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ED 069
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A raposa da casa de gelo e a cabana da lebre

No conto russo recolhido por Afanássiev, a raposa perde a casa no degelo e toma a da lebre. Cães, urso e boi fogem. O galo não.

Uma raposa deitada sobre o fogão de uma cabana de madeira russa, enquanto um galo com uma foice no ombro canta na porta e uma lebre espia atrás dele.

A raposa no fogão, o galo de foice na porta

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“Minha casa é clara, a sua é escura”, disse a raposa à lebre, na clareira da floresta russa onde as duas tinham erguido suas cabanas para o inverno.

A raposa tinha razão, pelo menos enquanto durou o frio. A casa dela era de gelo, feita de blocos transparentes que acendiam com o sol baixo da manhã. Brilhava como vidro.

A da lebre era de casca de tília, a entrecasca que os camponeses russos tiravam das árvores para fazer cestos, sapatos e telhado. Era parda, torta, sem luz nenhuma.

A lebre não respondeu. Voltou para dentro, acendeu o fogão e passou o inverno ali, quieta.

Os meses frios correram assim. A raposa saía para passear diante da casa bonita, e a lebre cuidava da sua.

Então chegou a primavera.

O sol subiu mais alto e começou a esquentar de verdade. As paredes da raposa suaram, depois pingaram, depois escorreram. Numa semana, a casa de gelo virou poça na terra molhada.

A raposa ficou na rua.

Foi bater na porta da lebre. Pediu só um canto para se esquentar, uma noite, até achar outro lugar. A lebre, que não guardava rancor, abriu.

Na primeira noite, a raposa dormiu no banco perto da porta. Na segunda, pediu para subir no fogão, o grande fogão de alvenaria das isbás russas, onde a família dormia por cima no inverno.

Na terceira manhã, a raposa expulsou a dona.

A lebre saiu pela estrada, chorando, sem casa e sem saber a quem pedir socorro. A raposa ficou deitada no fogão quente, na cabana que nunca tinha construído.

O conto se chama, em russo, Zaiúchkina izbúchka (A cabaninha da lebre). Entrou no papel no século 19, pelas mãos de Aleksandr Afanássiev, que reuniu centenas de contos do povo russo e os publicou em Moscou.

Adiante, quem passou pela estrada e tentou tirar a raposa do fogão, e quem conseguiu. Em seguida, o homem que guardou o conto e o preço que pagou pelo trabalho. Por fim, o que a lebre ensina sobre porta aberta e voz alta.

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I  A Fábula do Dia

Os três que fugiram e o quarto que ficou

A resposta de ontem

Qual cidade portuguesa serve a sopa com a pedra no fundo?

Almeirim, no Ribatejo. A cidade se apresenta como capital da sopa da pedra: os restaurantes servem o caldo de feijão vermelho, chouriço, toucinho e batata com uma pedra lavada no fundo do prato, e a câmara municipal guarda a lenda do frade como a origem local da receita.

Em A cabaninha da lebre, conto que Aleksandr Afanássiev publicou na coletânea Contos populares russos, a lebre pede ajuda a quatro bichos da floresta, e só o menor deles resolve.

Os primeiros a encontrar a lebre na estrada foram os cães. Vinham correndo, de língua para fora, latindo alto.

Perguntaram por que ela chorava. A lebre contou da casa de gelo, do pedido de abrigo, do fogão e da expulsão.

Os cães prometeram resolver. Foram até a cabana, pararam diante da porta e latiram com toda a força.

Lá de dentro, do alto do fogão, a raposa respondeu com outra voz, grossa e cheia de ameaça.

“Assim que eu pular, assim que eu saltar, vão voar pedaços pelos becos!”

Os cães se olharam. Ninguém via a raposa, só ouvia. O grito parecia de bicho muito maior. Deram meia-volta e sumiram no mato.

A lebre voltou a chorar na estrada.

O segundo a passar foi o urso. Pesado, devagar, com a fama de dono da floresta. Ouviu a história e prometeu o mesmo.

Chegou à porta e rugiu.

A raposa repetiu a ameaça, palavra por palavra. Os pedaços, os becos, o pulo.

O urso pensou no tamanho do bicho que podia estar lá dentro. Foi embora sem olhar para trás.

O terceiro foi o boi, com os chifres largos que nenhum lobo da região enfrentava. Mugiu na porta. Ouviu a mesma frase. Fugiu como os outros.

Três vezes a lebre viu a ajuda chegar forte e sair correndo. Sentou na beira da estrada sem esperança nenhuma.

Então apareceu o galo.

Tinha uma foice no ombro, dessas de cortar capim. Perguntou o motivo do choro, ouviu tudo e disse que tirava a raposa de lá.

A lebre não acreditou. Os cães não conseguiram, o urso não conseguiu, o boi não conseguiu. Como um galo ia conseguir?

O galo foi até a porta e cantou.

“Cocoricó! Levo a foice no ombro, quero cortar a raposa! Sai, raposa, do fogão!”

A raposa ouviu e ficou com medo. Respondeu que estava se calçando.

O galo cantou de novo, a mesma ameaça, sem mudar uma sílaba. A raposa respondeu que estava se vestindo.

Na terceira vez, a raposa não esperou o fim da cantoria. Pulou do fogão e correu porta afora, direto para a lâmina. O galo acertou o golpe, e a raposa não se levantou mais.

