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A raposa da casa de gelo e a cabana da lebre
No conto russo recolhido por Afanássiev, a raposa perde a casa no degelo e toma a da lebre. Cães, urso e boi fogem. O galo não.
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A raposa no fogão, o galo de foice na porta
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“Minha casa é clara, a sua é escura”, disse a raposa à lebre, na clareira da floresta russa onde as duas tinham erguido suas cabanas para o inverno.
A raposa tinha razão, pelo menos enquanto durou o frio. A casa dela era de gelo, feita de blocos transparentes que acendiam com o sol baixo da manhã. Brilhava como vidro.
A da lebre era de casca de tília, a entrecasca que os camponeses russos tiravam das árvores para fazer cestos, sapatos e telhado. Era parda, torta, sem luz nenhuma.
A lebre não respondeu. Voltou para dentro, acendeu o fogão e passou o inverno ali, quieta.
Os meses frios correram assim. A raposa saía para passear diante da casa bonita, e a lebre cuidava da sua.
Então chegou a primavera.
O sol subiu mais alto e começou a esquentar de verdade. As paredes da raposa suaram, depois pingaram, depois escorreram. Numa semana, a casa de gelo virou poça na terra molhada.
A raposa ficou na rua.
Foi bater na porta da lebre. Pediu só um canto para se esquentar, uma noite, até achar outro lugar. A lebre, que não guardava rancor, abriu.
Na primeira noite, a raposa dormiu no banco perto da porta. Na segunda, pediu para subir no fogão, o grande fogão de alvenaria das isbás russas, onde a família dormia por cima no inverno.
Na terceira manhã, a raposa expulsou a dona.
A lebre saiu pela estrada, chorando, sem casa e sem saber a quem pedir socorro. A raposa ficou deitada no fogão quente, na cabana que nunca tinha construído.
O conto se chama, em russo, Zaiúchkina izbúchka (A cabaninha da lebre). Entrou no papel no século 19, pelas mãos de Aleksandr Afanássiev, que reuniu centenas de contos do povo russo e os publicou em Moscou.
Adiante, quem passou pela estrada e tentou tirar a raposa do fogão, e quem conseguiu. Em seguida, o homem que guardou o conto e o preço que pagou pelo trabalho. Por fim, o que a lebre ensina sobre porta aberta e voz alta.
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I A Fábula do Dia
Os três que fugiram e o quarto que ficou
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A resposta de ontem Qual cidade portuguesa serve a sopa com a pedra no fundo? Almeirim, no Ribatejo. A cidade se apresenta como capital da sopa da pedra: os restaurantes servem o caldo de feijão vermelho, chouriço, toucinho e batata com uma pedra lavada no fundo do prato, e a câmara municipal guarda a lenda do frade como a origem local da receita. |
Em A cabaninha da lebre, conto que Aleksandr Afanássiev publicou na coletânea Contos populares russos, a lebre pede ajuda a quatro bichos da floresta, e só o menor deles resolve.
Os primeiros a encontrar a lebre na estrada foram os cães. Vinham correndo, de língua para fora, latindo alto.
Perguntaram por que ela chorava. A lebre contou da casa de gelo, do pedido de abrigo, do fogão e da expulsão.
Os cães prometeram resolver. Foram até a cabana, pararam diante da porta e latiram com toda a força.
Lá de dentro, do alto do fogão, a raposa respondeu com outra voz, grossa e cheia de ameaça.
“Assim que eu pular, assim que eu saltar, vão voar pedaços pelos becos!”
Os cães se olharam. Ninguém via a raposa, só ouvia. O grito parecia de bicho muito maior. Deram meia-volta e sumiram no mato.
A lebre voltou a chorar na estrada.
O segundo a passar foi o urso. Pesado, devagar, com a fama de dono da floresta. Ouviu a história e prometeu o mesmo.
Chegou à porta e rugiu.
A raposa repetiu a ameaça, palavra por palavra. Os pedaços, os becos, o pulo.
