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ED 064
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A andorinha que voltou com uma semente de cabaça

No conto coreano, Heungbu cura a perna de uma andorinha caída, e Nolbu, o irmão rico, quebra a de outra para receber a mesma recompensa.

Um homem de roupa simples amarra com linha a perna de um filhote de andorinha na palma da mão, sob o beiral de palha de uma choupana coreana.

Heungbu amarra a perna da andorinha caída

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“Irmão, me dá só um punhado de arroz”, pediu Heungbu na porta da cozinha de Nolbu, numa aldeia do sul da Coreia, com os filhos esperando na estrada.

Quem atendeu foi a cunhada. Ela segurava a pá de madeira de servir arroz, ainda quente da panela.

Não deu arroz. Deu com a pá no rosto dele.

Heungbu sentiu os grãos grudados na bochecha. Raspou com os dedos, comeu, e pediu que ela batesse também na outra bochecha, que ainda estava sem arroz.

A cena está entre as mais conhecidas do conto. O riso que ela arranca das plateias coreanas vem da resposta: um homem com tanta fome que agradece o golpe pelo que ficou grudado.

Os dois eram filhos do mesmo pai. Quando o pai se foi, Nolbu, o mais velho, ficou com a casa, os arrozais e o celeiro, e expulsou o irmão mais novo com a mulher e as crianças.

Heungbu foi morar numa choupana de palha tão baixa que, deitado, ele punha os pés para fora da porta. Carregava lenha, batia o arroz dos vizinhos, levava recado. A comida nunca sobrava, e as crianças dividiam uma única coberta para dormir.

Nolbu tinha tudo e queria mais. O conto lista as maldades dele como quem faz inventário: pisava na plantação do vizinho, furava o pote do vendedor de molho e azedava casamento alheio com fofoca.

A história chegou até hoje pelo pansori (narrativa cantada, em que um cantor e um tocador de tambor contam a história inteira para a plateia) e pelo livro em prosa Heungbu-jeon (A história de Heungbu).

Adiante, a andorinha que caiu do ninho na choupana de Heungbu e o que ela trouxe na volta. Em seguida, de onde veio o conto, séculos antes dos cantores coreanos. Por fim, o que a perna quebrada de propósito ensina a quem lê com uma criança.

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I  A Fábula do Dia

As cabaças que Heungbu serrou no outono

Heungbu-jeon, o conto coreano dos irmãos Heungbu e Nolbu, gira em torno de duas andorinhas: a que caiu do ninho na casa do irmão pobre e a que foi derrubada na casa do rico.

Na primavera, um casal de andorinhas fez ninho debaixo do beiral de palha da choupana de Heungbu. As crianças contavam os filhotes todo dia.

Uma tarde, uma cobra subiu pela parede e atacou o ninho. Os filhotes se espalharam. Um deles caiu no chão do quintal e quebrou a perna.

Heungbu pegou o filhote na palma da mão. Não tinha remédio nem pano limpo. Amarrou a perna com linha e um pedaço de casca, e devolveu a ave ao ninho.

O filhote sarou. Cresceu, aprendeu a voar e, quando o frio chegou, partiu com as outras andorinhas para Gangnam (o sul distante, além do rio, como o conto chama a terra das aves).

Lá, conta o pansori, o rei das andorinhas ouviu a história da perna amarrada e mandou um presente.

Na primavera seguinte, a andorinha voltou ao mesmo beiral. Pousou diante de Heungbu e deixou cair do bico uma semente.

Era semente de bak (a cabaça coreana, fruto de casca dura que, seco, vira cuia e tigela). Heungbu plantou junto à parede.

A rama subiu pelo telhado. No outono, cobria a choupana inteira, com cabaças tão grandes que a palha rangia.

A família não tinha o que jantar. Heungbu e a mulher decidiram serrar uma cabaça, comer a polpa e vender a casca.

Serraram cantando, cada um numa ponta da serra.

A primeira cabaça se abriu e dela saíram arroz e moedas, que não acabavam por mais que se tirasse.

A segunda trouxe seda, roupas e joias.

Da terceira saíram carpinteiros, que ergueram ali mesmo uma casa de telhas, com celeiro e criados.

Heungbu ficou rico numa tarde.

A notícia chegou a Nolbu. Ele foi até a casa nova, ouviu a história e voltou para a própria com um plano.

Esperou a primavera. Quando as andorinhas fizeram ninho no beiral dele, subiu numa escada, pegou um filhote e quebrou a perna da ave com as mãos.

Depois amarrou a perna com linha, como tinha ouvido, e devolveu o filhote ao ninho.

A andorinha sarou, partiu para o sul e voltou na primavera com uma semente. Nolbu plantou e esperou o outono.

As cabaças dele cresceram tão grandes quanto as do irmão. Nolbu chamou serradores e mandou abrir a primeira.

Saiu dela um bando de músicos e mendigos, que cobraram pela apresentação e levaram dinheiro. Nolbu achou que era azar e mandou abrir outra.

Cada cabaça trouxe uma cobrança: credores, sacerdotes pedindo oferenda, gente exigindo dívida que ele nunca fez. Nolbu abria uma atrás da outra, certo de que o ouro estava na próxima.

