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Fábula do Dia   Fábula do Dia
ED 043

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A onça e o veado ergueram a mesma casa sem se ver

Cada um roçou o terreno no seu turno, agradeceu a Tupã pela ajuda e só descobriu o vizinho com a palha do telhado já no lugar.

Um veado e uma onça parados diante de uma casa de barro e palha num descampado de beira de rio.

O veado e a onça diante da casa erguida

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"Foi Tupã que roçou este terreno para mim", diz o veado diante do mato derrubado que ele mesmo tinha deixado pela metade na véspera, na versão do conto que Luís da Câmara Cascudo reuniu em Contos Tradicionais do Brasil, livro de 1946.

A cena se passa num descampado de beira de rio. Dois bichos escolheram o terreno para morar, cada um sem notícia do outro, e cada um trabalhou no seu turno, achando que a obra adiantada era presente de cima. Um deles caça no mato, o outro é caçado no mato, e nenhum desconfiou de quem dormia a poucas centenas de passos dali.

Tupã, no tupi, é o nome do trovão, e foi a palavra que os missionários do século XVI adotaram para dizer Deus aos índios da costa. Dentro da história, ele funciona como o sócio invisível que nenhum dos dois viu chegar ao terreiro.

O veado corta o mato e vai embora. A onça chega depois, encontra o serviço feito e agradece. Na manhã seguinte, o veado encontra as estacas fincadas e agradece também. A casa sobe assim, turno após turno, sem que nenhum deles saiba quem trabalha do outro lado do dia.

O encontro acontece com a última folha de palha já no telhado, e o que vem depois dele não é briga. É uma noite de portas fechadas, cada um no seu quarto, ouvindo o outro se mexer do lado de lá da parede de barro. Basta um estalo para a casa inteira perder os dois moradores de uma vez.

A fábula vem inteira aqui embaixo, do primeiro golpe de foice até a porta aberta de manhã. Depois dela, a origem declarada: quem passou o conto para o papel, em que livros ele aparece, o que se sabe da matriz indígena e o que ninguém consegue datar. E no encerramento, o que a casa vazia ensina sobre morar ao lado de quem a gente nunca perguntou nada.

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I  A Fábula do Dia

O descampado, a foice e a palha do telhado

O terreno escolhido duas vezes, o trabalho feito em turnos trocados, o encontro no fim da obra e a noite que esvaziou a casa nova.

Câmara Cascudo registrou os dois moradores sem nome próprio: o veado e a onça, um caçado e um caçador, dividindo o mesmo chão de roça. O terreno era plano.

O descampado ficava na volta do rio.

O chão era limpo de pedra.

Havia água a cem passos da beira do mato.

O veado passou por ali de manhã.

Olhou o terreno inteiro.

Decidiu levantar a casa dele naquele lugar.

Cortou o mato baixo até o meio-dia.

Empilhou os galhos de um lado.

Foi embora dormir no capão.

A onça chegou ao descampado à tarde.

Olhou o terreno inteiro.

Viu o mato cortado e os galhos empilhados.

"Tupã roçou o terreno para mim."

Cortou as estacas no resto da tarde.

Fincou as quatro estacas nos cantos.

Foi embora dormir na lapa de pedra.

O veado voltou na manhã seguinte.

Viu as quatro estacas de pé.

"Tupã fincou as estacas para mim."

Amarrou os caibros com cipó.

Trabalhou até o sol ficar em cima da cabeça.

Foi embora outra vez.

A onça voltou depois do almoço.

Viu os caibros amarrados.

"Tupã trabalha comigo todo dia."

Cobriu metade do telhado de palha.

O veado terminou a outra metade na manhã seguinte.

A onça levantou as paredes de barro à tarde.

O veado abriu a porta e as duas janelas.

A casa ficou pronta numa lua.

Nenhum dos dois tinha visto o outro trabalhar.

A onça chegou primeiro na hora da mudança.

Entrou, escolheu o quarto do fundo e deitou na esteira.

O veado chegou ao anoitecer.

Empurrou a porta.

Viu a onça deitada lá dentro.

A onça levantou a cabeça.

"Foi você quem roçou o terreno."

"Foi você quem amarrou os caibros."

"A casa é dos dois."

O veado ficou parado na porta.

Depois entrou e foi para o quarto da frente.

Cada um deitou no seu canto.

A onça olhou o teto e pensou na carne do veado.

O veado olhou o teto e pensou nos dentes da onça.

Nenhum dos dois pegou no sono.

No meio da noite a onça se virou na esteira.

A palha da esteira estalou.

O veado ouviu o estalo e se levantou de um salto.

O casco bateu na parede de barro.

A onça ouviu a pancada e pulou da esteira.

O veado saiu pela porta e correu para o mato.

A onça saiu pela janela e correu para a pedra.

Os dois correram a noite inteira.

Nenhum dos dois olhou para trás.

De manhã a porta continuava aberta.

A palha do telhado estava inteira.

O barro das paredes estava inteiro.

Não havia ninguém lá dentro.

