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Uma pele largada na cerca, um campo inteiro com medo e um som que não combinava. A fábula vem completa aqui embaixo, reescrita pra sair na sua voz sem tropeço.
Numa fazenda de terra seca vivia um burro velho que carregava lenha do amanhecer até o fim da tarde. Ninguém no campo tinha medo dele, e ninguém no campo olhava pra ele duas vezes.
Numa manhã, indo pro pasto de sempre, ele viu uma coisa amarela pendurada num galho baixo perto da cerca.
Era a pele de um leão, inteira, com cabeça, juba, patas e rabo. Uns caçadores tinham deixado ela ali secando ao sol e tinham ido embora atrás de comida.
O burro chegou perto devagar, cheirou, empurrou com o focinho e viu que a pele era só pele, sem bicho nenhum dentro.
Aí ele teve a ideia. Enfiou a cabeça pelo vão do pescoço, ajeitou a juba em cima das orelhas, esticou o couro pelas costas e saiu andando pro meio do pasto.
O primeiro que viu foi um bezerro que bebia água na cacimba. Ele levantou a cabeça, largou a água e disparou pro outro lado da cerca sem olhar pra trás.
Depois foram as cabras, que subiram na pedra e ficaram todas juntas, tremendo.
Depois foi a raposa, que saiu do mato, deu meia-volta e sumiu dentro do capim sem fazer barulho.
O burro parou no meio do campo e olhou aquilo tudo acontecendo por causa dele. Pela primeira vez na vida, o mundo inteiro abria caminho quando ele passava.
Ele gostou. Andou mais devagar, de propósito, pra durar mais.
Foi então que o burro achou que faltava alguma coisa. Um leão de verdade, pensou ele, não anda calado.
Encheu o peito, levantou a cabeça no meio do pasto e soltou o som mais alto que conseguiu.
Saiu um zurro. Comprido, rouco, com aquele puxão de ar no fim que todo burro tem e nenhum leão teve na vida.
O campo inteiro parou. As cabras desceram da pedra. O cachorro botou a cabeça pra fora. A raposa voltou pro capim aberto e sentou pra assistir.
O dono da fazenda, que estava consertando a cerca do outro lado, escutou o zurro e reconheceu o som antes de reconhecer o bicho.
Veio andando sem pressa nenhuma, com uma vara de bambu na mão, atravessou o pasto e chegou bem perto.
Puxou a pele pela juba e tirou ela das costas do burro de uma vez só, como quem tira um saco de cima de um móvel.
Depois amarrou o cabresto e levou o burro de volta pro caminho da lenha, com a pele dobrada debaixo do braço.
E o campo, que tinha corrido a manhã inteira, viu o leão passar de volta puxado pelo pescoço.
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