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Fábula do Dia   Fábula do Dia
ED 052

1 leitor escolheu O Saci de Lobato. Aqui está.

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A peneira que prendeu o saci

Tio Barnabé ensinou Pedrinho a caçar o bicho de uma perna só com uma peneira, uma garrafa e muita paciência.

Um menino de chapéu de palha ergue uma peneira sobre um redemoinho de poeira no pasto, com um saci de gorro vermelho girando dentro.

Pedrinho mira a peneira no redemoinho

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"Saci existe, sim, e eu já vi mais de mil", disse Tio Barnabé a Pedrinho, sentado na porta do rancho dele, no fundo do Sítio do Picapau Amarelo. O menino tinha ido perguntar se o bicho era verdade ou conversa de gente velha. Saiu de lá com uma receita de caça.

A cena está em O Saci, livro que Monteiro Lobato lançou em 1921 pela editora que ele mesmo fundara. Pedrinho passa as férias na casa da avó, Dona Benta, e escuta as histórias de Tia Nastácia sobre o moleque de uma perna só que trança a crina dos cavalos e esconde o dedal da costureira.

Tia Nastácia conta, mas não ensina. Para aprender, o menino desce até o rancho do velho Barnabé, um homem negro que viveu a vida inteira na roça e conhece cada trilha da mata. Barnabé acende o cachimbo e fala devagar, como quem dá aula.

A receita tem três peças, e nenhuma custa dinheiro. Uma peneira de cruzeta (a de palha trançada com duas varetas cruzadas no fundo), uma garrafa escura com rolha e o sangue-frio de esperar o vento certo. O resto é pontaria.

Lobato não inventou o saci. Pegou um bicho que já corria nas conversas de fogão de lenha do interior paulista, mineiro e fluminense, e deu a ele um livro próprio. Antes do livro, fez uma pesquisa pública pelo jornal para descobrir como o povo descrevia a criatura.

Barnabé guarda ainda um segredo que vale mais que a peneira: o saci tira toda a força do gorro vermelho. Quem fica com a carapuça manda no bicho. O menino ouve, guarda e começa a vigiar os redemoinhos do pasto.

Primeiro vem a caçada contada passo a passo, do rancho até a rolha fechada. Em seguida, de onde veio o saci e como um jornal ajudou a desenhá-lo. No encerramento, o que a garrafa ensina sobre prender aquilo que a gente não entende.

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I  A Fábula do Dia

O redemoinho no pasto

Um menino, um velho e um gorro vermelho que guardava tudo.

O Saci é o livro de Monteiro Lobato em que Pedrinho, neto de Dona Benta, aprende com Tio Barnabé a capturar o saci e acaba entrando na mata com ele. A caçada começa numa tarde de vento.

Pedrinho saiu do rancho com a cabeça fervendo.

Barnabé tinha explicado tudo sem pressa.

O saci anda dentro do redemoinho, girando com a poeira.

Quem joga a peneira bem em cima prende o bicho embaixo.

Depois é só enfiar o saci na garrafa e tampar com a rolha.

Na rolha, uma cruz riscada, para ele não escapar.

E a carapuça vermelha fica com o caçador.

O menino arrumou uma peneira velha na cozinha.

Tia Nastácia achou graça e não perguntou para quê.

A garrafa ele tirou do porão, vazia e escura.

Esperou dias seguidos, de olho no pasto seco.

Numa tarde quente, a poeira começou a rodar.

Era um redemoinho alto, torto, cheio de folha.

Pedrinho correu com a peneira erguida nas duas mãos.

Chegou perto, fechou os olhos e jogou.

A peneira caiu virada sobre a terra.

O vento parou de repente, como se alguém tivesse desligado.

Embaixo da palha, alguma coisa se debatia.

O menino segurou a borda com força.

“Te peguei, diabinho. Agora você é meu.”

Ele abriu a garrafa e encostou o gargalo na peneira.

Sentiu um peso leve escorregar lá para dentro.

Tampou com a rolha e riscou a cruz com a unha.

Dentro do vidro, um vulto pequeno, de uma perna só, batia no fundo.

Tinha olhos vermelhos e um gorro da mesma cor.

Pedrinho levou a garrafa para o quarto e a escondeu.

Nos dias seguintes, os sumiços da casa pararam.

Ninguém mais achou crina trançada nem leite derramado.

O saci estava preso, e o menino, satisfeito.

Então Pedrinho resolveu entrar na mata, onde nunca tinha ido sozinho.

Levou a garrafa, porque um saci conhece o caminho de volta.

Lá dentro, abriu a rolha e fez um trato com o prisioneiro.

O saci guiaria o menino pela floresta.

E, no fim, ganharia a liberdade.

 
 

II  A Origem

Um bicho que o jornal desenhou

Um mito indígena do sul, um inquérito de jornal de 1917, um livro de 1918 e outro de 1921: o saci de Lobato chegou ao papel por esse caminho.

