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ED 023

Garo quis consertar o tamanho das abóboras

A bolota e a abóbora vem inteira e em português de hoje, de La Fontaine ao cochilo debaixo do carvalho, com a conta de quem corrige o mundo.

Homem da roça dormindo encostado no tronco de um carvalho grande, com uma bolota caindo dos galhos.

Homem cochilando debaixo do carvalho

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Uma abóbora de vinte quilos pendurada num talo fino de rastejar no chão, e uma bolota do tamanho de uma unha pendurada num carvalho de vinte metros. Quem olha a horta com atenção uma vez na vida repara nessa desproporção e acha que alguma coisa ali saiu trocada.

A fábula de hoje começa exatamente nesse reparo. Um homem comum, andando pela roça, decide que o tamanho das frutas foi distribuído no lugar errado e que ele saberia arrumar melhor.

Ela foi publicada em verso francês por Jean de La Fontaine, no livro IX das Fables choisies, mises en vers, na leva impressa em Paris entre 1678 e 1679. O nome original é Le Gland et la Citrouille, a bolota e a abóbora.

O que faz a história durar não é o erro do homem. É a velocidade com que ele mesmo descobre o erro, sem professor, sem castigo e sem ninguém explicando nada pra ele.

A correção vem de uma bolota de dois gramas caindo de vinte metros bem em cima do nariz de quem estava dormindo. Nenhuma palavra, nenhuma discussão, nenhum argumento. Só o peso mínimo de uma semente chegando no lugar mais sensível do rosto.

A criança acha graça na queda antes de entender a ideia, e está tudo certo. A gargalhada é a porta de entrada. A conta ela faz sozinha depois, quando alguém pergunta o que teria acontecido se o pedido dele tivesse sido atendido.

O adulto que lê em voz alta costuma travar num ponto: a fábula parece dizer que ninguém deve questionar nada. Não é o que ela mostra. O homem não erra por perguntar, erra por concluir num minuto de olhada o que a árvore levou trezentos anos pra resolver.

A fábula de hoje serve a partir dos quatro anos e leva perto de um minuto e meio lida em voz alta. É das mais curtas do livro inteiro, com um susto no meio e uma frase de fecho que a criança repete sozinha.

Ela vem completa aqui embaixo, da primeira olhada do homem na horta até a última palavra dele com a mão no nariz.

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I  A Fábula do Dia

O homem que quis consertar o carvalho

Uma horta de abóbora, um carvalho velho e um homem convencido de que Deus tinha errado a medida. A fábula vem completa aqui embaixo, reescrita pra sair na sua voz sem tropeço.

Garo era um homem simples da roça, desses que falam sozinhos enquanto caminham e acham que estão pensando alto demais pra idade que têm.

Numa tarde quente ele passou pela beira de uma horta e parou pra olhar uma abóbora enorme, gorda e amarela, deitada no chão de terra.

Que estranho, ele disse. Uma fruta desse tamanho pendurada num talo fininho que nem serve pra segurar um passarinho.

Ele andou mais um pouco e sentou na sombra de um carvalho grande, o maior da região, com o tronco que três homens de braço aberto não fechavam.

Olhou pra cima e viu, no meio de toda aquela folhagem, as bolotinhas miúdas penduradas nos galhos.

Aí está o erro, disse Garo. Uma árvore deste tamanho carregando uma semente que cabe na ponta do meu dedo.

E continuou falando sozinho, agora convencido.

Se o mundo tivesse sido feito por mim, a abóbora estaria aqui em cima, no galho forte, e a bolota estaria lá embaixo, no talo do chão. Cada peso no lugar certo.

Ele achou o raciocínio tão bom que repetiu duas vezes em voz alta, satisfeito consigo mesmo.

Depois se encostou no tronco, cruzou os braços, sentiu o calor da tarde e cochilou ali mesmo, com a cabeça pra trás e o rosto virado pro céu.

Enquanto ele dormia, o vento passou pelos galhos e balançou a copa inteira.

Uma bolota se soltou lá de cima e caiu os vinte metros direto no nariz de Garo.

Ele acordou com um grito, levou as duas mãos ao rosto e sentiu o sangue escorrendo pelo bigode.

Quando abriu os olhos, viu a bolotinha rolando na terra ao lado dele.

Garo ficou olhando aquela semente do tamanho de uma unha e depois olhou pra copa do carvalho lá em cima.

E pensou no que tinha acabado de dizer.

Se em vez desta bolota tivesse caído a abóbora que eu queria pendurar aqui, ele falou, eu não estaria acordando agora.

Levantou, limpou o nariz na manga da camisa e voltou pra casa mais devagar do que tinha vindo.

No caminho ele foi repetindo pra si mesmo que dali em diante ia olhar as coisas do mundo mais tempo antes de dizer como elas deviam ser.

 
 

II  A Origem

De um conto de Dijon ao verso de Paris

Uma história oral de província no século XVI, um verso francês de 1679 e um homem com uma noz na cabeça no Oriente: três donos da mesma bolota.

A versão mais conhecida no mundo inteiro é a de Jean de La Fontaine. Ela está em Fables choisies, mises en vers, livro IX, fábula 4, impressa em Paris na segunda leva das fábulas, entre 1678 e 1679, com o nome Le Gland et la Citrouille.

É uma das fábulas mais curtas da coleção, com pouco mais de trinta versos, e das poucas em que a moral não vem no fim: ela abre a fábula, antes de qualquer cena.

