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Um pote cheio, uma estrada comprida e uma soma que foi crescendo a cada passo. A fábula vem completa aqui embaixo, reescrita pra sair na sua voz sem tropeço.
Perrette saiu de casa antes do sol esquentar, com um pote de leite equilibrado na cabeça em cima de uma almofada de pano enrolado. O mercado ficava do outro lado do vale, e ela conhecia cada curva daquele caminho de terra.
Tinha se arrumado leve de propósito. Saia curta pra andar rápido, sapato baixo, nada na mão pra não desequilibrar o pote.
O leite era da vaca da casa, tirado naquela mesma manhã. Era tudo o que ela tinha pra vender naquele dia.
Andando, ela começou a fazer a conta do dinheiro que aquele pote ia dar.
Com o dinheiro do leite, pensou, dá pra comprar cem ovos. Ovo é barato e a feira sempre tem.
Com cem ovos debaixo da galinha choca, nascem os pintinhos. Perde uns pro gato, perde uns pra doença, mas sobra muito frango.
Com o dinheiro dos frangos crescidos, dá pra comprar um porco. Porco come restos, come farelo, come o que cai no chão do quintal.
E o porco engorda rápido. Vendido gordo, o porco paga uma vaca com bezerro junto.
Perrette viu o bezerro. Viu ele pulando no meio do pasto verde, saltando de um lado pro outro no meio do rebanho.
E foi aí que ela pulou junto.
Deu um salto no meio da estrada, de alegria, do jeito que o bezerro da cabeça dela pulava no pasto.
O pote saiu da almofada, virou no ar e desceu.
Bateu na pedra do caminho e se partiu.
O leite escorreu pela terra seca e sumiu em menos tempo do que ela levou pra entender o que tinha acontecido.
Perrette ficou parada olhando a mancha branca no chão, com o pé molhado e a saia respingada.
Adeus bezerro, vaca, porco e ninhada.
Ela juntou os cacos do pote com as duas mãos, colocou no colo da saia e ficou de joelhos ali um tempo.
Depois levantou e voltou pro caminho de casa, sem mercado e sem dinheiro.
E foi contando pro marido a história inteira, do primeiro ovo até o último bezerro, com medo de apanhar por causa do pote quebrado.
Ele escutou tudo até o fim e não brigou. Só perguntou quanto tinha custado a fazenda que ela construiu entre a porteira e a pedra.
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