 
 

II  A Origem

Do terreiro tupi para a página de 1946

Um folclorista de Natal que catalogou o conto em 1946, um antecessor sergipano que já imprimia história de bicho em 1885, um oficial do Império que anotou textos em tupi em 1876 e uma matriz indígena que ninguém consegue datar: o veado e a onça chegaram até aqui por essas mãos.

Luís da Câmara Cascudo nasceu em Natal, no Rio Grande do Norte, em 1898, e morreu na mesma cidade em 1986. Foi ele quem organizou o conto do veado e da onça dentro de Contos Tradicionais do Brasil, publicado em 1946, no grupo que ele chamou de contos de animais.

O livro não inventa enredo. Cascudo recolheu versões orais, comparou cada uma com coletâneas estrangeiras e classificou a história por tipo, anotando onde ela aparecia dentro e fora do Brasil. O conto da casa erguida por dois bichos que não se viam circulava em mais de um estado, com troca de personagem conforme a região.

Antes dele, Sílvio Romero, nascido em Lagarto, Sergipe, em 1851, já havia impresso Contos Populares do Brasil, de 1885, a primeira reunião ampla de narrativa oral brasileira em livro. Romero separou o material por procedência, e creditava ao índio boa parte das histórias em que bicho de mato fala, trabalha e mora em casa.

A camada indígena tem registro mais antigo ainda. José Vieira Couto de Magalhães, oficial e presidente de província no Império, publicou O Selvagem em 1876, com textos colhidos em tupi na Amazônia e a tradução em português ao lado, entre eles o ciclo do jabuti, em que o bicho pequeno vence o grande pela astúcia.

O conto popular é um documento vivo, denunciando costumes, ideias, mentalidades, decisões e julgamentos.

Luís da Câmara Cascudo, Contos Tradicionais do Brasil, 1946.

O que não se sabe sobre a origem

Nenhum documento diz quem contou a história pela primeira vez, nem em que século ela começou a correr. A tradição é oral, e boca não deixa data. O que existe são registros de coletor, todos do século XIX para cá, sempre tomados de alguém que ouviu de outro alguém.

A moldura religiosa fica igualmente em aberto. Tupã, o trovão do panteão tupi, virou nome de Deus na catequese jesuíta do século XVI, e José de Anchieta usou a palavra nesse sentido nos textos que escreveu para os índios da costa. Não há como afirmar se o veado agradecia a Tupã antes da chegada do missionário ou se a fórmula entrou na história depois dele.

O desfecho também varia de boca para boca. Numa linha de versões os dois moradores fogem no escuro e a casa fica vazia, como no texto acima. Noutra, a convivência termina em ataque, e os coletores guardaram os dois finais lado a lado, sem eleger qual seria o verdadeiro.

 

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III  A Lição que Fica

Dois moradores que fizeram a conta pelo medo

A obra dos dois foi real, o sócio invisível nunca existiu, e a casa se esvaziou pelo que cada morador imaginou do outro no escuro.

Repare no que cada um viu. O veado viu estacas fincadas que não eram dele. A onça viu mato cortado que não era dela. Os dois tinham diante dos olhos a prova de que havia mais alguém no terreno, e nenhum deles foi atrás de saber quem.

A explicação sobrenatural saiu barata e resolveu a dúvida na hora. Tupã ajudou, ponto final. Enquanto a hipótese fácil se manteve de pé, ninguém precisou perguntar nada, e a casa subiu inteira em cima de uma conta errada.

O medo dos dois não nasceu do que o vizinho fez dentro da casa: nasceu do que cada um já sabia sobre a espécie do outro antes da primeira palavra trocada.

A onça não atacou o veado. O veado não atacou a onça. O que houve foi um estalo de palha e um casco batendo no barro, dois barulhos comuns de noite em casa nova, lidos por cada morador como o começo do bote do vizinho.

A casa também merece atenção. Ela ficou de pé, com a palha inteira e a porta aberta, e passou a não servir para nada. O trabalho dos dois foi bom, a obra saiu firme, e nem assim os moradores ficaram lá dentro.

Vale dizer o que o conto não ensina. Ele não manda confiar em desconhecido, não promete convivência pacífica entre caçador e caça e não trata o veado de bobo por ter corrido. O aviso é estreito: quem divide chão sem combinar nada acerta a conta no primeiro barulho da madrugada.

Antes de começar: diga a idade e o tempo em voz alta. A partir dos quatro anos, um minuto de leitura.

Na hora dos turnos: faça o agradecimento do veado e o da onça com a mesma entonação, para a criança perceber que os dois erram do jeito idêntico.

Na hora do encontro: pare a leitura quando o veado empurra a porta, e conte até dois antes de continuar.

Na hora do estalo: baixe a voz até quase sumir, e leia a corrida inteira sem tomar fôlego no meio.

O adulto reconhece a casa vazia na sociedade que se desfaz sem uma conversa, no time em que dois setores entregam a mesma tarefa sem se falarem e no vizinho de parede que a gente julga pelo barulho de madrugada.

“Quem trabalha do outro lado da sua parede, e o que você inventou sobre essa pessoa?”

A porta continuou aberta.

O mato voltou a crescer no terreiro.

A casa ficou vazia.

 
 
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