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A greve das mãos contra a barriga preguiçosa

Os membros e o estômago vem inteira e em português de hoje, do monte Sagrado a Shakespeare, com a resposta que a barriga deu.

As mãos, a boca e os dentes de um corpo em greve contra a barriga deitada, cena da fábula romana dos membros e o estômago.

Mãos e boca em greve contra a barriga

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"Houve um tempo em que as partes do corpo humano não viviam de acordo como vivem hoje, e cada uma tinha vontade própria e fala própria", disse Menênio Agripa aos plebeus acampados no monte Sagrado, a poucos quilômetros de Roma, no ano de 494 antes de Cristo. Ele era um senador velho, falava sozinho, e tinha diante dele milhares de homens armados que haviam abandonado a cidade.

A cena por trás da frase é a mais estranha da história romana antiga. A plebe simplesmente saiu de Roma. Levou as ferramentas, levou as famílias, subiu um monte fora dos muros e parou. Sem trabalhador não havia colheita, sem colheita não havia comida, e sem soldado não havia exército numa península cheia de vizinhos hostis.

O motivo era dívida. Quem devia e não pagava virava propriedade do credor, e homens que tinham lutado pela cidade estavam acorrentados no porão de quem emprestou. O Senado mandou emissário atrás de emissário, e nenhum voltou com resposta.

Então mandaram Menênio. Ele não levou promessa, não levou dinheiro e não levou tropa. Levou uma história sobre um corpo em greve.

A fábula que ele contou não tem raposa, não tem lobo e não tem floresta. Os personagens são mãos, boca, dentes e barriga, quatro partes de uma mesma pessoa, brigando entre si como vizinhos de muro. E o desfecho não é castigo divino nem lição de bom moço: os grevistas ganham a greve, e desmaiam junto com o patrão.

É por causa desse desenho que a história sobreviveu vinte e cinco séculos e reapareceu em Roma, na França de Luís XIV, no teatro inglês e nas cartilhas escolares brasileiras. Ela cabe em dois minutos lidos devagar e funciona a partir dos cinco anos, que é a idade em que a criança já entende que a comida some da mesa e vira força na perna.

Ela vem inteira aqui embaixo, do primeiro protesto das mãos até a resposta que a barriga deu com voz fraca, deitada.

Depois dela vem a origem declarada, com número de catálogo, autores e ano de cada versão, incluindo a peça de teatro que colocou Menênio em cena falando a mesma fábula. E no fim, o que a história ensina sobre trabalho que ninguém vê.

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I  A Fábula do Dia

A greve das mãos contra a barriga

Quatro partes de um mesmo corpo, uma reunião às escondidas e uma greve que derruba todo mundo junto. A fábula vem completa aqui embaixo, reescrita pra sair na sua voz sem tropeço.

Houve um tempo em que cada parte do corpo humano tinha vontade própria e falava por conta própria. As mãos falavam, os pés falavam, a boca e os dentes falavam. Só a barriga ficava calada, lá no meio, quieta.

Um dia as mãos pararam de trabalhar e olharam em volta.

Repare, disseram as mãos. Nós plantamos, colhemos, cortamos e carregamos.

Nós andamos o dia inteiro, disseram os pés. Levamos o corpo pra roça de manhã e trazemos de volta à noite.

Nós mastigamos tudo, disseram os dentes. Trituramos até virar papa.

Nós recebemos e engolimos, disse a boca. Nem sentimos gosto direito de tanta pressa.

Então todos olharam pra barriga.

E ela?, perguntaram as mãos. Ela fica aí, deitada, no escuro, no meio do corpo.

Nunca vimos a barriga trabalhar, disseram os pés.

Nunca vimos a barriga carregar nada, disseram os dentes.

Chega comida e ela come, disse a boca. Só come.

As mãos propuseram na hora: vamos parar.

Ninguém colhe, ninguém mastiga, ninguém engole.

Que a barriga se vire sozinha e aprenda a servir.

E foi o que fizeram.

No primeiro dia as mãos ficaram cruzadas. Os pés não saíram do lugar.

A boca ficou fechada e os dentes, parados dentro dela.

A barriga não reclamou. Não gritou, não pediu, não brigou.

No segundo dia as mãos acharam estranho ter que fazer força pra abrir e fechar.

Os pés ficaram pesados, como se alguém tivesse amarrado pedra neles.

No terceiro dia as pernas tremiam ao levantar do banco.

Os braços não alcançavam mais a prateleira de cima.

Os dentes começaram a doer soltos na gengiva.

A boca secou por dentro e a língua ficou grossa.

No quarto dia o corpo inteiro não conseguiu ficar de pé.

Deitou no chão de terra, sem força pra virar de lado.

Aí, com voz fraca, a barriga falou pela primeira vez.

Vocês têm razão, disse ela. É verdade que eu recebo a comida primeiro.

Mas eu recebo pra devolver.

Aquilo que chega aqui eu desmancho, misturo, cozinho no escuro e mando de volta pra vocês por dentro.

O sangue que faz a mão fechar sai daqui.

A força que faz o pé andar sai daqui.

Vocês nunca me viram trabalhar porque o meu trabalho acontece do lado de dentro.

As mãos tentaram responder e não tiveram fôlego.

Ficaram todos ali no chão, calados, os cinco.

Depois de um tempo a boca se abriu devagar e pediu comida.

Os dentes mastigaram sem pressa.

A barriga recebeu, desmanchou e devolveu.

No dia seguinte o corpo levantou.

