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ED 062
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A agulha torta que se dizia broche de brilhante

No conto de Andersen, a agulha de cerzir entorta num chinelo, cai na sarjeta e segue jurando que nasceu para joia.

Uma agulha de costura torta, com a cabeça de lacre vermelho, caída na água suja de uma sarjeta de pedra, ao lado de um caco de garrafa que brilha.

A agulha de cerzir na sarjeta, ao lado de um caco

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“Cuidado com o que vocês seguram! Se eu cair no chão, ninguém me acha nunca mais, de tão fina que sou”, disse a agulha de cerzir aos cinco dedos da cozinheira, na mesa da cozinha.

Os dedos não responderam. Estavam ocupados em segurar a agulha.

Agulha de cerzir é a mais grossa da caixa de costura. Serve para cerzir, que é tapar o furo de uma meia ou de um pano com pontos cruzados, um por cima do outro, até o buraco sumir.

Ninguém borda com ela. Ninguém a guarda em estojo de veludo. Ela mora espetada num carretel, ao lado do dedal.

A agulha deste conto pensava diferente. Achava que tinha nascido para a seda, para o bordado de festa, para a mão de uma dama. A cozinha era um engano que um dia ia ser corrigido.

Os dedos tinham apelido, como nas brincadeiras de criança dinamarquesas: Pequeno Polegar, Lambe-Panela, Pai Comprido, o do anel e o Pedrinho Rabequista, o menorzinho.

A agulha falava com todos eles de cima para baixo.

Naquela manhã, a cozinheira pegou o chinelo de couro velho, com a sola descolada, e decidiu costurar a ponta com a agulha mais grossa que tinha.

O couro era duro. A agulha entrou, empacou, entrou de novo.

Ela reclamou. Disse que era fina demais para aquele serviço, que ia quebrar.

Ninguém a ouviu. Os dedos empurraram com força.

A história foi escrita em dinamarquês por Hans Christian Andersen, filho de um sapateiro, e saiu em Copenhague em dezembro de 1845. Tem poucas páginas e nenhuma moral escrita no final.

Adiante, a viagem da agulha do chinelo até a sarjeta, e a conversa que ela teve lá embaixo com um caco de garrafa. Em seguida, o menino pobre de Odense que escreveu o conto e o motivo de ele conhecer tão bem um chinelo remendado. Por fim, o que a fábula mostra sobre quem conta a própria história em voz de vitrine.

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I  A Fábula do Dia

Do chinelo à sarjeta

A Agulha de Cerzir (em dinamarquês, Stoppenaalen), conto de Hans Christian Andersen, acompanha uma agulha que perde tudo e não perde a pose.

O couro do chinelo venceu. A agulha estalou e partiu bem no olho, o furo por onde passa a linha.

“Eu não disse? Sou fina demais”, falou ela, quebrada.

A cozinheira não jogou a agulha fora. Pingou uma gota de lacre (a cera vermelha de fechar cartas) na ponta quebrada e espetou a agulha no lenço que trazia cruzado no peito.

A agulha ficou radiante. Sem o olho, não costurava mais. Com a cabeça de lacre, se achava um broche.

Sob o peito da cozinheira

Ali, perto do lenço, ela se sentia em casa. Dizia que sempre soube que tinha nascido para joia, e não para remendo, e que agora o mundo reconhecia.

Ficou tão reta e tão orgulhosa que a cozinheira, ao se debruçar na pia para lavar a louça, nem sentiu quando ela escorregou.

A agulha caiu na água da pia, desceu pelo cano e foi parar na sarjeta da rua.

A conversa com o caco

Na sarjeta, a correnteza da água suja arrastava palha, gravetos e pedaços de jornal. A agulha ficou presa entre as pedras e olhava tudo passar.

Achou os gravetos vulgares. Disse que eles não pensavam em nada além de si mesmos.

Ao lado dela parou um caco de garrafa que brilhava ao sol. A agulha concluiu na hora que era um diamante e foi conversar com ele, de igual para igual.

Apresentou-se como broche. Contou que tinha vivido no peito de uma dama e que só estava ali por um acidente.

O caco ouvia e brilhava. A agulha falou da caixa de costura de onde vinha, das irmãs dela, todas finas, todas um pouco esnobes, que nunca a entenderam.

Quando a água subiu, o caco foi levado embora. A agulha ficou.

Os meninos e a casca de ovo

Dias depois, meninos da rua vasculharam a sarjeta atrás de pregos e moedas. Um deles espetou o dedo na agulha.

Pegou-a e a enfiou numa casca de ovo vazia que boiava ali. A agulha, de pé no meio da casca, se achou num barco de cerimônia e comentou que ficava bem contra o branco.

Uma carroça passou por cima da casca. A casca se esmigalhou.

A agulha não quebrou. Ficou estirada na lama, comprida, e continuou se achando fina.

 
 

II  A Origem

O filho do sapateiro de Odense

Andersen cresceu num quarto só, com um sapateiro e uma lavadeira, e conhecia por dentro o chinelo que a agulha despreza.

