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A língua de capim que levou o burro à forca

Na fábula de La Fontaine de 1678, o leão confessa ter comido ovelhas e sai absolvido, e o burro confessa um bocado de capim e paga pela peste.

Um leão sentado num trono de pedra encara um burro de cabeça baixa, cercado por raposa, lobo, urso e tigre numa clareira.

O leão no trono, o burro diante da assembleia

▼
 

“Meus caros amigos, creio que o Céu permitiu esta desgraça por causa dos nossos pecados”, disse o leão, sentado no meio da clareira onde a bicharada se reuniu durante a peste.

A doença tinha chegado sem aviso. Nem todos os bichos caíam, mas todos estavam tocados por ela. Ninguém mais caçava, ninguém mais procurava comida. As rolas fugiam umas das outras, e o amor sumiu junto com a fome.

O leão propôs uma saída antiga. Cada um confessaria o que fez de errado, e o mais culpado seria oferecido ao Céu para acalmar a fúria que mandou a praga.

Ele deu o exemplo primeiro. Admitiu que tinha devorado muitas ovelhas, que nunca lhe fizeram mal. Admitiu também que, algumas vezes, comeu o pastor.

Disse que, se fosse preciso, ele próprio se ofereceria. Pediu apenas que os outros confessassem com a mesma franqueza, para que o castigo caísse sobre quem merecesse.

A raposa respondeu antes de qualquer outro. Disse que o rei era bom demais, que comer ovelha, bicho tolo, nunca foi pecado, e que o pastor, por mandar nos animais, merecia o que recebeu.

A corte aplaudiu. O tigre confessou, o urso confessou, os cães de guarda confessaram. Ninguém ousou examinar de perto as faltas dos bichos fortes. Cada um saiu da roda como um pequeno santo.

Então chegou a vez do burro.

Ele lembrou de um dia em que passou por um prado que pertencia a uns monges. A fome apertava, a grama estava tenra, e a ocasião ajudou. Abocanhou do prado o tamanho da própria língua.

O texto francês tem 64 versos, e a sentença contra o burro ocupa poucos deles. O resto é a assembleia, a confissão e o discurso que transforma o bocado de capim em crime.

Adiante, a fábula completa, com o lobo que discursa contra o burro e a frase que La Fontaine deixou de moral. Depois, de onde veio a história da confissão dos bichos e que corte francesa estava lendo o livro em 1678. Por fim, o que a assembleia ensina sobre quem pode confessar e quem não pode.

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I  A Fábula do Dia

O bocado de capim no prado dos monges

Os Animais Doentes de Peste, primeira fábula do Livro VII de Jean de La Fontaine, conta como a bicharada absolve o leão que comia ovelhas e pastores e condena o burro que comeu um pouco de capim alheio.

O burro terminou a confissão de cabeça baixa.

Disse que não tinha direito nenhum àquele prado.

Disse que se arrependia.

A assembleia ficou em silêncio por um instante.

Então se ouviu o grito: “Haro sobre o burro!”

Haro era o clamor de acusação dos tribunais antigos da Normandia, o grito que qualquer um podia levantar contra quem fosse pego em falta.

O lobo pediu a palavra.

La Fontaine o descreve como “quelque peu clerc”, um tanto letrado, o bastante para fazer discurso.

O lobo provou, com argumentos, que era preciso sacrificar o maldito animal.

Chamou o burro de pelado e de sarnento.

Disse que dele vinha todo o mal.

Os bichos concordaram, um atrás do outro.

Comer o capim dos outros pareceu a todos um crime horrível.

A pequena falta do burro foi julgada caso de forca.

Ninguém lembrou das ovelhas do leão.

Ninguém lembrou do pastor.

Ninguém lembrou dos rebanhos que o tigre e o urso tinham atacado.

A raposa, que tinha defendido o rei, não disse uma palavra a favor do burro.

Os cães de guarda, que mordiam as ovelhas que deviam proteger, também ficaram quietos.

O burro não teve advogado.

Também não teve tempo de explicar que a grama era pouca, que a fome era grande e que o prado dos monges nem estava cercado.

Teve só a própria confissão, feita com a mesma franqueza que o leão tinha pedido a todos.

A franqueza dele foi a prova contra ele.

A morte do burro, diz o verso, pagou o crime da assembleia inteira.

La Fontaine não conta se a peste foi embora depois do sacrifício.

O texto para na sentença e na moral, sem dizer o que aconteceu com a doença.

A moral vem em dois versos:

“Segundo vocês sejam poderosos ou miseráveis, os julgamentos da corte os deixarão brancos ou negros.”

Branco quer dizer inocente.

Negro quer dizer culpado.

A cor depende de quem confessa, e não do que é confessado.

 
 

II  A Origem

Do sermão medieval à corte de Luís XIV

A confissão dos animais circulava em sermões e coletâneas de fábulas da Idade Média e do Renascimento antes de La Fontaine dar a ela a forma que as escolas francesas decoram até hoje.

