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Uma lagoa que sumiu no calor, dois amigos com asa e um plano que dependia de uma boca fechada. A fábula vem completa aqui embaixo.
A lagoa começou a secar no fim de um verão sem chuva. A água baixou dedo por dedo até virar uma poça de lama rachada nas bordas.
A tartaruga morava naquela lagoa desde sempre.
Dois patos moravam ali também.
Os três conversavam todo fim de tarde na beira da água.
Quando a lama apareceu, os patos disseram que iam embora.
Existia outra lagoa atrás da serra, funda e cheia.
A tartaruga perguntou como ela chegaria lá.
Os patos olharam para as próprias asas.
Depois olharam para as patas curtas da amiga.
A serra levava muitos dias andando.
Nenhum bicho de casco atravessava aquilo vivo.
Um dos patos teve a ideia no dia seguinte.
Ele trouxe no bico um pau firme, do tamanho de um braço.
Cada pato seguraria uma ponta com o bico.
A tartaruga morderia o meio do pau com força.
Os dois voariam devagar, sem sacudir.
E existia uma regra só, dita ali na lama.
A tartaruga não podia abrir a boca por nada.
Nem para perguntar.
Nem para reclamar.
Nem para responder.
Ela prometeu.
Morderam o pau e subiram.
A lagoa seca ficou pequena embaixo.
O ar frio passava pelo casco.
A tartaruga viu o telhado das casas.
Viu a estrada de terra cortando o campo.
Viu gente parada no meio da estrada, olhando para cima.
As pessoas apontavam.
Uma criança gritou que era um bicho voador.
Um homem disse que os patos tinham roubado uma pedra.
Uma mulher riu alto e disse que a pedra era uma tartaruga boba.
Outro gritou que ela devia ter comprado o voo com asa emprestada.
Os patos seguiram batendo asa, sem desviar.
A tartaruga sentiu o rosto queimar.
Ela tinha a resposta pronta na cabeça.
A resposta era curta e era boa.
Ela quis dizer que a ideia do pau tinha sido dela.
Abriu a boca.
O pau escorregou.
O corpo caiu girando no ar.
Ela bateu na estrada de terra, no meio das pessoas.
Os patos ficaram com o pau nos bicos, planando em círculo.
Depois seguiram para a serra.
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