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Fábula do Dia   Fábula do Dia
ED 040
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O burro tocou uma nota e se declarou músico

A flauta estava largada no prado, o sopro saiu pelas ventas do bicho e a nota que soou foi obra do acaso.

Um burro de focinho baixo diante de uma flauta caída na grama de um prado vazio, ao fim da tarde.

O burro e a flauta esquecida no prado

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"Esta fabulilha, saia bem ou saia mal, me ocorreu agora por acaso", escreveu Tomás de Iriarte na primeira estrofe da fábula que publicou em Madri, em 1782, sobre um burro, uma flauta esquecida num prado e uma nota que ninguém procurou.

A história inteira cabe em vinte e quatro versos de seis sílabas. Uma expressão volta no fim de quase toda estrofe, "por casualidad", que em português é "por acaso", e funciona como batida de tambor dentro do texto.

Não há dono, não há disputa, não há castigo. Um pastor deixou o instrumento caído na grama e seguiu com o rebanho. O burro passou por ali sem procurar nada.

O bicho cheira o objeto, do jeito que cheira qualquer objeto novo. O ar que sai das ventas dele entra pelo furo da madeira. Sai som.

Iriarte descreve o sopro como acidente inteiro. Nada no burro sabia onde ficam os furos do instrumento, nem quanto ar cada nota pede, nem que existe um lugar certo para encostar a boca.

O que vem depois pesa mais que o som. O burro escuta a nota, gosta do que ouviu e conclui em voz alta que sabe tocar flauta.

Zagal, palavra do verso espanhol, nomeia o rapaz que toma conta do rebanho, o pastor jovem que largou a flauta na grama e foi embora sem perceber.

O burro reclama da fama da "música asnal", ou música de burro, expressão que o espanhol usava para zombar de som mal tirado. Ele acha que a nota do acaso limpou o nome do bicho.

Com criança a cena funciona com qualquer apito de casa. Basta deixar o apito na mesa, soprar de longe sem olhar e perguntar quem tocou, o ar ou a pessoa.

A leitura em voz alta pede uma pausa antes do último verso. Iriarte fecha a fábula com uma ressalva curta sobre burrinhos que acertam uma vez, e o verso perde a graça se sair emendado no anterior.

A fábula vem inteira aqui embaixo, do prado vazio até o burro se afastando convencido. Depois dela, a origem declarada, com o autor nascido em Tenerife, o ano do livro, a briga literária que cercou a publicação e o motivo de esta fábula não ter pai grego. E no fim, o que uma nota certa tirada sem regra nenhuma ensina sobre ofício.

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I  A Fábula do Dia

Uma flauta no prado e uma nota por acaso

O prado vazio, o cheiro na boquilha, a nota que subiu sozinha e o que o burro fez com ela até o fim da tarde.

Um pastor parou para descansar num prado perto da estrada. Levava uma flauta de madeira presa à cintura.

Tocou um trecho curto na sombra.

Deitou a flauta na grama ao lado do corpo.

Cochilou um tempo com o chapéu no rosto.

Levantou, chamou o rebanho e foi embora.

A flauta ficou caída entre as ervas.

O sol secou o orvalho do prado.

Um burro passou pela cerca aberta.

Ninguém mandou o burro ali.

Ele procurava capim novo.

Achou a madeira comprida no chão.

Parou em frente à flauta.

Abaixou a cabeça até o chão.

Cheirou a boquilha, como cheira tudo que não conhece.

Soprou pelas ventas em cima do furo.

O ar entrou pela abertura de cima.

A flauta soou.

Uma nota subiu no prado vazio.

O burro levantou a cabeça de uma vez.

Escutou o som até ele acabar.

O prado ficou em silêncio de novo.

Ele olhou para a flauta na grama.

Olhou para o próprio focinho.

"Oh, como eu sei tocar!", disse o burro.

E emendou que a música de burro tinha fama injusta.

Ninguém respondeu.

Não havia plateia no prado.

Não havia pastor por perto.

Não havia outro bicho na cerca.

O burro não tocou uma segunda vez.

Não abaixou a cabeça de novo.

Não procurou os furos da madeira.

Não mediu o ar que a nota pediu.

Ele não sabia qual furo tinha soado.

Ele não sabia quanto fôlego tinha usado.

Ele não sabia por onde o ar entrou.

Ele sabia que o som saiu.

Para ele, aquilo bastava.

O burro deu meia volta.

Foi pastar no fundo do prado.

Repetiu a nota de cabeça o dia inteiro.

A flauta continuou na grama.

O vento passou por cima da madeira.

O vento não tirou som nenhum.

O pastor voltou no fim da tarde.

Pegou a flauta do chão.

Limpou a boquilha na manga da camisa.

Tocou o trecho que sabia, do começo ao fim.

O burro pastava longe e não escutou.

 
 

II  A Origem

Madri, 1782, o fabulista que se disse original

Um tradutor de Horácio que virou fabulista aos trinta e dois anos, um livro de fábulas sobre escritores, uma acusação pública de plágio vinda de outro fabulista espanhol e um alvo que o autor nunca nomeou: o burro flautista chegou até aqui carregando essa confusão inteira.

