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Uma horta de abóbora, um carvalho velho e um homem convencido de que Deus tinha errado a medida. A fábula vem completa aqui embaixo, reescrita pra sair na sua voz sem tropeço.
Garo era um homem simples da roça, desses que falam sozinhos enquanto caminham e acham que estão pensando alto demais pra idade que têm.
Numa tarde quente ele passou pela beira de uma horta e parou pra olhar uma abóbora enorme, gorda e amarela, deitada no chão de terra.
Que estranho, ele disse. Uma fruta desse tamanho pendurada num talo fininho que nem serve pra segurar um passarinho.
Ele andou mais um pouco e sentou na sombra de um carvalho grande, o maior da região, com o tronco que três homens de braço aberto não fechavam.
Olhou pra cima e viu, no meio de toda aquela folhagem, as bolotinhas miúdas penduradas nos galhos.
Aí está o erro, disse Garo. Uma árvore deste tamanho carregando uma semente que cabe na ponta do meu dedo.
E continuou falando sozinho, agora convencido.
Se o mundo tivesse sido feito por mim, a abóbora estaria aqui em cima, no galho forte, e a bolota estaria lá embaixo, no talo do chão. Cada peso no lugar certo.
Ele achou o raciocínio tão bom que repetiu duas vezes em voz alta, satisfeito consigo mesmo.
Depois se encostou no tronco, cruzou os braços, sentiu o calor da tarde e cochilou ali mesmo, com a cabeça pra trás e o rosto virado pro céu.
Enquanto ele dormia, o vento passou pelos galhos e balançou a copa inteira.
Uma bolota se soltou lá de cima e caiu os vinte metros direto no nariz de Garo.
Ele acordou com um grito, levou as duas mãos ao rosto e sentiu o sangue escorrendo pelo bigode.
Quando abriu os olhos, viu a bolotinha rolando na terra ao lado dele.
Garo ficou olhando aquela semente do tamanho de uma unha e depois olhou pra copa do carvalho lá em cima.
E pensou no que tinha acabado de dizer.
Se em vez desta bolota tivesse caído a abóbora que eu queria pendurar aqui, ele falou, eu não estaria acordando agora.
Levantou, limpou o nariz na manga da camisa e voltou pra casa mais devagar do que tinha vindo.
No caminho ele foi repetindo pra si mesmo que dali em diante ia olhar as coisas do mundo mais tempo antes de dizer como elas deviam ser.
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