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Fábula do Dia   Fábula do Dia
ED 020

A leiteira somou o bezerro antes de vender o leite

A leiteira e o pote de leite vem inteira e em português de hoje, de La Fontaine a Monteiro Lobato, com a lição de quem comemora cedo.

Uma leiteira com um pote de leite na cabeça andando por uma estrada de terra a caminho do mercado.

A leiteira e o pote de leite a caminho do mercado

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Conta feita antes da hora tem uma qualidade estranha: ela nunca dá errado no papel. Cada número puxa o próximo, e no fim da soma a pessoa já está rica.

A fábula de hoje pega uma mulher com uma única mercadoria na mão e mostra o que acontece dentro da cabeça dela no caminho até o mercado. Não é uma história sobre pobreza nem sobre castigo de quem sonha. É uma história sobre o momento exato em que a soma imaginada fica maior que a mercadoria.

Ela apareceu impressa em francês pela primeira vez em 1678, no livro VII de Jean de La Fontaine, e a personagem tem nome próprio: Perrette. Antes dele a mesma engrenagem já rodava em livro de conversa francês do século XVI e em coleção árabe e persa muito mais antiga, sempre com o mesmo desenho: um recipiente, uma multiplicação e um estrago.

O detalhe que costuma passar batido é o que derruba o pote. Não é uma pedra no caminho, não é um cachorro atravessando a estrada, não é o vento. É o corpo dela, feliz com a conta que acabou de fechar.

A soma não erra em lugar nenhum. O que erra é o pulo que a soma provoca, e ninguém consegue somar uma fortuna inteira andando parado.

A criança pega essa mecânica na primeira leitura, porque ela conhece o jogo de gastar a mesada três vezes antes de receber uma. O que ela ainda não sabe é que a alegria da conta e o cuidado com o pote disputam o mesmo corpo.

O problema começa quando cada etapa da multiplicação é mesmo razoável. Leite vira ovos, ovos viram frango, frango vira porco, porco vira bezerro, e nenhuma dessas trocas é absurda sozinha. O absurdo mora em fazer todas de uma vez, em cima de um pote que ainda está cheio e ainda está em cima da cabeça.

A fábula de hoje serve a partir dos cinco anos e leva perto de dois minutos lida em voz alta. Ela vem inteira, do pote firme na almofada de pano até a volta pra casa com a saia molhada, sem corte e sem resumo.

Depois dela vem a origem declarada, com nome, obra e ano de cada versão que chegou até a sua tela. E no fim, a lição em uma frase, no tamanho da criança, sem transformar vontade de sonhar em defeito.

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I  A Fábula do Dia

A conta que subiu e o pote que desceu

Um pote cheio, uma estrada comprida e uma soma que foi crescendo a cada passo. A fábula vem completa aqui embaixo, reescrita pra sair na sua voz sem tropeço.

Perrette saiu de casa antes do sol esquentar, com um pote de leite equilibrado na cabeça em cima de uma almofada de pano enrolado. O mercado ficava do outro lado do vale, e ela conhecia cada curva daquele caminho de terra.

Tinha se arrumado leve de propósito. Saia curta pra andar rápido, sapato baixo, nada na mão pra não desequilibrar o pote.

O leite era da vaca da casa, tirado naquela mesma manhã. Era tudo o que ela tinha pra vender naquele dia.

Andando, ela começou a fazer a conta do dinheiro que aquele pote ia dar.

Com o dinheiro do leite, pensou, dá pra comprar cem ovos. Ovo é barato e a feira sempre tem.

Com cem ovos debaixo da galinha choca, nascem os pintinhos. Perde uns pro gato, perde uns pra doença, mas sobra muito frango.

Com o dinheiro dos frangos crescidos, dá pra comprar um porco. Porco come restos, come farelo, come o que cai no chão do quintal.

E o porco engorda rápido. Vendido gordo, o porco paga uma vaca com bezerro junto.

Perrette viu o bezerro. Viu ele pulando no meio do pasto verde, saltando de um lado pro outro no meio do rebanho.

E foi aí que ela pulou junto.

Deu um salto no meio da estrada, de alegria, do jeito que o bezerro da cabeça dela pulava no pasto.

O pote saiu da almofada, virou no ar e desceu.

Bateu na pedra do caminho e se partiu.

O leite escorreu pela terra seca e sumiu em menos tempo do que ela levou pra entender o que tinha acontecido.

Perrette ficou parada olhando a mancha branca no chão, com o pé molhado e a saia respingada.

Adeus bezerro, vaca, porco e ninhada.

Ela juntou os cacos do pote com as duas mãos, colocou no colo da saia e ficou de joelhos ali um tempo.

Depois levantou e voltou pro caminho de casa, sem mercado e sem dinheiro.

E foi contando pro marido a história inteira, do primeiro ovo até o último bezerro, com medo de apanhar por causa do pote quebrado.

Ele escutou tudo até o fim e não brigou. Só perguntou quanto tinha custado a fazenda que ela construiu entre a porteira e a pedra.

 
 

II  A Origem

Do conto persa ao verso de Paris

Um livro de conversa francês em 1558, uma coleção árabe do século VIII, um poeta em Paris em 1678 e o Sítio de Monteiro Lobato em 1922: quatro donos do mesmo pote.

