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O terreno escolhido duas vezes, o trabalho feito em turnos trocados, o encontro no fim da obra e a noite que esvaziou a casa nova.
Câmara Cascudo registrou os dois moradores sem nome próprio: o veado e a onça, um caçado e um caçador, dividindo o mesmo chão de roça. O terreno era plano.
O descampado ficava na volta do rio.
O chão era limpo de pedra.
Havia água a cem passos da beira do mato.
O veado passou por ali de manhã.
Olhou o terreno inteiro.
Decidiu levantar a casa dele naquele lugar.
Cortou o mato baixo até o meio-dia.
Empilhou os galhos de um lado.
Foi embora dormir no capão.
A onça chegou ao descampado à tarde.
Olhou o terreno inteiro.
Viu o mato cortado e os galhos empilhados.
"Tupã roçou o terreno para mim."
Cortou as estacas no resto da tarde.
Fincou as quatro estacas nos cantos.
Foi embora dormir na lapa de pedra.
O veado voltou na manhã seguinte.
Viu as quatro estacas de pé.
"Tupã fincou as estacas para mim."
Amarrou os caibros com cipó.
Trabalhou até o sol ficar em cima da cabeça.
Foi embora outra vez.
A onça voltou depois do almoço.
Viu os caibros amarrados.
"Tupã trabalha comigo todo dia."
Cobriu metade do telhado de palha.
O veado terminou a outra metade na manhã seguinte.
A onça levantou as paredes de barro à tarde.
O veado abriu a porta e as duas janelas.
A casa ficou pronta numa lua.
Nenhum dos dois tinha visto o outro trabalhar.
A onça chegou primeiro na hora da mudança.
Entrou, escolheu o quarto do fundo e deitou na esteira.
O veado chegou ao anoitecer.
Empurrou a porta.
Viu a onça deitada lá dentro.
A onça levantou a cabeça.
"Foi você quem roçou o terreno."
"Foi você quem amarrou os caibros."
"A casa é dos dois."
O veado ficou parado na porta.
Depois entrou e foi para o quarto da frente.
Cada um deitou no seu canto.
A onça olhou o teto e pensou na carne do veado.
O veado olhou o teto e pensou nos dentes da onça.
Nenhum dos dois pegou no sono.
No meio da noite a onça se virou na esteira.
A palha da esteira estalou.
O veado ouviu o estalo e se levantou de um salto.
O casco bateu na parede de barro.
A onça ouviu a pancada e pulou da esteira.
O veado saiu pela porta e correu para o mato.
A onça saiu pela janela e correu para a pedra.
Os dois correram a noite inteira.
Nenhum dos dois olhou para trás.
De manhã a porta continuava aberta.
A palha do telhado estava inteira.
O barro das paredes estava inteiro.
Não havia ninguém lá dentro.
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