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ED 070
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A corda cortada que derrubou o zorro do céu

No conto aimará do altiplano, o zorro sobe ao banquete do céu, insulta os papagaios na descida e cai sobre a terra cheio de sementes.

Uma raposa andina pendurada numa corda de palha entre as nuvens, enquanto papagaios verdes bicam a ponta de cima, sobre o lago Titicaca.

O zorro pendurado na corda, os papagaios no alto

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“Segura firme e não olha pra baixo”, disse o condor ao zorro na beira do lago Titicaca, enquanto baixava das nuvens uma corda trançada de palha.

O zorro (a raposa andina, chamada qamaqi em aimará) tinha passado o inverno com fome. No altiplano, o planalto alto entre o Peru e a Bolívia, a geada queima a batata no chão e o capim seca cedo.

O condor contou que lá em cima haveria festa. Os bichos do céu iam servir quinua, milho e batata em panelas que nunca esvaziavam.

O zorro não pensou duas vezes. Agarrou a corda com os dentes e as patas e subiu, puxão por puxão, até sumir nas nuvens.

No céu, a mesa estava posta. Ele comeu sem parar. Encheu a barriga de grão cru, engoliu semente com casca, lambeu panela por panela até o fundo.

Quando a festa acabou, o condor já tinha ido embora. A corda continuava presa na beira do céu, e quem cuidava da ponta de cima eram os papagaios verdes, aves barulhentas dos vales quentes.

Os papagaios deixaram o zorro descer. Ele desceu devagar, pesado de tanta comida, a barriga balançando a cada palmo.

Na metade do caminho, viu os papagaios voando em volta e gritou para eles uma ofensa. Chamou todos de bico torto, de pena suja, de tagarelas sem juízo.

Os papagaios ouviram. Voltaram para o alto e roeram a corda.

A história é contada há gerações pelos aimarás, povo que vive em torno do Titicaca, e chegou ao papel pelas mãos de folcloristas do século 20. Há versões em quem leva o zorro para cima é o condor, outras em quem desce a corda é uma aranha. A corda cortada e a queda aparecem em quase todas.

Adiante, a queda do zorro e o que saiu da barriga dele. Em seguida, quem são os aimarás, por que a raposa é o trapaceiro dos Andes e como o conto explica a origem dos grãos do planalto. Por fim, o que acontece com quem ofende a mão que segura a corda.

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I  A Fábula do Dia

A corda roída sobre o altiplano

A resposta de ontem

Por que Afanássiev perdeu o emprego no arquivo em 1862?

Em 1862, a polícia revistou a casa de Aleksandr Afanássiev por suspeita de ligação com Aleksandr Herzen, o exilado que publicava em Londres o jornal Kolokol (O Sino). Nada de grave apareceu, mas ele perdeu o posto no arquivo, vendeu a biblioteca para sobreviver e terminou pobre, de tuberculose, em 1871.

O conto aimará do zorro e a corda, narrado nas aldeias do altiplano andino, termina numa queda: o bicho despenca do céu e semeia a terra com o que comeu no banquete.

O zorro sentiu a corda afrouxar. Olhou para cima e viu os papagaios bicando a palha, fio por fio.

Mudou de tom na hora. Pediu desculpa, disse que falou de brincadeira, prometeu trazer milho para eles todo ano.

Os papagaios não responderam. Continuaram roendo.

A corda arrebentou com um estalo seco. O zorro ficou um instante parado no ar, ainda segurando a ponta solta, e depois começou a cair.

Caiu por muito tempo. As versões contadas no planalto gostam de esticar esta parte: o bicho atravessa as nuvens, passa pelo voo dos condores, vê as montanhas crescerem embaixo dele.

Na queda, gritou para os bichos e para a gente lá embaixo. Pedia que estendessem uma manta, um poncho, um tapete de palha, qualquer pano macio onde ele pudesse cair.

Ninguém estendeu nada. Uns não ouviram. Outros ouviram e riram do zorro que voava de barriga para cima.

Nas versões mais longas, o zorro ainda tenta negociar com o vento, com as nuvens e com a própria pedra onde vai cair. Nenhum deles muda de lugar para ajudar.

Ele bateu numa pedra grande, na beira do lago.

A barriga, cheia demais, estourou com o tombo. De dentro dela saíram os grãos que ele tinha engolido no céu, ainda inteiros, com casca.

As sementes se espalharam pelo campo. A chuva veio, a terra molhou, e os grãos brotaram.

É por causa do zorro, dizem os narradores aimarás, que existe quinua no altiplano. Na mesma leva caiu a cañahua (grão miúdo, parente da quinua, que aguenta a geada), e em algumas versões também a batata e o feijão.

O banquete que era só do céu passou a crescer na terra dos homens.

Os papagaios não ganharam nada com a vingança. Ficaram lá em cima, sem corda e sem visita. Em certas versões, o condor volta para buscar o amigo e encontra só a pele estendida na pedra.

O zorro não voltou ao céu.

 
 

II  A Origem

O povo do lago e a raposa trapaceira

Os aimarás vivem há séculos em torno do Titicaca, e no folclore deles e dos vizinhos quíchuas a raposa é o bicho esperto que perde por gula ou por soberba.