A versão que o mundo inteiro conhece é a de Jean de La Fontaine. Ela está em Fables choisies, mises en vers, livro VII, fábula 9, publicada em Paris em 1678, com o nome La Laitière et le Pot au lait.

É La Fontaine quem dá nome à personagem. Antes dele a mulher era só a leiteira, um tipo sem rosto; a partir dele ela vira Perrette, com roupa descrita, passo descrito e conta descrita em voz alta.

O poema dele é curto e corre rápido. A multiplicação inteira, do leite ao bezerro, ocupa poucos versos, e a queda acontece em um único movimento sem nenhuma descrição de dor.

Adieu veau, vache, cochon, couvée.

Adeus bezerro, vaca, porco e ninhada.

Jean de La Fontaine, Fables choisies, mises en vers, livro VII, fábula 9, Paris, 1678. A tradução acima segue a leitura corrente do texto em domínio público.

A fonte imediata dele é francesa e tem data. Em 1558 saiu Nouvelles récréations et joyeux devis, de Bonaventure des Périers, livro de histórias curtas de conversa, e lá a leiteira já leva o pote na cabeça e já perde tudo por causa do próprio gesto.

Mais atrás, a mesma engrenagem aparece no Oriente. O Calila e Dimna, coleção de fábulas que chegou ao árabe pela mão de Ibn al-Muqaffa no século VIII, traz um religioso pobre que herda um pote de mel e de manteiga e faz exatamente a mesma escada de contas deitado embaixo dele.

Uma diferença fina entre as duas versões

No conto oriental o homem sonha com casamento, filho e um filho desobediente, e derruba o pote ao levantar a vara pra bater no filho imaginado. Na versão francesa não tem punição nenhuma dentro do sonho: o que derruba o pote é a alegria pura.

Essa troca muda a fábula de lugar. A versão do Oriente avisa contra a raiva antecipada; a versão de Paris avisa contra a felicidade antecipada, que é bem mais difícil de perceber em si mesmo.

No Brasil a fábula entrou na leitura de casa pela mão de Monteiro Lobato. Em Fábulas, de 1922, ela é contada em voz alta no Sítio, com palavra de quintal e sem cerimônia, e o pote vira o jarro de leite que qualquer criança da roça já tinha visto na cozinha.

A expressão que sobrou em português é mais curta que todas elas: não conte com o ovo dentro da galinha. É o que a criança repete antes de ouvir o nome de La Fontaine.

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III  A Lição que Fica

A conta certa em cima do pote errado

A moral que ficou colada nesta fábula é curta e um pouco preguiçosa: não faça castelo no ar. Ela deixa a criança com uma frase bonita e nenhuma ferramenta na mão.

Repare no que a fábula mostra de verdade. Perrette não é punida por sonhar. Ela é derrubada no momento exato em que o corpo dela obedece ao sonho em vez de obedecer ao pote.

Enquanto ela só pensa, o leite segura. Cem ovos, os frangos, o porco e o bezerro passam todos pela cabeça dela sem derramar uma gota, e a estrada continua sendo atravessada.

Tem uma segunda camada aqui, e é a mais fina da fábula inteira. Cada passo da conta dela era possível. Nenhum número era mentira.

Leite vira mesmo ovo na feira. Ovo vira mesmo frango debaixo da galinha. Frango vira mesmo porco no fim do ano. O plano dela era bom, e mesmo assim não sobrou nada.

A conta estava certa do começo ao fim. O que faltou foi lembrar que a primeira linha dela ainda estava cheia, ainda estava em cima da cabeça e ainda dependia de cada passo até o mercado.

Vale dizer o que a fábula não faz. Ela não ensina a criança a não sonhar, a não querer mais nem a achar que planejar é bobagem.

Ela separa duas coisas que se parecem: o plano, que vive na cabeça e não custa nada, e a entrega, que vive nas mãos e paga a conta. Quem comemora o plano antes da entrega comemora um número que ainda não existe.

Antes de começar: diga a idade e o tempo em voz alta. A partir dos cinco anos, perto de dois minutos. A criança entra melhor quando sabe que a história acaba logo.

Na hora do pote: equilibre alguma coisa na cabeça de verdade, um livro ou uma almofada, e ande três passos assim pela sala. A criança precisa sentir o cuidado que aquela viagem exige.

Na hora da conta: vá contando nos dedos junto com ela, leite, ovos, frangos, porco, bezerro, e deixe a voz subir a cada degrau. O acúmulo é o que constrói o tamanho da queda.

Na hora do pulo: pule de verdade, uma vez só, e pare em silêncio logo depois. A pausa entrega o estrago melhor que qualquer explicação.

Na hora do marido: fale calmo e devagar. O adulto da história não grita, não bate e não faz drama, e é a pergunta tranquila dele que fecha a fábula.

O adulto que lê está na mesma estrada. O bônus gasto em janeiro na conversa de bar, a promoção comemorada no grupo da família antes da conversa com o chefe, o cliente contado como fechado depois de uma reunião boa.

A lição em uma frase: sonho grande cabe na cabeça sem quebrar nada, e o cuidado com o que você já tem na mão é o que decide se o sonho vira conta paga.

“O que você já comemorou hoje que ainda depende de chegar inteiro no fim do caminho?”

 
 
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No texto de hoje, o que derruba o pote de leite de Perrette?

AUm cachorro atravessando a estrada
BO próprio pulo de alegria dela
CUma pedra solta no caminho
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