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Fábula do Dia   Fábula do Dia
ED 072
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A fogueira distante que custou a aposta de Arha

Num conto etíope, o rico nega o prêmio ao criado por causa de um fogo do outro lado do vale, e o velho Hailu responde com um jantar.

Um jovem de pé no alto de uma montanha escura, ao vento, olha uma fogueira pequena acesa num rochedo do outro lado do vale.

Arha no alto do Sululta, a fogueira ao longe

▼
 

“Um homem aguenta uma noite inteira no alto do Sululta, sem cobertor e sem fogo?”, perguntou Haptom Hasei ao criado Arha, numa noite de vento frio em Adis Abeba, a capital da Etiópia.

Haptom era rico. Tinha terras, gado e uma casa grande na cidade. Gostava de se sentar perto da lareira e fazer perguntas difíceis a quem trabalhava para ele.

Arha tinha vindo moço da terra dos gurages, um povo do sul do país, para servir na casa do patrão. Não tinha terra, não tinha casa e dormia num canto da cozinha.

O Sululta é a montanha que se vê ao norte da cidade. Lá em cima o vento corta, e as noites são geladas o ano inteiro.

Arha pensou antes de responder. Disse que sim, um homem forte aguentaria.

Haptom riu e propôs a aposta. Se Arha passasse a noite no pico, sem cobertor, sem roupa de frio e sem fogo, ganharia dez acres de terra boa, uma casa e gado para criar. Se desistisse, ficaria sem nada.

O criado aceitou. Depois, deitado no canto da cozinha, sentiu medo.

Foi procurar o velho Hailu, um homem sábio da sua aldeia que morava na cidade. Contou a aposta e perguntou se tinha feito bobagem.

Hailu ouviu tudo em silêncio. Disse que ajudaria.

Do outro lado do vale, em frente ao Sululta, havia um rochedo alto. Hailu prometeu acender ali uma fogueira assim que a noite caísse, e mantê-la acesa até o sol nascer.

Arha não sentiria o calor, explicou o velho. Mas veria a chama. E, enquanto olhasse para ela, pensaria em fogo e lembraria que um amigo estava acordado por ele.

Este conto é etíope e passou de boca em boca muito antes de chegar ao papel. Fala de uma aposta, de um rico que procura brecha para não pagar e de um juiz que concorda com o rico.

Adiante, a noite no pico, a desculpa do patrão e o jantar que Hailu preparou. Depois, de onde vem a história e a velha tradição de julgar o cheiro pelo som. Por fim, o que o conto ensina sobre quem muda a regra depois do jogo.

Continue lendo ↓

 
 

I  A Fábula do Dia

A noite no pico e o jantar do velho

A resposta de ontem

Em que cidade Câmara Cascudo escolheu viver a vida inteira?

Em Natal, capital do Rio Grande do Norte. Luís da Câmara Cascudo nasceu na cidade em 1898 e morreu nela em 1986. Recusou convites para viver e lecionar fora, ganhou fama de provinciano por escolha e juntou ali a biblioteca que hoje o Ludovicus, Instituto Câmara Cascudo, guarda e abre a pesquisadores.

Na noite combinada, Arha subiu o Sululta sozinho, tirou a roupa de frio e ficou de pé na pedra mais alta, voltado para o rochedo do outro lado do vale.

Haptom mandou dois criados junto, para vigiar a aposta. Eles se enrolaram nas mantas e ficaram mais abaixo, onde o vento batia menos.

O frio veio rápido. Primeiro nas mãos, depois nos pés, depois no peito.

Arha procurou o rochedo. Lá estava a fogueira de Hailu, um ponto vermelho no escuro, tão longe que parecia uma estrela caída.

Ele não tirou os olhos dela. Quando o vento apertava, Arha pensava no velho jogando lenha na chama. Quando as pernas tremiam, contava as horas até o sol.

A noite passou inteira assim. De madrugada, a fogueira ainda ardia.

Quando o dia clareou, Arha desceu duro de frio, mas vivo. Os dois vigias confirmaram: ele não tinha saído da pedra.

Foi direto à casa do patrão pedir a terra, a casa e o gado.

Haptom ouviu o relato e fez uma pergunta só. Durante a noite, Arha tinha visto algum fogo?

Arha não mentiu. Disse que sim, uma fogueira no rochedo do outro lado do vale.

Então você perdeu, respondeu Haptom. Quem passa a noite olhando para um fogo foi aquecido pelo fogo. A aposta dizia sem fogo.

Arha levou o caso a um juiz. O juiz ouviu os dois lados, pensou e deu razão ao rico. Havia fogo à vista, disse, e portanto a condição foi quebrada.

O criado voltou para o canto da cozinha sem terra e sem nada.

Hailu soube da sentença e não discutiu com ninguém. Preparou um banquete em sua casa e convidou o juiz, Haptom e outras pessoas importantes da cidade.

Os convidados chegaram com fome. Da casa vinha o cheiro de carne, de pimenta e de pão quente. Sentaram-se e esperaram.

A comida não veio. As panelas ferviam num outro cômodo, longe da sala, e o cheiro atravessava a porta.

As horas passaram. Os convidados se olhavam. Por fim, Haptom perdeu a paciência e perguntou onde estava o jantar.

