|
|
|
{{saudacao | Bom te ver por aqui.}} {{saudacao_nome | }}
|
|
|
A edição de hoje foi escolhida pela maioria dos leitores na votação de ontem.
|
| {{subiu_orn | }} |
{{subiu_num | }} |
{{subiu_orn | }} |
{{subiu_caps | }}
{{subiu_linha | }}
|
|
A agulha torta que se dizia broche de brilhante
No conto de Andersen, a agulha de cerzir entorta num chinelo, cai na sarjeta e segue jurando que nasceu para joia.
|
A agulha de cerzir na sarjeta, ao lado de um caco
|
| ▼ |
| |
|
“Cuidado com o que vocês seguram! Se eu cair no chão, ninguém me acha nunca mais, de tão fina que sou”, disse a agulha de cerzir aos cinco dedos da cozinheira, na mesa da cozinha.
Os dedos não responderam. Estavam ocupados em segurar a agulha.
Agulha de cerzir é a mais grossa da caixa de costura. Serve para cerzir, que é tapar o furo de uma meia ou de um pano com pontos cruzados, um por cima do outro, até o buraco sumir.
Ninguém borda com ela. Ninguém a guarda em estojo de veludo. Ela mora espetada num carretel, ao lado do dedal.
A agulha deste conto pensava diferente. Achava que tinha nascido para a seda, para o bordado de festa, para a mão de uma dama. A cozinha era um engano que um dia ia ser corrigido.
Os dedos tinham apelido, como nas brincadeiras de criança dinamarquesas: Pequeno Polegar, Lambe-Panela, Pai Comprido, o do anel e o Pedrinho Rabequista, o menorzinho.
A agulha falava com todos eles de cima para baixo.
Naquela manhã, a cozinheira pegou o chinelo de couro velho, com a sola descolada, e decidiu costurar a ponta com a agulha mais grossa que tinha.
O couro era duro. A agulha entrou, empacou, entrou de novo.
Ela reclamou. Disse que era fina demais para aquele serviço, que ia quebrar.
Ninguém a ouviu. Os dedos empurraram com força.
A história foi escrita em dinamarquês por Hans Christian Andersen, filho de um sapateiro, e saiu em Copenhague em dezembro de 1845. Tem poucas páginas e nenhuma moral escrita no final.
Adiante, a viagem da agulha do chinelo até a sarjeta, e a conversa que ela teve lá embaixo com um caco de garrafa. Em seguida, o menino pobre de Odense que escreveu o conto e o motivo de ele conhecer tão bem um chinelo remendado. Por fim, o que a fábula mostra sobre quem conta a própria história em voz de vitrine.
Continue lendo ↓
|
|
|
|
I A Fábula do Dia
Do chinelo à sarjeta
|
|
A Agulha de Cerzir (em dinamarquês, Stoppenaalen), conto de Hans Christian Andersen, acompanha uma agulha que perde tudo e não perde a pose.
O couro do chinelo venceu. A agulha estalou e partiu bem no olho, o furo por onde passa a linha.
“Eu não disse? Sou fina demais”, falou ela, quebrada.
A cozinheira não jogou a agulha fora. Pingou uma gota de lacre (a cera vermelha de fechar cartas) na ponta quebrada e espetou a agulha no lenço que trazia cruzado no peito.
A agulha ficou radiante. Sem o olho, não costurava mais. Com a cabeça de lacre, se achava um broche.
Sob o peito da cozinheira
Ali, perto do lenço, ela se sentia em casa. Dizia que sempre soube que tinha nascido para joia, e não para remendo, e que agora o mundo reconhecia.
Ficou tão reta e tão orgulhosa que a cozinheira, ao se debruçar na pia para lavar a louça, nem sentiu quando ela escorregou.
A agulha caiu na água da pia, desceu pelo cano e foi parar na sarjeta da rua.
A conversa com o caco
Na sarjeta, a correnteza da água suja arrastava palha, gravetos e pedaços de jornal. A agulha ficou presa entre as pedras e olhava tudo passar.
