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A corda cortada que derrubou o zorro do céu
No conto aimará do altiplano, o zorro sobe ao banquete do céu, insulta os papagaios na descida e cai sobre a terra cheio de sementes.
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O zorro pendurado na corda, os papagaios no alto
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“Segura firme e não olha pra baixo”, disse o condor ao zorro na beira do lago Titicaca, enquanto baixava das nuvens uma corda trançada de palha.
O zorro (a raposa andina, chamada qamaqi em aimará) tinha passado o inverno com fome. No altiplano, o planalto alto entre o Peru e a Bolívia, a geada queima a batata no chão e o capim seca cedo.
O condor contou que lá em cima haveria festa. Os bichos do céu iam servir quinua, milho e batata em panelas que nunca esvaziavam.
O zorro não pensou duas vezes. Agarrou a corda com os dentes e as patas e subiu, puxão por puxão, até sumir nas nuvens.
No céu, a mesa estava posta. Ele comeu sem parar. Encheu a barriga de grão cru, engoliu semente com casca, lambeu panela por panela até o fundo.
Quando a festa acabou, o condor já tinha ido embora. A corda continuava presa na beira do céu, e quem cuidava da ponta de cima eram os papagaios verdes, aves barulhentas dos vales quentes.
Os papagaios deixaram o zorro descer. Ele desceu devagar, pesado de tanta comida, a barriga balançando a cada palmo.
Na metade do caminho, viu os papagaios voando em volta e gritou para eles uma ofensa. Chamou todos de bico torto, de pena suja, de tagarelas sem juízo.
Os papagaios ouviram. Voltaram para o alto e roeram a corda.
A história é contada há gerações pelos aimarás, povo que vive em torno do Titicaca, e chegou ao papel pelas mãos de folcloristas do século 20. Há versões em quem leva o zorro para cima é o condor, outras em quem desce a corda é uma aranha. A corda cortada e a queda aparecem em quase todas.
Adiante, a queda do zorro e o que saiu da barriga dele. Em seguida, quem são os aimarás, por que a raposa é o trapaceiro dos Andes e como o conto explica a origem dos grãos do planalto. Por fim, o que acontece com quem ofende a mão que segura a corda.
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I A Fábula do Dia
A corda roída sobre o altiplano
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A resposta de ontem Por que Afanássiev perdeu o emprego no arquivo em 1862? Em 1862, a polícia revistou a casa de Aleksandr Afanássiev por suspeita de ligação com Aleksandr Herzen, o exilado que publicava em Londres o jornal Kolokol (O Sino). Nada de grave apareceu, mas ele perdeu o posto no arquivo, vendeu a biblioteca para sobreviver e terminou pobre, de tuberculose, em 1871. |
O conto aimará do zorro e a corda, narrado nas aldeias do altiplano andino, termina numa queda: o bicho despenca do céu e semeia a terra com o que comeu no banquete.
O zorro sentiu a corda afrouxar. Olhou para cima e viu os papagaios bicando a palha, fio por fio.
Mudou de tom na hora. Pediu desculpa, disse que falou de brincadeira, prometeu trazer milho para eles todo ano.
Os papagaios não responderam. Continuaram roendo.
A corda arrebentou com um estalo seco. O zorro ficou um instante parado no ar, ainda segurando a ponta solta, e depois começou a cair.
Caiu por muito tempo. As versões contadas no planalto gostam de esticar esta parte: o bicho atravessa as nuvens, passa pelo voo dos condores, vê as montanhas crescerem embaixo dele.
Na queda, gritou para os bichos e para a gente lá embaixo. Pedia que estendessem uma manta, um poncho, um tapete de palha, qualquer pano macio onde ele pudesse cair.
Ninguém estendeu nada. Uns não ouviram. Outros ouviram e riram do zorro que voava de barriga para cima.
Nas versões mais longas, o zorro ainda tenta negociar com o vento, com as nuvens e com a própria pedra onde vai cair. Nenhum deles muda de lugar para ajudar.
Ele bateu numa pedra grande, na beira do lago.
A barriga, cheia demais, estourou com o tombo. De dentro dela saíram os grãos que ele tinha engolido no céu, ainda inteiros, com casca.
As sementes se espalharam pelo campo. A chuva veio, a terra molhou, e os grãos brotaram.
É por causa do zorro, dizem os narradores aimarás, que existe quinua no altiplano. Na mesma leva caiu a cañahua (grão miúdo, parente da quinua, que aguenta a geada), e em algumas versões também a batata e o feijão.
O banquete que era só do céu passou a crescer na terra dos homens.
Os papagaios não ganharam nada com a vingança. Ficaram lá em cima, sem corda e sem visita. Em certas versões, o condor volta para buscar o amigo e encontra só a pele estendida na pedra.
O zorro não voltou ao céu.
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II A Origem
O povo do lago e a raposa trapaceira
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Os aimarás vivem há séculos em torno do Titicaca, e no folclore deles e dos vizinhos quíchuas a raposa é o bicho esperto que perde por gula ou por soberba.
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O povo do lago
Os aimarás ocupam o planalto que se estende pelo oeste da Bolívia, pelo sul do Peru e pelo norte do Chile. A língua deles, o aimará, é uma das línguas oficiais da Bolívia pela Constituição boliviana de 2009.
Antes dos incas, o planalto já tinha cidades de pedra. Tiwanaku, perto da margem sul do Titicaca, foi o grande centro da região séculos antes de Cusco mandar nos Andes.
A vida aimará sempre dependeu do que nasce no frio. Batata, quinua e cañahua resistem onde o milho não vinga, e é por elas que o conto do zorro termina numa chuva de grãos.
A raposa nas crônicas
A raposa andina tem nome científico Lycalopex culpaeus, o culpeo, e ainda corre pelo planalto atrás de lebre e de galinha. Nos contos, ela faz o papel que o coiote faz na América do Norte: o trapaceiro (o personagem que engana e acaba enganado).
O registro escrito mais antigo da raposa andina falando está no Manuscrito de Huarochirí, texto em quíchua compilado no começo do século 17 sob a supervisão do padre espanhol Francisco de Ávila. Nele, duas raposas, uma vinda de cima e outra de baixo, conversam e revelam um segredo que muda o rumo da história.
O escritor peruano José María Arguedas traduziu o manuscrito para o espanhol em 1966, com o título Dioses y hombres de Huarochirí (deuses e homens de Huarochirí). Em 1971 saiu o último romance dele, El zorro de arriba y el zorro de abajo (o zorro de cima e o zorro de baixo), batizado pelas duas raposas do texto antigo.
Grãos caídos do céu
O conto da corda é um mito de origem: explica de onde vieram as plantas que alimentam o planalto. Em muitas versões, os grãos existiam só no céu, e a gula do zorro trouxe para baixo o que os deuses guardavam.
A quinua foi domesticada na bacia do Titicaca, e a Organização das Nações Unidas declarou 2013 o Ano Internacional da Quinua, citando o grão como herança dos povos andinos.
O zorro, nesse sentido, é ladrão e benfeitor no mesmo corpo. Roubou a comida do céu sem querer, e a terra ficou com ela.
O nome zorro, aliás, vem do espanhol e chegou aos Andes com os colonizadores. Nas aldeias, o bicho continua sendo qamaqi para quem fala aimará e atuq para quem fala quíchua.
O conto sobreviveu porque era contado nas noites de colheita, enquanto se debulhava o grão. Quem ouvia tinha nas mãos a prova da história: a mesma quinua que, segundo o narrador, caiu da barriga do zorro.
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