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Fábula do Dia   Fábula do Dia
ED 034
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A montanha rachou e saiu um rato

O chão tremeu por dias, a multidão se juntou na encosta esperando um monstro, e pela fenda aberta saiu correndo um bicho de palmo.

A fenda aberta na encosta da montanha com a multidão parada de longe e um rato cinza saindo pela racha, cena da fábula da montanha em trabalho de parto.

A fenda aberta na encosta da montanha

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"Vão entrar em trabalho de parto as montanhas, e vai nascer um rato ridículo", diz Horácio aos irmãos Pisões, em Roma, por volta de 19 a.C., no verso 139 da carta em versos que ficou conhecida como Arte Poética. Ele falava de poeta que promete o mundo na primeira linha e entrega pouco na última.

O verso pegou porque a cena já corria antes dele, de boca em boca, e não precisava de explicação nenhuma para ser entendida. Uma montanha em dores, um povo inteiro parado na encosta esperando, e um bicho de palmo saindo pela fenda.

Na coleção latina de Fedro ela virou fábula com começo, meio e fim, no livro IV, com o título Mons parturiens, a montanha em trabalho de parto. No catálogo montado por Ben Edwin Perry ela leva o número 520.

O elenco cabe numa linha: uma montanha, um estrondo, uma multidão e um rato. Não tem raposa, não tem leão e não tem diálogo entre bichos. Ninguém morre, ninguém é punido e ninguém sai machucado.

O que faz a história funcionar é a distância entre o tamanho do anúncio e o tamanho do resultado. A montanha não mentiu de propósito. Ela rugiu, tremeu e rachou de verdade, e o povo que largou o serviço para subir até lá tinha bom motivo para subir.

Com criança funciona porque o susto e o alívio chegam juntos, e o riso vem no segundo seguinte. A partir dos quatro anos, qualquer criança já esperou algo enorme e recebeu algo pequeno na mão.

A leitura em voz alta cabe em vinte segundos, e a pausa entre o último estrondo e a saída do rato é onde a fábula inteira acontece.

A fábula vem completa aqui embaixo, do primeiro tremor até o rato sumindo no capim, reescrita em português de hoje pra sair na sua voz sem tropeço. Depois dela vem a origem declarada, com o verso latino de Horácio, o texto de Fedro, o provérbio grego que Plutarco registrou e o poema francês do século XVII. E no fim, como usar a cena pra falar de promessa e de tamanho com quem mora com você.

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I  A Fábula do Dia

O estrondo que durou três dias

Uma montanha que começou a gemer sozinha, uma multidão que largou o trabalho para ver e um bicho que ninguém tinha imaginado. A fábula vem completa aqui embaixo.

A montanha começou a gemer numa manhã de céu limpo. O som vinha de dentro da pedra, abafado, como se algo empurrasse a encosta por baixo.

O primeiro que ouviu foi um pastor.

Ele estava com o rebanho na parte de baixo do morro.

Sentiu o chão vibrar debaixo das sandálias.

Desceu correndo e contou na aldeia.

No dia seguinte o gemido ficou mais forte.

As pedras soltas rolavam encosta abaixo sozinhas.

A água do poço da aldeia ficou turva.

Os cachorros começaram a uivar de madrugada.

No terceiro dia a montanha estrondou.

O estrondo foi ouvido nas aldeias do outro lado do vale.

A notícia correu de casa em casa.

A montanha está para dar à luz, diziam.

Os homens deixaram o campo no meio do serviço.

As mulheres apagaram o fogo e fecharam a porta.

As crianças foram na frente, subindo pelo atalho.

Todo mundo subiu até o meio da encosta e ficou olhando de longe.

Alguns diziam que ia sair um gigante de pedra.

Outros diziam que ia sair um dragão com asa de couro.

Um velho disse que ia sair um rio de fogo e que era melhor descer.

Ninguém desceu.

A terra tremeu mais uma vez, mais forte que nas outras.

A encosta rachou de cima até embaixo.

A fenda abriu com um estalo seco.

Saiu poeira, saiu cheiro de pedra quente e saiu silêncio.

A multidão prendeu a respiração.

Pela fenda saiu um rato.

Um rato cinza, do tamanho de uma mão fechada.

Ele parou na beira da racha, farejou o ar e sacudiu as orelhas.

Depois desceu a encosta correndo entre os pés das pessoas.

Um menino riu primeiro.

Depois riu a aldeia inteira.

Um homem chutou uma pedra e disse que tinha perdido o dia de trabalho.

Uma mulher disse que a montanha tinha feito por bem.

O rato entrou no capim seco do outro lado da trilha.

A montanha ficou quieta.

As pessoas desceram de volta para a aldeia.

A fenda continuou aberta na encosta.

 
 

II  A Origem

O verso 139, o número 520 e o livro V

Um verso latino escrito para explicar como não abrir um poema, uma fábula romana de três linhas, um provérbio grego que Plutarco anotou numa biografia militar, e uma cena que atravessou vinte séculos sem mudar de personagem.

O texto mais antigo que chegou inteiro é de Horácio, no poema que a tradição chama de Arte Poética e que ele escreveu como carta em versos aos irmãos Pisões, em Roma, por volta de 19 a.C. No verso 139 está a linha que virou provérbio em meia Europa: parturient montes, nascetur ridiculus mus.

