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Fábula do Dia   Fábula do Dia
ED 015

O amigo que subiu na árvore quando o urso chegou

Os dois companheiros e o urso vem inteira e em português de hoje, de Esopo a La Fontaine, com a lição de que amizade se mede na hora do aperto.

Dois viajantes numa estrada de mato: um subiu na árvore e o outro está deitado no chão enquanto um urso o cheira.

Um na árvore, o outro parado no chão

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Amizade combinada em mesa de conversa é barata. Ela custa alguma coisa no primeiro minuto em que aparece um susto e só existe um lugar seguro pra uma pessoa. A fábula de hoje mede exatamente esse minuto.

Ela cabe num pedaço curto de caminho: uma estrada de terra no meio do mato, uma árvore de tronco alto e um bicho grande que aparece sem barulho nenhum de aviso.

No índice Perry, o catálogo que numera a fábula antiga, ela leva o número 65. No catálogo internacional de contos populares, o índice Aarne, Thompson e Uther, ela ocupa o tipo 179, registrado com o nome O que o urso falou no ouvido dele.

Os dois números dizem a mesma coisa: a estrada é velha e viajou longe. O francês chama a fábula de L'Ours et les deux Compagnons, o inglês de The Bear and the Two Travellers, o espanhol de Los dos amigos y el oso.

O que costuma passar batido é que ninguém mentiu antes da hora do aperto. Os dois combinaram a viagem juntos, dividiram o pão da bolsa e disseram um pro outro que iam se cuidar no caminho.

A promessa era de verdade quando foi feita. O que faltou nela só apareceu quando o mato mexeu.

É aí que a fábula morde. História de traidor que arma o golpe se resolve rápido na conversa com a criança: não faça o que ele fez. História em que ninguém planejou trair obriga a falar de uma coisa mais fina, a diferença entre gostar de alguém e ficar no chão junto.

E obriga a falar de um detalhe que quase todo mundo esquece: o único personagem que diz a verdade na história inteira é o urso.

A fábula de hoje serve a partir dos cinco anos e leva perto de um minuto e meio lida em voz alta. Ela vem inteira, do primeiro passo na estrada até a descida da árvore, sem corte e sem resumo.

Depois dela vem a origem declarada, com nome, obra e ano de cada versão que chegou até a sua tela. E no fim, a lição em uma frase, no tamanho da criança, sem transformar o companheiro da árvore em monstro.

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I  A Fábula do Dia

A árvore, o chão e a respiração presa

Uma estrada de mato fechado, um bicho grande que chega sem aviso e dois amigos que tinham combinado tudo. A fábula vem completa aqui embaixo, reescrita pra sair na sua voz sem tropeço.

Havia dois amigos que precisavam atravessar uma serra de mato fechado pra chegar na vila do outro lado. Eles se conheciam desde meninos e viajavam juntos por costume.

Na véspera da viagem, sentados no degrau da porta, os dois combinaram o caminho inteiro.

E combinaram uma última coisa, olhando um pro outro: se aparecer perigo, ninguém larga ninguém.

Saíram de manhã cedo, com a bolsa de pão nas costas, e entraram na estrada de terra que cortava o mato.

Andaram a manhã toda conversando alto, rindo de história velha, sem prestar atenção em nada.

Perto do meio-dia o mato mexeu do lado direito da estrada.

Um urso grande saiu de dentro das folhas, a três passos deles, e parou olhando.

O mais rápido dos dois não disse uma palavra.

Pulou pro tronco da árvore mais próxima, agarrou o primeiro galho e subiu.

Subiu depressa, se encaixou no meio dos galhos e ficou quieto lá em cima, escondido na folhagem.

O outro ficou sozinho no meio da estrada, com o urso na frente e a bolsa de pão nas costas.

Ele não sabia subir em árvore e não ia ganhar do bicho na corrida.

Então fez a única coisa que lembrou: deitou no chão de barriga pra baixo, encostou o rosto na terra e ficou completamente parado.

Segurou a respiração e não mexeu nem um dedo.

O urso chegou perto devagar, com o focinho baixo.

Cheirou a mão dele, cheirou a bolsa de pão, cheirou a orelha e ficou ali um tempo com o focinho encostado na cabeça do homem.

Pareceu que o urso estava falando alguma coisa bem baixinho no ouvido dele.

Depois virou as costas, atravessou a estrada sem pressa e sumiu no mato do outro lado.

Quando teve certeza de que o bicho tinha ido embora, o amigo da árvore desceu, sacudiu a roupa e chegou perto rindo.

Perguntou, ainda rindo, o que o urso tinha dito no ouvido dele.

O homem do chão levantou devagar, tirou a terra do rosto e olhou pro amigo.

Respondeu que o urso tinha dado um conselho curto.

Disse que o urso mandou nunca mais viajar com quem sobe na árvore sozinho quando o perigo aparece.

Os dois terminaram a travessia e chegaram na vila antes de escurecer, andando um do lado do outro.

Mas nunca mais combinaram viagem nenhuma no degrau da porta.

 
 

II  A Origem

De Esopo a La Fontaine, o urso que fala baixo

Esopo no século VI antes de Cristo, La Fontaine em Paris em 1668 e Monteiro Lobato no Brasil em 1922: três paradas da mesma estrada.