Da última saíram dokkaebi (os duendes do folclore coreano, que andam de porrete na mão). Bateram nele, derrubaram a casa e soltaram uma enxurrada de lama e esterco sobre o que restava.

Nolbu perdeu a casa, os arrozais e o celeiro.

Heungbu recebeu o irmão, a cunhada e os sobrinhos na casa de telhas. O conto termina com Nolbu arrependido, sentado à mesa do irmão que ele expulsou.

 
 

II  A Origem

Dos irmãos de Silla aos cantores de Joseon

O conto que os coreanos conhecem pelo pansori tem um antepassado escrito na China do século 9, com dois irmãos do reino coreano de Silla, uma ave e um bando de duendes.

O registro mais antigo está no Youyang Zazu (Miscelânea de Youyang), coletânea de histórias estranhas que o letrado chinês Duan Chengshi compilou por volta de 860.

Ali aparece a história dos irmãos Bang-i, de Silla, reino que ocupou o sudeste da península coreana. O mais velho era pobre, e o mais novo, rico.

O mais novo deu ao irmão, de má vontade, sementes cozidas para que não brotassem. Uma brotou mesmo assim e deu uma espiga enorme. Um pássaro levou a espiga para a montanha.

O irmão pobre seguiu a ave e encontrou duendes com um porrete de ouro, que fazia aparecer tudo o que se pedia. Voltou rico.

O irmão rico tentou repetir a viagem. Os duendes o pegaram e esticaram o nariz dele até virar uma tromba.

Os estudiosos coreanos ligam os dois contos pela armação: um irmão bom, um irmão que copia, uma ave que leva ao prêmio e duendes que castigam a cópia.

O conto cantado

Na dinastia Joseon (que governou a Coreia de 1392 a 1910), a história ganhou a forma que dura até hoje: o Heungbu-ga (a canção de Heungbu), uma das peças do pansori.

Num pansori, um único cantor fica de pé, com um leque na mão, e conta a história inteira cantando, falando e encenando. Ao lado, um tocador de buk (o tambor de barril) marca o ritmo e grita incentivos.

Uma apresentação completa do Heungbu-ga dura horas. A cena da cunhada com a pá de arroz e a cena da serra são as que a plateia espera.

Das peças que o pansori já teve, só cinco chegaram até hoje com a música inteira. O Heungbu-ga é uma delas, ao lado das histórias de Chunhyang, de Simcheong, do coelho no palácio do dragão e da batalha dos Penhascos Vermelhos.

No século 19, o letrado Shin Jae-hyo, de Gochang, reuniu e reescreveu os textos de seis pansori, entre eles o de Heungbu. Quem criou o conto, ninguém sabe: as versões nasceram na boca dos cantores, e nenhum autor assinou.

A herança do mais velho

A abertura, com Nolbu ficando com tudo, tinha lastro na vida real. Nos séculos finais de Joseon, a herança foi se concentrando no filho mais velho, encarregado dos ritos aos antepassados.

O irmão mais novo dependia da boa vontade do primogênito. A plateia do pansori conhecia esse arranjo de perto, e ria de Nolbu porque reconhecia nele um vizinho.

A Coreia do Sul declarou o pansori patrimônio imaterial nacional em 1964. Em 2003, a UNESCO o proclamou Obra-Prima do Patrimônio Oral e Imaterial da Humanidade.

 

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III  A Lição que Fica

A perna que Nolbu quebrou com as mãos

Heungbu não amarrou a perna da andorinha para ganhar nada. Não sabia de rei das andorinhas, de semente nem de sul distante. Viu um bicho caído e fez o que pôde com linha e casca.

Nolbu repetiu os gestos na mesma ordem: subiu ao ninho, amarrou a perna, devolveu a ave. Só acrescentou um passo no começo, o de quebrar a perna.

A andorinha devolveu a cada irmão o que ele pôs na perna dela.

O conto dá a Nolbu várias chances de parar. Cada cabaça aberta era uma conta chegando, e ele mandava serrar a seguinte, certo de que a sorte viraria.

O desfecho também pesa. Heungbu abre a porta da casa nova ao irmão que o expulsou. O pansori não castiga Nolbu até o fim: deixa que ele se arrependa à mesa de quem ele humilhou.

Em casa, a cena aparece na criança que ajuda o colega só quando a professora está olhando. Ou no irmão que devolve o brinquedo emprestado porque sabe que vai ganhar figurinha.

No trabalho, aparece em quem cria o problema para ser visto resolvendo. O gerente que deixa o prazo apertar para salvar o projeto na véspera faz a conta de Nolbu.

Ler o conto com uma criança é mostrar a diferença entre cuidar e encenar cuidado.

Antes de ler: pergunte à criança o que ela faria com um passarinho caído no quintal.

Na pá de arroz: pare e pergunte por que Heungbu pediu outro golpe.

Na escada de Nolbu: pergunte o que muda quando alguém quebra a perna para depois consertar.

Na última cabaça: pergunte por que Heungbu recebeu o irmão em casa.

“Qual perna você já quebrou só para ser visto amarrando?”

A casa de telhas abrigou as duas famílias.

 
 

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