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Fábula do Dia   Fábula do Dia
ED 054
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A 12ª pauta escolhida pelos leitores. Aqui está.

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O cão deitado no feno que ele não comia

No estábulo de Esopo, o boi volta do arado com fome e encontra o cocho ocupado por quem não precisa dele.

Um cão deitado no feno de um cocho de madeira rosna para um boi cansado parado no estábulo.

O cão deitado no cocho rosna para o boi

▼
 

"Você não come feno e não deixa comer quem come", disse o boi na porta do estábulo, com a marca da canga ainda no pescoço depois de um dia inteiro puxando o arado.

A frase vem de uma das fábulas mais curtas atribuídas a Esopo, o contador de histórias grego que a tradição coloca no século VI antes de Cristo, escravo na ilha de Samos. Cabe em quatro linhas e sobreviveu em quase todas as línguas da Europa.

O cenário é um estábulo de fazenda. Num canto fica a manjedoura, o cocho de madeira onde se põe o feno para os animais. Naquela tarde, o cocho está cheio até a borda.

Um cão sobe no feno, dá duas voltas e se deita. O lugar é macio, seco, quente de sol. Ele não tem fome de feno, porque cachorro não come capim seco. Quer só o conforto da cama.

No fim da tarde, o boi volta do campo. Andou horas debaixo do jugo (a peça de madeira que prende os bois ao arado), e a única comida que o espera está naquele cocho.

Quando ele baixa a cabeça, o cão levanta o lábio e rosna. O boi recua um passo. Tenta de novo pelo outro lado, e o cão mostra os dentes outra vez.

O feno não serve de nada ao cão. Ao boi, serve de jantar. Mesmo assim, quem manda no cocho é quem não precisa dele.

A fábula não tem lobo com fome nem raposa com truque. Tem um bicho que não perde nada ao sair do lugar e escolhe ficar. Essa escolha sem ganho algum fez a história atravessar dois mil anos de manuscritos, sermões e palcos.

Adiante, a cena inteira no estábulo, do cão deitado até a fala do boi. Depois, o caminho da fábula pelos gregos, pelos primeiros cristãos e pelo teatro espanhol. No encerramento, o que um cocho cheio ensina sobre quem guarda o que não usa.

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I  A Fábula do Dia

O cocho cheio até a borda

Ninguém no estábulo ganhou nada naquela tarde.

O Cão na Manjedoura é a fábula atribuída a Esopo em que um cão se deita no cocho de feno, não come nada e rosna para o boi que chega para comer. O estábulo estava quieto quando a cena começou.

O cão entrou pela porta aberta e farejou os cantos.

Achou o cocho de madeira encostado na parede do fundo.

O feno estava fresco, cortado de manhã, ainda com cheiro de campo.

Ele pulou para dentro sem esforço.

Deu duas voltas, amassou a palha com as patas e deitou.

O sol da tarde entrava pela fresta e esquentava o feno.

Ele fechou os olhos e dormiu.

Lá fora, o boi terminava o último sulco do dia.

O lavrador tirou a canga do pescoço dele e o mandou para o estábulo.

O boi entrou devagar, com as pernas pesadas.

Foi direto ao cocho, como fazia toda tarde.

Baixou a cabeça para puxar o primeiro bocado.

O cão abriu os olhos e rosnou baixo.

O boi parou com o focinho a um palmo do feno.

Esperou um pouco e tentou de novo.

O cão se levantou em cima do feno e latiu na cara dele.

O boi deu a volta e tentou pela outra ponta do cocho.

O cão correu para aquela ponta e mostrou os dentes.

O boi era muito maior, mas não queria ferir ninguém.

O cão, por sua parte, não comia um fio sequer.

Ele só cuidava para que o boi também não comesse.

O boi ficou parado no meio do estábulo, olhando o jantar.

Então falou, sem levantar a voz.

Disse ao cão que ele não comia o feno e não deixava comer quem precisava.

O cão não respondeu e voltou a se deitar.

Na versão grega mais conhecida, o boi sai do estábulo com fome.

Em versões medievais, o lavrador aparece e expulsa o cão a pauladas.

Em nenhuma delas o cão prova o feno.

 
 

II  A Origem

De Luciano a Lope de Vega

A fábula deixou rastro escrito em pelo menos três lugares: numa sátira grega do século II, num evangelho achado no deserto do Egito e numa comédia espanhola do século XVII.

O texto de Esopo não chegou até nós pela mão dele. As fábulas atribuídas a ele circularam de boca em boca por séculos e só foram reunidas em coleções gregas muito depois da época em que ele teria vivido.

O Cão na Manjedoura entra nessas coleções tardias. No Perry Index (o catálogo das fábulas esópicas que o classicista americano Ben Edwin Perry publicou em 1952), ela leva o número 702.