Jean de La Fontaine nasceu em Château-Thierry, em 1621, e publicou as fábulas em três levas. A primeira saiu em 1668, com os Livros I a VI. A segunda, em 1678 e 1679, trouxe os Livros VII a XI.

Os Animais Doentes de Peste abre o Livro VII. A posição não é acaso: é a primeira fábula depois da dedicatória a Madame de Montespan, a favorita do rei Luís XIV.

Antes de La Fontaine

A história não nasceu com ele. Os estudiosos franceses apontam a cena da confissão em sermões de pregadores medievais, que usavam bichos para falar dos pecados dos poderosos sem citar ninguém.

O nome mais lembrado é o de Jean Raulin, monge de Cluny que morreu em 1514. Nos sermões dele aparece o leão, o lobo e o burro confessando faltas diante de um juiz. O caminho exato entre esses sermões e o livro de 1678 não está documentado, e por isso a fonte direta segue incerta.

Também em 1547, Guillaume Haudent publicou em Rouen uma coletânea de apólogos (histórias curtas com lição moral) em versos franceses, onde a confissão dos animais já aparecia.

O que La Fontaine mudou

Nas versões antigas, a confissão era quase sermão. La Fontaine transformou o enredo em cena de corte: a raposa vira cortesã, o lobo vira jurista, os bichos aplaudem o rei como plateia de palácio.

Ele escreveu para um público que conhecia essa cena por dentro. Em 1678, Versalhes vivia o caso dos venenos (l'affaire des poisons), uma investigação sobre envenenamentos que chegou perto da própria Madame de Montespan. Gente pequena foi para a fogueira, e gente grande saiu protegida.

“Selon que vous serez puissant ou misérable, / Les jugements de cour vous rendront blanc ou noir.”

Jean de La Fontaine, Fábulas, Livro VII, 1678: “Segundo vocês sejam poderosos ou miseráveis, os julgamentos da corte os deixarão brancos ou negros.”

Um verso que virou provérbio

A abertura também ficou famosa. La Fontaine evita dizer a doença logo de cara e a chama de mal que o Céu inventou para punir os crimes da terra, até admitir: “a Peste, já que é preciso chamá-la assim”.

O verso “Ils ne mouraient pas tous, mais tous étaient frappés” (nem todos morriam, mas todos eram atingidos) entrou nos livros escolares franceses e é citado até hoje em reportagem sobre epidemia.

 

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III  A Lição que Fica

Quem pode confessar sem medo

O leão confessou primeiro e confessou o pior. Devorou ovelhas e pastores. Nada aconteceu com ele, porque a confissão de quem manda abre caminho para a absolvição antes mesmo de alguém julgar.

A raposa entendeu a regra na hora. Não negou os fatos: mudou o peso deles. Ovelha virou bicho tolo, pastor virou tirano, e o crime do rei virou honra para as vítimas.

A assembleia julgou quem cada bicho era e deixou de lado o que cada um fez.

O burro fez o que o leão pediu. Falou a verdade, inteira, sem aumentar nem diminuir. Foi o único sincero da roda e o único sem ninguém para traduzir a falta dele em virtude.

O lobo fez o trabalho sujo com palavras. Não precisou provar que o burro trouxe a peste. Bastou chamá-lo de pelado e sarnento, e o insulto ocupou o lugar da prova.

A fábula mostra também o silêncio dos outros. Os cães, o tigre e o urso ficaram calados. Ninguém defendeu o burro porque defender o burro era lembrar das próprias faltas.

Na escola, a cena aparece quando a turma inteira faz bagunça e só o aluno que admite leva a advertência. Em casa, no irmão mais velho que quebra o vaso e convence os pais de que o caçula esbarrou primeiro.

No trabalho, aparece na reunião em que o erro grande do chefe vira “decisão estratégica” e o atraso de dois dias do estagiário vira problema de atitude.

O burro não errou por confessar. Errou por confessar numa sala onde a regra do julgamento já estava decidida antes da primeira palavra.

Ler a fábula com uma criança é treinar o olho para a sala, além da falta. Quem fala primeiro, quem aplaude, quem fica quieto e quem leva a culpa.

A pergunta que a fábula deixa para os adultos é desconfortável. Na hora de apontar um culpado, quem costuma ser escolhido: o que fez mais estrago ou o que tem menos gente disposta a defendê-lo? La Fontaine responde nos próprios versos, sem rodeio: escolhe-se o mais fraco, e o discurso aparece depois para justificar a escolha.

Antes de ler: pergunte à criança o que é pior, comer uma ovelha ou um pouco de capim.

Na confissão do leão: pare e pergunte por que ninguém pediu castigo para ele.

No discurso do lobo: pergunte se chamar alguém de sarnento prova alguma culpa.

Na moral: pergunte quem, na assembleia, poderia ter salvado o burro.

“Em qual assembleia você já ficou calado quando o burro foi julgado?”

O leão voltou ao trono.

O burro, não.

 
 
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ADevorar ovelhas que pertenciam ao pastor
BDerrubar a cerca de um prado dos monges
CAbocanhar um bocado de capim de um prado dos monges
DFurtar frutas de um pomar dos monges

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