Tomás de Iriarte y Oropesa nasceu em Puerto de la Cruz, na ilha de Tenerife, em 1750, e foi mandado para Madri aos catorze anos para estudar com o tio, Juan de Iriarte, latinista e bibliotecário do rei.

Ele cresceu dentro do ofício de traduzir. Assumiu a tradução oficial da Secretaria de Estado ainda jovem, passou a arquivista do Conselho Supremo de Guerra e viveu de escrever e verter texto alheio até o fim.

Antes das fábulas, publicou uma tradução em verso da Arte Poética de Horácio, em 1777, e um poema didático inteiro sobre música, La Música, em 1779. Os dois livros deixam claro o que ele gostava de fazer: explicar regra de ofício em verso.

Fábulas literarias saiu em Madri, em 1782, com setenta e seis fábulas. O assunto do livro não é moral de vida, é literatura: cada bicho representa um tipo de escritor, de crítico ou de leitor da Espanha daquele momento.

No prólogo, Iriarte afirma que aquelas fábulas são inteiramente originais, sem modelo em Esopo nem em Jean de La Fontaine, o francês que pôs as fábulas gregas em verso no século XVII. O burro flautista está entre as que não têm pai grego.

Sem regra da arte, burrinhos existem que acertam uma vez, por acaso.

Tomás de Iriarte, El burro flautista, Fábulas literarias, 1782.

A acusação que veio no ano seguinte

A palavra "originales" no prólogo cobrou preço. Félix María de Samaniego, que tinha publicado as Fábulas morales em 1781 com versões declaradas de Esopo e de La Fontaine, entendeu a frase como alfinetada e respondeu por escrito.

O texto de resposta se chama Observaciones sobre las fábulas literarias originales de don Tomás de Iriarte e acusa Iriarte de repetir enredos que já andavam por aí, inclusive em fabulistas alemães e ingleses. A briga virou assunto público nas tertúlias de Madri, aquelas rodas de conversa literária que funcionavam em casas particulares.

Quem era o burro flautista, então? Iriarte nunca escreveu o nome de ninguém. Os comentadores do século XIX apontaram Samaniego, outros apontaram poetas de sucesso passageiro da corte, e nenhum documento de Iriarte fecha a questão. O alvo continua desconhecido, e o que existe é leitura de terceiros feita depois da polêmica.

Iriarte ainda passou pela Inquisição em 1786, acusado de ler e guardar livros de filósofos franceses proibidos na Espanha. Ele reconheceu a acusação, recebeu penitência leve e voltou ao trabalho no arquivo.

Ele deixou a vida em Madri, em 1791, aos quarenta e um anos, com o livro de fábulas já reimpresso várias vezes. O burro flautista virou leitura obrigatória de escola na Espanha e atravessou o Atlântico nos manuais brasileiros do século XX, quase sempre com o verso final traduzido e o resto resumido em prosa.

 

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III  A Lição que Fica

O acerto que não se repete

A primeira leitura da fábula é a mais direta: acertar uma vez não prova domínio nenhum.

Repare no que Iriarte repete de propósito. A expressão "por acaso" volta no fim de quase toda estrofe, até no verso em que ele conta como a fábula lhe ocorreu. O acaso está no bicho, na flauta e no próprio autor.

O burro não mentiu. A flauta soou mesmo, a nota saiu limpa e quem estivesse no prado teria escutado. O erro dele não está no som, está na conta que ele faz do som.

A fábula não trata de burrice nem de sorte. Trata do que acontece quando alguém confunde um resultado com um método, e para de procurar o que produziu o resultado.

O segundo sopro é o teste que a história não mostra. Um flautista tira a mesma nota dez vezes seguidas porque sabe qual furo tapar e quanto ar mandar. O burro nem sabia por onde o ar tinha entrado.

Vale dizer também o que a fábula não ensina. Ela não manda desprezar o acaso, não diz que o burro devia ficar calado e não promete que estudo garante resultado. O aviso é mais estreito: enquanto o acerto não se repete sob comando, ele ainda pertence ao acaso.

Antes de começar: diga a idade e o tempo em voz alta. A partir dos quatro anos, meio minuto de leitura.

Na hora do prado: descreva o silêncio antes da nota e deixe um segundo de pausa antes de dizer que a flauta soou.

Na hora da nota: faça o som do sopro com a boca e depois a nota, nessa ordem, para a criança ouvir o acaso acontecendo.

Na hora do fim: diga a última linha em voz baixa e não explique nada depois.

O adulto que lê reconhece o burro na primeira venda grande que ninguém soube explicar, no texto que viralizou sem que o autor saiba qual parte prendeu o leitor, e no time que repete o discurso do mês bom sem ter medido o que mudou naquele mês.

“O seu último acerto você consegue repetir amanhã?”

A nota durou dois segundos.

A flauta voltou para a cintura do pastor.

O burro nunca mais soprou.

 
 

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