Achou os gravetos vulgares. Disse que eles não pensavam em nada além de si mesmos.
Ao lado dela parou um caco de garrafa que brilhava ao sol. A agulha concluiu na hora que era um diamante e foi conversar com ele, de igual para igual.
Apresentou-se como broche. Contou que tinha vivido no peito de uma dama e que só estava ali por um acidente.
O caco ouvia e brilhava. A agulha falou da caixa de costura de onde vinha, das irmãs dela, todas finas, todas um pouco esnobes, que nunca a entenderam.
Quando a água subiu, o caco foi levado embora. A agulha ficou.
Os meninos e a casca de ovo
Dias depois, meninos da rua vasculharam a sarjeta atrás de pregos e moedas. Um deles espetou o dedo na agulha.
Pegou-a e a enfiou numa casca de ovo vazia que boiava ali. A agulha, de pé no meio da casca, se achou num barco de cerimônia e comentou que ficava bem contra o branco.
Uma carroça passou por cima da casca. A casca se esmigalhou.
A agulha não quebrou. Ficou estirada na lama, comprida, e continuou se achando fina.
|
|
|
|
|
II A Origem
O filho do sapateiro de Odense
|
|
Andersen cresceu num quarto só, com um sapateiro e uma lavadeira, e conhecia por dentro o chinelo que a agulha despreza.
|
Hans Christian Andersen nasceu em 2 de abril de 1805 em Odense, cidade da ilha de Fiônia, na Dinamarca. O pai, Hans Andersen, era sapateiro. A mãe, Anne Marie Andersdatter, lavava roupa para fora.
A família vivia num cômodo onde cabiam a mesa de trabalho do sapateiro, a cama e um teatrinho de bonecos que o pai fazia para o filho.
O pai morreu em 1816, quando o menino tinha 11 anos. A mãe seguiu lavando roupa no rio, com água pela cintura, até a saúde ceder.
A viagem para a capital
Em 1819, aos 14 anos, Andersen foi sozinho para Copenhague. Queria ser cantor, bailarino ou ator. Bateu na porta do Teatro Real e foi recusado várias vezes.
Era alto, magro e desajeitado. Os colegas riam do jeito dele. Só conseguiu estudar porque o diretor de teatro Jonas Collin pagou a escola em Slagelse, onde o rapaz, mais velho que os colegas de sala, sofreu nas mãos do reitor Simon Meisling.
Andersen passou a vida inteira entre dois mundos: a cozinha de onde veio e os salões aonde chegou. Jantou com reis da Dinamarca, conheceu Charles Dickens na Inglaterra e nunca deixou de se sentir julgado.
O conto de 1845
A Agulha de Cerzir saiu em 21 de dezembro de 1845, na série Nye Eventyr (Contos Novos), publicada pelo editor C. A. Reitzel em Copenhague. Andersen tinha 40 anos e já era conhecido na Europa.
O conto não vem de fábula antiga, nem de lenda popular. É invenção dele, no mesmo molde de outros contos de objetos falantes, como O Soldadinho de Chumbo, de 1838.
O soldadinho também cai na sarjeta, também viaja num barco improvisado pela água da rua. A diferença está no caráter: ele aguenta tudo calado e firme, e a agulha atravessa a mesma viagem falando sem parar de si.
Os apelidos dos dedos, Tommeltot, Slikkepot, Langemand, Guldbrand e Peer Spillemand, vêm de uma rima infantil dinamarquesa que as mães recitavam contando os dedos da criança.
|
“Mit Liv er et smukt Eventyr, saa rigt og lykkeligt!”
|
Hans Christian Andersen, Mit Livs Eventyr (O Conto da Minha Vida), autobiografia, 1855: “A minha vida é um conto bonito, tão rico e tão feliz!”
Muitos leitores veem na agulha um retrato de gente que Andersen encontrou nos salões, e alguns veem um retrato dele próprio, o menino pobre que contava a própria vida como conto de fadas. O autor nunca disse qual das duas leituras queria.
|
| |
|