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Um verão sem chuva, um poço de pedra na beira da estrada e dois bichos com a mesma sede. A fábula vem completa aqui embaixo, reescrita pra sair na sua voz sem tropeço.
Foi num verão em que os riachos secaram e o mato ficou amarelo. A raposa andou o dia inteiro atrás de água e não achou uma poça sequer.
No fim da tarde chegou num poço de pedra, desses fundos, de boca larga e sem tampa.
Debruçou na borda pra ver se havia água lá embaixo. Havia, e era limpa.
A pedra estava lisa de musgo. A raposa escorregou e caiu.
A queda não machucou. Ela caiu na água rasa, sacudiu o pelo e bebeu até não querer mais.
Depois de beber, olhou pra cima.
A boca do poço era um círculo de céu bem no alto. A parede era lisa dos dois lados, sem raiz, sem pedra solta, sem degrau.
A raposa pulou três vezes e nas três voltou pro fundo.
Ficou sentada ali, molhada e sem plano, até ouvir passos na estrada.
Era um bode grande, de barba comprida e chifres altos, andando devagar e resmungando de sede.
O bode parou na borda do poço, esticou o pescoço e viu a raposa lá no fundo.
Perguntou se a água prestava.
A raposa não mentiu. Disse a verdade inteira sobre a água, e a verdade era ótima.
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Desce, amigo. É a melhor água que eu bebi na vida, e tem tanta que eu bebo desde cedo e ela não acaba.
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O bode ouviu, olhou a água e pulou.
Bebeu de cabeça baixa, com gosto, até a barriga apertar.
Quando levantou a cabeça pra respirar, viu o mesmo que a raposa tinha visto: o círculo de céu no alto e a parede lisa dos dois lados.
Aí perguntou como é que os dois iam sair dali.
A raposa já tinha a resposta pronta desde a hora dos passos na estrada.
Ela disse pro bode se levantar nas patas de trás e apoiar as da frente na parede, com os chifres virados pra cima.
Disse que subiria pelas costas dele, depois pelos chifres, alcançaria a borda, e de lá em cima puxaria o bode pra fora.
O bode achou o plano bom e fez a parte dele: encostou na parede e firmou as patas.
A raposa subiu pelo lombo, pisou na cabeça, se equilibrou nos chifres e deu um salto.
Chegou na borda, sacudiu a água do pelo e ficou de pé do lado de fora.
O bode esperou a mão.
A raposa deu uma volta na boca do poço, olhou pra baixo e disse que ele tinha barba de velho sábio e cabeça de quem não pensa duas vezes.
Disse que, se o bode tivesse metade do juízo que tinha de barba, teria olhado a saída antes de olhar a água.
E foi embora pela estrada, porque tinha um assunto que não podia esperar.
O bode ficou no fundo do poço, com a barriga cheia de água boa e o círculo de céu bem lá no alto.
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