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Fábula do Dia   Fábula do Dia
ED 046

100% escolheram O Pardal de Língua Cortada. Sai em 23/09.

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A pedra deixou as flores e foi parar na estrada

Vivia no alto do barranco cercada de flores, quis a companhia das pedras do caminho e passou a ser pisada por roda, casco e bota.

Uma pedra grande no alto de um barranco florido, com a estrada de terra logo abaixo.

A pedra no alto, antes de rolar para o caminho

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"Que faço eu aqui, entre estas ervas?", diz a pedra do alto do barranco, na fábula que Leonardo da Vinci anotou nas folhas hoje guardadas no Códice Atlântico, na Biblioteca Ambrosiana, em Milão. Ela olha para baixo e vê companhia: um punhado de pedras iguais a ela, deitadas lado a lado no chão batido.

A história inteira cabe num parágrafo do caderno. Uma pedra grande mora num lugar alto, com flores em volta e vista de tudo. Abaixo dela corre um caminho de terra onde outras pedras se amontoam. Ela decide descer.

Leonardo escrevia essas fábulas curtas nas mesmas folhas em que projetava engrenagens, parafusos e asas. Entre um cálculo de alavanca e um desenho de máquina de guerra, aparecem um bicho, uma planta ou uma pedra fazendo escolhas de gente. Ele nunca publicou nenhuma delas.

Quem lê o caderno hoje vê as duas coisas na mesma página, e a vizinhança explica a fábula. O homem que media a queda de um corpo pelo ar também media a queda de uma decisão: o texto da pedra tem a mesma economia de uma anotação técnica, poucas linhas, nenhum adorno, o resultado registrado sem piedade.

A pedra desta edição não é castigada por ambição nem por ganância. O desejo dela é modesto, quase simpático: ficar perto de quem parece com ela. E é justamente o desejo modesto que cobra o preço alto, porque o caminho onde as outras pedras moram é caminho de passagem, com roda de carro, casco de cavalo e sola de bota andando por cima o dia inteiro.

O que vem abaixo é a fábula na íntegra, do barranco florido até o pó do caminho. Depois dela, a procedência: quem escreveu, em que caderno, como esse caderno atravessou quatro séculos e dois países, quem o transcreveu pela primeira vez e o que nenhum documento datado consegue confirmar sobre essa página. E no encerramento, o que a descida da pedra ensina sobre trocar um lugar bom por um lugar movimentado.

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I  A Fábula do Dia

A pedra rolou sozinha até o caminho

Um barranco alto com flores, um caminho de terra logo abaixo e uma pedra que resolveu descer por vontade própria.

Leonardo da Vinci escreveu a fábula sem nome próprio para nenhum personagem: a pedra grande, as pedras do caminho, as flores do barranco e os viajantes que passam. A cena começa num lugar alto.

Havia um barranco acima de uma estrada de terra.

No alto do barranco morava uma pedra grande.

Em volta dela cresciam flores de toda cor.

Havia ervas altas, mato baixo e um arbusto.

A pedra enxergava o vale inteiro dali.

O vento passava e não a movia.

A chuva caía e escorria pelos lados dela.

Ninguém subia até ali.

Lá embaixo passava o caminho de terra.

No caminho havia muitas pedras juntas.

Pedras do tamanho dela, deitadas lado a lado.

A pedra grande olhava para baixo todo dia.

Via as companheiras reunidas no chão batido.

"Que faço eu aqui, entre estas ervas?"

"Quero morar com as minhas iguais."

Ela se soltou da terra do barranco.

Rolou barranco abaixo entre as flores.

Derrubou o mato no caminho da descida.

Parou no chão duro, junto das outras pedras.

Ficou deitada ali, contente, no meio delas.

Pouco tempo depois começou o movimento.

Passou uma carroça carregada de lenha.

A roda passou por cima dela.

Passou um cavalo com o dono montado.

O casco bateu no lombo da pedra.

Passou um boi puxando um arado.

Passaram homens de bota de sola grossa.

Passou um rebanho inteiro de ovelhas.

Cada pé que passava levantava poeira.

A poeira assentava em cima dela.

O lodo da chuva cobria o resto.

A pedra tentou se levantar do chão.

Não conseguiu sair de onde tinha parado.

Olhou para cima, na direção do barranco.

O lugar alto continuava lá, com as flores.

As ervas tinham fechado o buraco que ela deixou.

Daquela distância, o alto parecia um sítio tranquilo.

A pedra chorou o tempo perdido.

Chorou por ter trocado a solidão pela companhia.

Nenhuma das pedras do caminho respondeu.

Todas levavam a mesma roda em cima.

Todas tinham a mesma poeira nas costas.

Passou outra carroça carregada de lenha.

 
 

II  A Origem

As fábulas escondidas entre desenhos de máquina

Um pintor florentino que enchia cadernos de anotações em escrita invertida, um colecionador italiano que recortou e colou essas folhas num volume gigante no fim do século XVI, uma biblioteca de Milão que o guarda desde 1637 e um estudioso alemão que transcreveu tudo em 1883: a pedra do barranco chegou até aqui por esse caminho.

