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A edição de hoje foi escolhida pela maioria dos leitores na votação de ontem.
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A navalha que se escondeu do barbeiro
Numa fábula de Leonardo da Vinci, a lâmina larga a barbearia para guardar o brilho e reaparece com o fio comido pela ferrugem.
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A navalha ao sol, antes de se esconder
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“Voltarei eu à barbearia depois de ver o que vi?”, perguntou a navalha a si mesma, deitada ao sol no parapeito da janela do barbeiro, numa fábula escrita por Leonardo da Vinci em Milão.
Pouco antes, ela tinha feito o serviço de todo dia. Raspou a barba de um freguês, foi limpa num pano e voltou a dormir dentro do cabo, que lhe servia de bainha.
O cabo era a casa dela. Uma peça de chifre, com uma fenda comprida, onde a lâmina se dobrava e ficava protegida da umidade e dos tombos.
Naquela manhã, a navalha não quis ficar lá dentro. Saiu do cabo sozinha, como só os objetos das fábulas fazem, e foi se deitar onde batia o sol.
A luz caiu sobre o aço e voltou inteira. A lâmina viu o sol espelhado no próprio corpo, um clarão tão forte que ofuscava quem olhasse.
Ela nunca tinha se visto assim. Na barbearia, passava o dia entre espuma, pelos e pano úmido, e ninguém parava para reparar no brilho dela.
Agora reparava ela mesma. Virava de um lado e do outro, e cada movimento soltava um reflexo novo na parede caiada.
Foi então que veio a pergunta. Uma lâmina capaz de devolver o sol devia mesmo voltar a raspar queixo de lavrador e de carregador do mercado?
A navalha olhou para dentro da barbearia. Viu as bacias de latão, a toalha pendurada, a cadeira de palha gasta pelo peso de tantos fregueses.
Viu também a pedra de amolar no canto, onde o barbeiro passava o fio dela toda semana. Aquela pedra a esfregava, a gastava um pouco e devolvia o corte afiado.
Ela achou a pedra uma ofensa. Tanta beleza não tinha nascido para viver entre sabão e barba.
Decidiu, ali mesmo, não voltar. A primeira faixa conta para onde ela foi e o que encontrou ao sair de lá, muitos meses depois. Em seguida vem o homem que escreveu a fábula e os cadernos onde ela ficou guardada. Por último, o que a lâmina ensina a quem lê com uma criança ao lado.
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I A Fábula do Dia
A lâmina que virou serra
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A resposta de ontem Que parentesco o ditado vietnamita dá ao sapo diante do Céu? Tio. O ditado diz "Con cóc là cậu ông Trời, hễ ai đánh cóc thì Trời đánh cho": o sapo é tio do Céu, e quem bate no sapo apanha do Céu. Daí as crianças do Vietnã aprendem a não maltratar sapo, e o coaxo virou aviso de chuva no campo. |
Il rasoio (A navalha), fábula de Leonardo da Vinci, ganha o rumo quando a lâmina troca a barbearia por um esconderijo onde mão nenhuma a encontrasse.
Ela esperou o barbeiro sair para o almoço. Escorregou do parapeito, passou por baixo da porta dos fundos e procurou um canto escuro, longe das mãos e da pedra de amolar.
Achou uma fresta entre as tábuas de um depósito velho, onde se guardavam caixotes e trastes sem uso. Ali entrou e se deitou, ainda brilhando.
Do lado de fora, a barbearia seguiu sem ela. O barbeiro procurou a navalha uma tarde inteira, resmungou contra o próprio descuido e comprou outra na feira.
O descanso
No esconderijo não havia freguês, nem espuma, nem pano. A navalha passava os dias parada, lembrando o sol que tinha visto no próprio corpo.
Achava que guardava o brilho intacto. Não podia se enxergar no escuro, mas tinha certeza de estar tão bonita quanto naquela manhã.
