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Os Animais Doentes de Peste, primeira fábula do Livro VII de Jean de La Fontaine, conta como a bicharada absolve o leão que comia ovelhas e pastores e condena o burro que comeu um pouco de capim alheio.
O burro terminou a confissão de cabeça baixa.
Disse que não tinha direito nenhum àquele prado.
Disse que se arrependia.
A assembleia ficou em silêncio por um instante.
Então se ouviu o grito: “Haro sobre o burro!”
Haro era o clamor de acusação dos tribunais antigos da Normandia, o grito que qualquer um podia levantar contra quem fosse pego em falta.
O lobo pediu a palavra.
La Fontaine o descreve como “quelque peu clerc”, um tanto letrado, o bastante para fazer discurso.
O lobo provou, com argumentos, que era preciso sacrificar o maldito animal.
Chamou o burro de pelado e de sarnento.
Disse que dele vinha todo o mal.
Os bichos concordaram, um atrás do outro.
Comer o capim dos outros pareceu a todos um crime horrível.
A pequena falta do burro foi julgada caso de forca.
Ninguém lembrou das ovelhas do leão.
Ninguém lembrou do pastor.
Ninguém lembrou dos rebanhos que o tigre e o urso tinham atacado.
A raposa, que tinha defendido o rei, não disse uma palavra a favor do burro.
Os cães de guarda, que mordiam as ovelhas que deviam proteger, também ficaram quietos.
O burro não teve advogado.
Também não teve tempo de explicar que a grama era pouca, que a fome era grande e que o prado dos monges nem estava cercado.
Teve só a própria confissão, feita com a mesma franqueza que o leão tinha pedido a todos.
A franqueza dele foi a prova contra ele.
A morte do burro, diz o verso, pagou o crime da assembleia inteira.
La Fontaine não conta se a peste foi embora depois do sacrifício.
O texto para na sentença e na moral, sem dizer o que aconteceu com a doença.
A moral vem em dois versos:
“Segundo vocês sejam poderosos ou miseráveis, os julgamentos da corte os deixarão brancos ou negros.”
Branco quer dizer inocente.
Negro quer dizer culpado.
A cor depende de quem confessa, e não do que é confessado.
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