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Fábula do Dia   Fábula do Dia
ED 024

O cágado subiu ao céu dentro de uma viola

A festa no céu vem inteira e em português de hoje, do terreiro brasileiro ao verso francês, com a explicação do casco remendado.

Um cágado escondido dentro da viola de um urubu que voa alto sobre o mato brasileiro.

Cágado escondido dentro da viola do urubu

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Vire um cágado de barriga pra cima e conte as placas do casco. São treze grandes no meio e uma fileira de placas menores na borda, todas separadas por costuras que parecem remendo de pano velho.

Essa costura é um desenho de nascença, e existe uma história brasileira inteira construída em cima dela. Contada em terreiro, em roda de fogo e em sala de aula, ela usa o casco como prova: a criança olha o bicho, vê as linhas e aceita que alguma coisa aconteceu ali no passado.

A fábula de hoje é dessas que os folcloristas chamam de conto de explicação. Ela não começa com uma lição na mão; começa com uma pergunta boba de criança, por que o casco do cágado é rachado, e volta com uma história completa como resposta.

O desenho é simples e engraçado. Tem uma festa acontecendo num lugar onde só quem voa entra. Tem um bicho de perna curta que quer entrar mesmo assim. E tem uma carona conseguida por um caminho torto, que funciona muito bem na subida e cobra o preço inteiro na descida.

O que faz a história durar não é o susto do fim. É a esperteza do meio, aquela que a criança adora, porque o cágado não é forte nem rápido e mesmo assim resolve o problema de entrar na festa antes de qualquer outro bicho de chão.

O adulto que lê percebe uma segunda camada na hora. O cágado não erra ao ser esperto. Ele erra ao esquecer que o plano dele dependia inteiro de uma pessoa que ele acabou de enganar, e que essa pessoa ia estar segurando a viola na hora da volta.

A mesma armadilha aparece na Grécia antiga, na França do século XVII e na África ocidental, sempre com um bicho lento em cima de uma carona emprestada. No Brasil ela ganhou viola, urubu e uma festa com data marcada.

A fábula serve a partir dos quatro anos e leva perto de dois minutos lida em voz alta. Ela vem inteira aqui embaixo, do convite anunciado no mato até a última placa do casco no chão.

Depois dela vem a origem declarada, com nome de quem recolheu, obra e ano de cada versão. E no fim, a lição em uma frase, no tamanho da criança.

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I  A Fábula do Dia

A viola que subiu com passageiro

Uma festa marcada no céu, um bicho de perna curta e um instrumento de música com espaço vazio por dentro. A fábula vem completa aqui embaixo, reescrita pra sair na sua voz sem tropeço.

Correu a notícia pelo mato inteiro de que ia ter festa no céu, com música a noite toda e comida sem fim. Só que o convite tinha uma condição: era festa de bicho que voa.

Os passarinhos ficaram alegres. As aves grandes já iam limpando as penas. E os bichos de chão ficaram parados, ouvindo o barulho da preparação e sabendo que aquilo não era pra eles.

O cágado ficou o dia inteiro remoendo a notícia dentro do casco.

Eu quero ir nessa festa, ele disse baixinho. Nunca vi festa no céu.

O sapo riu dele. Você anda um palmo por hora, cágado. Vai chegar lá no ano que vem.

O cágado não respondeu nada e foi andando devagar até a beira do caminho, porque tinha visto uma coisa que ninguém tinha visto.

O urubu ia tocar na festa. E o urubu tinha uma viola grande, de barriga funda e boca redonda, que ele deixava encostada na porta enquanto arrumava as penas.

Quando o dono virou as costas, o cágado entrou pela boca da viola, se ajeitou lá dentro e ficou quieto no escuro.

Na hora certa o urubu pegou a viola pelo braço, achou o instrumento um tanto pesado naquele dia, sacudiu os ombros e levantou voo.

A viola subiu. O cágado subiu junto, sem ver nada, ouvindo só o vento batendo na madeira.

Na porta da festa o urubu encostou a viola num canto e foi cumprimentar os outros. Foi quando o cágado saiu de dentro do instrumento, sacudiu a poeira e entrou na festa andando como quem foi convidado.

Ninguém entendeu. Um cágado no céu, no meio das aves, comendo do prato e batendo o casco no chão no ritmo da música.

O cágado dançou a noite inteira.

Perto da madrugada o urubu foi buscar a viola e viu o cágado de novo, tranquilo, esperando pra entrar de volta no instrumento.

Ah, disse o urubu. Então foi assim que você chegou aqui.

E disse mais: na subida você me enganou direitinho, mas na descida quem segura a viola sou eu.

Levantou voo com o cágado dentro, subiu bem alto e virou a viola de boca pra baixo no meio do caminho.

O cágado caiu.

Enquanto vinha vindo, ele gritava pras pedras lá embaixo que saíssem da frente, que arredassem, que abrissem espaço. As pedras não arredaram.

O casco bateu no chão e se partiu em muitos pedaços espalhados na terra.

Passou tempo, e os pedaços foram se juntando de volta, um encostado no outro. Colaram, mas colaram tortos, deixando o risco de cada emenda à mostra.

Por isso, dizem, o cágado carrega até hoje o casco todo remendado, com as linhas marcando onde cada pedaço voltou.

