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ED 082
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1 gota de mel e a guerra entre 2 reinos

No poema armênio de Tumanyan, o mel cai da balança, a mosca chama o gato, o cão ataca e a aldeia inteira vai à guerra.

Uma gota de mel escorre de um pote de barro sobre a balança de pratos de uma venda antiga, com um gato atento no saco de farinha.

A gota de mel escorre da balança da venda

▼
 

“Mel de montanha, da primeira florada”, disse o caçador ao vendeiro, na venda da aldeia de fronteira, pondo o pote de barro em cima do balcão.

O vendeiro enfiou a colher, provou devagar e fez cara de quem já tinha comido mel melhor. Era o jeito dele de abrir a pechincha.

O caçador vinha da aldeia vizinha, que pertencia a outro reino. Entre as duas corria um riacho raso, e a fronteira passava por ali, sem muro e sem guarda.

As duas aldeias se conheciam de feira em feira. Trocavam lã, sal, queijo e mel, e cada lado achava que o outro cobrava caro.

Na porta da venda, deitado na poeira, esperava o cão do caçador. Era um cão de caça, magro e atento, acostumado a correr atrás de lebre na encosta.

Dentro da venda, em cima de um saco de farinha, dormia o gato do vendeiro. Gordo, com o rabo enrolado nas patas, dono do lugar havia anos.

Os dois homens fecharam o preço depois de muita conversa. O vendeiro pôs o pote na balança de pratos para conferir o peso.

Foi aí que o mel escorreu pela borda do pote. Uma gota grossa desceu pelo barro, ficou pendurada um instante e caiu no chão de terra batida.

Ninguém deu atenção. O caçador contava as moedas, o vendeiro anotava o peso, e a gota ficou ali, brilhando no chão, perto do saco de farinha.

Uma mosca entrou pela porta, atraída pelo cheiro doce, e pousou em cima dela.

O gato abriu um olho.

Uma gota de mel, uma mosca e um gato acordado bastaram para começar uma das histórias mais famosas da Armênia. O que aconteceu dentro da venda, e até onde a briga chegou, está na primeira faixa.

Depois vem o poeta que a escreveu e a fronteira real que ele conhecia. Por último, o que ela ensina a quem lê com uma criança ao lado.

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I  A Fábula do Dia

Do balcão à fronteira

A resposta de ontem

Quem foi o dervixe de 1244 que mudou a vida de Rumi?

Foi Shams de Tabriz, ou Shams-i Tabrizi, um dervixe persa sem casa fixa que chegou a Konya em novembro de 1244. Rumi largou as aulas para conversar com ele dia e noite. Shams sumiu de vez por volta de 1248, e Rumi dedicou a ele milhares de versos, reunidos no Divan-e Shams-e Tabrizi (a coletânea de poemas de Shams de Tabriz).

Uma Gota de Mel, poema que o armênio Hovhannes Tumanyan publicou em 1909, segue o gato do vendeiro no instante em que ele salta do saco de farinha em cima da mosca.

O gato acertou a mosca com uma patada. Mas o salto foi barulhento, e na porta o cão do caçador levantou as orelhas.

Um cão de caça não deixa passar bicho correndo. Ele avançou para dentro da venda, pegou o gato pelo pescoço e o sacudiu até o gato parar de se mexer.

O vendeiro largou a balança. Viu o gato de tantos anos estendido no chão, pegou um pau atrás do balcão e acertou a cabeça do cão com toda a força.

O cão caiu ali mesmo, ao lado do gato.

A mosca, a primeira vítima da manhã, ficou esquecida no chão, grudada na gota que tinha começado tudo. Ninguém olhou para ela de novo.

O sangue na venda

Agora quem gritou foi o caçador. Aquele cão era o companheiro dele de encosta, o que farejava a caça e trazia a lebre de volta.

Ele agarrou o vendeiro pela camisa, e os dois rolaram pelo chão de terra entre os sacos e os potes. Na briga, o vendeiro levou um golpe e não levantou mais.

O barulho chegou à rua. Os vizinhos do vendeiro correram para a venda e encontraram o dono caído e o forasteiro da outra aldeia em pé.

Não perguntaram nada. Caíram em cima do caçador, e o homem que tinha vindo vender um pote de mel acabou também no chão.

O pote de mel continuava em cima da balança, inteiro, com o preço já combinado. Nenhum dos dois homens chegou a receber pelo negócio.

A aldeia vizinha

A notícia atravessou o riacho antes do anoitecer. Na aldeia do caçador, contaram que os vizinhos tinham matado um dos seus por causa de mel.

Os homens pegaram foices, porretes e machados e cruzaram a água. A outra aldeia esperava armada, e as duas brigaram nas ruas, nos quintais e nas eiras.

Casas pegaram fogo. Plantações foram pisoteadas. Cada lado guardou os seus mortos e jurou vingança.

Na aldeia do vendeiro, contavam que o forasteiro tinha chegado para roubar. Na aldeia do caçador, contavam que o vendeiro tinha matado um cão por pura maldade. Nenhuma das duas versões falava do mel.

As queixas subiram aos governadores, e dos governadores aos reis. Um rei mandou soldados para defender a aldeia dele; o outro respondeu com um exército.

