|
|
|
{{saudacao | Bom te ver por aqui.}} {{saudacao_nome | }}
|
|
|
A edição de hoje foi escolhida pela maioria dos leitores na votação de ontem.
|
| {{subiu_orn | }} |
{{subiu_num | }} |
{{subiu_orn | }} |
{{subiu_caps | }}
{{subiu_linha | }}
|
|
4 viajantes brigam pela mesma uva
No Masnavi de Rumi, um persa, um árabe, um turco e um grego ganham uma moeda e brigam pela fruta, cada um no seu idioma.
|
O cacho de uva no meio dos quatro viajantes
|
| ▼ |
| |
|
“Angur, angur!”, gritou o viajante persa no meio do mercado, sacudindo a moeda de prata que um estranho tinha acabado de dar aos quatro companheiros.
Angur quer dizer uva, em persa. Os outros três não sabiam.
Os quatro andavam juntos fazia dias pela mesma estrada poeirenta. Um era persa, outro árabe, outro turco e o último grego. Dividiam o pão, o poço e o cansaço, e se entendiam por gestos.
Naquela manhã, um homem de passagem viu os quatro sentados na sombra e teve pena. Tirou do cinto um dirham (a moeda de prata da época) e deixou na mão deles.
Uma moeda para quatro bocas. Era pouco, e todos sabiam.
O persa falou primeiro, e falou alto. Queria angur.
O árabe franziu a testa e empurrou a mão do companheiro. Nada de angur, disse ele. Com aquela moeda iam comprar inab, a palavra árabe para uva.
O turco se levantou de um salto. Nem angur nem inab. Ele queria üzüm, uva na língua dele, e repetia a palavra batendo no peito.
O grego, o mais calado dos quatro, cruzou os braços. Para ele, a única compra decente era stafil, uva em grego.
Ninguém entendia a palavra do outro. Cada um ouvia três nomes estranhos e achava que os companheiros queriam gastar a moeda em bobagem.
A voz subiu. Alguém puxou a manga de alguém. O árabe chamou o persa de teimoso, o turco chamou o grego de avarento, e a sombra da árvore virou praça de briga.
Em volta, os vendedores pararam de apregoar para assistir. Uma banca de frutas ficava a poucos passos, cheia de cachos maduros, e nenhum dos quatro olhou para ela.
A moeda continuava fechada na mão do persa, quente de tanto ser apertada.
Quem desfez a briga, e como uma banca de frutas calou quatro gargantas de uma vez, está na primeira faixa. Depois vem o poeta que contou a história e o livro de onde ela saiu. Por último, o que ela ensina sobre brigar por palavra.
Continue lendo ↓
|
|
|
|
I A Fábula do Dia
A banca de frutas
|
A resposta de ontem Qual bicho venceu Sang Kancil numa corrida com uma fila? Foi o caracol. No conto malaio Sang Kancil dan Siput, o cervo-rato zomba da lentidão de um caracol e aposta corrida pela margem do rio. Os caracóis se espalham em fila ao longo da água, e a cada chamado do Kancil um deles responde lá na frente, até o cervo desabar de cansaço e perder a aposta. |
A história dos quatro viajantes está no livro II do Masnavi, o grande poema místico que o persa Jalal al-Din Rumi ditou no século XIII, e o desenlace começa com um estranho que conhecia muitas línguas.
Ele vinha andando pelo mercado e parou ao ouvir a gritaria. Escutou angur, inab, üzüm e stafil, e entendeu na hora o que os quatro não entendiam.
No poema, Rumi o descreve como um homem de muitos idiomas, um sábio capaz de dar o nome de cada fruta em várias bocas.
Ele se aproximou devagar e levantou a mão. Pediu a moeda.
O persa hesitou. Os outros três protestaram. Entregar o dinheiro a um desconhecido parecia a pior ideia possível no meio daquela briga.
O sábio insistiu com calma. Prometeu que, com aquela única moeda, daria a cada um exatamente o que pedia. Os quatro ao mesmo tempo, sem sobrar ninguém.
A promessa soou absurda, e talvez por esse motivo funcionou. Cada um imaginou que o estranho estava do seu lado. O persa abriu a mão.
