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As rãs pediram um rei e Júpiter jogou um pau
As rãs que pediram um rei vem inteira e em português de hoje, de Fedro a Monteiro Lobato, com a lição de quem despreza a paz que tem.
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As rãs em volta do tronco que virou rei do brejo
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Reclamação feita em tempo de sossego tem um som próprio: ela sempre parece justa. Falta alguma coisa, o vizinho tem mais, quem manda não aparece, e a lista cresce sozinha sem ninguém precisar puxar.
A fábula de hoje pega um brejo inteiro em paz e mostra o que acontece quando a insatisfação vira pedido em voz alta. Não é uma história sobre política nem sobre castigo divino. É uma história sobre o momento exato em que o incômodo com o que se tem fica maior que o cuidado com o que se pode perder.
Ela foi escrita em latim no século I, em Roma, por um liberto chamado Fedro, no livro I das Fabulae Aesopiae. Antes dele a mesma engrenagem já rodava na boca de Esopo na Grécia, e depois dele voltou em verso francês em 1668 e em português de quintal em 1922, sempre com o mesmo desenho: um pedido, um rei calado e um rei de dente.
O detalhe que costuma passar batido é quem faz o segundo pedido. As rãs não são enganadas por ninguém. Elas recebem um rei manso, olham bem pra ele, acham pouco e voltam a pedir com mais força.
O primeiro rei não faz mal a ninguém. O segundo faz o que cobra d'água faz. Entre um e outro não tem trapaça, tem só um pedido repetido por quem não gostou da resposta.
A criança pega essa mecânica na primeira leitura, porque ela conhece o jogo de enjoar do brinquedo que ganhou e querer o do outro. O que ela ainda não sabe é que nem todo pedido atendido devolve o brejo do jeito que ele estava.
O problema começa quando cada queixa é mesmo razoável sozinha. O tronco não fala, não decide, não responde quando chamam, e nenhuma dessas reclamações é invenção. O absurdo mora em concluir que qualquer rei é melhor que um rei quieto.
A fábula de hoje serve a partir dos cinco anos e leva perto de dois minutos lida em voz alta. Ela vem inteira, do primeiro coaxo de pedido até a última rã escondida no barro tentando falar com o céu, sem corte e sem resumo.
Depois dela vem a origem declarada, com nome, obra e ano de cada versão que chegou até a sua tela. E no fim, a lição em uma frase, no tamanho da criança, sem transformar vontade de mudar em defeito.
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I A Fábula do Dia
O rei de pau e o rei de dente
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Um brejo tranquilo, um pedido feito em coro e duas respostas muito diferentes vindas do mesmo céu. A fábula vem completa aqui embaixo, reescrita pra sair na sua voz sem tropeço.
As rãs viviam num brejo largo, de água parada e barro morno, e não tinham dono nem chefe nem ninguém pra mandar nelas. Cada uma nadava pra onde queria, comia o que achava e dormia na folha que escolhia.
Só que faltava alguma coisa, elas diziam. Faltava ordem, faltava respeito, faltava alguém sentado num lugar alto.
Então começaram a coaxar juntas, viradas pro céu, pedindo um rei pra tomar conta da lagoa.
Coaxaram a tarde inteira. Coaxaram a noite inteira. Coaxaram até Júpiter, lá em cima, escutar o barulho e resolver responder.
Ele achou o pedido bobo, mas atendeu do jeito mais leve que dava. Pegou um tronco de pau e jogou no meio do brejo.
O tronco caiu com um estrondo e levantou água pra todo lado.
As rãs sumiram no barro na mesma hora, escondidas debaixo das folhas, com medo daquele rei enorme que tinha caído do céu.
Ficaram quietas um tempo bom. Depois uma delas botou os olhos pra fora e viu que o tronco não tinha se mexido nem um dedo.
Chamou as outras. Chegaram perto devagar, uma por uma, e o rei continuou parado.
Aí subiram em cima dele.
Sentaram no rei, pularam no rei, tomaram sol no rei e usaram o rei de trampolim pra saltar na água.
E começaram a reclamar de novo, agora do rei que tinham ganhado.
Esse rei não fala, elas diziam. Esse rei não manda, não decide, não responde quando a gente chama. Esse rei é um pau.
Voltaram a coaxar pro céu pedindo um rei de verdade, um rei que se mexesse, um rei com força.
Júpiter escutou o segundo pedido e mandou o que elas pediram: uma cobra d'água.
A cobra entrou na lagoa sem barulho nenhum e foi levando as rãs, uma a uma, do jeito que cobra d'água faz.
As que sobraram se enfiaram no barro do fundo e ficaram lá, sem coaxar, sem subir, sem tomar sol.
De lá do fundo elas chamaram Júpiter outra vez, agora pedindo pra tirar aquele rei da lagoa.
E ele respondeu que não. Que elas não quiseram o rei manso, e agora tinham que aguentar o rei que escolheram.
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II A Origem
De Esopo em Atenas ao Sítio de Lobato
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Um fabulista grego no século VI antes de Cristo, um liberto romano no século I, um poeta em Paris em 1668 e o Sítio de Monteiro Lobato em 1922: quatro donos do mesmo brejo.
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A versão que chegou inteira até nós é a de Fedro. Ela está nas Fabulae Aesopiae, livro I, fábula 2, escrita em latim em Roma no século I, com o nome Ranae regem petentes, as rãs que pedem um rei.
Fedro não era romano de nascimento nem homem livre de origem. Ele foi escravizado, veio da Macedônia, virou liberto na casa do imperador Augusto e passou a vida vertendo Esopo em verso latino curto.
E ele conta a fábula com uma moldura em volta. No texto dele quem narra a história das rãs é o próprio Esopo, falando aos atenienses no tempo em que a cidade estava sob o governo de um homem só.
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Hoc sustinete, maius ne veniat, malum.
Aguentem este mal, pra que não venha um maior.
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Fedro, Fabulae Aesopiae, livro I, fábula 2, Roma, século I. A tradução acima segue a leitura corrente do texto em domínio público.
Essa moldura muda o alvo da fábula. Ela não foi contada pra ensinar rã nenhuma, foi contada pra uma cidade inteira que estava prestes a trocar um governo ruim por um bem pior.
O núcleo é mais antigo que Fedro e vem da Grécia. A história aparece no corpo de fábulas atribuídas a Esopo, fabulista grego do século VI antes de Cristo, catalogada em português e em várias línguas como As rãs que pediram um rei.
Uma diferença fina entre as versões
Em algumas versões gregas o segundo rei é uma cegonha ou uma garça, bicho de bico comprido que vive de comer rã em água rasa. Em Fedro é uma cobra d'água, que entra sem barulho e não deixa nem o aviso do voo.
A troca do bicho muda o susto de lugar. A cegonha se vê chegando de longe pelo céu; a cobra já está dentro da lagoa quando a primeira rã percebe.
Em 1668 a fábula entrou no francês pela mão de Jean de La Fontaine. Ela está em Fables choisies, mises en vers, livro III, fábula 4, publicada em Paris, com o nome Les Grenouilles qui demandent un Roi, e lá o tronco de pau assusta tanto que as rãs levam tempo pra ousar chegar perto.
No Brasil a fábula entrou na leitura de casa por Monteiro Lobato. Em Fábulas, de 1922, ela é contada em voz alta no Sítio, com palavra de quintal e sem cerimônia, e o brejo vira o charco que qualquer criança de roça já tinha visto de perto.
A expressão que sobrou em português é mais curta que todas elas: é pior a emenda que o soneto. É o que a criança repete antes de ouvir o nome de Fedro.
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