O urso pensou no tamanho do bicho que podia estar lá dentro. Foi embora sem olhar para trás.
O terceiro foi o boi, com os chifres largos que nenhum lobo da região enfrentava. Mugiu na porta. Ouviu a mesma frase. Fugiu como os outros.
Três vezes a lebre viu a ajuda chegar forte e sair correndo. Sentou na beira da estrada sem esperança nenhuma.
Então apareceu o galo.
Tinha uma foice no ombro, dessas de cortar capim. Perguntou o motivo do choro, ouviu tudo e disse que tirava a raposa de lá.
A lebre não acreditou. Os cães não conseguiram, o urso não conseguiu, o boi não conseguiu. Como um galo ia conseguir?
O galo foi até a porta e cantou.
“Cocoricó! Levo a foice no ombro, quero cortar a raposa! Sai, raposa, do fogão!”
A raposa ouviu e ficou com medo. Respondeu que estava se calçando.
O galo cantou de novo, a mesma ameaça, sem mudar uma sílaba. A raposa respondeu que estava se vestindo.
Na terceira vez, a raposa não esperou o fim da cantoria. Pulou do fogão e correu porta afora, direto para a lâmina. O galo acertou o golpe, e a raposa não se levantou mais.
A lebre entrou de volta na cabana de casca. O galo ficou com ela, e os dois viveram juntos na casa que nunca derreteu.
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II A Origem
O arquivista que guardou o conto
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Aleksandr Nikoláievitch Afanássiev, nascido em 1826, publicou os Contos populares russos em oito fascículos, entre 1855 e 1863.
Afanássiev não saiu pelas aldeias com caderno na mão. Trabalhava como funcionário do Arquivo do Ministério das Relações Exteriores, em Moscou, e reuniu os contos de mesa.
O material veio de muitas mãos. A maior parte saiu do arquivo da Sociedade Geográfica Russa, que tinha pedido a professores e padres de província que anotassem as histórias contadas nas suas regiões.
Outra parte veio do lexicógrafo Vladímir Dal, autor do grande dicionário da língua russa viva, que entregou a Afanássiev centenas de contos anotados por ele mesmo.
A coletânea chegou perto de 600 contos. Afanássiev abriu o primeiro fascículo pelos contos de bichos, e é nesse grupo que entra a lebre da cabana de casca.
Uma história com parentes
O conto da lebre não é só russo. Tem parentes ucranianos, bielorrussos e de outros povos eslavos, com pequenas trocas de elenco.
Em algumas versões, quem passa pela estrada é o lobo, e não os cães. Em outras, o bode entra no lugar do boi. O galo, com a foice, fica quase sempre no fim.
Os folcloristas guardam essa família no catálogo internacional de contos chamado ATU, sigla de Aarne, Thompson e Uther, os três estudiosos que o montaram. O conto da lebre entra no tipo 43, das casas de gelo e de madeira.
O canto do galo
A ameaça do galo é a parte mais repetida da história. No russo, ela rima: kossú (foice) com lissú (raposa), num verso curto que a criança decora na primeira leitura.
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“Cocoricó! Levo a foice no ombro, quero cortar a raposa! Sai, raposa, para fora!”
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Aleksandr Afanássiev, Contos populares russos, conto A raposa, a lebre e o galo, 1855 a 1863.
O preço do trabalho
Afanássiev não viveu do sucesso dos contos. Em 1862, perdeu o posto no arquivo de Moscou, depois de uma busca da polícia na casa dele.
Sem salário, vendeu a biblioteca que tinha juntado a vida inteira. Morreu em 1871, aos 45 anos, de tuberculose.
A lebre no cinema
Em 1973, o animador Iúri Norstein levou o conto para o cinema no estúdio Soiuzmultfilm, de Moscou. O filme A raposa e a lebre usa recortes de papel pintados à mão, inspirados na pintura popular de Gorodets, região do Volga famosa por tábuas coloridas de flores e cavalos.
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