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Fábula do Dia   Fábula do Dia
ED 031
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O avarento que enterrou o ouro que nunca gastou

O homem desenterra o pote todo dia sem tirar uma moeda, um ladrão leva o ouro, e o vizinho oferece uma pedra que serve igual.

O avarento ajoelhado na beira do buraco aberto atrás do muro, com o vizinho olhando por cima, cena da fábula grega do avarento e do ouro enterrado.

O avarento diante do buraco vazio

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"Mettez une pierre à la place, elle vous vaudra tout autant", escreve Jean de La Fontaine na fala do vizinho, no livro IV das Fables impressas em Paris em 1668. Em português: ponha uma pedra no lugar, ela vale exatamente o mesmo pra você.

A frase cabe em duas linhas e encerra a fábula inteira. O homem que a escuta acabou de perder tudo que tinha, e não perdeu nada que usasse.

A história está no corpus grego atribuído a Esopo e recebeu o número 225 no Perry Index, o índice montado por Ben Edwin Perry na obra Aesopica, publicada pela University of Illinois Press em 1952. É uma das fábulas mais curtas do catálogo e uma das raras em que ninguém é comido, enganado por astúcia ou castigado por um deus.

O elenco cabe na mão: um homem, um pote, um buraco, um ladrão e um vizinho que fala uma vez só. Não tem perseguição, não tem sangue e não tem moral colada no fim. Tem um buraco no chão, que é o cenário mais barato que a fabulística grega já montou.

O avarento também não faz nada de errado no sentido comum da palavra. Ele não rouba, não engana e não deve nada a ninguém. Ele economizou a vida inteira, guardou com disciplina e visitou o próprio dinheiro com uma constância que qualquer poupador reconhece.

O que a fábula faz com ele é mais desconfortável que um castigo. Ela mostra que o roubo não mudou coisa alguma na vida dele, e a plateia entende sozinha o que a pergunta do vizinho significa, sem que ninguém precise explicar.

Com criança funciona porque a cena é física. A partir dos cinco anos, qualquer criança já guardou um brinquedo bom demais pra usar, guardou tanto que ele quebrou dentro da caixa, e sabe o que sentiu quando descobriu.

Ela cabe em cinquenta segundos lida devagar, e a pausa depois da fala do vizinho vale mais que qualquer comentário do adulto.

A fábula vem inteira aqui embaixo, do primeiro buraco até a pedra, reescrita em português de hoje pra sair na sua voz sem tropeço. Depois dela vem a origem declarada, com catálogo, editores e ano de cada versão, incluindo os versos franceses do século XVII. E no fim, como usar a história pra falar de dinheiro guardado com quem mora com você.

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I  A Fábula do Dia

O buraco, o pote e uma pedra

Um homem que visitava o próprio dinheiro toda noite, um ladrão que passou por ali e um vizinho que resolveu tudo com uma oferta. A fábula vem completa aqui embaixo.

Um homem vendeu tudo que tinha e comprou um pote de ouro. Vendeu a terra, vendeu os bois, vendeu a casa da frente.

Ficou com o pote e mais nada.

Ele cavou um buraco fundo atrás do muro, no canto onde ninguém passava.

Enterrou o pote e cobriu com terra batida.

Depois pisou em cima até o chão ficar igual ao resto.

De noite, ele voltava ali.

Cavava com as mãos, tirava a terra e destampava o pote.

Olhava o ouro por um tempo.

Contava as moedas uma a uma, sempre o mesmo número.

Tampava, enterrava de novo e alisava a terra com o pé.

Fazia isso toda noite, fazia chuva ou fazia frio.

Nunca tirou uma moeda dali.

Um trabalhador da vizinhança reparou no homem indo pro mesmo canto todo dia depois do jantar.

Achou estranho e ficou olhando de longe por três noites.

Na quarta noite, esperou o homem entrar em casa.

Cavou no mesmo lugar, achou o pote e levou tudo embora.

Na noite seguinte, o homem voltou ao canto do muro.

Cavou com as mãos e não achou o pote.

Cavou mais fundo e achou terra.

Cavou um buraco largo e achou pedra.

Então ele sentou na beira do buraco e começou a gritar.

Puxava o cabelo e chamava por quem passava na rua.

Um vizinho apareceu no muro e perguntou o que tinha acontecido.

Roubaram meu ouro, disse o homem. Estava aqui neste buraco.

O vizinho perguntou quanto era.

Era tudo que eu tenho, disse o homem. Vendi minha terra e meus bois pra juntar.

O vizinho perguntou quanto ele tinha gastado do pote.

O homem disse que não tinha gastado nada.

O vizinho perguntou pra que ele guardava.

O homem disse que guardava pra ter.

O vizinho ficou quieto um instante.

Então falou de dentro do muro, sem levantar a voz.

Amigo, pegue uma pedra e enterre no mesmo buraco.

O homem olhou pra ele.

Enterre a pedra e venha aqui toda noite olhar pra ela, disse o vizinho. Vai valer o mesmo tanto que valia o ouro.

O homem não respondeu.

O vizinho saiu do muro e foi jantar.

O buraco ficou aberto a noite inteira.

 
 

II  A Origem

Do catálogo grego ao verso de 1668

Uma fábula com número próprio no índice grego, uma edição francesa que fixou o texto antigo, um poeta do século XVII que abriu o poema com uma sentença de seis palavras, e uma pedra que atravessou vinte e cinco séculos sem trocar de função.

