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Fábula do Dia   Fábula do Dia
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A 16ª pauta escolhida pelos leitores. Aqui está.

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As castanhas que o gato tirou do fogo

Na fábula de La Fontaine, o macaco Bertrand elogia a pata do gato Ratão, que tira as castanhas do braseiro para o outro comer.

Um gato estica a pata para um braseiro de castanhas numa cozinha antiga, enquanto um macaco espera atrás dele.

Ratão estica a pata para o braseiro

▼
 

"Irmão, hoje você vai dar um golpe de mestre", disse o macaco Bertrand ao gato Ratão, os dois agachados diante do braseiro da cozinha onde moravam.

A frase abre O Macaco e o Gato, fábula que o francês Jean de La Fontaine publicou em 1679, no Livro 9 das Fábulas. Bertrand e Ratão dividem a casa e o dono, e nenhum dos dois dá ao dono motivo de alegria.

O macaco rouba tudo que encontra pela frente. O gato persegue mais o queijo da despensa do que os ratos. Juntos, fazem o estrago de uma tropa, e ninguém consegue pegar os dois no flagrante.

Naquela tarde, alguém deixou castanhas assando debaixo da cinza. O cheiro chega aos dois de uma vez. Bertrand quer comer. Bertrand também não quer queimar a mão.

Ele olha para a pata do gato. Pata pequena, rápida, de garra fina, feita para agarrar o que se mexe. Ali está a ferramenta que falta a ele.

Então começa o elogio. Bertrand diz que só um gato de talento faria aquela proeza. Diz que, se Deus o tivesse feito com uma pata assim, as castanhas já estariam na boca dele.

Ratão escuta e cresce por dentro. Ninguém naquela casa tinha falado assim da pata dele.

O gato afasta a cinza com cuidado, encolhe os dedos por causa do calor e puxa a primeira castanha para fora do fogo. Depois a segunda. Depois a terceira.

Cada uma que rola pelo chão some na boca do macaco antes de esfriar. Ratão não percebe. Está ocupado com a próxima.

Adiante, a fábula contada inteira, até a porta da cozinha se abrir. Depois, de onde ela veio e como deu ao francês e ao inglês um nome para quem trabalha para outro comer. Por fim, o que a pata queimada de Ratão ensina sobre elogio.

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I  A Fábula do Dia

Um golpe de mestre na cinza

O Macaco e o Gato é a fábula de La Fontaine em que o macaco Bertrand, com elogios, convence o gato Ratão a tirar castanhas do braseiro com a pata e come cada uma delas, até a criada entrar e os dois fugirem.

Bertrand e Ratão moravam na mesma casa.

Tinham o mesmo dono e o mesmo gosto pelo que não era deles.

O macaco roubava o que achasse no caminho.

O gato caçava o queijo com mais vontade do que os ratos.

O dono vivia contando prejuízo e nunca achava o culpado.

Numa tarde fria, as castanhas assavam no fogo da cozinha.

Estavam enterradas na cinza, estalando de leve.

O cheiro encheu a casa e chegou primeiro ao macaco.

Bertrand se aproximou do braseiro e mediu o calor.

Era quente demais para a mão dele.

Chamou o gato, que cochilava perto da lenha.

Chamou de irmão, com a voz mais doce que tinha.

Disse que aquele era o dia de Ratão fazer um golpe de mestre.

Disse que a pata do gato tinha sido feita para aquela tarefa.

Disse que, se ele tivesse nascido com uma pata assim, as castanhas não teriam vez.

Ratão abriu os olhos e ouviu tudo de novo na cabeça.

Ninguém nunca tinha chamado a pata dele de obra de Deus.

Levantou, esticou o corpo e foi até o fogo.

Com a ponta das garras, afastou a cinza de lado.

O calor subiu e ele recolheu a pata depressa.

Voltou a estender, agora mais rápido.

Puxou uma castanha para fora, rolando no chão.

Puxou a segunda, depois a terceira.

A cada uma, sacudia os dedos e soprava a pata.

Bertrand, atrás dele, pegava a castanha ainda quente.

Mordia, mastigava e engolia sem dizer nada.

Ratão estava contente demais para olhar para trás.

Tinha os dedos vermelhos e o peito cheio de orgulho.

Esticou a pata para a quarta castanha.

Nessa hora, a porta da cozinha se abriu.

Era a criada da casa, que vinha cuidar do fogo.

Bertrand pulou para o telhado num salto só.

Ratão correu para debaixo do armário.

Lá embaixo, lambendo os dedos queimados, fez a conta.

Tinha tirado todas as castanhas do fogo.

Não tinha comido nenhuma.

 
 

Da cozinha francesa ao dicionário

A cena das castanhas já circulava como provérbio antes de La Fontaine, e foi o verso dele que fixou os dois nomes e espalhou a expressão por outras línguas.

