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Quatro partes de um mesmo corpo, uma reunião às escondidas e uma greve que derruba todo mundo junto. A fábula vem completa aqui embaixo, reescrita pra sair na sua voz sem tropeço.
Houve um tempo em que cada parte do corpo humano tinha vontade própria e falava por conta própria. As mãos falavam, os pés falavam, a boca e os dentes falavam. Só a barriga ficava calada, lá no meio, quieta.
Um dia as mãos pararam de trabalhar e olharam em volta.
Repare, disseram as mãos. Nós plantamos, colhemos, cortamos e carregamos.
Nós andamos o dia inteiro, disseram os pés. Levamos o corpo pra roça de manhã e trazemos de volta à noite.
Nós mastigamos tudo, disseram os dentes. Trituramos até virar papa.
Nós recebemos e engolimos, disse a boca. Nem sentimos gosto direito de tanta pressa.
Então todos olharam pra barriga.
E ela?, perguntaram as mãos. Ela fica aí, deitada, no escuro, no meio do corpo.
Nunca vimos a barriga trabalhar, disseram os pés.
Nunca vimos a barriga carregar nada, disseram os dentes.
Chega comida e ela come, disse a boca. Só come.
As mãos propuseram na hora: vamos parar.
Ninguém colhe, ninguém mastiga, ninguém engole.
Que a barriga se vire sozinha e aprenda a servir.
E foi o que fizeram.
No primeiro dia as mãos ficaram cruzadas. Os pés não saíram do lugar.
A boca ficou fechada e os dentes, parados dentro dela.
A barriga não reclamou. Não gritou, não pediu, não brigou.
No segundo dia as mãos acharam estranho ter que fazer força pra abrir e fechar.
Os pés ficaram pesados, como se alguém tivesse amarrado pedra neles.
No terceiro dia as pernas tremiam ao levantar do banco.
Os braços não alcançavam mais a prateleira de cima.
Os dentes começaram a doer soltos na gengiva.
A boca secou por dentro e a língua ficou grossa.
No quarto dia o corpo inteiro não conseguiu ficar de pé.
Deitou no chão de terra, sem força pra virar de lado.
Aí, com voz fraca, a barriga falou pela primeira vez.
Vocês têm razão, disse ela. É verdade que eu recebo a comida primeiro.
Mas eu recebo pra devolver.
Aquilo que chega aqui eu desmancho, misturo, cozinho no escuro e mando de volta pra vocês por dentro.
O sangue que faz a mão fechar sai daqui.
A força que faz o pé andar sai daqui.
Vocês nunca me viram trabalhar porque o meu trabalho acontece do lado de dentro.
As mãos tentaram responder e não tiveram fôlego.
Ficaram todos ali no chão, calados, os cinco.
Depois de um tempo a boca se abriu devagar e pediu comida.
Os dentes mastigaram sem pressa.
A barriga recebeu, desmanchou e devolveu.
No dia seguinte o corpo levantou.
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