Hans Christian Andersen nasceu em 2 de abril de 1805 em Odense, cidade da ilha de Fiônia, na Dinamarca. O pai, Hans Andersen, era sapateiro. A mãe, Anne Marie Andersdatter, lavava roupa para fora.

A família vivia num cômodo onde cabiam a mesa de trabalho do sapateiro, a cama e um teatrinho de bonecos que o pai fazia para o filho.

O pai morreu em 1816, quando o menino tinha 11 anos. A mãe seguiu lavando roupa no rio, com água pela cintura, até a saúde ceder.

A viagem para a capital

Em 1819, aos 14 anos, Andersen foi sozinho para Copenhague. Queria ser cantor, bailarino ou ator. Bateu na porta do Teatro Real e foi recusado várias vezes.

Era alto, magro e desajeitado. Os colegas riam do jeito dele. Só conseguiu estudar porque o diretor de teatro Jonas Collin pagou a escola em Slagelse, onde o rapaz, mais velho que os colegas de sala, sofreu nas mãos do reitor Simon Meisling.

Andersen passou a vida inteira entre dois mundos: a cozinha de onde veio e os salões aonde chegou. Jantou com reis da Dinamarca, conheceu Charles Dickens na Inglaterra e nunca deixou de se sentir julgado.

O conto de 1845

A Agulha de Cerzir saiu em 21 de dezembro de 1845, na série Nye Eventyr (Contos Novos), publicada pelo editor C. A. Reitzel em Copenhague. Andersen tinha 40 anos e já era conhecido na Europa.

O conto não vem de fábula antiga, nem de lenda popular. É invenção dele, no mesmo molde de outros contos de objetos falantes, como O Soldadinho de Chumbo, de 1838.

O soldadinho também cai na sarjeta, também viaja num barco improvisado pela água da rua. A diferença está no caráter: ele aguenta tudo calado e firme, e a agulha atravessa a mesma viagem falando sem parar de si.

Os apelidos dos dedos, Tommeltot, Slikkepot, Langemand, Guldbrand e Peer Spillemand, vêm de uma rima infantil dinamarquesa que as mães recitavam contando os dedos da criança.

“Mit Liv er et smukt Eventyr, saa rigt og lykkeligt!”

Hans Christian Andersen, Mit Livs Eventyr (O Conto da Minha Vida), autobiografia, 1855: “A minha vida é um conto bonito, tão rico e tão feliz!”

Muitos leitores veem na agulha um retrato de gente que Andersen encontrou nos salões, e alguns veem um retrato dele próprio, o menino pobre que contava a própria vida como conto de fadas. O autor nunca disse qual das duas leituras queria.

 

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III  A Lição que Fica

A pose que sobrevive a tudo

A agulha perde a ponta, o furo, o lugar no peito da cozinheira, o caco que achou ser diamante e a casca que achou ser barco. A pose não perde nunca.

Andersen não castiga a personagem. Ninguém a corrige, ninguém ri dela na cara, nenhum narrador chega para explicar. Ela simplesmente fica na lama, convencida.

O conto mostra o custo de outro jeito. A agulha nunca mais costura. Para ser broche, ela abriu mão do único serviço que sabia fazer bem.

Quem só aceita a versão de vitrine da própria vida não aprende nada com a queda.

A agulha também nunca escuta. Fala com os dedos, com os gravetos, com o caco, e em nenhuma dessas conversas faz uma pergunta. O caco de garrafa podia ter dito o que era. Ela não deu chance.

Na escola, a cena aparece na criança que tirou nota baixa e explica para os colegas que a prova estava errada. Em casa, no adolescente que larga o violão na segunda semana dizendo que o professor não estava à altura dele.

No trabalho, aparece no colega que foi tirado do projeto e conta no almoço que pediu para sair. A história fica melhor, e ele nunca descobre o que deu errado.

A agulha de cerzir tinha uma tarefa que nenhuma agulha fina fazia: atravessar couro. Era grossa por um motivo.

O chinelo da cozinheira, aliás, ficou remendado. A ponta que a agulha costurou antes de quebrar segurou a sola. O último trabalho dela deu certo, e ela foi a única que não reparou, ocupada demais em virar broche.

Andersen deixa o leitor ver o que a personagem não vê. O narrador repete as falas dela sem comentar, e a distância entre o que ela diz e o que acontece faz todo o trabalho.

Ler o conto com uma criança é treinar a diferença entre o que a gente é e o que a gente diz que é.

Antes de ler: pergunte à criança para que serve uma agulha grossa e para que serve uma fina.

Quando a agulha quebra: pergunte se ela ainda serve para costurar, e por que ficou feliz mesmo assim.

Na conversa com o caco: pergunte se o caco era diamante e por que a agulha não perguntou a ele.

Quando a carroça passa: pergunte o que a agulha podia ter aprendido em toda a viagem.

“Que queda sua você já contou para os outros como se fosse promoção?”

E ali ela ficou.

 
 
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