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A cabra cabriola, conto de animais que Luís da Câmara Cascudo publicou em Contos Tradicionais do Brasil, em 1946, mostra uma casa tomada sem luta, só com a voz.
Depois do boi, a cabra mãe foi ao cachorro. O cachorro tinha dente e latido, e jurou que nenhum bicho resistia a ele.
Chegou latindo, arranhou a porta e mostrou os dentes para a fechadura.
De dentro, a voz respondeu com a mesma cantiga. Cabra cabriola, come gente aos pares, quebra osso de quem bater.
O cachorro meteu o rabo entre as pernas. Disse que tinha esquecido um osso enterrado do outro lado do rio e sumiu.
A cabra mãe procurou então o cavalo. O cavalo bateu com o casco, relinchou alto e ouviu a ameaça de volta, mais grave que o próprio relincho.
Também foi embora.
Sobrava a onça. Ninguém no mato gostava de pedir favor a ela, mas a cabra mãe estava sem casa e sem filhos à vista.
A onça veio devagar, rondou a casinha duas vezes e encostou o focinho na porta. Rugiu.
A voz de dentro rugiu mais forte. Prometeu comer a onça com pinta e tudo.
A onça parou. Pensou que um bicho capaz de assustar o boi, o cachorro e o cavalo, e ainda gritar daquele jeito com ela, devia ser enorme. Não quis pagar para ver.
Quatro bichos grandes tinham batido. Nenhum tinha visto o invasor.
A cabra mãe sentou no terreiro e chorou. Foi aí que apareceu a formiga.
A formiga perguntou o motivo do choro. Ouviu a história inteira, os quatro fracassos, a voz de trovão.
Disse que ia resolver.
A cabra mãe quase riu. Se o boi não tinha conseguido, como uma formiga ia tirar alguém daquela casa?
A formiga não discutiu. Foi até a porta e não bateu. Procurou a fresta entre a madeira e o chão, e entrou por ela.
Lá dentro, no escuro, encontrou a cabra cabriola de pé na sala, de ouvido atento à porta, esperando o próximo bicho grande.
Não esperava nada pequeno.
A formiga subiu pela pata, andou pelo pelo e mordeu. Mordeu na barriga, mordeu na orelha, mordeu na pele fina da perna.
A cabra cabriola pulou, sacudiu, rolou no chão. Gritou fino, agora sem trovão nenhum, um berro de cabra comum.
Abriu a porta com um coice e fugiu para o mato.
A cabra mãe viu sair um bicho magro, do tamanho dela, correndo de rabo erguido. Os cabritinhos saíram do capim e voltaram para casa.
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