A sátira grega

Um dos registros mais antigos é de Luciano de Samósata, escritor nascido na Síria que escrevia em grego no século II. No diálogo Tímon, ele compara o avarento ao cão da manjedoura, que não come a cevada e não deixa o cavalo faminto comer.

Em Luciano, o bicho com fome é um cavalo e a comida é cevada. A troca mostra que a imagem já era proverbial no tempo dele: servia de comparação rápida, sem precisar contar a fábula inteira.

O evangelho do deserto

Em 1945, camponeses acharam perto de Nag Hammadi, no Egito, um jarro com treze códices (livros antigos de folhas costuradas) escritos em copta, a língua do Egito cristão. Um deles trazia o Evangelho de Tomé, uma coleção de 114 falas atribuídas a Jesus.

Ai dos fariseus, porque são como um cão deitado na manjedoura dos bois: nem come, nem deixa os bois comerem.

Evangelho de Tomé, dito 102, códice II de Nag Hammadi, século IV: a fala usa a fábula contra os fariseus (grupo religioso judeu da época), acusados de guardar a lei sem deixar o povo chegar perto dela.

O cão do hortelão

Na Península Ibérica, a fábula virou ditado com outro cenário. O cão sai do estábulo e vai para a horta, onde guarda verduras que não come. Em português, o ditado ficou assim: ser como o cão do hortelão, que nem come nem deixa comer.

Daí o nome da comédia El perro del hortelano (O cão do hortelão), que o dramaturgo espanhol Lope de Vega publicou em 1618.

Na peça, a condessa Diana se apaixona pelo secretário Teodoro, mas não se casa com ele porque ele é pobre. Quando Teodoro corteja a criada Marcela, Diana corta o namoro. Não fica com ele e não deixa outra ficar.

O impasse se resolve com um golpe de esperteza. O criado Tristão inventa que Teodoro é o filho perdido de um conde, e Diana, agora sem o obstáculo da classe, casa com ele sabendo da farsa. A condessa deixa de ser o cão do hortelão no momento em que resolve comer o que guardava.

 

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III  A Lição que Fica

O feno que ninguém comeu

O cão não roubou nada do boi, e o boi dormiu com fome assim mesmo.

A fábula tem uma particularidade rara entre as de Esopo. Na maioria delas, alguém quer uma vantagem: a raposa quer o queijo, o lobo quer o cordeiro. O cão da manjedoura não quer nada. Ele não ganha o feno, só impede que o boi ganhe.

Por esse motivo os gregos, e Luciano depois deles, usaram a figura para falar do avarento. O avarento clássico não gasta o dinheiro que guarda e se irrita quando outro faz bom uso do que ele deixa parado.

Guardar o que não se usa custa pouco a quem guarda e custa o jantar a quem precisa.

A cena também tem um detalhe físico que costuma passar batido: o boi é muito mais forte. Poderia tirar o cão do cocho com um movimento de cabeça. Não tira. A fábula deixa o mais forte parado diante do mais barulhento, e o rosnado vence só porque ninguém o enfrenta.

Em casa, a figura aparece no irmão que não brinca com o carrinho e grita quando a irmã pega. Na escola, no aluno que não usa a carteira do canto e não deixa ninguém sentar. No trabalho, na sala de reunião reservada para ninguém.

Há uma diferença entre o cão e o dono prevenido. Quem guarda o feno para o inverno protege a comida de amanhã. O cão não protege nada: o feno não vai embora com ele e, na manhã seguinte, continua sem lhe servir de nada.

A versão medieval, com o lavrador e o pau, responde à pergunta do castigo. A grega, mais seca, não castiga ninguém: deixa o boi sem jantar e o cão sem proveito, e confia que o leitor faça a conta sozinho.

A saída que a fábula sugere passa pelo boi, e não pelo cão. Ele poderia ter chamado o lavrador ou empurrado o cocho com o chifre, e não tentou nenhum dos dois caminhos.

Antes de ler: pergunte à criança se ela já guardou um brinquedo só para outro não pegar.

No estábulo: pare quando o boi volta do campo e pergunte o que ele sente ao ver o cocho.

No rosnado: pergunte por que o cão não sai de lá, se nem gosta de feno.

Na saída do boi: pergunte o que o cão ganhou ficando deitado no cocho.

O adulto reconhece o cão no colega que não assume o projeto e trava quem quer assumir, e no sócio que não usa a sala vazia do escritório e veta toda proposta de alugá-la.

“Qual feno você anda guardando só para outro não comer?”

O boi voltou para o campo na manhã seguinte, sem jantar.

O feno sobrou.

 
 
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