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Um barranco alto com flores, um caminho de terra logo abaixo e uma pedra que resolveu descer por vontade própria.
Leonardo da Vinci escreveu a fábula sem nome próprio para nenhum personagem: a pedra grande, as pedras do caminho, as flores do barranco e os viajantes que passam. A cena começa num lugar alto.
Havia um barranco acima de uma estrada de terra.
No alto do barranco morava uma pedra grande.
Em volta dela cresciam flores de toda cor.
Havia ervas altas, mato baixo e um arbusto.
A pedra enxergava o vale inteiro dali.
O vento passava e não a movia.
A chuva caía e escorria pelos lados dela.
Ninguém subia até ali.
Lá embaixo passava o caminho de terra.
No caminho havia muitas pedras juntas.
Pedras do tamanho dela, deitadas lado a lado.
A pedra grande olhava para baixo todo dia.
Via as companheiras reunidas no chão batido.
"Que faço eu aqui, entre estas ervas?"
"Quero morar com as minhas iguais."
Ela se soltou da terra do barranco.
Rolou barranco abaixo entre as flores.
Derrubou o mato no caminho da descida.
Parou no chão duro, junto das outras pedras.
Ficou deitada ali, contente, no meio delas.
Pouco tempo depois começou o movimento.
Passou uma carroça carregada de lenha.
A roda passou por cima dela.
Passou um cavalo com o dono montado.
O casco bateu no lombo da pedra.
Passou um boi puxando um arado.
Passaram homens de bota de sola grossa.
Passou um rebanho inteiro de ovelhas.
Cada pé que passava levantava poeira.
A poeira assentava em cima dela.
O lodo da chuva cobria o resto.
A pedra tentou se levantar do chão.
Não conseguiu sair de onde tinha parado.
Olhou para cima, na direção do barranco.
O lugar alto continuava lá, com as flores.
As ervas tinham fechado o buraco que ela deixou.
Daquela distância, o alto parecia um sítio tranquilo.
A pedra chorou o tempo perdido.
Chorou por ter trocado a solidão pela companhia.
Nenhuma das pedras do caminho respondeu.
Todas levavam a mesma roda em cima.
Todas tinham a mesma poeira nas costas.
Passou outra carroça carregada de lenha.
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