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Fábula do Dia   Fábula do Dia
ED 035
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A tartaruga abriu a boca no ar

Ela atravessou o céu presa a um pau carregado por dois patos, ouviu a piada de quem olhava lá de baixo e quis responder.

A tartaruga presa pela boca ao pau carregado por dois patos sobre a estrada de terra, cena da fábula da tartaruga voadora.

A tartaruga presa ao pau entre os dois patos

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"Imprudência, tagarelice e vaidade tola, e curiosidade vã, têm entre si parentesco estreito", escreve Jean de La Fontaine em Paris, em 1679, nas três linhas que fecham a segunda fábula do livro X das Fables. Ele acabara de contar a viagem de uma tartaruga pelo ar.

O aviso é curto porque a cena já faz o trabalho sozinha. Um bicho que rasteja passa por cima das copas das árvores, seguro pela própria mordida, e perde a altura no segundo em que resolve falar.

A história é muito mais velha que o poema francês. Ela já estava em sânscrito no Panchatantra, no livro I, onde a tartaruga se chama Kambugriva e os dois pássaros que a carregam se chamam Sankata e Vikata.

O elenco cabe em quatro nomes: uma lagoa que seca, dois patos, uma tartaruga e um pau atravessado. Não tem vilão, não tem armadilha e não tem ninguém tentando enganar ninguém.

O que segura a atenção é a mecânica do voo. A tartaruga só continua no ar enquanto a boca fica fechada, e a boca é o único lugar onde ela guarda a resposta. A ferramenta que sustenta a viagem e a ferramenta que quer revidar são a mesma.

Com criança funciona porque a regra do voo pode ser dita em uma frase antes da decolagem, e a criança passa o resto da história torcendo para a tartaruga aguentar calada. A partir dos quatro anos, a tensão já se sustenta sozinha.

A leitura em voz alta cabe em vinte e cinco segundos. O ponto de virada mora no intervalo minúsculo entre a piada gritada lá de baixo e o barulho na estrada.

A fábula vem completa aqui embaixo, da lagoa rachada até o pau caído no chão de terra, reescrita em português de hoje pra sair na sua voz sem tropeço. Depois dela vem a origem declarada, com o texto sânscrito, a versão budista, a passagem árabe e o poema francês do século XVII. E no fim, como usar a cena pra falar de orgulho e de silêncio com quem mora com você.

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I  A Fábula do Dia

O pau que ela não podia largar

Uma lagoa que sumiu no calor, dois amigos com asa e um plano que dependia de uma boca fechada. A fábula vem completa aqui embaixo.

A lagoa começou a secar no fim de um verão sem chuva. A água baixou dedo por dedo até virar uma poça de lama rachada nas bordas.

A tartaruga morava naquela lagoa desde sempre.

Dois patos moravam ali também.

Os três conversavam todo fim de tarde na beira da água.

Quando a lama apareceu, os patos disseram que iam embora.

Existia outra lagoa atrás da serra, funda e cheia.

A tartaruga perguntou como ela chegaria lá.

Os patos olharam para as próprias asas.

Depois olharam para as patas curtas da amiga.

A serra levava muitos dias andando.

Nenhum bicho de casco atravessava aquilo vivo.

Um dos patos teve a ideia no dia seguinte.

Ele trouxe no bico um pau firme, do tamanho de um braço.

Cada pato seguraria uma ponta com o bico.

A tartaruga morderia o meio do pau com força.

Os dois voariam devagar, sem sacudir.

E existia uma regra só, dita ali na lama.

A tartaruga não podia abrir a boca por nada.

Nem para perguntar.

Nem para reclamar.

Nem para responder.

Ela prometeu.

Morderam o pau e subiram.

A lagoa seca ficou pequena embaixo.

O ar frio passava pelo casco.

A tartaruga viu o telhado das casas.

Viu a estrada de terra cortando o campo.

Viu gente parada no meio da estrada, olhando para cima.

As pessoas apontavam.

Uma criança gritou que era um bicho voador.

Um homem disse que os patos tinham roubado uma pedra.

Uma mulher riu alto e disse que a pedra era uma tartaruga boba.

Outro gritou que ela devia ter comprado o voo com asa emprestada.

Os patos seguiram batendo asa, sem desviar.

A tartaruga sentiu o rosto queimar.

Ela tinha a resposta pronta na cabeça.

A resposta era curta e era boa.

Ela quis dizer que a ideia do pau tinha sido dela.

Abriu a boca.

O pau escorregou.

O corpo caiu girando no ar.

Ela bateu na estrada de terra, no meio das pessoas.

Os patos ficaram com o pau nos bicos, planando em círculo.

Depois seguiram para a serra.

 
 

II  A Origem

De uma lagoa em sânscrito até um poema francês

Um manual indiano de governo escrito para príncipes, uma coletânea budista de vidas passadas, um livro árabe do século VIII e um poema de Paris: a tartaruga voadora atravessou quatro línguas e nunca perdeu o pau da boca.