A lebre entrou de volta na cabana de casca. O galo ficou com ela, e os dois viveram juntos na casa que nunca derreteu.

 
 

II  A Origem

O arquivista que guardou o conto

Aleksandr Nikoláievitch Afanássiev, nascido em 1826, publicou os Contos populares russos em oito fascículos, entre 1855 e 1863.

Afanássiev não saiu pelas aldeias com caderno na mão. Trabalhava como funcionário do Arquivo do Ministério das Relações Exteriores, em Moscou, e reuniu os contos de mesa.

O material veio de muitas mãos. A maior parte saiu do arquivo da Sociedade Geográfica Russa, que tinha pedido a professores e padres de província que anotassem as histórias contadas nas suas regiões.

Outra parte veio do lexicógrafo Vladímir Dal, autor do grande dicionário da língua russa viva, que entregou a Afanássiev centenas de contos anotados por ele mesmo.

A coletânea chegou perto de 600 contos. Afanássiev abriu o primeiro fascículo pelos contos de bichos, e é nesse grupo que entra a lebre da cabana de casca.

Uma história com parentes

O conto da lebre não é só russo. Tem parentes ucranianos, bielorrussos e de outros povos eslavos, com pequenas trocas de elenco.

Em algumas versões, quem passa pela estrada é o lobo, e não os cães. Em outras, o bode entra no lugar do boi. O galo, com a foice, fica quase sempre no fim.

Os folcloristas guardam essa família no catálogo internacional de contos chamado ATU, sigla de Aarne, Thompson e Uther, os três estudiosos que o montaram. O conto da lebre entra no tipo 43, das casas de gelo e de madeira.

O canto do galo

A ameaça do galo é a parte mais repetida da história. No russo, ela rima: kossú (foice) com lissú (raposa), num verso curto que a criança decora na primeira leitura.

“Cocoricó! Levo a foice no ombro, quero cortar a raposa! Sai, raposa, para fora!”

Aleksandr Afanássiev, Contos populares russos, conto A raposa, a lebre e o galo, 1855 a 1863.

O preço do trabalho

Afanássiev não viveu do sucesso dos contos. Em 1862, perdeu o posto no arquivo de Moscou, depois de uma busca da polícia na casa dele.

Sem salário, vendeu a biblioteca que tinha juntado a vida inteira. Morreu em 1871, aos 45 anos, de tuberculose.

A lebre no cinema

Em 1973, o animador Iúri Norstein levou o conto para o cinema no estúdio Soiuzmultfilm, de Moscou. O filme A raposa e a lebre usa recortes de papel pintados à mão, inspirados na pintura popular de Gorodets, região do Volga famosa por tábuas coloridas de flores e cavalos.

 

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III  A Lição que Fica

A porta aberta e o grito do fogão

A raposa não arrombou a cabana. Pediu licença. Primeiro um canto, depois o banco, depois o fogão, e só então a casa toda.

Cada pedido parecia pequeno. A lebre disse sim ao primeiro porque era frio, ao segundo porque já tinha dito sim ao primeiro.

A raposa também não tinha força para enfrentar os cães, o urso ou o boi. Tinha a voz, e um lugar escondido de onde gritar.

Os três fugiram de um bicho que nunca viram. Fugiram da ameaça, e não da raposa.

Quem grita de dentro de casa alheia conta com o medo de quem está na porta.

O galo fez outra conta. Era pequeno demais para ter medo de tamanho, e chegou com uma ferramenta na mão e um plano simples: repetir a ameaça até a raposa sair.

As desculpas da raposa mostram o que o galo percebeu. Quem está se calçando e se vestindo já pensa em ir embora.

Na escola, a cena aparece no colega que pede emprestado o lugar na mesa do lanche e, no fim da semana, chama a mesa de dele. Em casa, no primo que vem passar um fim de semana no quarto do irmão e não devolve mais a cama.

No trabalho, aparece no colega que pede ajuda num projeto e, três reuniões adiante, apresenta o projeto como dele. Quem tenta contestar recebe resposta em voz alta, e muita gente desiste na porta.

A lebre não errou ao abrir. Errou ao abrir sem combinar a saída. A hospitalidade com prazo protege quem recebe e quem chega.

Ler o conto com uma criança é treinar duas habilidades: dizer não ao terceiro pedido e não recuar diante de um grito.

Antes de ler: pergunte à criança o que ela faria se um amigo pedisse para dormir na cama dela.

Na expulsão da lebre: pare e pergunte quantos pedidos a raposa fez até tomar a casa.

Na fuga do urso: pergunte se o urso viu a raposa ou só ouviu.

Na chegada do galo: pergunte por que o menor bicho da história foi o único a ficar na porta.

A casa de casca durou a primavera inteira. Afanássiev deixou o arquivo de Moscou em 1862, sem cargo e sem salário.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Por que o governo do czar tirou de Afanássiev o emprego no arquivo de Moscou em 1862?

 
 
Quiz da edição

Por que os cães, o urso e o boi desistiram de enfrentar a raposa na cabana da lebre?

APorque viram o tamanho real da raposa e ficaram com medo
BPorque a raposa gritou uma ameaça com voz grossa, sem eles verem quem gritava
CPorque a lebre pediu que eles não brigassem com a raposa
DPorque a porta da cabana estava trancada por dentro

Resultado da última edição: 100% acertaram.

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