|
Um bando reunido em círculo, uma oradora convincente e uma pergunta que não discute nenhum dos argumentos dela. A fábula vem completa aqui embaixo.
Uma raposa pisou numa armadilha no meio do caminho e ficou presa pelo rabo. Puxou a noite inteira.
De manhã, saiu solta e sem rabo.
O ferro ficou lá, com o rabo dentro.
Ela voltou pro mato e ficou três dias escondida.
Não era dor. Era vergonha.
Toda raposa que passava olhava pra trás dela e desviava os olhos rápido demais.
No quarto dia, ela teve uma ideia e mandou chamar o bando inteiro.
As raposas apareceram e sentaram em círculo numa clareira de terra batida.
Ela ficou de pé no meio, de frente pra todas.
Amigas, disse ela. Passei minha vida carregando uma coisa que não serve pra nada.
O bando escutou.
O rabo é peso morto, disse ela. Ele arrasta na lama, junta carrapicho e espinho, e a gente carrega tudo pra dentro da toca.
Algumas raposas se olharam.
Ele prende no mato fechado, continuou. Ele aparece antes da gente na hora de espreitar.
Ela andou dois passos pro lado e voltou.
O cão enxerga o rabo primeiro. O caçador enxerga o rabo primeiro. A armadilha pega o rabo primeiro.
Uma raposa nova assentiu com a cabeça.
Andei livre esses três dias, disse a oradora. Corri mais rápido. Passei em buraco que não passava antes.
Ela abriu as duas patas da frente.
Proponho que todas cortem o rabo, disse. Hoje mesmo. Uma corta da outra, e amanhã ninguém aqui carrega mais esse peso.
O círculo ficou em silêncio.
Duas ou três raposas jovens começaram a se mexer, como quem já vai levantando.
Foi quando uma raposa velha, sentada na beirada do círculo, falou.
Ela não levantou a voz e não discutiu nenhum argumento.
Amiga, disse a velha. Vire de costas pra nós.
A oradora não virou.
Ninguém precisou dizer mais nada.
A velha se levantou primeiro e foi embora pro mato.
O resto do bando foi atrás, uma de cada vez.
A raposa sem rabo ficou sozinha no meio da clareira.
Nenhuma raposa cortou o rabo naquele dia.
|