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Fábula do Dia   Fábula do Dia
ED 041

100% escolheram A Rã do Poço. Sai em 18/09.

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O camponês largou o arado para vigiar um toco

A lebre bateu no toco em disparada, o lavrador de Song viu o bicho cair e entendeu que o campo tinha virado armadilha sozinho.

Um toco de árvore no meio de um campo arado, com o arado largado na terra e uma lebre caída ao pé da madeira.

O toco no campo de Song e o arado largado

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"Governar o povo de hoje com os métodos dos reis antigos é da mesma laia que vigiar o toco", escreveu Han Feizi no capítulo Wu Du, ou As Cinco Pragas, que circulou em rolos de bambu pelos reinos chineses no século III antes de Cristo.

A história que sustenta a frase cabe em cinco linhas. Um lavrador, um campo de lavoura, um toco de árvore fincado no meio da terra e uma lebre em disparada.

O chinês guardou a cena numa expressão de quatro caracteres, shou zhu dai tu, que em português é vigiar o toco à espera da lebre. Ela continua viva no idioma e serve para apontar quem repete um gesto porque ele funcionou uma vez.

Song, o reino do lavrador, tinha fama própria nos textos daquele tempo. Os autores dos reinos vizinhos escolhiam um homem de Song sempre que a história precisava de um tolo, e Han Feizi seguiu o costume sem avisar o leitor.

O toco não entrou na cena como enfeite de paisagem. Ele é o que sobra de uma árvore derrubada dentro da lavoura, o obstáculo duro que o lavrador contornava com o arado todo santo dia.

A lebre corre em ziguezague quando foge de alguma coisa, com a cabeça baixa e os olhos voltados para trás. Numa dessas fugas ela acertou o toco com o pescoço, em velocidade cheia, e parou de correr ali mesmo.

O que Han Feizi discute com a cena não é bicho nem lavoura. Ele brigava com os letrados que pediam ao rei o governo dos sábios de quinhentos anos antes, e a lebre é o argumento dele dentro dessa briga.

A fábula vem inteira aqui embaixo, do primeiro sulco do arado até o campo tomado pelo mato. Depois dela, a origem declarada: quem foi Han Feizi, em que reino ele escreveu, para quem escreveu, o que houve com ele em Qin e por que este texto virou manual de governo. E no fim, o que a espera ao pé do toco ensina sobre repetir um acerto.

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I  A Fábula do Dia

O toco, a lebre e o arado no chão

O campo arado, a corrida da lebre, o barulho seco no toco e o que o lavrador de Song fez do dia seguinte em diante.

Han Feizi não deu nome ao homem: chamou-o de lavrador do reino de Song, e o deixou sem nome até o fim. O campo era dele.

A terra ficava num vale de lavoura, perto de outras roças.

No meio do campo havia um toco de árvore.

Alguém derrubou a árvore antes dele.

A raiz continuou firme no chão.

O lavrador arava o campo todo dia.

Contornava o toco na ida.

Contornava o toco na volta.

Nunca arrancou a raiz de lá.

Certa manhã ele arava perto da cerca.

Uma lebre saiu do mato em disparada.

Corria com a cabeça baixa.

Olhava para trás, do jeito que a lebre olha quando foge.

Não viu o toco à frente.

Bateu com o pescoço na madeira.

O barulho foi seco e curto.

A lebre caiu na terra arada.

Parou de se mexer.

O lavrador largou o cabo do arado.

Foi até o toco de pés descalços.

Pegou a lebre pelas orelhas.

Pesou o bicho na mão.

Levou o animal para casa.

Comeu carne naquela noite sem ter caçado.

Dormiu pensando no toco.

No dia seguinte ele voltou ao campo.

Não pegou o arado.

Sentou ao lado do toco.

Ficou de olho na cerca, no lugar por onde a lebre tinha saído.

Esperou a manhã inteira.

Nenhuma lebre veio.

Esperou a tarde inteira.

Nenhuma lebre veio.

Voltou no outro dia e sentou no mesmo lugar.

E no outro.

E no outro.

O arado ficou caído onde ele soltou.

A terra arada secou ao sol.

O mato subiu nos sulcos abertos.

O mato cobriu o pé do toco.

A lavoura virou capinzal.

Não houve colheita naquele ano.

Os vizinhos passavam na estrada e olhavam.

O reino de Song inteiro riu do homem.

Ele continuou sentado.

 
 

II  A Origem

Reino de Han, século III antes de Cristo

Um príncipe gago de um reino pequeno, um livro escrito para um rei que não o ouvia, um colega de escola que virou primeiro-ministro do inimigo e um imperador que leu o texto antes de conhecer o autor: a lebre e o toco chegaram até aqui dentro dessa história.

Han Fei nasceu por volta de 280 antes de Cristo, filho da casa real do reino de Han, um dos menores e mais espremidos dos sete reinos que brigavam pela China naquele século.

