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Fábula do Dia   Fábula do Dia
ED 049

1 leitor escolheu O Casaco de Nasreddin. Sai em 26/09.

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A raposa das cem artimanhas e o gato do galho

A raposa ria do gato que só sabia subir em árvore, até o caçador aparecer na trilha com quatro cães.

Um gato escondido no alto de uma árvore olha para baixo, onde uma raposa está cercada por quatro cães de caça.

O gato no galho, a raposa cercada pelos cães

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"Quantas artes você sabe?", pergunta a raposa ao gato, na beira de uma mata alemã, numa fábula que os irmãos Jacob e Wilhelm Grimm publicaram no começo do século XIX. O gato tinha apenas dado bom-dia e perguntado como ela ia.

A raposa não responde ao cumprimento. Primeiro, olha o gato das patas às orelhas e despeja insultos: limpador de bigode, bobo malhado, esfomeado, caçador de rato. Só então faz a pergunta, no tom de quem já conhece a resposta e quer ouvir o outro admitir.

O gato responde com modéstia. Sabe uma arte só: quando os cães correm atrás dele, pula numa árvore e se salva.

A raposa acha graça. Ela domina cem artes, diz, e ainda carrega um saco cheio de astúcias. Chega a oferecer aula ao gato, com pena dele, para ensinar como se escapa de cachorro de verdade.

No original alemão, as palavras são Künste (artes, habilidades) e Listen (astúcias, truques). A raposa tem cem das primeiras e um saco inteiro das segundas, e fala delas como quem conta moedas.

A conversa acontece numa trilha de caça, e a raposa esqueceu esse detalhe. Pouco depois surge um caçador com quatro cães. O gato não pensa: sobe no tronco e some na copa, entre galhos e folhas.

A raposa tem cem caminhos para escolher e perde tempo escolhendo. Do alto, o gato grita para ela abrir o saco.

Os cães não esperam a raposa decidir. O gato, seguro no galho, assiste ao desfecho e ainda tem uma última frase para ela, curta e sem piedade.

A fábula inteira cabe numa página. Abaixo vem o conto completo, do cumprimento ignorado ao que os cães fizeram com a raposa. Depois, o caminho que a história percorreu, de um poeta grego do século VII antes de Cristo até o conto 75 da coleção dos Grimm. No encerramento, o que o único truque do gato ensina sobre saber pouco e saber bem.

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I  A Fábula do Dia

Cem artimanhas e um galho só

Uma raposa, um gato, uma trilha de caça e quatro cães que chegam sem avisar.

A Raposa e o Gato é o conto 75 dos Contos da Infância e do Lar, dos irmãos Jacob e Wilhelm Grimm, com dois personagens: a raposa e o gato. A história começa num encontro por acaso.

O gato ia pela mata quando viu a raposa.

Pensou que ela era esperta e respeitada no mundo.

Chegou perto e falou com gentileza.

"Bom dia, senhora raposa. Como vai? Como se arranja nestes tempos difíceis?"

A raposa ergueu o focinho.

Olhou o gato das patas às orelhas.

Demorou para responder.

"Seu limpador de bigode, seu bobo malhado, seu esfomeado caçador de rato!"

"Você se atreve a perguntar como eu vou?"

"E você, aprendeu o quê na vida? Quantas artes sabe?"

O gato baixou os olhos.

"Sei uma só."

"E que arte é essa?", quis saber a raposa.

"Quando os cães vêm atrás de mim, pulo numa árvore e me salvo."

A raposa deu uma gargalhada.

"Só? Eu sou senhora de cem artes."

"E ainda tenho um saco cheio de astúcias."

"Tenho pena de você. Venha comigo."

"Eu ensino como se escapa dos cães."

O gato não respondeu.

Os dois seguiram pela trilha, lado a lado.

Não andaram muito.

Um caçador surgiu na curva do caminho.

Trazia quatro cães na frente.

Os cães farejaram o vento e dispararam.

O gato saltou para o tronco mais próximo.

Subiu sem olhar para trás.

Sentou no alto, escondido entre galhos e folhas.

Lá embaixo vinham os latidos.

A raposa ficou parada na trilha.

Pensava em qual das cem artes usar.

Pensava no saco das astúcias.

O gato gritou do galho:

"Abra o saco, senhora raposa! Abra o saco!"

Mas os cães já tinham chegado.

Agarraram a raposa antes que ela desse um passo.

Seguraram firme e não soltaram mais.

O gato olhou a cena lá de cima.

"Ah, senhora raposa, a senhora ficou presa com as suas cem artes."

"Se soubesse subir como eu, ainda estaria viva."

O caçador recolheu os cães e a raposa e seguiu caminho.

O gato esperou o silêncio voltar à mata.

