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ED 071
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A formiga e a fresta da porta da cabra cabriola

No conto recolhido por Câmara Cascudo, a cabra assusta o boi e a onça com voz de trovão, e só a formiga acha o caminho por baixo da porta.

Uma formiga entra pela fresta de baixo da porta de uma casinha de taipa, enquanto bichos grandes esperam no terreiro.

A formiga na fresta, a cabra lá dentro

▼
 

“Eu sou a cabra cabriola, como gente grande e menino aos pares!”, berrou a voz de dentro da casinha de taipa, na beira do mato, quando a cabra mãe bateu na porta da própria casa.

A cabra mãe tinha saído cedo para pastar. Deixou os três cabritinhos sozinhos, com a recomendação de sempre: não abrir para ninguém.

Os filhotes obedeceram. Mas a ameaça não precisou de porta aberta. A cabra cabriola chegou antes, entrou pelo quintal e se trancou lá dentro.

Os cabritinhos fugiram pela janela dos fundos e se esconderam no capim alto. De lá, viram a mãe chegar.

A casa estava igual. A porta, fechada. O que mudou foi a voz.

Grossa, rouca, rolando pelas paredes como trovoada de março. A cabra mãe ouviu a ameaça, olhou para o próprio tamanho e recuou três passos.

Ela não sabia quem estava lá dentro. Só sabia o que a voz prometia.

Correu atrás de ajuda. A primeira porta em que bateu foi a do boi, o maior bicho do pasto.

O boi ouviu a história, abanou o rabo e disse que resolvia aquilo em dois tempos. Foi até a casinha, bateu com o chifre na madeira e mandou o invasor sair.

A resposta veio pela fresta, mais alta ainda. O boi baixou a cabeça e voltou para o pasto sem olhar para trás.

O conto pertence a um velho costume brasileiro: as histórias de bicho contadas na beira do fogão e no alpendre, de avó para neto, muito antes de alguém pensar em escrevê-las.

Luís da Câmara Cascudo, pesquisador do Rio Grande do Norte, recolheu a cabra cabriola e a publicou entre os contos de animais do seu livro mais lido.

Adiante, a fila de bichos grandes que bateram naquela porta e quem afinal entrou. Em seguida, o homem que juntou o conto no papel e os parentes da cabra em Portugal e na Espanha. Por fim, o que a formiga ensina sobre o medo que só existe do lado de fora.

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I  A Fábula do Dia

Quatro bichos grandes diante da porta

A cabra cabriola, conto de animais que Luís da Câmara Cascudo publicou em Contos Tradicionais do Brasil, em 1946, mostra uma casa tomada sem luta, só com a voz.

Depois do boi, a cabra mãe foi ao cachorro. O cachorro tinha dente e latido, e jurou que nenhum bicho resistia a ele.

Chegou latindo, arranhou a porta e mostrou os dentes para a fechadura.

De dentro, a voz respondeu com a mesma cantiga. Cabra cabriola, come gente aos pares, quebra osso de quem bater.

O cachorro meteu o rabo entre as pernas. Disse que tinha esquecido um osso enterrado do outro lado do rio e sumiu.

A cabra mãe procurou então o cavalo. O cavalo bateu com o casco, relinchou alto e ouviu a ameaça de volta, mais grave que o próprio relincho.

Também foi embora.

Sobrava a onça. Ninguém no mato gostava de pedir favor a ela, mas a cabra mãe estava sem casa e sem filhos à vista.

A onça veio devagar, rondou a casinha duas vezes e encostou o focinho na porta. Rugiu.

A voz de dentro rugiu mais forte. Prometeu comer a onça com pinta e tudo.

A onça parou. Pensou que um bicho capaz de assustar o boi, o cachorro e o cavalo, e ainda gritar daquele jeito com ela, devia ser enorme. Não quis pagar para ver.

Quatro bichos grandes tinham batido. Nenhum tinha visto o invasor.

A cabra mãe sentou no terreiro e chorou. Foi aí que apareceu a formiga.

A formiga perguntou o motivo do choro. Ouviu a história inteira, os quatro fracassos, a voz de trovão.

Disse que ia resolver.

A cabra mãe quase riu. Se o boi não tinha conseguido, como uma formiga ia tirar alguém daquela casa?

A formiga não discutiu. Foi até a porta e não bateu. Procurou a fresta entre a madeira e o chão, e entrou por ela.

Lá dentro, no escuro, encontrou a cabra cabriola de pé na sala, de ouvido atento à porta, esperando o próximo bicho grande.

Não esperava nada pequeno.

A formiga subiu pela pata, andou pelo pelo e mordeu. Mordeu na barriga, mordeu na orelha, mordeu na pele fina da perna.

A cabra cabriola pulou, sacudiu, rolou no chão. Gritou fino, agora sem trovão nenhum, um berro de cabra comum.

Abriu a porta com um coice e fugiu para o mato.

A cabra mãe viu sair um bicho magro, do tamanho dela, correndo de rabo erguido. Os cabritinhos saíram do capim e voltaram para casa.