José Bento Renato Monteiro Lobato nasceu em Taubaté, no Vale do Paraíba, em 1882, e morreu em 1948. Antes de escrever para crianças, foi promotor, fazendeiro e articulista de jornal. Em 1917, escrevia para O Estado de S. Paulo.

Naquele ano, lançou pelo jornal um inquérito sobre o saci. Pediu aos leitores que mandassem cartas contando como a criatura era na região de cada um: quantas pernas tinha, que cor, que manias, como se prendia.

As cartas do inquérito

Chegaram respostas do interior inteiro. Havia quem jurasse que o saci assobiava, quem dissesse que fumava cachimbo de barro e quem garantisse que ele só aparecia em noite sem lua. A peneira e a garrafa apareciam em várias cartas.

Em 1918, Lobato reuniu o material em livro, O Sacy-Pererê: resultado de um inquérito. Foi a primeira obra que ele publicou, antes mesmo de Urupês. O volume trazia as cartas, desenhos de leitores e o retrato que o jornal ajudou a fixar.

Três anos depois, em 1921, veio O Saci, agora para o público infantil. As cartas viraram conselhos de Tio Barnabé, e o bicho ganhou um companheiro de aventura: o neto de Dona Benta.

O Sítio do Picapau Amarelo já existia desde A Menina do Narizinho Arrebitado, de 1920. O Saci foi o segundo passeio da turma, e nele o folclore brasileiro entrou pela porta da frente, com Cuca, lobisomem e mula sem cabeça cruzando a mata.

O saci é um diabinho de uma perna só que anda solto pelo mundo, armando reinações de toda sorte.

Monteiro Lobato, O Saci, 1921: a definição sai da boca de Tio Barnabé, na primeira conversa com Pedrinho.

De onde veio o bicho

O saci tem raiz indígena. Entre os guaranis do sul do continente circulava o Yaci-Yaterê (algo como pedaço da lua, em guarani), um ser pequeno ligado a um pássaro de canto triste que assombrava quem andava pela mata.

No caminho para o sudeste, a figura foi mudando. Ganhou pele negra e o cachimbo das rodas de conversa das senzalas. A carapuça vermelha veio da Europa, parente do gorro dos duendes portugueses que também escondiam objetos e pregavam peças nas casas.

A perna única tem várias explicações nas cartas, e nenhuma fonte a resolve de forma definitiva. Algumas contam que ele perdeu a outra numa briga; outras dizem que já nasceu assim. Lobato registrou as versões lado a lado, sem escolher.

No livro, Barnabé explica ainda como o bicho nasce: dentro do gomo da taquara (um bambu fino), onde passa sete anos. Depois vive setenta e sete, e no fim vira um cogumelo de tronco, a orelha-de-pau.

Com esse detalhe, Lobato deu ao saci um ciclo de vida completo, como se fosse bicho de verdade. A criança que lê fica sabendo de onde ele vem, quanto dura e no que se transforma, e o mito ganha a firmeza de uma lição de ciências.

 

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III  A Lição que Fica

O prisioneiro que guiou o menino

A mata assusta menos quando o bicho mais esperto vai junto.

Repare que Pedrinho não prende o saci por maldade. Ele quer provar que o bicho existe. Mas, depois de provar, não sabe o que fazer com a prova, e a garrafa passa dias escondida no quarto.

A virada vem quando o menino precisa do prisioneiro. Na mata, ele encontra a Cuca, a velha com cara de jacaré, e outros seres que nunca tinha visto. Sozinho, se perderia. Com o saci ao lado, atravessa.

O menino que prendeu o saci precisou dele para voltar.

O trato também diz algo. Pedrinho promete a liberdade e cumpre. Lobato poderia ter terminado com o bicho trancado na estante, como troféu. Preferiu que a amizade valesse mais que a posse.

A carapuça é o outro ponto. Barnabé ensina que ela concentra a força do saci. O menino entende que segurar o gorro é ter poder sobre alguém, e aprende no fim que devolver esse poder pode ser a melhor parte da história.

Lobato escreveu o livro num país que ainda tratava o folclore da roça como superstição de gente simples. Ao pôr Tio Barnabé como professor e Pedrinho como aluno, inverteu a hierarquia: o menino da cidade é quem precisa aprender com o velho do rancho.

Antes de ler: pergunte à criança se ela já quis guardar um bicho só para ela.

Na caçada do redemoinho: peça que ela conte como faria para pegar o saci.

Quando o saci fica preso na garrafa: pare e pergunte como ele deve estar se sentindo.

No trato da mata: pergunte se Pedrinho devia soltar o saci, e por quê.

O adulto reconhece a cena no filho que quer prender o passarinho, no chefe que segura a informação para se sentir forte e no amigo que só pede ajuda depois de ter tratado mal quem pode dar.

“Na sua casa, qual garrafa anda fechada quando devia estar aberta?”

Pedrinho voltou da mata ao anoitecer.

A garrafa voltou vazia.

 
 

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No galpão escuro de Rumi, cada mão tocou uma parte do bicho e jurou que conhecia o todo.

 
 
 

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