O texto mais antigo que chegou inteiro é o Panchatantra, escrito em sânscrito na Índia e atribuído a Vishnu Sharma, com a forma que conhecemos hoje datada por volta do século III d.C. A tartaruga aparece no livro I, chamado Mitra-bheda, a discórdia entre amigos.

Ali ela tem nome próprio, Kambugriva, e os dois pássaros que a carregam se chamam Sankata e Vikata. A lagoa também é nomeada, Phullotpala, a das flores de lótus abertas.

A versão sânscrita traz um detalhe que os poemas europeus cortaram. Kambugriva cai perto de gente com fome, e o texto não gasta uma linha lamentando: ele volta na mesma hora para o argumento do capítulo, que trata de conselho ignorado.

A tradição budista guarda a cena numa das histórias de nascimentos do Buda, o Kacchapa Jataka, que na numeração corrente leva o número 215. Nessa variante a tartaruga é de Benares, vive no palácio e cai no pátio do rei, e o rei usa o corpo caído para calar um ministro que falava demais.

Imprudence, babil, et sotte vanité,
Et vaine curiosité,
Ont ensemble étroit parentage.

Imprudência, tagarelice e vaidade tola, e curiosidade vã, têm entre si parentesco estreito.

Jean de La Fontaine, La Tortue et les deux Canards, Fables, livro X, fábula 2, Paris, 1679.

A rota que a história fez da Índia até Paris

Por volta de 750 d.C., o persa Ibn al-Muqaffa traduziu para o árabe uma versão do Panchatantra e a chamou de Kalila wa Dimna. Foi por esse livro que a tartaruga entrou no mundo islâmico e, de lá, nas bibliotecas europeias.

Na França a passagem tem data e endereço. Gilbert Gaulmin publicou em Paris, em 1644, uma tradução dessa linhagem indiana com o título Le Livre des lumières, atribuída ao sábio Pilpay. La Fontaine leu esse volume e citou Pilpay como fonte das fábulas dos livros VII a XI.

Quando La Fontaine reescreveu a viagem, mudou o final. A tartaruga dele não morre entre caçadores: ela cai porque quis responder a quem zombava embaixo, e o poeta faz questão de dizer que o mal veio da língua, não do plano.

A edição crítica que fixou o texto sânscrito para o público acadêmico é The Panchatantra Reconstructed, de Franklin Edgerton, publicada pela American Oriental Society em 1924. É o trabalho que separou as versões medievais e tentou remontar o texto original perdido.

A tradição grega tem uma prima próxima, com uma águia no lugar dos dois patos e uma tartaruga que paga para aprender a voar. A queda é igual, o motivo muda: ali a tartaruga cai por querer o que não é dela, e não por abrir a boca.

 

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III  A Lição que Fica

A boca que segurava a viagem

A moral colada embaixo desta fábula quase sempre vira um recado para criança falante: fique quieto. Dita assim, ela some com a parte que interessa, que é o motivo do barulho.

Repare no que a tartaruga ia dizer. Ela não ia xingar ninguém. Ela ia corrigir uma informação errada, e a informação errada era sobre ela.

As pessoas na estrada acharam que a tartaruga era carga, bagagem de pato, pedra emprestada. A resposta que ela guardava era verdadeira: o plano do pau tinha nascido na cabeça dela. Estar certa é justamente o que derrubou a tartaruga.

Ela não caiu por mentir e não caiu por ser tola. Ela caiu porque quis usar, no meio do voo, a única parte do corpo que estava segurando o voo.

Tem uma segunda camada, e é a que costuma incomodar o adulto. A fábula não diz que reputação não importa, e não manda engolir injustiça calado para sempre.

Ela marca outro ponto: existe um intervalo em que responder custa a viagem inteira, e esse intervalo tem começo e fim. A tartaruga chegaria na lagoa nova em uma tarde. Com o casco no chão da lagoa funda, ela poderia contar a história do pau para quem quisesse ouvir, sem risco nenhum.

Vale dizer também o que a história não ensina. Ficar calado não é virtude por si, e tem hora em que abrir a boca no meio do voo é exatamente o certo a fazer. O erro da tartaruga foi trocar uma lagoa cheia por três segundos de resposta a um estranho que ela nunca mais veria.

Antes de começar: diga a idade e o tempo em voz alta. A partir dos quatro anos, vinte e cinco segundos.

Na hora da regra: repita a condição do voo devagar, com a criança olhando, e peça que ela repita de volta. A tensão da história inteira nasce ali.

Na hora da piada: faça a voz das pessoas da estrada. Pergunte à criança o que ela responderia se estivesse pendurada naquele pau.

Na hora da queda: pare depois do barulho e conte até três. Só então diga que os patos seguiram para a serra.

O adulto que lê conhece a mesma estrada no comentário maldoso respondido às duas da manhã, na reunião em que a explicação correta chegou no pior momento possível, no grupo de família em que alguém quis provar um ponto pequeno e perdeu o almoço de domingo, e na entrevista de emprego em que o candidato corrigiu o entrevistador sobre uma data.

“O que você quase respondeu hoje, e o que teria custado?”

A tartaruga tinha razão.

A resposta dela era verdadeira.

O pau ficou no chão de terra.

Os patos seguiram sem ela.

 
 

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