A história aparece no corpus atribuído a Esopo com o número 225 no Perry Index, o sistema montado por Ben Edwin Perry na obra Aesopica, publicada pela University of Illinois Press em 1952. O número serve porque o título muda de língua pra língua: o avarento, o homem do tesouro, o miserável e o ouro. O catálogo segue a fábula mesmo quando o nome dela some da capa.

O texto grego chegou até nós pelas coletâneas de manuscritos bizantinos, reunidas e editadas por Émile Chambry na edição Ésope, Fables, publicada pela Les Belles Lettres em Paris em 1927. É a edição de referência do grego nas universidades francesas.

A versão grega é seca. Um homem vende os bens, compra ouro, enterra num muro e volta ali sempre. Alguém percebe, cava e leva. O homem chora, um passante pergunta o que houve e manda ele pôr uma pedra no lugar, porque o ouro enterrado servia tanto quanto. Não tem descrição do canto do muro, não tem noite de chuva, não tem contagem de moeda. São cinco frases.

Quem transformou a cena em poema foi Jean de La Fontaine, em L'Avare qui a perdu son trésor, publicado no livro IV das Fables, em Paris, em 1668. Ele abriu o texto com uma sentença que virou a chave da fábula em francês e escreveu a fala do vizinho em verso:

L'usage seulement fait la possession. Mettez une pierre à la place, elle vous vaudra tout autant.

Só o uso constitui a posse. Ponha uma pedra no lugar, ela vai valer exatamente o mesmo pra você.

Jean de La Fontaine, L'Avare qui a perdu son trésor, Fables, livro IV, 1668.

A oferta que substitui o argumento

O vizinho não discute com o homem sobre o valor do ouro. Ele oferece uma troca concreta, pedra por metal, e deixa a plateia comparar as duas com os próprios olhos. A fábula termina antes de o homem responder, e a resposta dele nunca fez falta.

Na Inglaterra, a história circulou nas coletâneas de Aesop's Fables traduzidas por Roger L'Estrange e publicadas em Londres em 1692, no grupo das fábulas curtas sobre riqueza parada.

Em português, ela aparece nas coletâneas brasileiras de Esopo como O avarento, O avaro e o tesouro ou O homem que enterrou o ouro, e está em livro escolar desde o século XIX, quase sempre com a moral apertada numa linha só embaixo do texto.

 

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III  A Lição que Fica

A moeda que nunca sai do pote

A moral impressa embaixo desta fábula costuma ser curta e inútil: não seja avarento. Dita assim, ela vira palavra de repreensão e joga fora a única pergunta que a história faz.

Repare no que o homem fez. Ele trabalhou, vendeu bem, juntou, protegeu e conferiu. Cada passo dele é o passo que se ensina como virtude, e mesmo assim a vida dele não mudou um centímetro entre a noite em que o ouro estava no buraco e a noite em que já tinha sumido.

O ladrão não empobreceu o homem. Ele apenas tornou visível uma situação que já existia havia anos, e por causa disso o roubo é a parte menos importante da fábula.

O vizinho não provou que o homem estava errado. Ele ofereceu uma pedra pelo mesmo serviço, e a comparação fez o trabalho sozinha.

Tem uma segunda camada, e é a que costuma incomodar o adulto. A fábula não manda gastar. Ela não elogia quem torra o que tem e não promete nada a quem vive sem reserva. Ela pergunta outra coisa: o que aquele ouro específico estava fazendo por aquele homem específico, em qualquer noite dos últimos anos.

Vale dizer também o que a história não ensina. Poupança com destino é uso adiado, e um pote guardado pra faculdade da filha, pra telha do telhado ou pra seis meses sem trabalho está em serviço todo dia, mesmo intacto. O avarento da fábula não tinha destino nenhum. O pote era o fim da linha.

Antes de começar: diga a idade e o tempo em voz alta. A partir dos cinco anos, cinquenta segundos.

Na hora do buraco: conte devagar a rotina da noite, a terra tirada, as moedas contadas, a terra alisada com o pé. A repetição é o que faz a criança rir e entender.

Na hora da pedra: pare. Diga a fala do vizinho e conte até três antes de continuar.

Na hora da pergunta: pergunte à criança se a pedra vale mesmo o mesmo tanto. Ela vai discutir, e a explicação que ela der vale mais que a sua.

O adulto que lê conhece o mesmo buraco na garrafa boa que espera uma ocasião que nunca chega, no cômodo da casa que ninguém pode usar, na roupa guardada pra quando emagrecer e no saldo que existe pra ser olhado no aplicativo. A pergunta do vizinho cabe em todos eles, e custa uma pedra.

A fábula grega termina sem xingar o homem.

O ladrão não aparece de novo.

O vizinho vai jantar.

O buraco fica aberto.

“O que você guarda hoje que uma pedra faria igual de bem?”

 
 

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No buraco onde o avarento enterrava o ouro, o que o ladrão encontrou no lugar do pote na noite em que voltou?

AO pote vazio, sem nenhuma moeda dentro
BUma pedra que o vizinho já tinha colocado ali
CTerra e depois pedra, cavando mais fundo
DO pote intacto, escondido mais fundo que antes

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