Dieu fait bien ce qu'il fait.

Deus faz bem o que faz.

Jean de La Fontaine, Fables choisies, mises en vers, livro IX, fábula 4, Paris, 1679. A tradução acima segue a leitura corrente do texto em domínio público.

O nome do personagem também é dele. Garo é uma invenção de La Fontaine, um camponês tirado do teatro cômico francês da época, e o nome pegou tanto que virou apelido em francês pra quem opina sobre o que não entende.

O núcleo da história é anterior e vinha da tradição oral do interior da França. Ela aparece impressa antes de La Fontaine num livro de contos de província de Estienne Tabourot, Les Escraignes dijonnoises, publicado em Dijon em 1588, dentro de uma coleção de casos curtos ouvidos nas reuniões de vizinhos nas noites de inverno.

Nessa versão mais velha não tem carvalho nem abóbora com nome de fruta escolhida a dedo. Tem um homem reclamando do tamanho de um fruto num pé alto, e o mesmo desfecho de acordar com a semente na cara.

Uma diferença fina entre as versões

A mesma armadilha corre há séculos na tradição oral do Oriente Médio e da Ásia Central, nos casos atribuídos a Nasrudin, o personagem popular que aparece em coletâneas turcas, persas e árabes.

Ali o homem reclama de uma melancia pendurada num ramo rasteiro e de uma noz numa nogueira alta, cochila embaixo da árvore e acorda com a noz na testa. A frase que ele diz ao acordar, na maioria das versões recolhidas, é um agradecimento por não ser dono do próprio pedido.

A diferença está no tom. Nas versões orientais o fecho é o alívio de quem escapou. Em La Fontaine é o silêncio de quem foi corrigido por um objeto de dois gramas e entendeu na hora, sem precisar de ninguém pra explicar.

Em português a mesma ideia sobreviveu numa expressão de quintal muito mais curta: cada coisa no seu lugar. É o que a criança ouve em casa décadas antes de encontrar o nome de La Fontaine em qualquer livro.

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III  A Lição que Fica

A bolota que caiu no nariz de Garo

A moral que costumam pendurar nesta fábula é a mais preguiçosa das leituras: não questione, aceite tudo como está. Ela transforma uma história engraçada num sermão e apaga a parte boa.

Repare no que a fábula mostra de verdade. Garo não é punido por olhar a horta e achar aquilo estranho. A pergunta dele é boa, e um botânico faria a mesma no primeiro dia de trabalho.

Ele é derrubado por ter pulado da pergunta pro projeto em menos de um minuto, com uma tarde de observação e nenhum teste.

Tem uma segunda camada aqui, e é a mais fina da fábula inteira. O erro de Garo não foi de opinião, foi de escala. Ele mediu o mundo pelo que dava pra ver de onde estava sentado.

Da sombra do carvalho, a abóbora no galho parece uma boa ideia. Da posição de quem cochila embaixo do galho, é outra história completamente diferente, e a diferença entre as duas leituras é o próprio corpo dele no chão.

Garo estava no meio do sistema que queria redesenhar e não contou consigo mesmo na conta. É o tipo de erro que não aparece na ideia, só aparece quando a ideia cai.

Vale dizer o que a fábula não faz. Ela não ensina a criança a nunca duvidar do que vê, a achar que perguntar é atrevimento nem a engolir qualquer arranjo só porque ele já estava ali antes dela nascer.

Ela separa duas coisas que se parecem muito: reparar, que é olhar com atenção e valorizar a dúvida, e concluir, que é decidir o novo desenho antes de ter olhado o suficiente.

Antes de começar: diga a idade e o tempo em voz alta. A partir dos quatro anos, perto de um minuto e meio. A criança entra melhor quando sabe que a história é curta.

Na hora da abóbora: abra os dois braços pra mostrar o tamanho e depois junte os dedos pra mostrar a bolota. O contraste de tamanho é a fábula inteira, e ele entra pelos olhos antes de entrar pelo ouvido.

Na hora do cochilo: encoste a cabeça pra trás, feche os olhos e faça silêncio por dois segundos completos. O susto só funciona se tiver silêncio antes dele.

Na hora da queda: dê um tapinha no próprio nariz e diga ai. A criança ri, e a risada é o que faz a ideia grudar sem sermão nenhum.

Depois do fim: pergunte o que teria acontecido se a abóbora estivesse no galho. Deixe a criança responder sozinha. Essa resposta é a fábula terminando de acontecer dentro dela.

O adulto que lê está no mesmo carvalho. A reunião que deu palpite na área de outro time em quinze minutos, a receita corrigida na primeira colherada, a regra da casa mudada por causa de um dia ruim.

A lição em uma frase: duvidar do arranjo do mundo é sinal de cabeça acordada, e o cuidado está em olhar tempo suficiente antes de decidir onde cada peso deveria estar.

“Qual arranjo você julgou rápido demais e ainda não voltou pra olhar com calma?”

 
 
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Antes da versão de La Fontaine, a história do homem que reclama do tamanho das frutas já tinha aparecido impressa em que livro?

ALe Gland et la Citrouille, publicado em Paris em 1679
BLes Escraignes dijonnoises, de Estienne Tabourot, publicado em Dijon em 1588
CFables choisies, mises en vers, livro IX
DContos populares do Oriente Médio atribuídos a Nasrudin

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