 
 

II  A Origem

Do alpendre ao livro de Cascudo

O conto atravessou o mar com os colonos portugueses e ganhou nome brasileiro antes de virar página impressa no século 20.

Luís da Câmara Cascudo nasceu em 1898, no Rio Grande do Norte, e passou a vida reunindo o que o Brasil contava, cantava e comia.

Escreveu mais de cem títulos. Os mais consultados são o Dicionário do Folclore Brasileiro, de 1954, e Literatura Oral no Brasil, de 1952.

Contos Tradicionais do Brasil saiu em 1946. Cascudo separou as histórias por tipo: contos de encantamento, contos de exemplo, facécias (histórias de esperteza e riso) e contos de animais, onde mora a cabra cabriola.

O nome da cabra

Cabriola é salto, o pulo de cabrito que sobe as quatro patas do chão. A palavra vem do italiano capriola, derivada de capra (cabra, em latim e em italiano).

O nome já descreve o bicho: uma cabra que pula, que não para quieta, que assusta pelo barulho que faz.

No Nordeste, a cabra cabriola também virou bicho-papão. Mãe que queria menino dentro de casa ao escurecer avisava que a cabriola andava solta.

Os parentes na Península Ibérica

A história chegou ao Brasil pela boca dos colonos. Em Portugal, a mesma ameaçadora atende por cabra-cabrês, e o enredo se repete: bicho grande bate, recua, e um bicho pequeno resolve.

Na Espanha, ela é a cabra montesina (cabra do monte). Ameaça partir o espinhaço de quem bater, e quem a expulsa, em muitas versões, é também uma formiga.

Os folcloristas chamam esse formato de conto acumulativo, a história que repete a mesma cena e soma um personagem a cada volta. A criança decora a cantiga da cabra na segunda vez e já espera a terceira.

O que Cascudo anotou

Cascudo não inventava os contos. Ouvia, anotava e indicava em nota de onde vinha cada versão e com que histórias de outros países ela se parecia.

Esse cuidado com a fonte é o que separa a coletânea dele de um livro de histórias infantis. A cabra cabriola aparece ali como documento: um registro de como a história era contada no Nordeste da primeira metade do século 20.

As versões variam no elenco. Em umas, o primeiro a bater é o carneiro; em outras, o galo ou o veado entram na fila. A formiga quase nunca muda.

 

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III  A Lição que Fica

O medo do lado de fora da porta

Nenhum dos quatro bichos grandes perdeu uma briga. Nenhum chegou a brigar.

Perderam para uma voz. Cada um ouviu a ameaça, mediu o tamanho do perigo pelo volume do grito e decidiu sozinho que não valia a pena.

A cabra cabriola, vista à luz do dia, era uma cabra comum. Do tamanho da mãe dos cabritinhos. Toda a força dela estava na porta fechada e no escuro de dentro.

Quem só ouve o grito imagina o bicho do tamanho do barulho.

A formiga venceu por dois motivos, e nenhum é coragem.

Primeiro, ela não bateu. Os bichos grandes anunciavam a chegada, e a cabra tinha tempo de preparar a resposta. A formiga chegou calada.

Segundo, ela foi ver. Entrou pela fresta e olhou o invasor de perto. Lá dentro, sem plateia, o trovão virou uma cabra assustada com uma mordida.

A ordem dos visitantes também conta a história. Boi, cachorro, cavalo, onça: cada um mais perigoso que o anterior, cada um mais confiante. A confiança deles se apoiava no tamanho, e o tamanho não serviu para nada diante de uma porta.

Na vida da criança, a cabra cabriola tem muitas caras. É o barulho no armário à noite, o menino maior que grita no recreio, a prova que todo mundo diz ser impossível.

Na vida do adulto, é o boleto que ninguém abre, o email do chefe que fica três dias sem leitura, a consulta adiada por medo do resultado. A voz cresce enquanto a porta continua fechada.

A formiga faz o gesto mais simples: chegar perto e olhar.

Para ler o conto em voz alta com uma criança, a cantiga da cabra é o centro. Vale engrossar a voz atrás da porta do quarto, com a criança do lado de fora.

Na primeira batida, a do boi: pare e peça para a criança adivinhar o tamanho do bicho lá dentro.

Quando a onça desiste: pergunte por que um bicho tão forte foi embora sem ver ninguém.

Quando a formiga entra: pergunte o que ela fez de diferente dos outros quatro.

Na fuga da cabra: pergunte se a cabra era grande ou se só gritava alto.

“Qual cabra cabriola, atrás de qual porta, você ainda não foi olhar de perto?”

A casa voltou a ser dos cabritinhos. A cabra cabriola nunca mais apareceu no terreiro.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Em que cidade Luís da Câmara Cascudo escolheu viver a vida inteira?

 
 
Quiz da edição

Qual bicho conseguiu expulsar a cabra cabriola da casa dos cabritinhos?

AO boi
BO cachorro
CA onça
DA formiga

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