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Fábula do Dia   Fábula do Dia
ED 042

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A rã mediu o mar pela borda do próprio poço

A tartaruga do Mar do Leste aceitou o convite para descer, e o pé esquerdo dela travou na borda antes de o joelho direito passar.

Uma rã sentada na borda de um poço desmoronado e uma tartaruga do mar parada do lado de fora.

A rã na borda do poço e a tartaruga do mar

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"Eu sou o senhor desta água e mando em tudo que cabe neste poço arruinado", gaba-se a rã ao visitante, na fala que Zhuang Zhou pôs no capítulo Qiushui, ou As Enchentes de Outono, do livro que leva o nome dele e circulou na China por volta do século IV antes de Cristo.

A conversa inteira acontece entre dois bichos e uma borda de tijolo. De um lado, uma rã que mora num poço arruinado. Do outro, uma tartaruga que veio do Mar do Leste para ouvir a gabolice de perto.

O chinês guardou a cena numa expressão de quatro caracteres, jing di zhi wa, que em português é a rã no fundo do poço. Ela segue viva no idioma e serve para apontar quem julga o tamanho do mundo pelo tamanho do lugar onde mora.

O poço da história não é poço de aldeia em bom estado. Zhuang Zhou o descreve desmoronado, com o parapeito quebrado, um tijolo solto servindo de degrau e lama rasa cobrindo os pés de quem pisa no fundo.

Quem conta a fábula dentro do livro não é o narrador. Ela sai da boca de Wei Mou, príncipe do reino de Wei, respondendo ao lógico Gongsun Long, que reclamava de ler Zhuang Zhou e não alcançar o que estava escrito ali.

O Mar do Leste chega à cena com medida própria. A tartaruga descreve uma água que mil li, a antiga medida chinesa de distância que hoje vale meio quilômetro, não bastam para atravessar, e que nove anos de enchente, no tempo do rei Yu, não fizeram subir um dedo.

A fábula vem inteira aqui embaixo, do primeiro salto no parapeito até a última palavra da rã. Depois dela, a origem declarada: quem foi Zhuang Zhou, em que reino ele viveu, o cargo que recusou, quem montou o livro em trinta e três capítulos e o que se sabe e o que não se sabe sobre o fim da vida dele. E no encerramento, o que a borda do poço ensina sobre medir o mundo pelo lugar onde se vive.

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I  A Fábula do Dia

A rã, a tartaruga e a borda de tijolo

O convite da rã, a descida da tartaruga, o pé que travou na borda e o que o bicho do mar contou de pé, do lado de fora.

Zhuang Zhou não deu nome à rã: chamou-a de rã do poço desmoronado, e a deixou sem nome até a última linha. O poço era dela.

O buraco ficava num terreno de casas velhas.

A parede de dentro estava rachada.

O parapeito tinha desabado de um lado.

No fundo havia lama e um palmo de água parada.

Um tijolo solto formava um degrau na parede.

A rã morava ali desde que nasceu.

Saltava do fundo para o tijolo.

Do tijolo para o parapeito quebrado.

Do parapeito de volta para a água.

Certa manhã uma tartaruga do Mar do Leste passou pelo terreno.

Parou ao lado do poço.

Olhou para baixo.

A rã veio à tona e falou primeiro.

"Veja a minha vida aqui."

"Salto no parapeito e me sento nele."

"Desço e descanso no tijolo da parede."

"Entro na água e ela me segura pelas axilas."

"Piso na lama e ela me cobre só até os pés."

"Olho para os camarões e os girinos."

"Nenhum deles vive como eu vivo."

"Mando em toda a água que cabe aqui dentro."

"Este poço é o meu e o prazer dele é completo."

"Desça e veja com os seus olhos."

A tartaruga aceitou o convite.

Virou o corpo na direção da abertura.

Levantou o pé esquerdo.

Baixou o pé esquerdo para dentro do poço.

O joelho direito ficou preso na borda.

Puxou o pé de volta.

Recuou dois passos.

Ficou de pé do lado de fora.

Começou a falar do Mar do Leste.

"Mil li de distância não atravessam a largura dele."

"Mil braças de corda não alcançam o fundo dele."

"No tempo do rei Yu houve enchente em nove anos de dez."

"A água do mar não subiu por causa das cheias."

"No tempo do rei Tang houve seca em sete anos de oito."

"A linha da praia não recuou por causa das secas."

"O mar não muda de tamanho com a chuva grande."

"Viver ali é o meu prazer."

A rã ouviu tudo do fundo do poço.

Não respondeu nada.

Não voltou a saltar no tijolo.

Ficou de boca aberta.

Os olhos dela travaram parados.

A tartaruga foi embora pelo caminho de terra.

A rã continuou dentro da água que a segurava pelas axilas.

 
 

II  A Origem

Reino de Song, século IV antes de Cristo

Um funcionário de jardim de amoreiras que recusou o cargo de primeiro-ministro, um livro que ninguém sabe se ele escreveu inteiro, um editor que cortou o texto de cinquenta e dois capítulos para trinta e três e um capítulo que discute tamanho do começo ao fim: a rã e a tartaruga chegaram até aqui dentro dessa história.

Zhuang Zhou nasceu por volta de 369 antes de Cristo em Meng, povoado do reino de Song, e é conhecido pelo nome honorífico Zhuangzi, que em português significa Mestre Zhuang.

