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ED 076
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O arco de ébano e a caçada entalhada

Na fábula de Lessing, de 1759, o dono acha o arco sem graça, manda entalhar uma caçada na madeira e perde a arma no primeiro tiro.

Um homem segura um arco de ébano escuro, todo entalhado com uma cena de caçada, partido ao meio no instante do disparo.

O arco entalhado partido nas mãos do dono

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“Um pouco desajeitado você é, afinal”, disse o homem ao próprio arco, sentado em casa, com a arma no colo, na fábula que Gotthold Ephraim Lessing imprimiu em Berlim em 1759.

O arco era de ébano, a madeira preta e pesada que vinha de longe e custava caro. Com ele, o dono acertava alvos distantes e quase nunca errava. Guardava a peça como quem guarda o melhor objeto da família.

Nada estava quebrado. Nenhum tiro tinha saído torto. A arma fazia tudo o que uma arma deve fazer, e fazia melhor do que as dos vizinhos.

O problema surgiu numa tarde parada. O homem pegou o arco sem ter onde atirar e ficou olhando para ele, com calma, de perto, como nunca tinha olhado.

Viu uma curva escura, lisa, sem um desenho sequer. Nenhuma figura, nenhum friso, nenhum sinal de que alguém tinha caprichado ali além do necessário.

Na fábula, ele resume a queixa numa frase curta: toda a beleza do arco era ser liso. E completa com um lamento, “Pena!”.

Até aquela tarde, o arco era bonito porque funcionava. Bastou um olhar ocioso para a mesma superfície virar defeito.

O dono não pensou em vender a arma nem em trocar por outra. Gostava dela. Queria só que ela ficasse à altura do apreço que ele sentia.

A solução apareceu na hora, e pareceu óbvia: chamar alguém que soubesse decorar madeira. Na cabeça dele, enfeite era só acréscimo. Nada se perdia, tudo se ganhava.

Lessing conta a cena em poucas linhas, sem descrever o rosto do homem, a casa ou a cidade. O leitor sabe só o que importa ao enredo: a madeira, a distância do tiro e o incômodo novo do dono.

O arco não tinha voz para se defender. Também não tinha como avisar que a madeira lisa era parte do motivo de atirar tão longe.

A seguir, o trabalho do artista e o primeiro disparo. Depois, o escritor alemão que guardou a cena num livro de fábulas e de ensaios. Por fim, o que o arco ensina a quem lê a história com uma criança.

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I  A Fábula do Dia

O artista, a caçada e a corda

A fábula se chama O dono do arco (Der Besitzer des Bogens, no original alemão) e saiu no livro Fabeln (Fábulas), de Gotthold Ephraim Lessing, impresso em Berlim em 1759.

O homem foi atrás do melhor entalhador que conseguiu achar. Não queria um ajuste discreto. Queria figuras inteiras na curva da madeira.

O artista pensou no tema e escolheu uma caçada. Cavaleiros, cães, bichos em fuga, tudo esculpido em volta do arco, do cabo às pontas.

Lessing comenta a escolha com ironia: o que combinaria melhor com um arco do que uma caçada? O enfeite parecia perfeito, porque falava da própria função da arma.

Para abrir as figuras, o entalhador precisou tirar madeira. Cada cão e cada cavaleiro era um sulco cavado no ébano, um pedaço a menos de matéria na peça que antes era inteira.

A fábula não menciona esse detalhe com todas as letras. Também não precisa.

O ébano é duro e denso, ótimo para entalhar figuras miúdas. Os artesãos gostavam dele justamente por essa dureza. Só que madeira dura demais quebra em vez de dobrar, e um sulco funciona como o risco que o vidraceiro faz antes de partir o vidro.

Cavar a madeira justo no ponto onde ela mais sofre é abrir um caminho pronto para a rachadura. Qualquer arqueiro sabe que o arco trabalha dobrando, e que a parte dobrada carrega toda a força do tiro.

O dono recebeu a peça pronta e ficou feliz. Na fábula, ele fala de novo com o arco, agora com carinho: “Você merece estes enfeites, meu querido arco!”

O elogio dura pouco. A frase seguinte já é o teste. Ele quer ver como a arma nova se comporta.

Prende a corda, encaixa a flecha, puxa.

E o arco se quebra.

Lessing não descreve o barulho, nem a cara do dono, nem o que ele fez depois. Na edição alemã, um traço separa a palavra arco do verbo quebrar, como se o leitor precisasse de um segundo para entender.

O texto inteiro tem menos de dez frases. Quem lê em português costuma achar a história curta demais, quase um bilhete. Lessing fez de propósito, e a seção seguinte mostra por quê.

“Ein Mann hatte einen trefflichen Bogen von Ebenholz, mit dem er sehr weit und sehr sicher schoß.”

Gotthold Ephraim Lessing, Fabeln, 1759: “Um homem tinha um excelente arco de ébano, com o qual atirava muito longe e com muita certeza.”

O dono perde, no mesmo instante, a beleza nova e a utilidade antiga. Sobra a madeira rachada, com a caçada inteira partida ao meio.