 
 

II  A Origem

Do verso grego ao conto 75 dos Grimm

Um poeta grego que opôs a raposa ao ouriço, um pregador medieval que pôs o gato no lugar do ouriço, dois irmãos alemães que imprimiram a versão em 1819 e um filósofo que fez da dupla um ensaio em 1953: a fábula chegou até aqui por esse caminho.

A semente é mais velha que os Grimm. Arquíloco, poeta grego da ilha de Paros que viveu no século VII antes de Cristo, deixou um verso solto sobre a raposa e o ouriço. Do poema inteiro, só esse verso sobreviveu, porque autores posteriores o citaram.

A raposa sabe muitos truques; o ouriço sabe um só, e grande.

Arquíloco de Paros, verso preservado em fragmento, século VII antes de Cristo.

Na Idade Média, a dupla ganhou enredo. Odo de Cheriton, pregador inglês do século XIII, escreveu em latim uma fábula em que a raposa se gaba de um saco de truques e o gato conhece só a fuga pela árvore. Pregadores usavam histórias assim como exemplum (em latim, história curta com lição moral) no meio dos sermões.

Os folcloristas deram número ao enredo. No catálogo internacional de contos organizado por Antti Aarne e Stith Thompson, e revisto por Hans-Jörg Uther em 2004, a história é o tipo 105, O Único Truque do Gato. Versões dela foram recolhidas em várias partes da Europa.

Jacob e Wilhelm Grimm incluíram a fábula na segunda edição dos Kinder- und Hausmärchen (Contos da Infância e do Lar), em 1819, com o número 75. A primeira edição, publicada em dois volumes em 1812 e 1815, não trazia o conto.

Na versão dos Grimm, a raposa é chamada de Herr Fuchs (senhor raposa, porque em alemão a palavra é masculina), e o gato a trata com cerimônia do começo ao fim. A cortesia de um e a grosseria da outra são invenção de estilo dos irmãos, que davam aos bichos fala de gente da aldeia.

O que as notas não contam

Os irmãos costumavam anotar de quem ouviram cada conto, mas as notas publicadas desta fábula não apontam contador nem livro de origem. A fonte direta da versão de 1819 segue desconhecida: nenhum registro indica a pessoa ou o texto que os Grimm tinham em mãos.

Em 1953, o filósofo Isaiah Berlin, nascido em Riga e radicado na Inglaterra, publicou O Ouriço e a Raposa, ensaio sobre Liev Tolstói que parte do verso de Arquíloco. Berlin dividiu os pensadores em ouriços, que enxergam o mundo por uma ideia central, e raposas, que perseguem muitas ideias soltas.

De uma versão para outra muda o bicho de baixo e o jeito de escapar: em Arquíloco é o ouriço que se enrola, em Odo e nos Grimm é o gato que sobe. A raposa, em todas, perde para quem sabe menos.

 

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III  A Lição que Fica

O truque que se sabe de cor

A raposa sabia cem artes e não usou nenhuma, porque os cães chegaram primeiro que a escolha.

Repare que a fábula não chama a raposa de burra. Os Grimm deixam as cem artes existirem, e o saco de astúcias também é verdadeiro. O conto não zomba do repertório: zomba de quem confia no repertório e nunca treinou a hora de usá-lo.

O gato tem vantagem de outra natureza. A única arte dele está pronta no corpo. Quando o latido chega, ele não decide nada, apenas pula. A resposta foi repetida tantas vezes que virou reflexo.

Cem artes guardadas num saco valem menos que uma arte pronta nas pernas.

A raposa, diante de cem saídas, precisa pensar. E pensar leva tempo, justamente o que o caçador não concede. Quanto mais opções ela tem, mais demora; quanto mais demora, menos opções sobram.

O insulto do começo também pesa. A raposa humilha o gato antes de conhecer a habilidade dele, e em seguida o convida a segui-la como aluno. Quem ri do truque simples costuma ser quem nunca precisou dele.

A frase final do gato não soa como vingança. Ele descreve o que aconteceu, do galho, com a calma de quem está a salvo, e a descrição basta.

Antes de ler: pergunte à criança o que ela faria se um cachorro bravo corresse atrás dela.

No encontro: peça que ela repare quem foi educado e quem respondeu com insultos.

Na chegada dos cães: pare a leitura e pergunte por que a raposa não fugiu logo.

No fim: pergunte qual arte ela sabe fazer sem pensar.

Vale notar que o gato nunca desdenha das cem artes. Ele não diz que a raposa mente nem que o saco está vazio. Diz apenas que ela ficou presa com tudo aquilo. A diferença entre os dois bichos está no uso, não na quantidade.

O adulto reconhece a cena no currículo cheio de cursos e na hora de pressão em que nenhum deles sai do papel.

“Qual é a sua única arte, a que funciona mesmo sem tempo para pensar?”

O caçador levou a raposa.

O gato desceu.

 
 
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