Um cacho no chão
O sábio andou até a banca de frutas, a poucos passos da árvore. Trocou a moeda por um cacho grande de uva madura e voltou.
Pôs o cacho no chão, no meio dos quatro, e esperou.
O persa olhou e disse angur. O árabe disse inab. O turco disse üzüm. O grego disse stafil.
Falaram ao mesmo tempo, e cada um percebeu os outros três apontando a mesma fruta, cada qual com o seu som.
O silêncio veio depressa. Os punhos abriram. O árabe riu primeiro, depois o turco, e o persa ficou vermelho de vergonha.
A briga inteira tinha sido por um cacho de uva só. Quatro homens queriam a mesma fruta e quase saíram no tapa por causa dela.
O que o sábio disse
No poema, o sábio não faz discurso longo. Ele diz que a moeda de um só compra o desejo dos quatro, e que a briga deles era de nomes, nunca de vontade.
Rumi usa a cena para falar da língua. Quem não conhece a palavra do outro acha que o outro quer outra fruta. Ouve o som estranho e imagina um inimigo.
O poeta também guarda uma ponta de ironia para os quatro. Eles dividiam a estrada, o pão e o poço havia dias, e só brigaram quando ganharam um presente.
O cacho foi dividido ali mesmo, na sombra da árvore. Cada um comeu a sua parte, e ninguém lembrou de perguntar qual nome era o certo.
|
|
|
|
|
II A Origem O livro ditado em Konya
|
|
Jalal al-Din Muhammad Rumi nasceu em 1207 em Balkh, no atual Afeganistão, filho do pregador e professor de teologia Baha al-Din Walad.
Ainda menino, ele saiu de casa com a família. Por volta de 1219, o pai deixou Balkh, e todos atravessaram meio mundo islâmico, de Bagdá a Meca e da Síria à Anatólia, a península da atual Turquia.
A família se fixou em Konya, capital do sultanato seljúcida de Rum (o reino turco que ocupava as antigas terras de Roma na Anatólia). Do nome da região veio o apelido Rumi, o homem de Rum.
Lá ele virou professor, pregador e jurista. Em 1244, a chegada a Konya de um dervixe errante (monge sufi andarilho) mudou o rumo da vida dele, e Rumi trocou o púlpito pela poesia, pela música e pela dança.
Um discípulo com a pena
O Masnavi nasceu de um pedido. Um discípulo próximo, Husam al-Din Chalabi, sugeriu ao mestre um livro de ensino em versos para os seguidores do sufismo, a corrente mística do islã.
Rumi começou por volta de 1258 e ditou pelo resto da vida. Husam anotava e lia os versos de volta. O trabalho parou por dois anos, quando Husam perdeu a esposa, e recomeçou depois.
O resultado são seis livros e cerca de 25 mil dísticos (pares de versos rimados). Masnavi é o nome persa dessa forma: poema em dísticos com rima própria em cada par.
O título completo, Masnavi-ye Ma'navi, quer dizer dísticos espirituais. Os leitores persas o apelidaram de Corão em língua persa.
O livro mistura fábula, piada, conversa de mercado e comentário religioso. Uma história puxa outra, e Rumi abandona um enredo no meio para voltar a ele páginas depois.
|
“Escuta a flauta de junco, como ela conta a sua história e se queixa das separações.”
|
Jalal al-Din Rumi, Masnavi, livro I, verso de abertura, por volta de 1258.
Um mercado de quatro línguas
Os quatro viajantes não saíram do nada. Na Anatólia de Rumi, o persa era a língua da corte e da poesia, o árabe a da religião, o turco a dos soldados e pastores, e o grego a dos antigos moradores bizantinos.
Num mercado de Konya, dava para ouvir as quatro na mesma manhã. Rumi escreveu quase tudo em persa, mas deixou versos em árabe e algumas linhas em turco e em grego.
Ele morreu em 17 de dezembro de 1273, em Konya. Cristãos, judeus e muçulmanos acompanharam o enterro, e seus seguidores fundaram a ordem Mevlevi, a dos dervixes rodopiantes, ainda viva na Turquia.
|
| |
|