O nome de Esopo aparece na capa da maioria das coleções que trazem os dois companheiros e o urso, e é por ele que a história chega à escola. A tradição grega o coloca no século VI antes de Cristo, escravo alforriado que contava bicho pra falar de gente.

A fábula está no índice Perry com o número 65, o catálogo que organiza tudo que a tradição atribui a ele.

Na versão grega o desenho já é o que se conta hoje: dois viajantes, um urso na estrada, um homem no galho, um homem no chão e uma frase sussurrada na orelha.

Vale registrar uma diferença que atravessa as versões. No grego o bicho vai embora porque não mexe com corpo caído. Em boa parte das coleções brasileiras o narrador explica o detalhe pra criança, pra ela entender que o homem do chão usou a cabeça em vez de fingir coragem.

De Paris ao verso que atravessou a estrada

Em 1668, em Paris, Jean de La Fontaine publicou Fables choisies, mises en vers. Os dois companheiros e o urso está no livro V, na fábula 20, com o nome L'Ours et les deux Compagnons.

La Fontaine faz uma costura que os gregos não faziam. Antes da estrada, os dois amigos dele vendem a pele do urso pro vizinho peleiro, com dinheiro adiantado e prazo marcado, sem ter encontrado o bicho ainda.

O urso da fábula aparece depois da venda, no meio da caminhada, e a frase que ele sussurra no ouvido do homem do chão vira a moral em verso:

Il ne faut jamais vendre la peau de l'ours qu'on ne l'ait mis par terre.

Nunca se vende a pele do urso antes de ter o bicho no chão.

Jean de La Fontaine, Fables choisies, mises en vers, livro V, fábula 20, Paris, 1668. A tradução acima segue a leitura corrente do texto em domínio público.

No Brasil a fábula entrou na leitura de casa pela mão de Monteiro Lobato. Em Fábulas, de 1922, Dona Benta conta a história em voz alta, com palavra de cozinha e sem cerimônia.

A expressão que sobrou em português é mais curta que todas elas: é na hora do aperto que se conhece o amigo. É o que a criança já ouviu na cozinha antes de ouvir o nome de Esopo.

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III  A Lição que Fica

O que o urso disse no ouvido

A moral que ficou colada nesta fábula é curta e um pouco preguiçosa: amigo de verdade não abandona ninguém. Ela transforma o homem da árvore em vilão, e a maldade explica pouco do que aconteceu na estrada.

Repare no que ele fez. Não empurrou o companheiro na direção do urso, não roubou a bolsa de pão e não tinha combinado nada por trás.

Ele só reagiu antes de pensar, e o corpo dele resolveu sozinho num segundo e meio.

É por causa disso que a fábula ainda funciona com criança de cinco anos. O medo é a parte da história que a criança entende sem explicação nenhuma.

O que ela precisa ver é a parte seguinte, que é a mais fina da fábula inteira: o problema não foi subir na árvore, foi o que aconteceu depois de descer.

Ele desceu rindo. Fez piada com o momento em que o outro estava com o rosto na terra e um bicho grande farejando a orelha.

E a primeira pergunta dele não foi se o amigo tinha se machucado. Foi uma pergunta de curiosidade, sobre o que o urso teria falado.

A criança reconhece a cena na hora. É o colega que sumiu do lado dela quando o professor chamou a turma pra explicar quem quebrou o vaso, e voltou no recreio pedindo pra brincar.

A lição em uma frase: promessa de amizade se paga na hora do aperto, e quem só aparece depois do susto está chegando tarde.

Antes de começar: diga a idade e o tempo em voz alta. A partir dos cinco anos, perto de um minuto e meio. A criança entra melhor quando sabe que a história acaba logo.

Na hora do combinado: conte devagar a conversa no degrau da porta. A criança precisa ouvir a promessa antes do urso, senão a quebra no meio da estrada não pesa nada.

Na hora do urso: conte a chegada devagar, passo a passo, sem apressar o bicho. A criança mede o tamanho do perigo pelo tempo que o narrador leva pra descrever ele.

Na hora do sussurro: pare e pergunte pra criança o que ela acha que o urso falou. Deixe ela responder antes de você contar. A resposta dela costuma ser melhor que a explicação pronta.

Se a criança ficar com pena do amigo da árvore, tudo bem, é sinal de que ela entendeu a fábula. Vale a pergunta seguinte: o que ele podia ter dito ao descer, em vez de rir?

Vale dizer também o que a fábula não faz. Ela não manda cortar amizade no primeiro erro nem ensina a criança a esperar heroísmo de todo mundo que gosta dela.

Ela separa duas coisas que se parecem: ter medo, que acontece com qualquer um, e tratar o susto do outro como piada depois que o perigo passou.

O adulto que lê está na estrada junto: o sócio que sumiu do telefone na semana da conta grande, o colega que virou pro outro lado na reunião em que o nome dele estava em jogo.

O urso da fábula não atacou ninguém. Ele só ficou tempo suficiente com o focinho na orelha do homem pra deixar uma pergunta que a estrada inteira não tinha feito.

"Quem subiu na árvore da última vez que o mato mexeu do seu lado?"

 
 
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Na fábula de hoje, o que o urso fez com o companheiro que ficou deitado no chão da estrada?

ACheirou a mão, a bolsa e a orelha dele, e foi embora sem atacar
BLevou a bolsa de pão e deixou o homem na estrada
CSubiu atrás do amigo que estava no galho da árvore
DRugiu até o homem da árvore descer do tronco

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