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ED 084
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As 3 tigelas de sopa na mesa de Demian

Na fábula russa de Ivan Krylov, de 1813, um anfitrião generoso serve o vizinho até ele fugir pela porta.

Demian, um camponês russo, ergue a concha sobre a panela de sopa de peixe enquanto o vizinho Foca, suado, segura a tigela cheia à mesa.

Demian serve mais sopa ao vizinho Foca

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“Vizinho, minha luz, come mais um pouco”, disse Demian a Foca, na mesa da casa dele, com a concha já mergulhada na panela.

A panela era de ukha (a sopa de peixe dos russos), feita de caldo claro, cebola e peixe de rio. Demian tinha cozinhado para receber o vizinho, e a sopa estava boa.

Foca sabia. Comeu a primeira tigela com gosto, molhando o pão no caldo e elogiando o cozinheiro a cada colherada.

O elogio era sincero. Na aldeia, vizinho que janta na casa do outro elogia a comida, e Foca tinha motivo de sobra para fazer o gesto com vontade.

Demian ouviu o elogio e encheu a tigela de novo, antes de Foca dizer sim ou não.

“Come, foi feita para você”, insistiu.

A segunda tigela desceu mais devagar. Foca já suava na testa, afrouxava a gola da camisa e respirava fundo entre uma colherada e outra.

Demian não reparou. Ou reparou e achou que o suor era sinal de prazer. Pegou a concha outra vez e foi buscar na panela os melhores pedaços, um por um, para mostrar ao convidado.

Mostrava a brema (um peixe de água doce, parente da carpa), apontava os miúdos, separava um pedaço de esturjão como quem oferece ouro.

Foca dizia estar satisfeito. Demian respondia que ninguém se satisfaz com uma sopa daquelas.

A conversa da mesa encolheu até sobrar uma fala só, a do anfitrião. Havia a tigela, a concha e a voz de Demian pedindo mais uma.

Ninguém naquela mesa era vilão. Demian queria agradar. Foca não queria ofender. E foi entre as duas boas vontades que a sopa ficou difícil de engolir.

Quando Foca raspou o fundo da terceira tigela, Demian já vinha com a concha cheia.

O que o vizinho fez nessa hora, e como saiu da casa, está na primeira faixa.

Depois vem o funcionário de biblioteca que escreveu a cena e o que a mesa de Demian deixou de lição.

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I  A Fábula do Dia

O gorro e o cinto

A Sopa de Demian, fábula que o russo Ivan Andreievitch Krylov escreveu em 1813, acompanha o jantar até a última concha.

O poema começa no meio da insistência. Demian chama Foca de “vizinho, minha luz” e pede, por favor, que ele coma.

Foca responde que já está cheio até a garganta. Demian não aceita a resposta e lembra que a sopa foi feita com capricho, para ele.

No verso de Krylov, Foca já tinha comido três tigelas. O texto conta o número com precisão, como quem registra uma dívida.

A lista do anfitrião

Demian passa então a vender o prato. Aponta cada pedaço como se o vizinho nunca tivesse visto peixe.

“Olha a brema, olha os miúdos, olha o pedaço de esturjão”, diz, mexendo a panela diante do convidado.

O esturjão (peixe grande dos rios russos, de carne cara) era luxo de mesa farta. Demian não oferecia sopa barata. Oferecia o melhor da cozinha, e por esse motivo achava impossível ouvir um não.

Foca suava em bicas. O poema mostra o rosto dele vermelho, a respiração curta, a colher cada vez mais lenta.

Mesmo assim ele pegava a tigela de volta. Recusar parecia pior: o vizinho tinha cozinhado, tinha convidado, tinha elogiado a própria sopa com tanto gosto.

A última concha

Demian não poupava o vizinho. A cada tigela vazia, a concha descia de novo.

Foca chegou a pensar que poderia vencer pela paciência. Comeria devagar, falaria pouco, e uma hora o anfitrião cansaria.

O anfitrião não cansou. Quando a concha subiu cheia mais uma vez, Foca entendeu que a sopa não acabaria antes dele.

A fuga

Foca gostava de ukha. O poema diz com todas as letras: ele amava sopa de peixe.

Nem assim ficou. Levantou-se de uma vez, agarrou o cinto e o gorro com os braços e saiu da casa quase sem saber por onde ia.

Correu para casa sem se despedir, sem agradecer e sem olhar para trás.

E Krylov fecha a cena com a frase que o leitor russo decorou na escola: desde aquele dia, Foca nunca mais pôs os pés na casa de Demian.

A sopa, segundo o próprio texto, continuava boa.

Krylov não castiga ninguém no fim. Demian não perde a casa, Foca não passa mal. O único prejuízo é a amizade, que sai pela porta junto com o gorro.

 
 

II  A Origem

O fabulista da biblioteca

Ivan Andreievitch Krylov nasceu em Moscou em 1769, filho de um oficial do exército de patente baixa.

O pai morreu em 1778 e deixou a família pobre. Ainda menino, Ivan foi trabalhar como escrevente num tribunal da cidade de Tver, copiando papéis por um salário pequeno.

