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Fábula do Dia   Fábula do Dia
ED 033

50% escolheram O carroceiro atolado. Já saiu na edição 032.

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O astrólogo que leu o céu inteiro e não viu o poço

Ele passou a noite anotando o destino dos outros nas estrelas, deu dois passos na volta pra casa e sumiu num buraco aberto na estrada.

O astrólogo caído no fundo do poço de barro, olhando para cima em direção à boca redonda de céu estrelado, cena da fábula do astrólogo que caiu no poço.

O astrólogo caído no fundo do poço

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"Ele se esforça tanto para saber o que acontece no céu que não enxerga o que está diante dos seus pés", ri a criada trácia na beira do poço, na cena que Platão escreve no diálogo Teeteto, em Atenas, por volta de 369 a.C. O homem caído lá dentro é Tales de Mileto.

A piada da criada é a versão mais antiga que sobreviveu de uma história que a Grécia contou por séculos, sempre com o mesmo personagem no fundo do mesmo buraco: alguém que sabe ler o céu e não olha o chão.

No corpus atribuído a Esopo ela recebeu o número 40 no Perry Index, o catálogo montado por Ben Edwin Perry na obra Aesopica, publicada pela University of Illinois Press em 1952. Em grego o título é O astrólogo, e o texto cabe em três frases.

O elenco é curto: um homem, uma noite limpa, uma estrada de terra, um poço sem mureta e um vizinho que aparece só no fim. Não tem animal falante, não tem raposa e não tem disputa entre bichos.

O astrólogo não parece um charlatão na primeira leitura. Ele trabalha, sai todas as noites, anota o que vê e volta pra casa pelo mesmo caminho de sempre. O que a fábula julga é o pedaço de chão que ele parou de olhar por saber o trajeto de cor.

Com criança funciona porque a queda é física e o riso vem sozinho. A partir dos cinco anos, qualquer criança já andou de cabeça erguida e bateu o pé em degrau, meio-fio ou brinquedo largado no meio da sala.

A história cabe em trinta segundos lida devagar, e a pausa entre a queda e a resposta do vizinho vale mais do que qualquer explicação do adulto.

A fábula vem inteira aqui embaixo, da primeira anotação da noite até a frase dita de cima da borda, reescrita em português de hoje pra sair na sua voz sem tropeço. Depois dela vem a origem declarada, com catálogo, editores e ano de cada versão, incluindo a cena de Platão que circulava séculos antes do poema francês. E no fim, como usar a história pra falar de atenção e de pé no chão com quem mora com você.

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I  A Fábula do Dia

A noite limpa e o buraco na estrada

Um homem que sabia o nome de cada estrela, uma estrada de terra que ele fazia todas as noites e um poço aberto perto da porta de casa. A fábula vem completa aqui embaixo.

Havia um astrólogo que saía todas as noites para olhar o céu. Levava uma tábua de cera e um estilete pendurados na cintura.

Ele conhecia as estrelas pelo nome.

Sabia dizer em que mês cada uma aparecia e em que mês cada uma sumia.

As pessoas da cidade batiam na porta dele para perguntar do futuro.

Ele lia o céu e respondia.

Dizia se o ano ia dar chuva.

Dizia se a viagem ia dar certo.

Dizia se o casamento ia durar.

E cobrava por cada resposta.

Naquela noite o céu estava limpo de ponta a ponta.

Ele andou até o campo aberto fora da cidade.

Ficou de cabeça erguida a noite inteira.

Anotou na cera o lugar de cada estrela.

Anotou o que cada uma prometia para o ano seguinte.

Quando a madrugada esfriou, guardou a tábua e voltou pra casa.

Voltou pelo mesmo caminho de sempre.

Voltou de cabeça erguida, ainda contando estrelas.

Na véspera, um vizinho tinha aberto um poço na beira da estrada.

O poço estava a dois passos do portão da casa dele.

Ainda não tinha mureta em volta.

Ainda não tinha tampa.

O astrólogo pisou no ar e caiu.

Caiu sentado no fundo, na lama fria.

A tábua de cera bateu na parede e rachou.

Ele gritou por socorro.

Gritou o nome dos vizinhos, um por um.

Um homem que morava na casa ao lado acordou e veio até a borda.

Olhou pra baixo e viu o astrólogo lá no fundo.

Foi buscar uma corda no galpão.

Amarrou a corda no tronco da figueira.

Jogou a ponta dentro do poço.

O astrólogo subiu com as mãos raspadas.

Sentou na terra ao lado da borda para recuperar o fôlego.

O vizinho ficou de pé olhando pra ele.

Você lê o que está escrito lá em cima, disse o vizinho.

E não viu o buraco que eu cavei ontem, na frente da sua casa.

O astrólogo não respondeu nada.

Pegou a tábua rachada e entrou.

 
 

II  A Origem

A criada trácia, o número 40 e o livro II

Uma piada contada por uma escrava trácia num diálogo de Platão, uma fábula com número próprio no índice de Esopo, um poeta francês que abriu com ela um ataque aos horóscopos, e uma cena que sobreviveu vinte e quatro séculos sem mudar de móveis.

A história aparece no corpus atribuído a Esopo com o número 40 no Perry Index, o sistema montado por Ben Edwin Perry na obra Aesopica, publicada pela University of Illinois Press em 1952. O número serve porque o título muda de língua pra língua: o astrólogo, o astrônomo, o adivinho no poço.