Leonardo da Vinci nasceu em 1452, no vilarejo de Vinci, perto de Florença, e morreu em 1519, no castelo de Cloux, em Amboise, na França. Entre uma coisa e outra encheu milhares de folhas de anotações sobre água, voo, anatomia, pintura e mecânica.

No meio desse material aparecem as favole (fábulas, em italiano), textos de cinco a quinze linhas com bichos, plantas e objetos no papel de personagem. A da pedra é uma delas.

Leonardo escrevia da direita para a esquerda, com as letras invertidas, o que hoje se chama escrita especular (a escrita que só se lê direito no espelho). Canhoto, ele tinha a mão a favor desse traçado, e o hábito atrasou a leitura dos cadernos por séculos.

As folhas com as fábulas foram parar no Códice Atlântico, o maior conjunto de papéis dele. O nome vem do formato: o colecionador Pompeo Leoni montou o volume por volta de 1590 usando folhas de atlas, grandes o bastante para receber recortes de tamanhos diferentes colados lado a lado.

Isto acontece a quem deixa a vida solitária e contemplativa e vem morar nas cidades, entre gente cheia de males infinitos.

Leonardo da Vinci, fábula da pedra, em The Literary Works of Leonardo da Vinci, transcrita e organizada por Jean Paul Richter, 1883.

A Biblioteca Ambrosiana, em Milão, recebeu o volume em 1637, por doação do marquês Galeazzo Arconati. A tropa de Napoleão Bonaparte levou o códice para Paris em 1796, e ele voltou para Milão em 1815, depois do Congresso de Viena. A Ambrosiana descreve o acervo em 1.119 folhas.

O estudioso alemão Jean Paul Richter publicou em 1883 a primeira edição ampla desses escritos em inglês, com o italiano original ao lado, e foi ele quem reuniu as fábulas num grupo próprio. Em 1938, o inglês Edward MacCurdy organizou outra edição por assunto, e as fábulas voltaram a circular fora dos estudos de arte.

O que ninguém consegue datar

Nenhuma das folhas de fábula traz data escrita pela mão de Leonardo. Os especialistas as situam entre os anos de Milão a serviço de Ludovico Sforza, pela letra e pelo papel, e nenhum documento fecha o ano.

Também falta prova do destino desses textos. Se eram exercício particular de escrita, rascunho para conversa de corte ou material para um livro que ele planejava, os cadernos não dizem.

O enredo da pedra não tem versão anterior conhecida em Esopo nem em Fedro, os dois nomes que Leonardo tinha à mão. A invenção parece dele, e a prova disso é apenas a ausência de registro mais antigo.

 

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III  A Lição que Fica

Quem desce por companhia paga em poeira

A pedra saiu de um lugar alto por vontade própria e terminou coberta de lama no chão de uma estrada.

Repare no motivo da descida. A pedra não quer riqueza, não quer poder, não quer vingança. Ela quer estar perto de pedras iguais a ela, e esse é o desejo mais comum que existe.

O erro dela é de leitura, não de caráter. Do alto, ela vê as outras pedras juntas e conclui que estão bem. O que ela não enxerga daquela altura é o que passa por cima delas todo dia.

A pedra avaliou a companhia e esqueceu de avaliar o lugar: quem decide se mudar pela vizinhança acaba morando no endereço.

Leonardo escreveu a moral em uma frase só, e ela fala de cidade: quem troca a vida solitária pela vida em multidão colhe o que a multidão traz junto. Ele morou em Florença, Milão, Roma e Amboise, e sabia o preço de cada mudança.

Há um detalhe cruel no fim da fábula. A pedra olha para cima e vê o barranco tranquilo, mas o barranco é o mesmo de sempre: quieto porque ninguém passa por lá. O que mudou foi a posição de quem olha, e quem está embaixo enxerga o alto com outros olhos.

A volta também está fechada. Pedra rolada não sobe barranco, e a fábula não oferece segunda chance. Leonardo corta a história no choro, sem resgate e sem conserto.

Vale marcar o que o texto não diz. Ele não manda viver sozinho nem condena quem procura os seus. O aviso é estreito: antes de descer, olhe o que passa por cima de quem já está lá embaixo.

Antes de ler: peça à criança que descreva o lugar alto com as flores, para que a queda depois tenha peso.

Na hora da descida: pare na frase em que a pedra decide rolar e pergunte o que ela espera encontrar.

Nas passagens: leia a roda, o casco e a bota em ritmo repetido, uma coisa depois da outra, sem pressa.

No fim: leia o choro baixo e pare na última linha, sem explicar a moral.

O adulto reconhece a descida na pessoa que aceita um cargo pela equipe e descobre a rotina depois, e em quem muda de bairro pelos vizinhos sem ver a rua às sete da manhã.

“Que lugar bom você trocou por um mais movimentado?”

A pedra ficou no chão.

O barranco continuou florido.

A carroça passou de novo.

 
 
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Quiz da edição

Em que ano a Biblioteca Ambrosiana, em Milão, recebeu o Códice Atlântico?

A1590, quando Pompeo Leoni montou o volume
B1637, por doação do marquês Galeazzo Arconati
C1796, quando a tropa de Napoleão levou o volume para Paris
D1883, quando Jean Paul Richter publicou a transcrição

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