Jean de La Fontaine nasceu em 1621, em Château-Thierry, no interior da França, e morreu em Paris em 1695. Publicou as Fábulas em três levas: a primeira em 1668, a segunda entre 1678 e 1679, a terceira em 1694.

O Macaco e o Gato é a fábula 17 do Livro 9, da segunda leva. Essa coleção foi dedicada a Madame de Montespan, a favorita do rei Luís 14, e já mostrava um poeta mais atento à corte do que aos bichos.

Os nomes

O gato se chama Raton no original, palavra francesa que quer dizer ratinho. É piada pronta: o gato da casa leva o nome da presa. Em português, o nome virou Ratão, e a piada sobreviveu.

Bertrand era nome comum de homem na França daquele tempo. Dar nome de gente a um macaco deixava claro, desde o primeiro verso, que a fábula falava de pessoas.

O poema chama os dois de comensais da mesma casa, palavra que designa quem come à mesma mesa. A escolha pesa: os dois comem juntos todo dia, e mesmo assim só um deles janta castanha naquela tarde.

A expressão

Em francês, tirer les marrons du feu (tirar as castanhas do fogo) já servia para descrever quem corre o risco e entrega o lucro a outro. La Fontaine contou a cena inteira que estava escondida dentro da frase.

O inglês ficou com a outra metade da imagem. Cat's paw (pata do gato) virou o nome de quem é usado por outra pessoa para fazer o serviço arriscado. A expressão segue nos dicionários de língua inglesa até hoje, com a fábula citada como origem.

No português, a fábula chegou ao leitor brasileiro em 1886, na tradução em versos do Barão de Paranapiacaba, o poeta e político João Cardoso de Meneses e Sousa. Os dois bichos ganharam ali roupa de verso em português.

A moral do poema

A fábula termina com uma frase seca sobre o gato: Ratão não ficou contente, dizem. Depois vem a moral, e ela não fala de bichos.

Assim também a maior parte desses príncipes que, lisonjeados por semelhante emprego, vão se queimar em províncias para proveito de algum rei.

Jean de La Fontaine, Fábulas, Livro 9, 1679 (tradução livre): a moral aponta para os nobres que lutavam guerras de Luís 14 e voltavam sem nada, enquanto o rei ficava com as terras.

 

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III  A Lição que Fica

Quem elogia a pata quer a castanha

Bertrand não ameaçou o gato. Não pediu favor nem ofereceu parte das castanhas. Usou uma só arma: o elogio no ponto exato.

Ele elogiou a pata, que era justamente a ferramenta de que precisava. O gato ouviu um elogio. O macaco fez uma encomenda.

Elogio que mira a sua habilidade e deixa o risco com você costuma ser um pedido disfarçado.

O segundo ponto está no corpo de Ratão. O gato sentia o fogo a cada castanha. A dor estava ali, na pata, e mesmo assim ele continuou. O orgulho de ter sido escolhido pesava mais do que a queimadura.

O terceiro ponto está na divisão do que cada um levou. Bertrand ficou com as castanhas e fugiu primeiro. Ratão ficou com os dedos vermelhos e com a fuga para debaixo do armário. O risco e o lucro nunca estiveram com o mesmo bicho.

Em casa, a cena aparece no irmão que elogia a letra bonita do caçula para que ele faça a lição dos dois. Na escola, no colega que diz que você é o único corajoso da turma bem na hora de levar o recado ao professor bravo.

No adulto, aparece no chefe que chama alguém de indispensável antes de pedir o fim de semana, e no sócio que elogia o seu nome para usá-lo no contrato arriscado.

Vale notar o que Bertrand não disse. Não mentiu sobre a pata, que era mesmo rápida e boa. O elogio era verdadeiro. A armadilha estava no uso que ele fez de uma frase verdadeira, e é por esse motivo que ela engana tão bem.

Ratão também não foi bobo por gostar do elogio. Todo bicho gosta de ser visto. O erro dele foi não perguntar, antes de esticar a pata, para quem eram as castanhas.

Para a criança, a fábula ensina uma pergunta curta, de fazer por dentro antes de esticar a mão: quem vai comer a castanha?

Antes de ler: pergunte à criança se alguém já pediu um favor a ela começando com um elogio.

No elogio de Bertrand: pare e pergunte o que o macaco quer mesmo quando fala da pata do gato.

Na primeira castanha: pergunte por que Ratão continua mesmo depois de sentir o calor.

Na chegada da criada: pergunte quem saiu ganhando e quem saiu queimado.

“Quem já elogiou a sua pata querendo a castanha?”

Debaixo do armário, Ratão soprou os dedos.

A cinza esfriou vazia.

 
 
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Quem ficou com as castanhas que Ratão tirou do braseiro?

AO dono da casa
BA criada que entrou na cozinha
CBertrand, o macaco
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