O texto grego chegou até nós pelas coletâneas de manuscritos bizantinos, reunidas e editadas por Émile Chambry na edição Ésope, Fables, publicada pela Les Belles Lettres em Paris em 1927. É a edição de referência do grego nas universidades francesas.

A versão grega é seca. Um astrólogo sai à noite para observar os astros, cai num poço enquanto olha para cima e grita. Um passante ouve, se aproxima da borda e pergunta como ele pretende ver o que está no céu se não vê o que está no chão. Não tem tábua de cera, não tem corda, não tem figueira. São três frases.

A cena mais antiga que sobrou é anterior à coletânea e tem outro protagonista. Platão a escreve no diálogo Teeteto, por volta de 369 a.C., com Sócrates contando que Tales de Mileto caiu num poço enquanto observava o céu e foi ridicularizado por uma criada trácia. A anedota reaparece em Vidas e Doutrinas dos Filósofos Ilustres, de Diógenes Laércio, escrita no século III d.C., agora com uma velha no lugar da criada.

Quem transformou a cena em poema foi Jean de La Fontaine, em L'Astrologue qui se laisse tomber dans un puits, publicado como fábula 13 do livro II das Fables, em Paris, em 1668. Ele abriu o livro com o tombo e usou o resto do texto para atacar quem vendia horóscopo na corte de Luís XIV:

Un Astrologue un jour se laissa choir
Au fond d'un puits. On lui dit: Pauvre bête,
Tandis qu'à peine à tes pieds tu vois,
Prétends-tu lire au-dessus de ta tête?

Um astrólogo um dia se deixou cair no fundo de um poço. Disseram a ele: pobre bicho, mal enxerga o que está aos seus pés e pretende ler o que está acima da sua cabeça?

Jean de La Fontaine, L'Astrologue qui se laisse tomber dans un puits, Fables, livro II, fábula 13, 1668.

A pergunta que ninguém desce para fazer

O vizinho da fábula não discute astronomia. Ele não diz que as estrelas mentem, não diz que o ofício é falso e não pede as anotações da tábua. Ele aponta a distância entre o que o homem alcançava com os olhos e o que tinha embaixo do pé.

Na Inglaterra, a história circulou como The Astronomer nas coletâneas de Fables of Aesop traduzidas por Roger L'Estrange e publicadas em Londres em 1692, no grupo das fábulas curtas sobre presunção e ofício.

A mesma cena virou expressão corrente em várias línguas. O inglês diz que alguém tem a cabeça nas nuvens e o português repete que o sujeito vive no mundo da lua. Em livro escolar brasileiro ela aparece quase sempre com a moral apertada numa linha só embaixo do texto.

 

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III  A Lição que Fica

O que estava a dois passos do pé

A moral impressa embaixo desta fábula costuma ser curta e preguiçosa: não seja pretensioso. Dita assim, ela vira deboche de quem estuda o céu e joga fora a pergunta que a história realmente faz.

Repare no que o astrólogo fez de certo. Ele trabalhou a noite inteira, anotou o que viu, guardou o material e voltou pelo caminho que conhecia. Saber o nome das estrelas não é o erro dele, e a fábula em momento nenhum ri do ofício. O que ela marca é o trecho final do trajeto, aquele que ele já fazia sem olhar.

O poço tinha sido cavado na véspera, a dois passos do portão dele, e o barro fresco estava empilhado ao lado. Qualquer olhada pra baixo teria mostrado o buraco. A queda não veio da altura do assunto, veio do pedaço de chão que ele achou que sabia de cor.

O vizinho não corrigiu a leitura do céu. Ele apontou o metro de estrada onde o astrólogo tinha parado de olhar, e o metro era o mais familiar de todos.

Tem uma segunda camada, e é a que costuma incomodar o adulto. A fábula não manda desistir de assunto grande. Ela não elogia quem só cuida do quintal e nunca ergue a cabeça, e não promete que o pé no chão resolve tudo. Ela faz outra pergunta: o que mudou perto de você enquanto sua atenção estava longe.

Vale dizer também o que a história não ensina. Tem trabalho que exige olho no horizonte, e planejar dez anos à frente é resposta certa em muita decisão adulta. O astrólogo não estava nesse caso: o buraco tinha sido aberto na véspera, na frente da casa dele, pelo homem que morava ao lado.

Antes de começar: diga a idade e o tempo em voz alta. A partir dos cinco anos, trinta segundos.

Na hora da queda: conte devagar a cabeça erguida, o pé no ar e o barulho da tábua rachando. A criança vai rir, e o riso faz parte da história.

Na hora do vizinho: pare. Diga a frase da borda inteira, sem pressa, e conte até três antes de continuar.

Na hora da pergunta: pergunte à criança o que ela deixou de ver hoje por estar olhando pra outro lado. A resposta dela vale mais do que a sua.

O adulto que lê conhece o mesmo poço no filho que cresceu enquanto a planilha rodava, no pneu careca do carro que faz o mesmo trajeto há dois anos, no boleto que chega todo mês e ninguém abre, e no amigo que parou de chamar. O buraco costuma estar no trecho que se faz de cabeça erguida.

A fábula grega termina sem punir o astrólogo.

As estrelas continuam onde estavam.

A tábua de cera fica rachada.

O poço continua na estrada.

“Que buraco foi aberto perto de você enquanto sua atenção estava longe?”

 
 

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