Aprendeu sozinho quase tudo o que sabia. Leu o que caía na mão, aprendeu francês, italiano e violino, e chegou a São Petersburgo ainda adolescente.

O satírico antes das fábulas

Nos primeiros anos, Krylov escreveu peças de teatro e uma revista satírica, O Correio dos Espíritos, lançada em 1789, que zombava de nobres e funcionários.

A sátira custou caro. A revista fechou, os censores da imperatriz Catarina II passaram a vigiar o autor, e ele sumiu da capital por anos, vivendo de emprego em emprego.

Voltou com outro gênero, mais curto e mais difícil de censurar: a fábula, em que bichos e gente comum dizem o que o autor não podia dizer em nome próprio. Em 1809 publicou o primeiro livro de fábulas, e o livro vendeu como poucos na Rússia daquele tempo.

Boa parte das primeiras fábulas era adaptação do francês Jean de La Fontaine. Com os anos, Krylov passou a inventar as próprias histórias, com nomes russos, comida russa e aldeias russas, como a casa de Demian.

A sala da Beseda

Em 1812, Krylov entrou para a Biblioteca Pública Imperial, em São Petersburgo, onde trabalhou por quase trinta anos, até 1841.

Na mesma época frequentava a Beseda (Conversa, em russo), uma sociedade literária fundada em 1811 pelo poeta Gavrila Derjavin e pelo almirante Alexandre Chichkov. Os sócios se reuniam para ler, em voz alta, os próprios versos.

Conta-se que algumas dessas leituras duravam horas. Os biógrafos de Krylov registram a história de que ele leu A Sopa de Demian numa dessas noites, logo depois de um colega se estender demais, e a sala entendeu o recado.

Não há ata da reunião que confirme a cena, e por esse motivo ela segue como relato, sem prova escrita. O recado, porém, está no próprio poema, que termina com uma moral dirigida a quem escreve:

“Escritor, feliz és tu se tens o dom de fato; mas se não sabes calar a tempo e não poupas os ouvidos do próximo, teus versos e tua prosa vão enjoar a todos, como a sopa de Demian.”

Ivan Krylov, A Sopa de Demian, 1813.

A expressão que ficou

O título do poema virou expressão do idioma. Em russo, “sopa de Demian” nomeia até hoje a gentileza servida à força, a oferta que o outro já recusou e continua chegando.

Krylov morreu em São Petersburgo em 1844. Em 1855, a cidade inaugurou no Jardim de Verão uma estátua dele, feita pelo escultor Peter Clodt, com bichos das fábulas em volta do pedestal.

 

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III  A Lição que Fica

A porta da casa

Demian não era avarento, nem cruel, nem mentiroso. Era o mais generoso dos dois, e foi a generosidade dele que esvaziou a mesa.

O erro do anfitrião estava no ouvido. Foca disse que estava cheio, disse de novo, mostrou no rosto e na testa, e cada recusa voltou como pedido de mais.

Quem serve sem ouvir o não transforma o presente em cobrança.

Foca também errou. Aceitou a segunda e a terceira tigela calado, para não ofender, e guardou o incômodo até ele estourar de uma vez, na porta.

O preço do silêncio

Se Foca tivesse recusado com firmeza na segunda tigela, talvez voltasse na semana seguinte. Como engoliu tudo até o limite, a única saída que sobrou foi a fuga.

O poema não diz que Demian ficou bravo. Diz só que perdeu o vizinho, e deixa ao leitor imaginar a panela cheia numa casa vazia.

Em casa, a sopa de Demian aparece em formas comuns. A avó que serve o terceiro prato à criança que já disse chega, o amigo que manda o quinto áudio sobre o mesmo assunto, o tio que conta a mesma história no almoço de domingo.

Nenhum deles quer o mal de ninguém. Querem dar, e esquecem de perguntar se o outro ainda quer receber.

O conto ensina os dois lados da mesa. Quem serve aprende a ouvir a primeira recusa. Quem come aprende a dizer o não cedo, enquanto ele ainda cabe numa frase gentil.

Lendo com uma criança

Ler a fábula com uma criança é parar a cada tigela. Quatro paradas ajudam.

• Na primeira tigela: pergunte por que Foca elogiou a sopa.

• Na segunda: pergunte o que o rosto de Foca mostrava e Demian não viu.

• Na terceira: pergunte como Foca poderia ter dito não sem magoar o vizinho.

• Na porta: pergunte por que Foca fugiu em vez de explicar.

“Em qual tigela você diria não?”

Foca nunca mais voltou.

 
 
Quiz da edição

Depois que o pai morreu, em 1778, qual foi o primeiro emprego de Ivan Krylov, segundo o texto?

AEscrevente num tribunal da cidade de Tver, copiando papéis por salário pequeno
BEscrevente na Biblioteca Pública Imperial de São Petersburgo
CAjudante de cozinha nas tabernas de Moscou
DAprendiz de violino na corte de Catarina II

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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