Horácio não estava contando uma fábula ali. Ele estava dando conselho técnico de escrita, e usou a montanha como exemplo do poeta que abre o trabalho anunciando guerras e reis e depois entrega um episódio miúdo.

A versão narrada, com multidão, expectativa e desfecho, é de Fedro, o liberto que passou as fábulas gregas para o latim em verso no século I d.C. Ela aparece no livro IV das Fabulae com o título Mons parturiens:

Mons parturibat, gemitus immanes ciens,
eratque in terris maxima expectatio.
At ille murem peperit.

A montanha estava em trabalho de parto, soltando gemidos imensos, e havia na terra a maior expectativa. Mas ela pariu um rato.

Fedro, Mons parturiens, Fabulae, livro IV, fábula 24, século I d.C.

O texto de Fedro sobreviveu num único manuscrito medieval, o Codex Pithoeanus, do século IX, e só chegou ao público impresso quando Pierre Pithou publicou a primeira edição das fábulas em Troyes, na França, em 1596. A edição bilíngue de referência hoje é Babrius and Phaedrus, organizada por Ben Edwin Perry para a Loeb Classical Library e publicada pela Harvard University Press em 1965.

É no catálogo do mesmo Perry, montado na obra Aesopica e publicada pela University of Illinois Press em 1952, que a história recebe o número 520. O número serve porque o título muda de língua para língua: a montanha em trabalho de parto, a montanha que pare, a montanha e o rato.

A frase que já era ditado antes de virar fábula

Antes de Horácio e antes de Fedro, a cena circulava como provérbio grego. Plutarco a registra na Vida de Agesilau, capítulo 36, escrita por volta do ano 100 d.C., quando conta que os egípcios zombaram do rei espartano dizendo que a montanha teve dores de parto e pariu um rato.

Na França, Jean de La Fontaine reescreveu a cena em La Montagne qui accouche, fábula 10 do livro V das Fables, publicada em Paris em 1668, e usou o fim do poema para comparar a montanha aos autores que anunciam obras grandiosas e publicam páginas magras.

A expressão sobrevive nas línguas modernas quase intacta. O inglês diz que a montanha teve dores de parto e pariu um rato, o francês repete o parto da montanha, e o português usa a versão curta de sempre, muito barulho por pouco resultado.

 

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III  A Lição que Fica

O tamanho do anúncio e o tamanho do rato

A moral impressa embaixo desta fábula costuma ser a mais preguiçosa de todas: não prometa demais. Dita assim, ela vira recado para quem fala alto e joga fora a parte mais interessante da cena, que é a multidão.

Repare que a montanha não enganou ninguém com palavra. Ela não anunciou nada, não prometeu nada e não convocou o povo para a encosta. Ela gemeu, tremeu e rachou. Quem prometeu o gigante de pedra e o dragão foram as pessoas que subiram, uma dizendo para a outra o que ia sair.

O barulho era real. O tremor era real. A fenda continua aberta na encosta até hoje na história. O que não existia era o monstro, e o monstro nasceu na boca de quem esperava.

O rato era o tamanho verdadeiro do que a montanha tinha dentro. O gigante de pedra existia só no intervalo de três dias em que ninguém tinha visto nada ainda.

Tem uma segunda camada, e é a que costuma incomodar o adulto. A fábula não manda calar a boca nem trabalhar escondido. Ela não diz que anunciar é errado, e não promete que quem fala pouco entrega muito.

Ela marca outro ponto: quanto mais tempo dura o barulho antes da entrega, maior fica o bicho que as pessoas imaginam. Três dias de estrondo transformaram um rato em decepção pública. O mesmo rato, saindo no primeiro dia, teria virado só um rato.

Vale dizer também o que a história não ensina. Tem trabalho que exige tempo longo e silêncio, e obra grande costuma demorar. O erro da montanha não foi demorar, foi deixar o vale inteiro parado na encosta enquanto demorava.

Antes de começar: diga a idade e o tempo em voz alta. A partir dos quatro anos, vinte segundos.

Na hora da espera: conte devagar os três dias, o poço turvo e os cachorros uivando. Deixe a criança dizer o que ela acha que vai sair.

Na hora do rato: pare. Diga a frase do rato saindo e conte até três antes de continuar. O riso da criança faz parte da história.

Na hora da pergunta: pergunte o que ela já esperou muito e recebeu pequeno. A resposta dela vale mais do que a sua.

O adulto que lê conhece a mesma encosta na reunião marcada com três semanas de antecedência que durou onze minutos, no filme anunciado dois anos antes da estreia, na conversa séria que o casal adiou por um mês e resolveu em cinco frases, e no presente embrulhado grande demais para o que tinha dentro.

“O que você anunciou alto e ainda não entregou?”

A montanha grega termina sem punir ninguém.

A fenda continua aberta.

A aldeia voltou para o serviço.

O rato sumiu no capim.

 
 

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No verso 139 da Arte Poética, Horácio usa a imagem da montanha em trabalho de parto pra criticar que tipo de poeta?

AO que copia outros autores sem citar a fonte
BO que promete o mundo na primeira linha e entrega pouco na última
CO que escreve rápido demais e erra a métrica
DO que evita temas grandiosos por medo da crítica

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