica Polonorum (Crônica dos Poloneses), que o bispo de Cracóvia Wincenty Kadłubek escreveu por volta de 1200.

Nessa versão não há sapateiro nem carneiro. Quem enfrenta o monstro são os dois filhos de Krak, o fundador lendário da cidade.

Kadłubek escrevia em latim e deu ao bicho um nome de origem grega, olofago (o que devora tudo inteiro). Ele descreve o monstro assim:

“Havia nas cavidades daquele rochedo um monstro de crueldade sem medida, a que alguns chamavam olofago.”

Wincenty Kadłubek, Chronica Polonorum (Crônica dos Poloneses), por volta de 1200.

O irmão que traiu

Os filhos de Krak encheram peles de gado com enxofre aceso e as deixaram na boca da toca. O monstro engoliu as peles e sufocou com a fumaça.

Na volta, o irmão mais novo matou o mais velho e contou em casa que o dragão tinha feito o serviço. Herdou o trono, até a mentira vir à tona. Acabou expulso da terra, e a coroa passou para a irmã, Wanda.

Na crônica do bispo, a lição recai sobre o irmão traidor. O dragão serve de começo para uma história de inveja dentro da família.

O rei que resolveu sozinho

Quase três séculos depois, o cronista Jan Długosz recontou o episódio nos Annales (Anais) do reino da Polônia, escritos em latim no século XV.

Na versão dele, a astúcia passa para o próprio Krak. O rei manda rechear os couros com enxofre, o dragão come e morre queimado por dentro, e a crônica segue para a fundação de Cracóvia no alto do morro.

O sapateiro de 1597

O sapateiro aparece com Marcin Bielski, que escrevia em polonês e não em latim, para leitores fora do clero. Na edição de 1597 da Kronika polska, o herói é um sapateiro chamado Skub, nome que o povo alongou para Skuba.

É dessa edição também o final no rio. O dragão de Bielski não sufoca na toca: desce ao Vístula, bebe até não caber e arrebenta.

Com Bielski, a lenda muda de dono. Sai da família real e vai parar na mão de um artesão sem nome de família, o que ajuda a explicar por que foi essa versão que ficou na boca do povo.

O dragão no morro hoje

Na porta da Catedral de Wawel, no alto do morro, ficam pendurados ossos enormes de animais pré-históricos, que a tradição chama de ossos do dragão. Diz o povo de Cracóvia que o mundo acaba no dia em que eles caírem.

Na saída da Smocza Jama, à beira do Vístula, uma estátua de bronze do escultor Bronisław Chromy, instalada em 1972, solta uma labareda de gás pela boca de tempos em tempos.

 

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III  A Lição que Fica

A agulha contra a lança

O sapateiro venceu onde os cavaleiros perderam porque não lutou com o dragão. Usou contra o bicho a fome dele e o fogo dele.

Os cavaleiros atacavam pela frente, na boca, justo onde o dragão era mais forte. Skuba atacou pela barriga, onde nenhuma armadura de escama protegia.

Quem não tem a força do adversário pode usar a fome dele.

O plano saiu do ofício. Skuba sabia costurar couro sem deixar vazar, porque passava o dia fazendo botas que não podiam deixar entrar água. A habilidade humilde da oficina virou arma.

A paciência atrás das pedras

Depois de deixar a isca, Skuba não fez nada. Ficou escondido e esperou o dragão comer, deitar, sentir o ardor e descer ao rio sozinho.

Os cavaleiros queriam uma luta para contar. O sapateiro só queria o dragão longe da cidade, e aceitou um trabalho sem plateia, feito de madrugada.

A lenda guarda o detalhe de propósito. Nenhuma das versões conta que Skuba tenha brandido arma, gritado ou chegado perto do bicho. O trabalho dele terminou quando o carneiro ficou de pé na entrada da caverna, e o resto ficou por conta do dragão.

A gula dobrada

O dragão também ensina pelo erro. Comeu sem farejar a isca e, quando doeu, bebeu sem parar.

A primeira gula acendeu o fogo. A segunda, a que parecia remédio, foi a que arrebentou a barriga.

O dragão de Kadłubek morre do mesmo jeito, só que sem rio. Em todas as versões, o monstro cai pela boca, nunca pela espada.

Em casa, o mesmo desenho aparece em formas pequenas. A criança que come doce demais e depois toma refrigerante para passar o enjoo, o adulto que resolve a pressa com mais pressa.

Lendo com uma criança

Ler a lenda com uma criança é parar em cada passo do sapateiro. Quatro paradas ajudam.

• No pátio: pergunte por que o rei confiou num sapateiro depois de tantos cavaleiros.

• Na oficina: pergunte o que Skuba sabia fazer que os cavaleiros não sabiam.

• Na caverna: pergunte por que o dragão comeu sem desconfiar.

• No rio: pergunte se beber mais água era a saída certa para o dragão.

“Que ofício seu viraria arma contra um dragão?”

Skuba voltou às botas.

 
 
Quiz da edição

Na versão da lenda contada pelo cronista Marcin Bielski em 1597, o que fez a barriga do dragão de Wawel estourar?

AEle foi atingido por uma lança escondida dentro do carneiro
BEle bebeu água do rio Vístula até não caber mais
CEle caiu de uma grande altura ao tentar escalar o morro de Wawel
DOs soldados acenderam fogo na entrada da caverna e ele sufocou lá dentro

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