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A edição de hoje foi escolhida pelo leitor Ademir Norato na votação de ontem.
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A pegada do curupira aponta para trás
Na fábula amazônica, um caçador segue o rastro do guardião da mata e anda a noite inteira no sentido oposto ao dele.
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O caçador Raimundo e a pegada invertida no barro
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“Ela vai pro lado do lago, é só seguir”, disse Raimundo Tibúrcio ao irmão Juca, agachado na beira do igarapé do Jauari, perto de Óbidos, no Pará, com o dedo em cima de uma pegada funda no barro.
Era uma pegada pequena, de pé descalço, do tamanho do pé de um menino de dez anos. O calcanhar marcava o barro na frente, e os dedos ficavam atrás, voltados para o mato.
Raimundo caçava naquela margem desde moço. Conhecia rastro de anta, de paca, de queixada (o porco-do-mato que anda em bando). Aquele ele nunca tinha visto.
Juca olhou a marca e não quis ir. Disse que pé de gente não pisa assim e que a mãe deles contava história de pegada parecida, ouvida da avó, que ouviu da bisavó.
Raimundo riu do irmão. Tinha duas pacas amarradas no jirau (a armação de varas onde se guarda a caça) e queria a terceira antes da lua subir. Pegou a espingarda, a lanterna de querosene e um pedaço de fumo de corda.
Juca voltou para casa sozinho.
Raimundo seguiu a pegada pela trilha estreita. Cada marca nova aparecia um pouco adiante da outra, sempre com o calcanhar na frente, e ele andava no sentido em que o calcanhar apontava.
Andou uma hora, duas, três. A mata fechava, os cipós batiam no rosto, e o lago não chegava. De vez em quando, um assobio fino cortava o escuro, ora à direita, ora atrás.
Perto da madrugada, a lanterna secou. Raimundo sentou numa raiz de sumaúma para esperar a luz e percebeu um problema pior que o cansaço: já não sabia de que lado ficava o rio.
A primeira faixa conta quem deixou aquela pegada, por que os dedos apontam para trás e o preço que a mata cobra de quem caça além da conta.
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I A Fábula do Dia
A pegada no barro do igarapé
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Na fábula contada às margens do Amazonas, Raimundo Tibúrcio, caçador de Óbidos, passa a noite atrás do curupira, o guardião da mata de pés virados para trás.
O curupira é pequeno, do tamanho de um menino. Tem o cabelo vermelho como fogo, o corpo coberto de pelo em algumas versões, os dentes verdes em outras. Em todas, os pés nascem virados: calcanhar na frente, dedos atrás.
Por causa desses pés, a pegada dele mente. Quem segue o rastro pensa que vai atrás do bicho e caminha para longe dele. Quanto mais depressa anda o caçador, maior fica a distância.
O curupira cuida da caça. Protege a fêmea prenhe, o filhote, o bando que desce para beber água ao entardecer. Ele não se ofende com quem caça para comer. Persegue quem atira por gosto, quem abate a fêmea com cria e quem deixa carne apodrecer no mato.
Raimundo tinha cometido os três erros naquela semana. Abateu uma paca prenhe, largou um veado ferido sem procurar e vendeu na cidade mais carne do que a família comia.
O assobio
Na fábula, o curupira avisa antes de castigar. O assobio fino que Raimundo ouvia era o chamado dele, e cada assobio vinha de um lado diferente para tirar do caçador o senso de direção.
Os ribeirinhos dizem que o curupira também bate nas sapopemas (as raízes altas, em forma de parede, das árvores grandes) para testar se elas aguentam a tempestade. O som oco ecoa longe e confunde ainda mais quem já está perdido. Raimundo ouvia as batidas e achava que eram galhos caindo.
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Seguir o rastro com pressa levou Raimundo para longe do rastro.
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O novelo de cipó
Sentado na raiz da sumaúma, Raimundo lembrou do conselho da mãe. Quem se perde por artes do curupira deve fazer um novelo de cipó, bem embolado, esconder a ponta lá dentro e largar no chão.
O curupira não resiste a um nó. Para, senta e começa a desfazer o novelo. Enquanto ele desembaraça, o caçador ganha tempo para achar o caminho.
Raimundo trançou o cipó com as mãos tremendo e deixou o novelo na raiz. Depois tirou a camisa, virou do avesso e vestiu de novo, outro remédio que a mãe ensinava. Por último, deixou o fumo de corda em cima de um tronco, como presente.
Quando o céu clareou, o assobio parou. Raimundo andou para o lado oposto ao que os calcanhares indicavam e, perto do meio-dia, ouviu o barulho da água. Era o igarapé do Jauari, a poucos metros do ponto onde tinha deixado Juca.
Tinha passado a noite andando no sentido contrário ao da criatura, mata adentro, longe do lago e longe de casa. Na semana seguinte, vendeu a espingarda.
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II A Origem A carta de São Vicente
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O curupira está entre os primeiros seres do folclore brasileiro registrados por escrito, numa carta do jesuíta José de Anchieta datada de 31 de maio de 1560, em São Vicente.
Anchieta escrevia ao padre-geral da Companhia de Jesus, em Roma, contando o que via na capitania de São Vicente: plantas, bichos, doenças e as crenças dos tupis do litoral.
No trecho sobre os seres da mata, ele registra a palavra curupira e descreve o medo que o ente causava:
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“Há certos demônios, a que os Brasis chamam corupira, que acometem aos índios muitas vezes no mato, dão-lhes de açoites, machucam-nos e matam-nos.”
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José de Anchieta, carta de São Vicente, 31 de maio de 1560.
Na mesma carta, Anchieta conta que os índios deixavam penas e flechas no alto das trilhas da serra como oferenda, para aplacar o ente. O fumo que Raimundo largou no tronco descende desse costume.
Os pés virados
Anchieta não fala dos pés. O detalhe ganha força em relatos posteriores, e a forma mais conhecida foi fixada no século 19, quando viajantes e estudiosos passaram a anotar as lendas da Amazônia.
O general José Vieira Couto de Magalhães, em O Selvagem, de 1876, reuniu histórias em nheengatu (a língua geral amazônica, derivada do tupi) e apresentou o curupira como gênio protetor da caça e das florestas.
O folclorista Luís da Câmara Cascudo, em Geografia dos Mitos Brasileiros, de 1947, acompanhou o curupira do Amazonas ao Sul e mostrou as variações. No Nordeste, ele se mistura com a caipora, que anda montada num porco-do-mato; na Amazônia, os pés virados vêm com o cabelo vermelho.
Na fábula de Óbidos, as duas tradições se encontram: o curupira tem o cabelo vermelho da Amazônia e aceita o fumo, presente que a caipora nordestina também cobra de quem entra na mata.
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Os pés virados enganam porque o caçador confia no próprio olho.
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A palavra
A origem da palavra divide os estudiosos. Uma leitura antiga, repetida em dicionários de tupi, junta curu, forma curta de curumim (menino), com pira (corpo), o que daria “corpo de menino”, ligado ao tamanho do ente.
Outros tupinólogos (estudiosos da língua tupi) contestam a leitura, e a etimologia segue sem acordo. O motivo é simples: a carta de 1560 registra a palavra sem explicar o sentido, e os tupis do litoral não deixaram escrita própria para tirar a dúvida.
O autor da fábula de Raimundo Tibúrcio também ficou sem registro. Ela circula de boca em boca no baixo Amazonas, e cada contador batiza o caçador e o igarapé do seu jeito.
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