Sima Qian, o historiador que escreveu o Shiji, ou Registros do Historiador, no século I antes de Cristo, conta que ele gaguejava e não se saía bem na conversa de corte. Escrevia com uma clareza que quase ninguém tinha.

Estudou com Xunzi, o mestre confuciano que ensinava que a natureza humana nasce torta e precisa de correção. Na mesma sala estudava Li Si, que anos depois foi ser ministro em Qin, o reino mais forte do grupo.

Han Fei mandou memorial atrás de memorial ao rei de Han, pedindo reforma na lei e no exército enquanto o reino encolhia. O rei não aplicou nada do que ele propôs. Os cinquenta e cinco capítulos do livro nasceram dessa recusa.

O capítulo Wu Du lista cinco grupos que ele considerava praga dentro de um reino: os letrados que viviam de citar os antigos, os oradores de aluguel, os espadachins particulares, os que fugiam do serviço militar sob a proteção de nobres e os mercadores que lucravam com a escassez.

Mudando os tempos, mudam as circunstâncias; mudando as circunstâncias, mudam as medidas.

Han Feizi, Wu Du (As Cinco Pragas), século III antes de Cristo.

A escola da lei e o rei que quis conhecer o autor

Han Fei é o nome maior do fajia, a escola da lei, que os manuais ocidentais chamam de legalismo. O governo dela se apoia em três peças: fa, a lei escrita e publicada; shu, a técnica de controlar os funcionários; e shi, a força que vem do cargo, não da virtude de quem o ocupa.

O alvo da briga era o li, o costume ritual que os confucianos defendiam, com o rei governando pelo exemplo e pela tradição dos sábios. Para Han Fei, tradição de quinhentos anos antes era toco: serviu numa época que não volta.

Ying Zheng, rei de Qin, leu dois capítulos do livro e disse que se daria por satisfeito se pudesse conhecer o homem que escreveu aquilo, segundo o relato do Shiji. Li Si, que estudara ao lado do autor, informou ao rei quem era.

Qin atacou Han, e o reino pequeno mandou Han Fei como emissário em 233 antes de Cristo, contando com a admiração do rei. Li Si e Yao Jia disseram ao rei que o visitante serviria sempre a Han, nunca a Qin, e pediram prisão.

Ele deixou a vida na cela, em 233 antes de Cristo, com veneno mandado por Li Si antes que o perdão do rei chegasse à porta. Doze anos depois, Qin dobrou os outros seis reinos e unificou a China com o aparato de leis que aquele livro havia desenhado.

 

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III  A Lição que Fica

O acaso que virou método

A leitura mais direta da fábula cabe numa linha: o que aconteceu uma vez não virou regra do campo.

Repare no que o lavrador fez com o corpo. Ele não parou de trabalhar por preguiça, parou porque tinha uma teoria nova sobre o próprio campo, e a teoria dizia que o toco entrega lebre.

O homem não inventou o que viu. A lebre bateu de verdade, ele levou o bicho para casa e comeu a carne. O erro dele mora na conta que fez depois, quando transformou um acidente em expectativa de colheita.

A fábula não fala de sorte nem de burrice. Fala de alguém que troca uma fonte trabalhosa e certa por uma fonte fácil e improvável, porque a fácil já entregou uma vez.

O prejuízo maior do campo de Song não está nas lebres. O lavrador não perdeu apenas as lebres que não vieram: perdeu a colheita inteira do ano, que estava garantida e dependia só do trabalho dele.

Vale dizer também o que o texto não ensina. Ele não manda desprezar a sorte, não diz que o homem devia ter jogado a lebre fora e não promete colheita a quem ara todo dia. O aviso é estreito: enquanto o resultado não depender do que você faz, ele continua pertencendo ao acaso.

Han Feizi usou a cena contra os conselheiros da corte, e a mira dele vale fora do palácio. Todo conselho que começa por "sempre funcionou assim" precisa mostrar se a circunstância que fez aquilo funcionar ainda está de pé.

Antes de começar: diga a idade e o tempo em voz alta. A partir dos quatro anos, meio minuto de leitura.

Na hora da corrida: acelere a voz na fuga da lebre e pare de falar no instante da batida no toco.

Na hora da espera: repita "nenhuma lebre veio" com a mesma entonação três vezes, para a criança sentir o tempo passando parado.

Na hora do fim: diga a última linha baixinho e não explique nada depois.

O adulto reconhece o toco no anúncio que vendeu muito num sábado e virou verba fixa, no assunto de email que abriu bem uma vez e virou fórmula da casa, e no cliente que chegou por indicação e fez a empresa parar de prospectar.

“O seu próximo resultado depende do que você faz, ou do que aparece?”

A lebre correu uma vez.

O campo secou.

O toco não deu outra lebre.

 
 
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