O povo do lago

Os aimarás ocupam o planalto que se estende pelo oeste da Bolívia, pelo sul do Peru e pelo norte do Chile. A língua deles, o aimará, é uma das línguas oficiais da Bolívia pela Constituição boliviana de 2009.

Antes dos incas, o planalto já tinha cidades de pedra. Tiwanaku, perto da margem sul do Titicaca, foi o grande centro da região séculos antes de Cusco mandar nos Andes.

A vida aimará sempre dependeu do que nasce no frio. Batata, quinua e cañahua resistem onde o milho não vinga, e é por elas que o conto do zorro termina numa chuva de grãos.

A raposa nas crônicas

A raposa andina tem nome científico Lycalopex culpaeus, o culpeo, e ainda corre pelo planalto atrás de lebre e de galinha. Nos contos, ela faz o papel que o coiote faz na América do Norte: o trapaceiro (o personagem que engana e acaba enganado).

O registro escrito mais antigo da raposa andina falando está no Manuscrito de Huarochirí, texto em quíchua compilado no começo do século 17 sob a supervisão do padre espanhol Francisco de Ávila. Nele, duas raposas, uma vinda de cima e outra de baixo, conversam e revelam um segredo que muda o rumo da história.

O escritor peruano José María Arguedas traduziu o manuscrito para o espanhol em 1966, com o título Dioses y hombres de Huarochirí (deuses e homens de Huarochirí). Em 1971 saiu o último romance dele, El zorro de arriba y el zorro de abajo (o zorro de cima e o zorro de baixo), batizado pelas duas raposas do texto antigo.

Grãos caídos do céu

O conto da corda é um mito de origem: explica de onde vieram as plantas que alimentam o planalto. Em muitas versões, os grãos existiam só no céu, e a gula do zorro trouxe para baixo o que os deuses guardavam.

A quinua foi domesticada na bacia do Titicaca, e a Organização das Nações Unidas declarou 2013 o Ano Internacional da Quinua, citando o grão como herança dos povos andinos.

O zorro, nesse sentido, é ladrão e benfeitor no mesmo corpo. Roubou a comida do céu sem querer, e a terra ficou com ela.

O nome zorro, aliás, vem do espanhol e chegou aos Andes com os colonizadores. Nas aldeias, o bicho continua sendo qamaqi para quem fala aimará e atuq para quem fala quíchua.

O conto sobreviveu porque era contado nas noites de colheita, enquanto se debulhava o grão. Quem ouvia tinha nas mãos a prova da história: a mesma quinua que, segundo o narrador, caiu da barriga do zorro.

 

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III  A Lição que Fica

Quem segura a ponta de cima

O zorro subiu por uma corda que não era dele. O condor emprestou, os papagaios seguravam. A festa inteira dependia de quem estava na outra ponta.

Ele esqueceu desse detalhe assim que encheu a barriga. Saciado, achou que já não precisava de ninguém.

A ofensa saiu na pior hora possível. Pendurado entre o céu e o chão, ele insultou justamente quem decidia se ele chegava inteiro.

Quem ofende a mão que segura a corda cai antes de chegar ao chão.

O conto também não deixa o pedido de desculpa salvar o bicho. O zorro mudou de tom quando sentiu a corda afrouxar, e o arrependimento chegou tarde, com a palha já roída.

A cena aparece todo dia fora do altiplano. Na escola, no aluno que debocha do colega que empresta o caderno às vésperas da prova. No trabalho, no funcionário que trata mal a recepcionista que agenda as reuniões dele.

Em casa, aparece no filho que grita com o irmão mais velho enquanto o irmão segura a escada para ele pegar a bola no telhado.

O zorro tinha uma saída simples e não usou: ficar calado até pôr as patas no chão. Bastava agradecer na descida e guardar a opinião sobre os bicos tortos para depois.

O insulto também não trouxe ganho nenhum. O zorro não queria nada dos papagaios. Falou porque estava de barriga cheia e se sentiu grande.

A queda, porém, não termina em nada. Da barriga estourada saiu comida para um povo inteiro. Os aimarás contam o fim sem pena e sem castigo extra: o erro do zorro virou plantação.

Ler o conto com uma criança é treinar a lembrança de quem está segurando a outra ponta.

• Antes de ler: pergunte à criança quem a ajuda todo dia sem ela perceber.

• Na subida pela corda: pergunte quem segura a corda lá em cima.

• No insulto aos papagaios: pare e pergunte por que o zorro escolheu aquela hora para ofender.

• Na chuva de sementes: pergunte o que de bom nasceu do tombo.

“Quem está segurando a ponta de cima da sua corda hoje?”

A quinua brotou na beira do lago.

 
 
Quiz da edição

Quando o zorro bateu na pedra e a barriga estourou, o que saiu de dentro dela e se espalhou pelo campo?

ASó terra e pedras que ele tinha engolido por engano
BGrãos com casca, ainda inteiros, como quinua e cañahua
CÁgua do lago Titicaca que ele bebeu no banquete
DPenas dos papagaios arrancadas na queda

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