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Dois conhecidos numa estrada de fim de tarde, um jantar oferecido de coração aberto e uma pergunta feita no meio do caminho. A fábula vem completa aqui embaixo, reescrita pra sair na sua voz sem tropeço.
Um lobo magro andava pela estrada quando encontrou um cão grande e bem tratado, de pelo lustroso e barriga cheia. Fazia dias que o lobo não comia direito.
Os dois se conheciam de vista, do tempo em que eram filhotes na mesma região.
Como você está bonito, disse o lobo. Eu, olhe só. Estou de osso à mostra.
O cão olhou o amigo de cima a baixo e ficou com pena.
Não precisa ser assim, respondeu. A culpa é do seu jeito de viver. Você corre atrás de comida no frio, no escuro, e às vezes passa a noite inteira sem achar nada.
Eu faço o quê, então?, perguntou o lobo.
Venha comigo, disse o cão. Trabalho leve. Basta guardar a porta da casa, latir quando aparecer estranho e afastar quem chega de noite.
O lobo escutava com atenção.
Em troca, continuou o cão, o dono me dá ossos com carne, sobra de peixe, pão molhado no caldo. Cama perto do fogo. Carinho na cabeça quando a família chega.
O lobo pensou na chuva, no frio e nas noites de barriga vazia.
Está bem, disse ele. Eu vou. Melhor comer todo dia do que caçar sem garantia.
E os dois começaram a descer a estrada juntos, em direção à casa.
Andaram um bom pedaço conversando. Em certa altura, o lobo olhou de lado e reparou numa coisa no pescoço do companheiro.
Tinha uma faixa ali, um anel de pelo gasto, mais curto que o resto, quase raspado.
Ei, o que é essa marca no seu pescoço?, perguntou o lobo.
Ah, não é nada, respondeu o cão.
Como não é nada? Me diga.
O cão respondeu sem dar importância nenhuma.
É da corrente. De dia eles me prendem, porque dizem que eu durmo demais e atrapalho. À noite me soltam pra eu guardar o pátio. É só isso.
O lobo parou no meio da estrada.
Então você fica preso?
Só de dia, respondeu o cão. E olhe, você se acostuma rápido. Depois da primeira semana nem sente mais.
O lobo ficou um tempo calado, olhando a marca.
Muito obrigado pelo jantar, disse ele por fim. Prefiro não ir.
Mas você está com fome, insistiu o cão.
Estou, respondeu o lobo. E amanhã talvez esteja de novo. Mas eu como onde eu quero, na hora que eu quero, e ninguém me prende de dia pra eu servir de noite.
Deu meia-volta e subiu de volta pela estrada, em direção ao mato.
O cão ficou olhando o amigo sumir na curva, sem entender direito, e depois desceu sozinho pra casa, onde o jantar estava esperando.
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