A resposta de ontem Em que cidade Câmara Cascudo escolheu viver a vida inteira? Em Natal, capital do Rio Grande do Norte. Luís da Câmara Cascudo nasceu na cidade em 1898 e morreu nela em 1986. Recusou convites para viver e lecionar fora, ganhou fama de provinciano por escolha e juntou ali a biblioteca que hoje o Ludovicus, Instituto Câmara Cascudo, guarda e abre a pesquisadores. |
Na noite combinada, Arha subiu o Sululta sozinho, tirou a roupa de frio e ficou de pé na pedra mais alta, voltado para o rochedo do outro lado do vale.
Haptom mandou dois criados junto, para vigiar a aposta. Eles se enrolaram nas mantas e ficaram mais abaixo, onde o vento batia menos.
O frio veio rápido. Primeiro nas mãos, depois nos pés, depois no peito.
Arha procurou o rochedo. Lá estava a fogueira de Hailu, um ponto vermelho no escuro, tão longe que parecia uma estrela caída.
Ele não tirou os olhos dela. Quando o vento apertava, Arha pensava no velho jogando lenha na chama. Quando as pernas tremiam, contava as horas até o sol.
A noite passou inteira assim. De madrugada, a fogueira ainda ardia.
Quando o dia clareou, Arha desceu duro de frio, mas vivo. Os dois vigias confirmaram: ele não tinha saído da pedra.
Foi direto à casa do patrão pedir a terra, a casa e o gado.
Haptom ouviu o relato e fez uma pergunta só. Durante a noite, Arha tinha visto algum fogo?
Arha não mentiu. Disse que sim, uma fogueira no rochedo do outro lado do vale.
Então você perdeu, respondeu Haptom. Quem passa a noite olhando para um fogo foi aquecido pelo fogo. A aposta dizia sem fogo.
Arha levou o caso a um juiz. O juiz ouviu os dois lados, pensou e deu razão ao rico. Havia fogo à vista, disse, e portanto a condição foi quebrada.
O criado voltou para o canto da cozinha sem terra e sem nada.
Hailu soube da sentença e não discutiu com ninguém. Preparou um banquete em sua casa e convidou o juiz, Haptom e outras pessoas importantes da cidade.
Os convidados chegaram com fome. Da casa vinha o cheiro de carne, de pimenta e de pão quente. Sentaram-se e esperaram.
A comida não veio. As panelas ferviam num outro cômodo, longe da sala, e o cheiro atravessava a porta.
As horas passaram. Os convidados se olhavam. Por fim, Haptom perdeu a paciência e perguntou onde estava o jantar.
Hailu respondeu com calma. A comida estava sendo feita no cômodo ao fundo. Se os convidados sentiam o cheiro, então já estavam alimentados.
Haptom protestou. Ninguém come pelo nariz.
Pois ninguém se aquece pelos olhos, disse Hailu. Se uma fogueira do outro lado do vale aqueceu Arha no pico, o cheiro das panelas encheu a barriga de vocês.
O juiz entendeu. Reabriu o caso ali mesmo e mandou Haptom pagar.
Arha recebeu os dez acres, a casa e o gado.
Só então Hailu mandou servir a comida.
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