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Fábula do Dia   Fábula do Dia
ED 012

O bode que virou escada dentro do poço

A raposa e o bode vem inteira e em português de hoje, de Esopo a Fedro e La Fontaine, com a origem de considerar o fim antes de entrar.

Uma raposa equilibrada nos chifres de um bode no fundo de um poço de pedra, com um círculo de céu lá no alto.

A raposa nos chifres do bode, no fundo do poço

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Todo convite tem duas metades, e quem convida costuma entregar só a primeira. A metade que aparece é o que se ganha ao entrar. A metade que fica de fora é como se sai depois.

A fábula que trata da segunda metade cabe num poço só: água limpa no fundo, um animal com sede na borda e outro que já estava lá dentro havia horas.

No índice Perry, o catálogo que numera a fábula antiga, ela leva o número 9, um dos primeiros da lista. No catálogo internacional de contos populares, o índice Aarne, Thompson e Uther, ela ocupa o tipo 31, registrado com o nome A raposa sobe do poço nas costas do outro.

Os dois números dizem a mesma coisa: a cena é velha e viajou longe. O francês chama a fábula de Le Renard et le Bouc, o inglês de The Fox and the Goat, o espanhol de La zorra y el macho cabrío.

O que costuma passar batido é que ninguém engana o bode com mentira. A raposa diz que a água é boa, e a água é boa mesmo. O bode desce por um motivo verdadeiro e fica preso por um motivo que ele não perguntou.

É aí que ela morde. Fábula com vilão mentiroso é fácil de resolver na conversa com a criança: não acredite em quem inventa história. Fábula em que o convite é verdadeiro obriga a olhar a decisão inteira e achar a pergunta que faltou fazer.

A fábula de hoje serve a partir dos quatro anos e leva perto de dois minutos lida em voz alta. Ela vem inteira, do primeiro passo em falso da raposa até o bode sozinho no fundo, sem corte e sem resumo.

Depois dela vem a origem declarada, com nome, obra e ano de cada versão que chegou até a sua tela. E no fim, a lição em uma frase, no tamanho da criança, sem transformar a raposa em monstro.

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I  A Fábula do Dia

O convite que veio de baixo

Um verão sem chuva, um poço de pedra na beira da estrada e dois bichos com a mesma sede. A fábula vem completa aqui embaixo, reescrita pra sair na sua voz sem tropeço.

Foi num verão em que os riachos secaram e o mato ficou amarelo. A raposa andou o dia inteiro atrás de água e não achou uma poça sequer.

No fim da tarde chegou num poço de pedra, desses fundos, de boca larga e sem tampa.

Debruçou na borda pra ver se havia água lá embaixo. Havia, e era limpa.

A pedra estava lisa de musgo. A raposa escorregou e caiu.

A queda não machucou. Ela caiu na água rasa, sacudiu o pelo e bebeu até não querer mais.

Depois de beber, olhou pra cima.

A boca do poço era um círculo de céu bem no alto. A parede era lisa dos dois lados, sem raiz, sem pedra solta, sem degrau.

A raposa pulou três vezes e nas três voltou pro fundo.

Ficou sentada ali, molhada e sem plano, até ouvir passos na estrada.

Era um bode grande, de barba comprida e chifres altos, andando devagar e resmungando de sede.

O bode parou na borda do poço, esticou o pescoço e viu a raposa lá no fundo.

Perguntou se a água prestava.

A raposa não mentiu. Disse a verdade inteira sobre a água, e a verdade era ótima.

Desce, amigo. É a melhor água que eu bebi na vida, e tem tanta que eu bebo desde cedo e ela não acaba.

O bode ouviu, olhou a água e pulou.

Bebeu de cabeça baixa, com gosto, até a barriga apertar.

Quando levantou a cabeça pra respirar, viu o mesmo que a raposa tinha visto: o círculo de céu no alto e a parede lisa dos dois lados.

Aí perguntou como é que os dois iam sair dali.

A raposa já tinha a resposta pronta desde a hora dos passos na estrada.

Ela disse pro bode se levantar nas patas de trás e apoiar as da frente na parede, com os chifres virados pra cima.

Disse que subiria pelas costas dele, depois pelos chifres, alcançaria a borda, e de lá em cima puxaria o bode pra fora.

O bode achou o plano bom e fez a parte dele: encostou na parede e firmou as patas.

A raposa subiu pelo lombo, pisou na cabeça, se equilibrou nos chifres e deu um salto.

Chegou na borda, sacudiu a água do pelo e ficou de pé do lado de fora.

O bode esperou a mão.

A raposa deu uma volta na boca do poço, olhou pra baixo e disse que ele tinha barba de velho sábio e cabeça de quem não pensa duas vezes.

Disse que, se o bode tivesse metade do juízo que tinha de barba, teria olhado a saída antes de olhar a água.

E foi embora pela estrada, porque tinha um assunto que não podia esperar.

O bode ficou no fundo do poço, com a barriga cheia de água boa e o círculo de céu bem lá no alto.