 
 

II  A Origem

O discurso que desceu o monte

Uma fábula com número próprio no catálogo grego, um historiador romano que a preservou dentro de um discurso, um fabulista francês do século XVII, uma peça inglesa que colocou Menênio em cena e uma carta cristã que usou a mesma imagem: poucas histórias de anatomia renderam tanto.

A versão mais antiga conhecida está no corpus atribuído a Esopo, catalogada como número 130 no Perry Index, o índice montado por Ben Edwin Perry na obra Aesopica, publicada pela University of Illinois Press em 1952. É o sistema que os estudiosos usam até hoje pra rastrear cada fábula por número, sem depender do título.

No grego a briga é menor: costuma ser só o estômago contra os pés, ou contra as mãos, numa discussão sobre quem sustenta quem. As versões posteriores é que foram enchendo o elenco com boca, dentes e pernas.

O registro que fez a história famosa não é literário, é político. O historiador Tito Lívio narra o episódio do monte Sagrado em Ab Urbe Condita, livro II, capítulo 32, escrito entre 27 e 9 antes de Cristo, e coloca a fábula na boca de Menênio Agripa, o senador enviado pra negociar com a plebe que tinha deixado Roma em 494 antes de Cristo.

Segundo Lívio, a plebe voltou e a negociação criou o tribunato da plebe, um cargo novo, ocupado por plebeus, com poder de barrar decisão do Senado. Foi a primeira vez que a cidade instituiu um freio formal em favor de quem não pertencia à aristocracia.

O grego Plutarco reconta o mesmo episódio na Vida de Coriolano, escrita por volta do ano 100 depois de Cristo, e é dele que a cena chega ao teatro inglês. William Shakespeare abre a tragédia Coriolano com Menênio contando a fábula a cidadãos revoltados por causa de trigo:

True is it, my incorporate friends, quoth he, that I receive the general food at first which you do live upon.

É verdade, meus amigos de um mesmo corpo, disse ela, que eu recebo primeiro o alimento de todos, aquele de que vocês vivem.

William Shakespeare, Coriolano, ato I, cena 1, publicada no Primeiro Fólio de 1623.

O mesmo corpo em outras línguas

Na França, Jean de La Fontaine publicou Les Membres et l'Estomac no livro III das Fables, em 1668, e trocou o desfecho de lugar: no texto dele a barriga é declaradamente a realeza, e os membros são os súditos que a sustentam. Em português, a fábula circula nas coletâneas de Esopo publicadas no Brasil com títulos como Os membros e o estômago ou A barriga e os pés, e aparece em livro escolar desde o século XIX.

A imagem também aparece fora da tradição das fábulas. A Primeira Carta aos Coríntios, capítulo 12, atribuída a Paulo e escrita por volta do ano 55 depois de Cristo, monta a mesma cena com pé, mão, olho e ouvido discutindo quem é dispensável, e chega a uma conclusão parecida sobre partes que só existem juntas.

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III  A Lição que Fica

O trabalho que acontece por dentro

A moral colada nesta fábula costuma ser curta e conveniente: todo mundo tem sua função, cada um no seu lugar. Assim contada, ela vira ordem de patrão, e joga fora quase tudo que a história tinha pra dar.

Repare no que a fábula mostra de verdade. As mãos não estavam mentindo. Elas plantam, colhem e carregam, e nada daquilo é invenção. A queixa delas é factualmente correta do começo ao fim, e mesmo assim a greve derruba quem a fez.

A barriga também não estava mentindo. Ela recebe a comida antes de todo mundo, e é a primeira a ser servida. As duas partes falam verdade, e a briga acontece porque nenhuma das duas enxerga o que a outra faz.

O trabalho da barriga é invisível por natureza, não por esperteza. Ele acontece no escuro, dentro do corpo, e só aparece no braço que levanta e na perna que anda.

Tem uma segunda camada, e é a que os romanos entenderam bem. Menênio contou a fábula pra convencer a plebe a voltar, e conseguiu, mas a plebe voltou com o tribunato no bolso. A história funcionou como argumento e a negociação funcionou como conquista. As duas leituras cabem no mesmo dia.

Vale dizer o que a história não faz. Ela não diz que a barriga pode comer o quanto quiser, nem que reclamar é errado. O corpo do texto só desmorona quando as partes param de mandar coisa uma pra outra, e a barriga que engole sem devolver quebra o acordo do mesmo jeito que a mão parada.

Antes de começar: diga a idade e o tempo em voz alta. A partir dos cinco anos, uns dois minutos.

Na hora da queixa: deixe a criança falar pelas mãos. Pergunte o que ela faria se trabalhasse o dia inteiro e visse alguém deitado.

Na hora da greve: conte os dias devagar, um por um, e mostre no corpo dela o que vai enfraquecendo primeiro. As pernas, os braços, a boca.

Na hora da resposta: fale a fala da barriga baixinho, quase sem voz. Ela está deitada no chão e mal consegue falar.

O adulto que lê conhece a mesma cena em escritório, em casa e em obra. O trabalho que aparece é o que tem gente segurando ferramenta, e o trabalho que some é o que acontece antes, na hora de decidir o que comprar, quem chama quem e o que entra na conta do mês.

Os plebeus desceram o monte Sagrado no mesmo ano e Roma passou a ter dois tribunos da plebe.

Menênio Agripa foi enterrado com dinheiro de coleta.

“Qual trabalho da sua casa ou do seu time só aparece quando alguém para de fazer?”

 
 
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BO cargo de tribuno da plebe, ocupado por plebeus
CO perdão total de todas as dívidas existentes
DO direito de voto direto de plebeus no Senado

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