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O prado vazio, o cheiro na boquilha, a nota que subiu sozinha e o que o burro fez com ela até o fim da tarde.
Um pastor parou para descansar num prado perto da estrada. Levava uma flauta de madeira presa à cintura.
Tocou um trecho curto na sombra.
Deitou a flauta na grama ao lado do corpo.
Cochilou um tempo com o chapéu no rosto.
Levantou, chamou o rebanho e foi embora.
A flauta ficou caída entre as ervas.
O sol secou o orvalho do prado.
Um burro passou pela cerca aberta.
Ninguém mandou o burro ali.
Ele procurava capim novo.
Achou a madeira comprida no chão.
Parou em frente à flauta.
Abaixou a cabeça até o chão.
Cheirou a boquilha, como cheira tudo que não conhece.
Soprou pelas ventas em cima do furo.
O ar entrou pela abertura de cima.
A flauta soou.
Uma nota subiu no prado vazio.
O burro levantou a cabeça de uma vez.
Escutou o som até ele acabar.
O prado ficou em silêncio de novo.
Ele olhou para a flauta na grama.
Olhou para o próprio focinho.
"Oh, como eu sei tocar!", disse o burro.
E emendou que a música de burro tinha fama injusta.
Ninguém respondeu.
Não havia plateia no prado.
Não havia pastor por perto.
Não havia outro bicho na cerca.
O burro não tocou uma segunda vez.
Não abaixou a cabeça de novo.
Não procurou os furos da madeira.
Não mediu o ar que a nota pediu.
Ele não sabia qual furo tinha soado.
Ele não sabia quanto fôlego tinha usado.
Ele não sabia por onde o ar entrou.
Ele sabia que o som saiu.
Para ele, aquilo bastava.
O burro deu meia volta.
Foi pastar no fundo do prado.
Repetiu a nota de cabeça o dia inteiro.
A flauta continuou na grama.
O vento passou por cima da madeira.
O vento não tirou som nenhum.
O pastor voltou no fim da tarde.
Pegou a flauta do chão.
Limpou a boquilha na manga da camisa.
Tocou o trecho que sabia, do começo ao fim.
O burro pastava longe e não escutou.
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