 
 

II  A Origem

Do poço grego ao verso de La Fontaine

Esopo no século VI antes de Cristo, Fedro em Roma no século I, o provérbio latino respice finem na Idade Média e La Fontaine em Paris em 1668: quatro paradas do mesmo poço.

O nome de Esopo aparece na capa da maioria das coleções que trazem a raposa e o bode, e é por ele que a história chega à escola. A tradição grega o coloca no século VI antes de Cristo, escravo alforriado que contava bicho pra falar de gente.

A fábula está entre as primeiras da lista: número 9 no índice Perry, o catálogo que organiza tudo que a tradição atribui a ele.

Na versão grega o desenho já é o que se conta hoje: a raposa cai por acidente, o bode chega com sede, a água é elogiada, o bode desce, e a raposa sai pelas costas e pelos chifres dele.

A moral vem colada no fim do texto grego, e não fala em mentira. Fala em olhar o fim da coisa antes de pôr o pé nela.

De Fedro em Roma ao verso que virou provérbio

A versão latina mais antiga que sobrou é de Fedro, liberto do imperador Augusto, que pôs as fábulas gregas em verso latino no século I depois de Cristo. A raposa e o bode é a fábula 9 do livro IV.

Fedro abre com a lição antes da cena, do jeito dele: homo in periclum simul ac venit callidus, reperire effugium quaerit alterius malo. O homem astuto, assim que entra em perigo, procura a própria saída no prejuízo alheio.

Na Idade Média a lição virou frase de repetir. A coletânea latina Gesta Romanorum, do fim do século XIII, traz a fórmula que atravessou a Europa: quidquid agis, prudenter agas et respice finem, faça com prudência e olhe o fim.

Em 1668, em Paris, Jean de La Fontaine publicou Fables choisies, mises en vers. A raposa e o bode está no livro III, na fábula 5, com o nome Le Renard et le Bouc.

Na versão dele os dois descem juntos, por sede, e não por acidente. O bode é apresentado como quem não enxerga além do próprio nariz, e a raposa como mestre em matéria de trapaça.

O último verso virou provérbio de boca de povo na França, e é dele que sai a frase que a escola brasileira repete até hoje.

En toute chose il faut considérer la fin.

Em toda coisa é preciso considerar o fim.

Jean de La Fontaine, Fables choisies, mises en vers, livro III, fábula 5, Paris, 1668. A tradução acima segue a leitura corrente do texto em domínio público.

No Brasil a fábula entrou na leitura de casa pela mão de Monteiro Lobato. Em Fábulas, de 1922, Dona Benta conta a história em voz alta, com palavra de cozinha e sem cerimônia.

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III  A Lição que Fica

A pergunta que o bode não fez

A moral que ficou colada nesta fábula é curta e um pouco morna: não confie em quem é esperto demais. Ela é verdadeira pela metade e não funciona dita assim, porque joga a culpa toda na raposa e tira a criança da história.

Repare no que a fábula faz com a informação. A raposa não mentiu sobre a água: era boa, era limpa e era muita. Tudo que ela disse dava pra conferir da borda.

O que ela não disse era a outra metade: como se sai dali de dentro.

O bode não foi enganado no que ouviu. Ele foi enganado no que deixou de perguntar.

Repare também na ordem em que o bode fez as coisas. Primeiro olhou a água, depois pulou, e só depois de beber é que olhou a parede.

Se ele tivesse invertido as duas primeiras, a fábula acabava na borda do poço, com um bode com sede e nenhuma história.

A criança reconhece a cena na hora. É o brinquedo emprestado antes de combinar a devolução, é o jogo que começa sem ninguém perguntar a que horas termina.

A lição em uma frase: antes de entrar em qualquer lugar, pergunte por onde se sai, porque quem convida quase nunca entrega a segunda metade sozinho.

Antes de começar: diga a idade e o tempo em voz alta. A partir dos quatro anos, perto de dois minutos. A criança entra melhor quando sabe que a história acaba logo.

Na hora da queda: deixe claro que a raposa caiu sem querer. A criança precisa ver que a armadilha nasceu depois do acidente, e não antes.

Na hora do convite: pare e pergunte pra criança o que ela perguntaria pro bicho lá do fundo. É a pergunta da saída que a gente quer ouvir, e às vezes ela chega sozinha.

Na hora do salto: conte até três antes de continuar a leitura. A pausa entre o pulo do bode e a subida da raposa faz um trabalho que nenhuma explicação faz.

Se a criança ficar com pena do bode, a leitura funcionou. Vale responder que ele não foi burro, e que a sede é a coisa que mais atrapalha na hora de escolher.

Vale dizer também o que a fábula não faz. Ela não manda desconfiar de todo mundo. Ela pede uma pergunta a mais antes da descida.

O adulto que lê está no poço junto: o contrato assinado sem ler a cláusula de saída, a assinatura que começa de graça e cobra depois.

O bode não errou ao ter sede. Errou ao tratar a descida e a subida como o mesmo movimento.

"Em que lugar da sua vida você entrou pela água boa e nunca perguntou por onde se sai?"

 
 
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