 
 

II  A Origem

De um terreiro brasileiro ao verso de Paris

Um fabulista grego na Antiguidade, um poeta francês em 1678, cadernos de folcloristas brasileiros a partir de 1885 e uma roda de terreiro no interior: muita gente já foi dona desta viola.

No Brasil a história foi recolhida da boca do povo e publicada por Sílvio Romero em Contos Populares do Brasil, livro de 1885, um dos primeiros a levar a sério o que se contava nas cozinhas e nos terreiros do país.

Depois dela veio a organização feita por Luís da Câmara Cascudo em Contos Tradicionais do Brasil, de 1946, que agrupou as versões espalhadas pelas regiões e mostrou que a mesma festa no céu era contada com pequenas trocas de peça de norte a sul.

Nas versões que ele reuniu o passageiro clandestino nem sempre é o mesmo bicho, e o esconderijo muda de acordo com quem conta. Às vezes é o cágado dentro da viola, às vezes é o sapo dentro do violão, e às vezes o instrumento é uma sanfona.

O núcleo mais antigo é grego e vem das fábulas atribuídas a Esopo, na história da tartaruga que pede à águia pra ser levantada até o alto e recebe exatamente o que pediu.

Na França o mesmo desenho virou verso na mão de Jean de La Fontaine, em Fables choisies, mises en vers, livro X, fábula 2, publicado em Paris em 1678, com o nome La Tortue et les deux Canards. Lá a tartaruga viaja pendurada num pauzinho segurado por dois patos e cai por não conseguir ficar de bico fechado.

O poema fecha com uma lista de defeitos irmãos, dita sem meio-termo:

Imprudence, babil, et sotte vanité,

Et vaine curiosité,

Ont ensemble étroit parentage.

Imprudência, falação, vaidade tola e curiosidade à toa são todas parentes próximas.

Jean de La Fontaine, Fables choisies, mises en vers, livro X, fábula 2, Paris, 1678. A tradução acima segue a leitura corrente do texto em domínio público.

Uma diferença fina entre as versões

Na tartaruga de Esopo e de La Fontaine o bicho pede a carona na cara limpa e cai por vaidade ou por falta de silêncio. Na versão brasileira ele não pede nada: ele se esconde.

A troca muda a história inteira. Sem pedido não tem acordo, e sem acordo o urubu não quebra promessa nenhuma na hora de virar a viola.

Por isso a versão brasileira consegue ser engraçada até o fim, enquanto a europeia soa como aviso. Aqui tem uma disputa de esperteza entre dois bichos, e cada um vence uma metade do caminho.

Existe ainda um parente africano contado na Nigéria, com a tartaruga que sobe à festa das aves usando penas emprestadas e volta ao chão com o casco partido.

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III  A Lição que Fica

Carona emprestada cobra o preço na descida

A moral que costuma ser colada nesta fábula é a mais preguiçosa de todas: quem é esperto se dá mal. Ela pune a inteligência do cágado e deixa a criança sem nada na mão.

Repare no que a história mostra de verdade. O plano do cágado foi bom. Ele olhou pra festa que não era dele, achou a única brecha que existia e entrou por ela sem machucar ninguém.

Tem uma segunda camada aqui, e é a mais fina da fábula inteira. O cágado não perdeu por ser esperto. Ele perdeu por ter feito um plano de ida sem plano de volta, dentro de uma viola que pertencia a outra pessoa.

Enquanto ele dançava, o instrumento continuava encostado no canto, e o dono do instrumento continuava sendo o urubu. A festa era do cágado, a viola não.

Toda carona esperta tem dono. Enquanto a subida corre bem ninguém lembra disso, e é sempre na descida que o dono aparece com a mão no braço da viola.

Vale dizer o que a fábula não faz. Ela não ensina a criança a desistir do que parece alto demais, a não tentar entrar onde ela cabe de outro jeito nem a achar que ser pequeno é sentença.

O cágado chega ao céu. Ele come e dança a noite inteira. Nada disso é apagado no fim, e a criança percebe a diferença entre uma história que castiga a vontade e uma história que cobra a conta do descuido.

Antes de começar: diga a idade e o tempo em voz alta. A partir dos quatro anos, perto de dois minutos. A criança entra melhor quando sabe que a história acaba logo.

Na hora do convite: faça a voz do anúncio correndo pelo mato e pare. Deixe a criança dizer sozinha por que o cágado ficou de fora.

Na hora da viola: junte as duas mãos como quem faz uma casinha e esconda o dedo lá dentro. A cena do bicho no escuro se explica sem palavra nenhuma.

Na hora da queda: grite arreda, pedra, junto com ela. A frase é o pedaço que a criança vai repetir sozinha depois, e é o que faz a história virar brincadeira.

O adulto que lê conhece a mesma viola. O contato de um amigo usado sem avisar, a vaga conseguida pelo nome de outra pessoa, a estrutura montada em cima de uma conta que não está no nome de ninguém da casa.

A lição em uma frase: ser pequeno não impede ninguém de chegar alto, e a hora de olhar pra quem está segurando a sua carona é antes da subida.

“Qual carona sua hoje depende de alguém que você ainda não avisou?”

 
 
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Segundo o texto, como a tartaruga sobe ao alto na fábula francesa de La Fontaine, de 1678?

AEscondida dentro de uma viola de um urubu
BPendurada num pauzinho segurado por dois patos
CUsando penas emprestadas de outra ave
DLevantada pelas garras de uma águia

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