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Uma estrada de mato fechado, um bicho grande que chega sem aviso e dois amigos que tinham combinado tudo. A fábula vem completa aqui embaixo, reescrita pra sair na sua voz sem tropeço.
Havia dois amigos que precisavam atravessar uma serra de mato fechado pra chegar na vila do outro lado. Eles se conheciam desde meninos e viajavam juntos por costume.
Na véspera da viagem, sentados no degrau da porta, os dois combinaram o caminho inteiro.
E combinaram uma última coisa, olhando um pro outro: se aparecer perigo, ninguém larga ninguém.
Saíram de manhã cedo, com a bolsa de pão nas costas, e entraram na estrada de terra que cortava o mato.
Andaram a manhã toda conversando alto, rindo de história velha, sem prestar atenção em nada.
Perto do meio-dia o mato mexeu do lado direito da estrada.
Um urso grande saiu de dentro das folhas, a três passos deles, e parou olhando.
O mais rápido dos dois não disse uma palavra.
Pulou pro tronco da árvore mais próxima, agarrou o primeiro galho e subiu.
Subiu depressa, se encaixou no meio dos galhos e ficou quieto lá em cima, escondido na folhagem.
O outro ficou sozinho no meio da estrada, com o urso na frente e a bolsa de pão nas costas.
Ele não sabia subir em árvore e não ia ganhar do bicho na corrida.
Então fez a única coisa que lembrou: deitou no chão de barriga pra baixo, encostou o rosto na terra e ficou completamente parado.
Segurou a respiração e não mexeu nem um dedo.
O urso chegou perto devagar, com o focinho baixo.
Cheirou a mão dele, cheirou a bolsa de pão, cheirou a orelha e ficou ali um tempo com o focinho encostado na cabeça do homem.
Pareceu que o urso estava falando alguma coisa bem baixinho no ouvido dele.
Depois virou as costas, atravessou a estrada sem pressa e sumiu no mato do outro lado.
Quando teve certeza de que o bicho tinha ido embora, o amigo da árvore desceu, sacudiu a roupa e chegou perto rindo.
Perguntou, ainda rindo, o que o urso tinha dito no ouvido dele.
O homem do chão levantou devagar, tirou a terra do rosto e olhou pro amigo.
Respondeu que o urso tinha dado um conselho curto.
Disse que o urso mandou nunca mais viajar com quem sobe na árvore sozinho quando o perigo aparece.
Os dois terminaram a travessia e chegaram na vila antes de escurecer, andando um do lado do outro.
Mas nunca mais combinaram viagem nenhuma no degrau da porta.
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