Sima Qian, o historiador que escreveu o Shiji, ou Registros do Historiador, no século I antes de Cristo, dedica a ele um trecho curto dentro da biografia de outros pensadores. Conta que Zhuang Zhou trabalhou como funcionário no Qiyuan, o jardim de amoreiras de Meng, e que escrevia livros de mais de cem mil palavras.

O mesmo relato guarda a cena do cargo recusado. O rei Wei, de Chu, mandou dois enviados com presentes convidando Zhuang Zhou para primeiro-ministro. Ele respondeu perguntando se o boi engordado para o sacrifício, coberto de bordados durante anos, trocaria de lugar com o porco solto no chiqueiro, e mandou os enviados de volta.

O livro que sobrou tem trinta e três capítulos e nem todos saíram da mesma mão. Guo Xiang, comentarista que viveu no século III depois de Cristo, recebeu uma versão de cinquenta e dois capítulos, cortou o que julgou apócrifo e fixou o texto que se lê hoje.

Os estudiosos dividem o resultado em três blocos: os neipian, ou capítulos internos, do primeiro ao sétimo, atribuídos a Zhuang Zhou em pessoa; os waipian, ou capítulos externos, do oitavo ao vigésimo segundo; e os zapian, ou capítulos mistos, até o fim. Qiushui, onde a rã aparece, é o décimo sétimo, e cai no bloco externo, atribuído a seguidores da escola dele.

O sapo do poço não tem como falar do mar: preso ao buraco onde vive. O inseto de verão não tem como falar do gelo: preso à estação onde vive.

Zhuangzi, Qiushui (As Enchentes de Outono), capítulo 17, século IV antes de Cristo.

O capítulo inteiro discute tamanho

Qiushui abre com o rio Amarelo cheio depois das chuvas de outono, largo a ponto de não se distinguir um cavalo de um boi nas duas margens. O deus do rio se enche de orgulho, desce até o oceano, olha para a água sem fim e perde a vontade de se gabar.

A rã do poço aparece no final do mesmo capítulo, contada por Wei Mou. Gongsun Long, lógico da escola dos nomes, acabara de dizer que dominava todos os argumentos do seu tempo e mesmo assim ficava de boca aberta diante dos textos de Zhuang Zhou. Wei Mou respondeu com a rã, e comparou a tentativa de Gongsun Long a um mosquito carregando uma montanha nas costas.

A morte de Zhuang Zhou costuma ser datada por volta de 286 antes de Cristo, e essa data é estimativa de estudiosos, não registro de arquivo: o Shiji não informa o ano nem o lugar, e nenhum documento da época confirma qualquer versão. O que existe é uma passagem do capítulo 32 do próprio livro, em que os discípulos preparam um funeral caro para o mestre e ele pede para ser deixado a céu aberto, com o céu e a terra por caixão.

 

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III  A Lição que Fica

A medida que veio de dentro do poço

A leitura mais direta da fábula cabe numa linha: a rã não mentiu nada, ela apenas usou o poço como unidade de medida do mundo.

Repare no que a rã descreve. A água que segura pelas axilas, a lama que cobre até os pés, o tijolo que serve de degrau. Tudo verdadeiro, tudo verificável por quem descer ali, e nada ali serve para dizer quanto mede o Mar do Leste.

O erro dela não está na alegria nem na gabolice. Está no salto lógico que faz do próprio conforto o teto do que pode existir, com os camarões e os girinos como termo de comparação escolhido por ela mesma.

A fábula não trata de ignorância, trata de escala: quem só dispõe de uma referência transforma essa referência em medida geral do universo, e continua com a razão do lado de dentro do buraco.

A tartaruga faz o oposto do que se esperaria de um vizinho poderoso. Não ri da rã, não desce para provar nada, não manda o bicho sair do poço. Ela apenas tenta entrar, descobre que não cabe e conta o que conhece, de pé, do lado de fora.

Vale dizer também o que o texto não ensina. Ele não manda desprezar lugar pequeno, não promete sabedoria a quem viaja e não diz que a rã devia abandonar o poço. O aviso é estreito: a medida do seu lugar responde pelo seu lugar, e para de valer na borda dele.

Zhuang Zhou usou a cena contra um lógico de corte, e a mira dele alcança qualquer mesa. Todo argumento que começa por "no meu caso funciona assim" precisa mostrar onde termina o caso e onde começa o resto do mundo.

Antes de começar: diga a idade e o tempo em voz alta. A partir dos quatro anos, meio minuto de leitura.

Na hora do convite: faça a voz da rã crescer a cada salto, do fundo para o tijolo e do tijolo para o parapeito.

Na hora da borda: pare a leitura no instante em que o joelho da tartaruga trava, e conte até dois antes de continuar.

Na hora do encerramento: diga as últimas linhas baixinho e não explique nada depois.

O adulto reconhece o poço na equipe que só compara resultado com a própria média do trimestre passado, no vendedor que aprendeu o mercado inteiro pelos seus trinta clientes e na criança que acha que todo mundo janta na hora em que ela janta.

“O que você chama de normal vale para o mundo, ou vale para o seu poço?”

A tartaruga voltou para o mar.

A água do poço continuou rasa.

A rã não disse mais nada.

 
 
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Quiz da edição

Dentro do capítulo Qiushui, quem realmente conta a fábula da rã e da tartaruga, e para quem?

AO narrador do livro, em terceira pessoa, direto ao leitor
BO próprio Zhuang Zhou, contando ao rei Wei de Chu
CWei Mou, príncipe de Wei, respondendo ao lógico Gongsun Long
DSima Qian, historiador do Shiji, narrando a vida de Zhuang Zhou

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