A guerra se espalhou pelos dois reinos. Cidades queimaram, campos ficaram sem colheita, e o povo dos dois lados passou fome.

No poema, quando a fumaça baixa, os sobreviventes andam pelo país em ruínas sem saber dizer como tudo começou.

 
 

II  A Origem

O poeta de Lori

Hovhannes Tumanyan nasceu em 1869 na aldeia de Dsegh, na região de Lori, no norte da Armênia, numa paisagem de montanha cheia de pastores, caçadores e vendas de beira de estrada.

Os armênios o chamam de poeta de todos os armênios. O rosto dele está na nota de 5.000 drams, o dinheiro do país.

Ele escreveu poemas longos, contos para crianças e baladas tiradas da tradição oral. Muitas das histórias que reuniu vinham da boca dos velhos das aldeias.

Uma Gota de Mel nasceu desse jeito. Tumanyan pegou um conto popular armênio, que já circulava de aldeia em aldeia, e o reescreveu em versos rimados, curtos e rápidos.

O ritmo do poema imita a corrida dos fatos. Cada estrofe empurra a seguinte, e o leitor desce a escada da briga quase sem respirar, do balcão até o campo de batalha.

O título original, Մի կաթիլ մեղր (Mi katil meghr, que quer dizer uma gota de mel), cabe em três palavras. Gerações de crianças armênias decoram os versos na escola.

A fronteira que ele viu

O poema não saiu do nada. Em 1905, a região do Cáucaso viveu os confrontos entre armênios e tártaros, como eram chamados na época os azerbaijanos.

Aldeias vizinhas, que comerciavam havia gerações, se atacaram. Tumanyan saiu pelas aldeias de Lori tentando parar as matanças e negociar a paz entre os dois lados.

Quatro anos depois, ele publicou a história de uma guerra que começa numa venda por um motivo que ninguém lembra. Quem leu em 1909 sabia de que fronteira o poeta estava falando.

Ele próprio pagou caro pela atividade pública. Foi preso pelas autoridades do Império Russo e passou meses na prisão de Metekhi, em Tiflis, a atual Tbilisi.

Tumanyan morreu em 1923, em Moscou. A casa onde viveu em Dsegh virou museu, e o poema da gota de mel segue impresso nos livros escolares do país, ao lado dos contos que ele recolheu nas aldeias de Lori.

Um parente inglês

O mesmo desenho, a pequena falha que derruba algo enorme, aparece numa rima popular inglesa. Benjamin Franklin a publicou no almanaque que editava na Filadélfia.

“Por falta de um prego, perdeu-se a ferradura; por falta da ferradura, perdeu-se o cavalo; por falta do cavalo, perdeu-se o cavaleiro.”

Benjamin Franklin, Poor Richard's Almanack (O Almanaque do Pobre Ricardo), 1758.

Na rima inglesa, a corrente nasce do descuido. No poema armênio, nasce da raiva: cada personagem responde à perda com uma perda maior.

 

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III  A Lição que Fica

Quem segura a mão

A gota de mel não matou ninguém. Quem matou foi cada mão que respondeu na hora, sem parar para olhar o tamanho do que tinha acontecido.

Repare na escada. Um gato morreu por uma mosca, um cão por um gato, um homem por um cão. Em cada degrau, a resposta foi maior que a ofensa.

Na briga, cada resposta pesa um pouco além da ofensa; quem quer parar a guerra precisa ser o primeiro a responder com menos.

O poema também mostra quem engrossa a corrente sem ter visto o começo. Os vizinhos da venda chegaram depois do gato e do cão, e bateram sem perguntar.

A aldeia do caçador fez igual. Recebeu a notícia contada por um lado só e atravessou o riacho armada.

Em casa, a gota de mel cabe numa manhã comum. O irmão esbarra no desenho da irmã, ela empurra, ele derruba o copo, e meia hora depois ninguém lembra do desenho.

Na escola, cabe no recado que passa de mão em mão e chega ao último colega três vezes maior do que saiu do primeiro.

Também cabe no avesso. Há sempre alguém que, no meio da escada, poderia ter dito “espera, vamos ver o que aconteceu”. No poema, essa pessoa não aparece, e por esse motivo a fumaça chega aos dois reinos.

Lendo com uma criança

Ler o poema junto com uma criança é subir e descer a escada devagar. Quatro paradas ajudam.

• Na gota: pergunte quem viu o mel cair e por que ninguém limpou.

• No gato e no cão: pergunte se algum dos dois sabia o que estava começando.

• Na venda: conte junto com ela quantas pessoas poderiam ter parado a briga.

• Nas ruínas: pergunte o que os sobreviventes responderiam se alguém quisesse saber a causa da guerra.

“Em que degrau da escada você seguraria a mão?”

O chão da venda ainda tinha a mancha de mel.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Qual ópera nasceu de outro poema de Hovhannes Tumanyan e estreou em 1912?

 
 
Quiz da edição

No poema de Tumanyan, depois que o gato salta sobre a mosca e faz barulho, quem mata o gato dentro da venda?

AO cão de caça do caçador, que o pega pelo pescoço e sacode
BO próprio vendeiro, numa pancada por engano
CO caçador, ao tentar separar a confusão
DOutro gato da vizinhança, por disputa de território

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Dia 4 de 7 · a temporada de outubro fecha 31/10

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