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1 pato de olhos abertos na dança de Iktomi
Na lenda dacota de Zitkala-Sa, a aranha Iktomi ensina aos patos uma dança de olhos fechados, e só um pato pequeno desobedece.
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Os patos entram na tenda de capim de Iktomi
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“Meus amigos, o que carrego nas costas são canções”, disse Iktomi aos patos, na margem de um lago da pradaria dacota, apontando para o fardo de capim amarrado nos ombros.
Iktomi vinha andando pela beira da água, vestido de couro de cervo tingido de marrom, com o rosto pintado de vermelho e preto. Andava curvado sob o fardo, como quem carrega peso demais para um dia de sol.
Os patos o viram de longe. Estavam no meio do lago, boiando em bando, mergulhando o bico atrás de raiz e semente.
Um deles nadou até a margem e chamou: “Iktomi, o que é esse fardo?”
Ele parou, ajeitou a carga e respondeu sem pressa. Disse que eram canções, muitas canções, guardadas ali dentro para não se perderem pelo caminho.
Na língua dos dacotas, Iktomi quer dizer aranha. Nas histórias contadas à beira do fogo, ele é o enganador, um sujeito esperto e faminto que vive de armar teia para os outros e quase sempre cai na própria.
Os patos sabiam quem ele era. Mesmo assim, chegaram perto. Uma canção nova não aparecia todo dia na beira do lago.
“Canta uma para nós”, pediu o bando.
Iktomi fingiu pensar. Disse que as canções dele não eram de cantar ao ar livre, para o vento levar. Precisavam de uma tenda, e de quem soubesse dançar.
Então desamarrou o fardo. O capim fresco virou parede, a parede virou círculo, e em pouco tempo havia uma tenda redonda de capim na margem, com uma porta só.
Os patos saíram da água em fila. Gordos, molhados, sacudindo as penas, entraram um atrás do outro pela porta estreita.
Iktomi entrou por último e fechou a passagem com o corpo.
Lá dentro, à meia-luz, ele anunciou a regra da dança. O que ela pedia, e o pato pequeno que resolveu desobedecer, estão na primeira faixa.
Depois vem a mulher dacota que pôs a história no papel e o que o lago deixou de lição.
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I A Fábula do Dia
A dança de olhos fechados
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Iktomi e os Patos, conto que a escritora dacota Zitkala-Sa publicou em 1901 no livro Old Indian Legends (Velhas Lendas Indígenas), segue a dança dentro da tenda de capim, volta por volta.
A regra era uma só. Os patos deviam dançar em roda, cantando junto, com os olhos bem fechados do começo ao fim da canção.
E havia um aviso. Quem abrisse os olhos no meio da dança ficaria com eles vermelhos para sempre.
Os patos obedeceram. Fecharam os olhos, abriram as asas e começaram a girar, batendo os pés no chão de terra no ritmo da voz de Iktomi.
Ele cantava alto. A voz enchia a tenda e cobria qualquer outro som lá dentro.
O pescoço do pato gordo
Enquanto cantava, Iktomi escolhia. Quando um pato gordo passava perto dele na roda, ele estendia a mão, torcia o pescoço do bicho e o largava no chão, sem parar a canção.
Um pato, depois outro, depois outro. A roda ficava menor, e os que dançavam não percebiam, porque a voz seguia forte e ninguém via nada.
Entre eles dançava um pato pequeno. Ele não entendia por que a roda parecia mais folgada a cada volta, nem por que de vez em quando ouvia um baque surdo no chão.
Então ele fez o que a regra proibia. Abriu um olho.
Viu Iktomi com um pato pendurado na mão e uma pilha de aves aos pés dele.
O grito
“Iktomi está matando a gente! Fujam!”, gritou o pato pequeno.
Os outros abriram os olhos de uma vez. Saíram batendo asas contra a parede de capim, acharam a porta e voaram para o lago, grasnando e espalhando água.
O pato pequeno saiu por último. Ficou com os olhos vermelhos, como Iktomi tinha avisado, mas saiu vivo, e com ele o resto do bando.
O jantar perdido
Iktomi ficou com os patos que já tinha pegado. Acendeu uma fogueira, enterrou as aves nas cinzas quentes para assar e sentou-se para esperar.
Perto dali, duas árvores tinham crescido encostadas. Com o vento, os galhos se esfregavam e rangiam.
O rangido incomodou Iktomi. Ele subiu na árvore para separar os galhos, e a mão dele ficou presa entre os dois troncos.
Lá de cima, viu passar um bando de lobos e gritou para eles não chegarem perto da fogueira. Foi o grito que levou os lobos até ela.
Os lobos cavaram as cinzas e comeram os patos assados, um por um, diante dele. Quando o vento parou e a mão soltou, sobravam só os ossos.
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II A Origem Pássaro Vermelho
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Zitkala-Sa nasceu Gertrude Simmons em 1876, na reserva Yankton, no território de Dakota, filha de mãe dacota da nação Yankton.
O nome que ela escolheu para assinar os livros quer dizer Pássaro Vermelho, na língua lacota.
Aos 8 anos, em 1884, missionários quacres a levaram para o White's Manual Labor Institute (Instituto de Trabalhos Manuais White), um internato em Wabash, no estado de Indiana. Ali cortaram o cabelo dela e proibiram a língua da mãe.
Ela estudou depois no Earlham College, ganhou prêmio de oratória e foi dar aula na Carlisle Indian Industrial School, na Pensilvânia, a escola criada para apagar a cultura dos alunos indígenas.
Em 1900, ela publicou na revista Atlantic Monthly três textos sobre a infância na reserva e os anos de internato, contando em primeira pessoa o dia em que cortaram o cabelo dela.
O livro de 1901
Old Indian Legends saiu em Boston, pela editora Ginn and Company. Reúne lendas que ela ouviu na infância, contadas pelos velhos da reserva, várias delas com Iktomi no centro.
Ela voltou à reserva para ouvir as histórias de novo e as escreveu em inglês, para leitores brancos e indígenas. As ilustrações são de Angel De Cora, artista do povo ho-chunk, que estudou no Smith College, em Massachusetts, e anos depois ensinou arte indígena em Carlisle.
No prefácio, ela diz para quem o livro foi feito:
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“As velhas lendas da América pertencem tanto ao pequeno patriota de olhos azuis quanto ao aborígine de cabelo preto.”
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Zitkala-Sa, Old Indian Legends (Velhas Lendas Indígenas), 1901.
A aranha das planícies
Iktomi não nasceu com ela. A aranha enganadora aparece nas histórias dos povos de língua siouan (a família de línguas de lacotas, dacotas e nacotas) muito antes do livro.
Em algumas versões lacotas, ele foi um sábio que perdeu o posto por usar a esperteza contra os outros. Nos contos de Zitkala-Sa, é sobretudo faminto: quase toda história dele começa com fome e acaba com ele sem comida.
Depois do livro
Zitkala-Sa não parou nas lendas. Em 1913 escreveu com o compositor William F. Hanson The Sun Dance Opera (A Ópera da Dança do Sol), e em 1926 fundou o National Council of American Indians (Conselho Nacional dos Índios Americanos) para lutar pelo voto e pelas terras dos povos nativos.
Ela morreu em 1938, em Washington, e está enterrada no Cemitério Nacional de Arlington.
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