 
 

II  A Origem

O bibliotecário que odiava enfeite

Gotthold Ephraim Lessing nasceu em 1729 em Kamenz, na Saxônia, filho de um pastor protestante, e virou um dos escritores mais lidos da Alemanha do século 18.

Estudou teologia e medicina em Leipzig, sem terminar nenhum dos cursos. Preferia o teatro. Escrevia peças, críticas e resenhas para jornais de Berlim.

Em 1759 publicou, pela editora de Christian Friedrich Voss, o volume Fabeln. Drei Bücher (Fábulas, em três livros). São noventa fábulas curtas, quase todas em prosa.

O mesmo volume traz cinco Abhandlungen (ensaios) sobre o gênero. Neles, Lessing explica o que acha que uma fábula deve ser.

O ataque ao verso

No século 18, a fábula da moda era a de Jean de La Fontaine, o poeta francês que reescreveu Esopo em versos elegantes, cheios de rima, diálogo e paisagem.

Lessing admirava o talento do francês e discordava do método. Para ele, a fábula servia para mostrar uma lição geral num caso particular, com o mínimo de palavras.

Cada enfeite a mais, dizia, desvia o olho do leitor. O verso bonito chama atenção para si e esconde a lição que deveria carregar.

No primeiro ensaio, ele dá uma definição: a fábula reduz um princípio moral a um caso só, contado como se tivesse acontecido, para que o leitor a enxergue de uma vez. Qualquer palavra que atrase esse momento, para Lessing, sobra.

O modelo dele era Esopo, o contador grego de fábulas, seco e direto. Lessing tirou de propósito as rimas, as descrições e os floreios das próprias histórias.

O arco no espelho

Muitos leitores enxergam na fábula do arco um retrato da própria teoria de Lessing. O arco liso é a fábula esopiana. A caçada entalhada é o verso decorado de La Fontaine.

Lessing não confirmou essa leitura em nenhum texto conhecido. Ela é interpretação dos leitores, não declaração do autor, e funciona porque o livro e os ensaios saíram juntos, no mesmo volume.

Depois das fábulas, Lessing escreveu Laocoonte (1766), ensaio sobre os limites da pintura e da poesia, e as peças Minna von Barnhelm (1767) e Nathan, o Sábio (1779).

Em 1770 aceitou o posto de bibliotecário do duque de Brunswick, em Wolfenbüttel. Cuidava de uma das maiores coleções de livros da Europa e trabalhou ali até 1781.

O arco de ébano continua nas antologias alemãs de fábula. Escolas da Alemanha ainda usam o texto nas aulas de leitura, justamente por caber numa página.

 

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III  A Lição que Fica

A curva que fazia o tiro

O dono não errou por descuido. Errou por carinho. Quis dar ao arco um presente à altura do serviço que ele prestava.

O erro dele foi olhar a peça parada. Na mão, atirando, o arco era perfeito. No colo, sem alvo, parecia pobre.

A parte lisa do arco não era falta de enfeite: era o arco trabalhando.

A cena se repete fora da fábula. Um texto claro ganha palavras difíceis para parecer mais sério e para de ser entendido. Uma receita simples ganha ingredientes demais e perde o sabor que tinha.

Em casa, aparece no brinquedo que funcionava e ganha peças novas até emperrar. Na escola, no trabalho bom que o aluno refaz tantas vezes que estraga.

Os adultos repetem o gesto com frequência. Reformam a sala que estava boa, trocam o caminho que funcionava, enchem de recursos o celular que só precisava ligar. Raramente perguntam qual parte da peça faz a força antes de mexer nela.

A pergunta útil, antes de enfeitar, é simples: onde esta peça trabalha? O enfeite pode ir em qualquer lugar, menos ali.

Na fábula, o dono nunca descobre a causa da quebra. O leitor descobre, e a história funciona por esse descompasso: quem lê enxerga o sulco antes do estalo.

Lessing não condena o enfeite em si. O artista fez uma caçada bonita, e o dono gostou. O problema foi cavar o enfeite justo na parte que fazia força.

A fábula também não oferece conserto. Não há segunda chance, nem arco novo, nem conselho de sábio no final. O texto para no estalo da madeira.

Ler a história com uma criança rende uma conversa curta e boa. Quatro paradas ajudam.

• No olhar do dono: pergunte se o arco tinha algum defeito antes da caçada.

• Na escolha do artista: peça um palpite sobre o que acontece com a madeira cavada.

• No elogio ao arco: pergunte por que o dono ficou tão feliz.

• No tiro: pergunte o que o homem poderia ter enfeitado sem estragar a arma.

“O que você tem que funciona bem e ficaria pior com um enfeite?”

O arco partiu.

 
 
Quiz da edição

Qual cena o artista entalhou na madeira do arco, escolha que Lessing chama de combinação perfeita com a função da arma?

AUma floresta com rio
BUma caçada com cavaleiros e cães
CUm brasão de família
DFlores e vinhas

Resultado da última edição: 100% acertaram.

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