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O cacho que a raposa chamou de verde
A raposa e as uvas vem inteira e em português de hoje, de Esopo a La Fontaine, com a origem de uvas verdes e a pergunta do fim.
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A raposa embaixo do cacho, no fim da tarde
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Duas palavras atravessam o Brasil inteiro sem documento de origem: uvas verdes. Elas aparecem na conversa sobre o emprego que não veio, sobre o carro do vizinho, sobre a viagem que ficou fora do orçamento. Quem fala quase nunca sabe que está citando uma fábula grega de vinte e cinco séculos atrás.
A expressão faz o mesmo serviço em dezenas de línguas. O inglês diz sour grapes, o francês diz que as uvas estão verdes demais, o alemão diz que estão azedas, e o espanhol resolve em duas palavras: están verdes. Nenhuma dessas línguas combinou com as outras. Todas herdaram a mesma cena.
A cena é curta. Tão curta que o texto grego cabe em menos de cinquenta palavras, sem descrição de paisagem, sem nome próprio e sem uma linha de diálogo. Um bicho com fome, um cacho alto, uma tentativa e uma frase de saída.
Quase tudo que a gente reconhece hoje foi acrescentado depois. A altura da parreira, o número de pulos, a cor da casca, o tom de deboche na despedida. Cada século colou uma camada nova, e a fábula chegou aqui vestida de coisas que o grego nunca escreveu.
O que ficou intacto foi o mecanismo. Alguém quer, alguém não alcança, e alguém decide que a coisa não prestava. A ordem dessas três etapas explica por que a história continua em pé: ela descreve um movimento que a gente faz antes de perceber que está fazendo.
A fábula de hoje serve a partir dos quatro anos e leva perto de dois minutos lida em voz alta, em ritmo tranquilo. Ela vem inteira, do primeiro olhar pro cacho até a última palavra dita de costas, sem corte, sem resumo e sem trecho de amostra.
Depois dela vem a origem declarada, com nome, obra e ano de cada versão que atravessou dois mil e quinhentos anos até chegar na sua tela. E no fim, a lição em uma frase, no tamanho da criança, escrita sem transformar o desejo em defeito e sem cobrar nada de quem lê.
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I A Fábula do Dia
Três pulos embaixo da parreira
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Um cacho alto, uma raposa com fome e uma frase dita de costas. A fábula vem completa aqui embaixo, reescrita pra sair na sua voz sem tropeço.
No fim de uma tarde quente, atravessando um caminho de terra entre dois muros baixos, a raposa sentiu cheiro de fruta madura. Ela tinha andado desde cedo sem achar nada. Parou no meio do caminho, ergueu o focinho e seguiu o cheiro até uma parreira velha encostada no muro de uma chácara.
O cacho estava lá em cima, preso na armação de madeira que segurava os galhos. As uvas eram escuras, apertadas umas contra as outras, com a casca brilhando no resto de sol da tarde. Dava pra ver cada fruta dali de baixo.
A raposa mediu a altura com os olhos. Recuou alguns passos, tomou impulso e pulou. Os dentes fecharam no ar, um palmo abaixo do cacho.
Caiu de pé, sacudiu a poeira do peito e olhou de novo pra cima. Recuou mais, dessa vez até o outro lado do caminho, correu com tudo que tinha e pulou mais alto. Passou perto. Encostou numa folha e derrubou a folha, só a folha.
Na terceira tentativa mudou de plano. Subiu no muro, andou pela pedra procurando um ponto melhor, achou o lugar onde a parreira se dobrava pra dentro e saltou dali, de lado, esticando o corpo inteiro no ar.
Errou por pouco. Bateu de costas no chão duro e ficou parada um instante, olhando pra cima, pro cacho que não tinha se mexido em nenhuma das três vezes.
Levantou devagar. Sacudiu a terra do lombo, endireitou as orelhas e olhou em volta pra conferir se o caminho continuava vazio.
Depois deu as costas pro muro e voltou a andar, no mesmo passo de antes, como se não tivesse parado ali em momento nenhum.
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Estão verdes, disse a raposa sem olhar pra trás. Uva verde não serve nem pra quem está com fome.
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Seguiu até o fim do muro sem correr e sem apressar o passo. O cacho continuou no mesmo lugar, na mesma altura, com a mesma casca brilhando.
Quando a noite fechou, a raposa já estava longe dali, e a única coisa que ela tinha levado da parreira era a própria frase.
As uvas amadureceram até o ponto, caíram sozinhas semanas depois e apodreceram no chão de terra, sem ninguém por perto pra dizer se estavam verdes ou não.
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II A Origem
Da Grécia ao provérbio que o Brasil repete
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A fábula tem cinco linhas no grego, ganhou métrica em grego e em latim, virou poema francês no século XVII e chegou ao português com um apelido que ninguém precisa explicar: uvas verdes.
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O primeiro nome da linha é Esopo. A tradição grega o coloca no século VI antes de Cristo, escravo na ilha de Samos, contador de histórias curtas com bicho no lugar de gente. Ele não deixou livro escrito. As fábulas circularam de boca em boca por gerações antes de alguém sentar pra registrar.
No catálogo que os estudiosos usam hoje, o índice montado por Ben Edwin Perry, esta história leva o número 15 e o título A raposa e as uvas. É um dos textos mais curtos da coleção inteira.
A versão grega é seca. Uma raposa com fome vê cachos pendurados numa parreira, tenta alcançar e não consegue. Vai embora dizendo pra si mesma que as uvas estão verdes. Não existe muro, não existe contagem de pulos e não existe noite caindo.
O grego ainda traz a moral escrita no fim, coisa que as versões seguintes abandonaram: quem não alcança por fraqueza própria costuma culpar a circunstância.
No século I depois de Cristo o latim entrou na linha. Fedro, liberto do imperador Augusto, pôs a fábula em verso curto no livro IV da coleção dele: a uva ainda não estava madura, e a raposa não queria fruta azeda.
Um século depois, Bábrio mediu a história de volta em verso grego. Foram essas duas versões que as escolas europeias copiaram à mão por mais de mil anos.
O francês que fixou a frase
Em 1668, em Paris, Jean de La Fontaine publicou Fables choisies, mises en vers. A raposa e as uvas está no livro III, na fábula 11, e ocupa sete versos, um dos textos mais curtos do volume inteiro.
Ele fez duas escolhas que ficaram. Deu nacionalidade à raposa no primeiro verso, gascã ou normanda conforme quem conta. E trocou a frase seca do grego por uma frase com desprezo dentro.
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Ils sont trop verts, dit-il, et bons pour des goujats.
Estão verdes demais, disse ele, e bons pra gentalha.
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Jean de La Fontaine, Fables choisies, mises en vers, livro III, fábula 11, Paris, 1668. A tradução acima segue a leitura corrente do texto em domínio público.
A palavra goujat, no francês do século XVII, nomeava o serviçal que seguia a tropa carregando peso. Na boca da raposa ela vira classificação: não sou eu que não alcanço, é a fruta que não está à minha altura.
La Fontaine também não escreveu moral. Ele fecha perguntando se a raposa não fez melhor do que ficar reclamando, e deixa a conta com o leitor.
No Brasil, quem levou o texto pra boca do adulto foi Monteiro Lobato. Em Fábulas, de 1922, as histórias saem contadas por Dona Benta pras crianças do sítio, e cada uma termina no comentário de quem ouviu, não numa moral em letra grande.
A expressão sobreviveu melhor que a fábula. Uvas verdes virou frase feita em português, sour grapes virou frase feita em inglês, e as duas apontam a mesma pessoa: quem desqualifica o que não alcançou.
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