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As três pilhas iguais que o burro fez na frente do leão
A caçada do leão, do burro e da raposa vem inteira, do corpus de Esopo ao Digesto romano, com a divisão que a raposa fez depois.
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O burro divide a caça em três pilhas iguais
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"Sociedade leonina", chamou o jurista romano Aristo, em Roma, o contrato em que um sócio embolsa todo o ganho e o outro carrega toda a perda. A expressão foi registrada por Ulpiano e chegou até nós no Digesto de Justiniano, livro 17, título 2, fragmento 29, compilado em Constantinopla no ano 533 depois de Cristo.
Os juristas romanos não inventaram a imagem. Eles tomaram emprestado de uma história de caçada que já corria pelas praças gregas séculos antes, com três animais, uma presa no chão e uma conta pra fazer.
O elenco é curto e desequilibrado de propósito: um leão, um burro e uma raposa saem juntos pra caçar. Caçam, matam, empilham. Aí chega a hora de repartir, e a fábula inteira acontece nessa hora.
O burro faz o que qualquer criança de sete anos faria: divide em três montes idênticos e chama os sócios. A resposta do leão é imediata e brutal, e a história não perde tempo explicando por quê.
Sobra a raposa, que assistiu tudo. Ela recebe a mesma tarefa, com um dado novo diante dos olhos, e resolve o problema por um caminho que o burro nem cogitou.
O que faz esta fábula durar vinte e cinco séculos não é o castigo do burro. É a pergunta que o leão faz depois, quase de brincadeira, e a frase seca com que a raposa responde. Poucas fábulas terminam numa réplica tão curta.
Ela cabe em um minuto e meio lida devagar. Funciona a partir dos seis anos, que é a idade em que a criança já briga por divisão de bolo e já entende que nem toda divisão igual é justa, nem toda divisão desigual é injusta.
A fábula vem inteira aqui embaixo, da primeira pilha até a última fala da raposa, reescrita em português de hoje pra sair na sua voz sem tropeço.
Depois dela vem a origem declarada, com número de catálogo, autores e ano de cada versão, incluindo os quatro versos latinos que deram ao português a expressão que a gente usa até hoje sem pensar. E no fim, o que a história ensina sobre aprender com o erro dos outros.
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I A Fábula do Dia
Três pilhas iguais e uma pergunta
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Uma caçada com sócios de tamanhos diferentes, uma divisão feita com régua e uma segunda divisão feita com os olhos abertos. A fábula vem completa aqui embaixo.
Um leão, um burro e uma raposa combinaram caçar juntos. Cada um entrava com o que tinha. O leão entrava com a força, o burro com o corpo grande, a raposa com o faro.
Passaram o dia inteiro no mato.
O burro corria na frente e espantava a caça pro lado certo.
A raposa farejava o rastro e apontava a direção.
O leão fechava o cerco e derrubava.
No fim da tarde a caça estava toda amontoada numa clareira.
Era um monte alto de carne, mais do que os três comeriam numa semana.
Repartam, disse o leão, deitado na sombra. Você aí, burro. Faça a divisão.
O burro ficou orgulhoso da tarefa.
Trabalhou com cuidado, empurrando pedaço por pedaço com o focinho.
Fez três montes do mesmo tamanho, um do lado do outro, alinhados no chão de terra.
Mediu com o olho, ajustou, tirou de um e pôs no outro.
Quando ficou tudo igual, chamou os sócios com voz alegre.
Pronto, disse o burro. Uma parte pra cada um. Podem escolher.
O leão levantou devagar.
Olhou os três montes iguais, olhou o burro, e não discutiu.
Numa investida só, o burro foi ao chão e não se levantou mais.
A raposa não disse nada.
Ficou parada onde estava, olhando.
Agora você, disse o leão. Divida.
A raposa foi trabalhar.
Empurrou quase toda a carne pra um lado só, num monte alto, e foi empilhando com capricho.
Juntou os ossos, as pontas e os restos num montinho separado, do tamanho de um pé.
Depois se afastou dois passos e apontou.
O monte grande é seu, disse ela. Todo ele.
E o outro?, perguntou o leão, quase se divertindo.
O outro é o que eu levo, disse a raposa. Se o senhor deixar.
O leão riu pela primeira vez no dia inteiro.
Quem te ensinou a dividir assim tão bem?, perguntou.
A raposa olhou pro chão, ali perto, onde o burro estava caído.
Ele, disse ela.
Não falou mais nada.
O leão comeu o monte grande até o fim.
A raposa esperou de longe, sentada, sem se aproximar.
Quando o leão saiu, ela foi buscar os ossos.
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II A Origem
Quatro versos que viraram expressão
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Uma fábula com número próprio no catálogo grego, uma versão em verso que preserva a réplica da raposa, um poeta latino que escreveu a divisão em quatro linhas, um fabulista francês do século XVII e um manual de direito romano que transformou tudo em termo técnico.
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A história está no corpus atribuído a Esopo, catalogada como número 149 no Perry Index, o índice montado por Ben Edwin Perry na obra Aesopica, publicada pela University of Illinois Press em 1952. É o sistema que os estudiosos usam até hoje pra rastrear cada fábula por número, sem depender do título, que muda de língua pra língua.
A versão em verso grego que chegou mais completa é a de Bábrio, fábula 67 da coleção dele, escrita provavelmente no século II depois de Cristo. É essa versão que guarda o diálogo final, com o leão perguntando quem ensinou e a raposa apontando pro burro caído. Sem Bábrio, a réplica teria sumido e sobraria só a divisão.
O latim tem uma prima próxima, com elenco trocado. Fedro, na obra Fabulae Aesopiae, livro I, fábula 5, escrita no século I depois de Cristo, conta a caçada de uma vaca, uma cabra e uma ovelha em sociedade com o leão. A divisão vem em quatro versos que ficaram famosos:
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Ego primam tollo, nominor quoniam leo; secundam, quia sum fortis, tribuetis mihi; tum, quia plus valeo, me sequetur tertia; malo adficietur, si quis quartam tetigerit.
Eu fico com a primeira, porque me chamo leão; a segunda vocês me dão, porque sou o mais forte; a terceira vem pra mim, porque valho mais; e quem encostar na quarta vai se arrepender.
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Fedro, Fabulae Aesopiae, livro I, fábula 5, século I depois de Cristo.
A expressão que ficou
Desses versos nasceu a expressão que o português usa até hoje: a parte do leão, aquela fatia que alguém toma pra si por ser quem é, e não por ter feito mais. O francês diz la part du lion, o inglês diz the lion's share, e todos apontam pra mesma cena de repartição.
Na França, Jean de La Fontaine reescreveu a versão de Fedro como La Génisse, la Chèvre et la Brebis en société avec le Lion, publicada no livro I das Fables, em 1668, e manteve os quatro argumentos do leão intactos.
O direito romano levou a imagem a sério. Ulpiano, no fragmento recolhido no Digesto de Justiniano, livro 17, título 2, registra que o jurista Cássio considerava nula a sociedade em que um sócio fica com todo o lucro e o outro com todo o prejuízo, e que Aristo chamava esse arranjo de societas leonina. O Digesto foi promulgado em 533 depois de Cristo e é a base de boa parte do direito civil ocidental.
Em português, a fábula circula nas coletâneas de Esopo publicadas no Brasil com títulos como O leão, o asno e a raposa ou A parte do leão, e aparece em livro escolar desde o século XIX.
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