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Uma festa marcada no céu, um bicho de perna curta e um instrumento de música com espaço vazio por dentro. A fábula vem completa aqui embaixo, reescrita pra sair na sua voz sem tropeço.
Correu a notícia pelo mato inteiro de que ia ter festa no céu, com música a noite toda e comida sem fim. Só que o convite tinha uma condição: era festa de bicho que voa.
Os passarinhos ficaram alegres. As aves grandes já iam limpando as penas. E os bichos de chão ficaram parados, ouvindo o barulho da preparação e sabendo que aquilo não era pra eles.
O cágado ficou o dia inteiro remoendo a notícia dentro do casco.
Eu quero ir nessa festa, ele disse baixinho. Nunca vi festa no céu.
O sapo riu dele. Você anda um palmo por hora, cágado. Vai chegar lá no ano que vem.
O cágado não respondeu nada e foi andando devagar até a beira do caminho, porque tinha visto uma coisa que ninguém tinha visto.
O urubu ia tocar na festa. E o urubu tinha uma viola grande, de barriga funda e boca redonda, que ele deixava encostada na porta enquanto arrumava as penas.
Quando o dono virou as costas, o cágado entrou pela boca da viola, se ajeitou lá dentro e ficou quieto no escuro.
Na hora certa o urubu pegou a viola pelo braço, achou o instrumento um tanto pesado naquele dia, sacudiu os ombros e levantou voo.
A viola subiu. O cágado subiu junto, sem ver nada, ouvindo só o vento batendo na madeira.
Na porta da festa o urubu encostou a viola num canto e foi cumprimentar os outros. Foi quando o cágado saiu de dentro do instrumento, sacudiu a poeira e entrou na festa andando como quem foi convidado.
Ninguém entendeu. Um cágado no céu, no meio das aves, comendo do prato e batendo o casco no chão no ritmo da música.
O cágado dançou a noite inteira.
Perto da madrugada o urubu foi buscar a viola e viu o cágado de novo, tranquilo, esperando pra entrar de volta no instrumento.
Ah, disse o urubu. Então foi assim que você chegou aqui.
E disse mais: na subida você me enganou direitinho, mas na descida quem segura a viola sou eu.
Levantou voo com o cágado dentro, subiu bem alto e virou a viola de boca pra baixo no meio do caminho.
O cágado caiu.
Enquanto vinha vindo, ele gritava pras pedras lá embaixo que saíssem da frente, que arredassem, que abrissem espaço. As pedras não arredaram.
O casco bateu no chão e se partiu em muitos pedaços espalhados na terra.
Passou tempo, e os pedaços foram se juntando de volta, um encostado no outro. Colaram, mas colaram tortos, deixando o risco de cada emenda à mostra.
Por isso, dizem, o cágado carrega até hoje o casco todo remendado, com as linhas marcando onde cada pedaço voltou.
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