O depósito, porém, era úmido. A chuva entrava pelas telhas soltas, e o ar ficava pesado de mofo nos meses de inverno.
A umidade pousava no aço sem ninguém notar. Primeiro veio uma mancha escura do tamanho de um grão de areia. Depois outra, e outra, espalhadas ao longo do fio.
Ninguém vinha secar a lâmina. Ninguém passava óleo, ninguém a levava à pedra, ninguém a usava. Ela tinha escolhido justamente esse sossego.
A saída
Passaram-se muitos meses. Um dia, cansada do escuro, a navalha resolveu voltar à janela e se olhar de novo ao sol.
Saiu da fresta e foi se arrastando até a luz. Deitou no mesmo parapeito e esperou o clarão de antes.
O clarão não veio. O sol bateu no aço e não voltou reflexo algum: a superfície estava fosca, marrom, coberta de crostas.
A navalha olhou o próprio fio. Onde antes havia uma linha reta e fina, agora havia dentes tortos, roídos pela ferrugem.
Leonardo escreve que ela tinha ficado parecida com uma serra enferrujada. A lâmina que cortava um pelo de barba sem esforço já não cortava nada.
Ela chorou o brilho perdido. O arrependimento não devolveu um único fio de corte, e a fábula termina com a navalha estragada ao sol, no mesmo parapeito de onde tinha partido.
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II A Origem Os cadernos de Milão
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A fábula da navalha saiu dos cadernos de Leonardo da Vinci (1452 a 1519), o pintor da Mona Lisa, que escreveu dezenas de fábulas curtas nos anos em Milão.
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Leonardo chegou a Milão por volta de 1482, para servir à corte de Ludovico Sforza, o duque da cidade. Pintava, desenhava máquinas, organizava festas e enchia folhas soltas de anotações.
Nessas folhas cabia tudo: estudo de anatomia, desenho de canal, lista de compras, piada, adivinha e fábula. Muitas das fábulas foram escritas nos anos 1490, ao lado de cálculos de engenharia.
A escrita espelhada
Leonardo escrevia da direita para a esquerda, com as letras invertidas. Para ler as anotações dele com facilidade, é preciso pôr a folha diante de um espelho.
Ele era canhoto, e escrever assim evitava borrar a tinta fresca com a mão. Os estudiosos discutem se havia também a vontade de esconder as ideias dos curiosos, e a resposta segura não existe: Leonardo nunca deixou explicação por escrito.
Os papéis depois de Leonardo
Quando ele se foi, em 1519, os papéis ficaram com o discípulo Francesco Melzi. Depois que Melzi faleceu, os herdeiros espalharam as folhas entre colecionadores.
O escultor Pompeo Leoni juntou centenas delas num volume enorme, o Codice Atlantico (Códice Atlântico, chamado assim pelo formato grande das folhas, de atlas). O volume está hoje na Biblioteca Ambrosiana, em Milão.
Pedras, chamas e lâminas
Nas fábulas de Leonardo, quem fala são plantas, bichos e objetos de oficina. Numa delas, uma pedra larga o alto do morro para morar na estrada e acaba pisada por carroças.
O tema volta muitas vezes: alguém troca o lugar certo por uma vaidade e paga caro. A navalha é a versão de aço dessa ideia, escrita por um homem que vivia cercado de ferramentas.
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“Siccome il ferro s'arrugginisce sanza esercizio, e l'acqua si putrefà o nel freddo s'addiaccia, così lo 'ngegno sanza esercizio si guasta.”
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Leonardo da Vinci, em anotação reunida no Códice Atlântico, no fim do século 15: “Assim como o ferro enferruja sem uso, e a água apodrece ou congela no frio, o engenho sem exercício se estraga.”
A frase não tem barbeiro nem sol. Na fábula, Leonardo deu à mesma ideia um corpo de aço e um espelho de luz, e escreveu a moral na última linha: assim acontece com o engenho (a inteligência) que troca o exercício pelo ócio (a folga sem propósito).
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