Hailu respondeu com calma. A comida estava sendo feita no cômodo ao fundo. Se os convidados sentiam o cheiro, então já estavam alimentados.

Haptom protestou. Ninguém come pelo nariz.

Pois ninguém se aquece pelos olhos, disse Hailu. Se uma fogueira do outro lado do vale aqueceu Arha no pico, o cheiro das panelas encheu a barriga de vocês.

O juiz entendeu. Reabriu o caso ali mesmo e mandou Haptom pagar.

Arha recebeu os dez acres, a casa e o gado.

Só então Hailu mandou servir a comida.

 
 

II  A Origem

Do planalto etíope ao livro de 1950

O conto vem da tradição oral da Etiópia, contado em amárico (a língua oficial do país) e nas línguas do sul, e só foi impresso no século 20.

A história se passa num cenário real. Adis Abeba foi fundada em 1886 pelo imperador Menelik II e pela imperatriz Taytu, num planalto alto e frio. O Sululta fica ao norte da capital, e quem mora ali conhece o vento das noites lá em cima.

Arha é gurage, e o detalhe tem razão de estar no conto. Os gurages, povo das terras do sudoeste de Adis Abeba, ficaram conhecidos por migrar para a capital em busca de trabalho, como carregadores, criados e pequenos comerciantes.

O conto põe o forasteiro pobre diante do dono da casa. Quem ouvia a história em Adis Abeba sabia de cara quem tinha poder e quem não tinha.

A justiça na boca do povo

A Etiópia tinha juízes e uma lei escrita muito antiga. O Fetha Nagast (a lei dos reis, em gueês, a língua litúrgica do país) foi traduzido para o gueês no século 15 e serviu de código no império por séculos.

Mesmo com lei escrita, a maioria das disputas do dia a dia se resolvia na palavra. Os contos populares etíopes estão cheios de juízes, de queixosos e de sentenças tortas corrigidas por um sábio ou por um esperto.

O fogo na montanha segue esse molde. O juiz não é corrupto. Erra porque aceita a lógica do rico sem testar até onde ela vai.

O cheiro pago com som

A solução de Hailu tem parentes longe da Etiópia. Em várias tradições aparece o mesmo julgamento: alguém sente o cheiro da comida do outro e é cobrado pelo cheiro.

François Rabelais contou uma versão no Terceiro Livro de Pantagruel, publicado na França em 1546. Um carregador come o pão na fumaça do assado de uma taberna em Paris, e o dono quer cobrar a fumaça.

O caso vai ao bobo Seigni Joan, que manda o carregador bater uma moeda no balcão. O som da moeda paga o cheiro do assado, decide o bobo.

Na Turquia e na Pérsia, a mesma sentença costuma ser posta na boca de Nasreddin Hodja, o sábio cômico das anedotas do Oriente Médio.

O conto etíope inverte a ordem. Lá, quem esticou a regra é o rico, e o sábio devolve a regra esticada até ela romper sozinha.

 

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III  A Lição que Fica

Quem muda a regra depois do jogo

Haptom não quebrou a aposta. Leu a aposta de novo, depois do resultado, procurando uma palavra que o salvasse.

Achou a palavra fogo. Na hora do trato, sem fogo queria dizer sem fogueira para se aquecer. Depois da noite, passou a querer dizer sem ver fogo nenhum.

Quem relê a regra só depois de perder não está pensando na regra, está procurando a saída.

O juiz caiu no argumento porque ele parecia lógico. Hailu não discutiu a lógica. Fez a lógica acontecer na sala, com fome de verdade, até ela ficar ridícula.

Arha também tem a sua parte. Disse a verdade quando podia ter mentido. Ninguém no pico saberia se ele tinha olhado para o rochedo.

A fogueira não esquentou o corpo. Esquentou outra parte, a que lembra que alguém está acordado do outro lado do vale. O frio ficou o mesmo. Aguentar ficou possível.

Em casa, a cena aparece no irmão que perde no jogo de cartas e descobre, na última rodada, uma regra que ninguém tinha combinado.

No trabalho, aparece no prêmio prometido à equipe que bate a meta, e na letra miúda que surge depois que a meta é batida.

A fábula serve para ler com uma criança devagar, parando nos lugares onde a regra muda de sentido.

Ao chegar à aposta: peça à criança para dizer, com as palavras dela, o que Arha precisava fazer para ganhar.

Na noite do pico: pergunte se uma fogueira tão longe esquenta alguém, e por que Arha olhava para ela mesmo assim.

Na resposta de Haptom: pergunte se o patrão mudou a aposta ou só fingiu que lia direito.

No banquete de Hailu: pergunte por que o velho não serviu a comida logo.

“Que regra você já mudou de sentido depois de perder o jogo?”

A fogueira do rochedo apagou com o sol.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Quem recolheu o conto do fogo na montanha e o publicou em livro pela primeira vez?

 
 
Quiz da edição

Na aposta do alto do Sululta, o que Haptom prometeu a Arha se ele vencesse?

ACinco acres de terra e uma mula
BDez acres de terra boa, uma casa e gado para criar
CVinte acres de terra e um cavalo
DUma casa na cidade e salário fixo

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