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ED 060
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O caroço de caqui que custou um bolinho de arroz

No conto japonês Saru Kani Gassen, o macaco engana o caranguejo duas vezes, e quem cobra a conta são uma castanha, uma abelha e um pilão.

Um macaco no alto de um pé de caqui atira um caqui verde num caranguejo parado ao pé da árvore.

O macaco no alto do pé de caqui, o caranguejo embaixo

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“Brote logo, semente de caqui, senão eu corto você com a minha tesoura“, cantou o caranguejo, agachado sobre a terra mexida do quintal, todas as manhãs, até o broto aparecer.

A tesoura era a garra dele. A semente tinha chegado por uma troca que parecia ruim: o caranguejo entregou um bolinho de arroz inteiro e recebeu, em troca, um caroço seco.

Quem propôs a troca foi o macaco. Ele vinha comendo um caqui pela estrada e viu o caranguejo carregando o bolinho, ainda quente. Fez a conta rápida de quem tem fome agora.

O bolinho acabava em três mordidas. O caroço, explicou o macaco, podia virar uma árvore que daria fruta todo ano. O caranguejo aceitou. Plantou, regou e cantou.

A ameaça da cantiga funcionou na história. O broto subiu, o tronco engrossou, os galhos se encheram de caquis cor de laranja.

O caranguejo, porém, não sabia subir em árvore. Ficava embaixo, olhando a fruta que tinha plantado.

Tentou pelo tronco com as patas finas e escorregou. Tentou de novo pela raiz mais alta e caiu de lado na grama. A árvore era dele, e a fruta continuava longe.

O macaco reapareceu. Ofereceu ajuda, subiu pelo tronco e começou a comer os caquis maduros, um atrás do outro, lá do alto. Quando o caranguejo pediu a parte dele, o macaco arrancou um caqui verde, duro feito pedra, e atirou para baixo.

A fruta acertou o casco. O caranguejo não resistiu ao golpe.

A história poderia acabar ali, com o mais esperto saindo de barriga cheia. O povo japonês, que conta este conto há séculos, nunca aceitou esse final.

Adiante, a fábula completa, com a visita dos filhos do caranguejo e dos quatro aliados improváveis que eles reuniram. Depois, de onde veio o Saru Kani Gassen e como um escritor famoso do século 20 virou o conto contra os vingadores. Por fim, o que a troca do caroço ensina sobre o preço que vem depois.

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I  A Fábula do Dia

A castanha escondida na lareira

O Exemplo 32 do Conde Lucanor conta como três trapaceiros convencem um rei mouro de que tecem um pano visível só aos filhos legítimos, e como a corte inteira finge ver o tecido até um cavalariço negro dizer que o rei anda nu.

O Saru Kani Gassen (A Batalha do Macaco e do Caranguejo) conta como o macaco engana o caranguejo na troca e no pé de caqui, e como os filhos do caranguejo, com uma castanha, uma abelha, um pilão e um punhado de esterco, armam a cobrança na casa do macaco.

O caranguejo deixou filhos.

Eles saíram da toca e encontraram o pai embaixo da árvore.

Ao redor, as cascas dos caquis que o macaco tinha comido.

No chão, o caqui verde que tinha feito o estrago.

Os filhotes eram pequenos demais para enfrentar um macaco.

Choraram ali mesmo, ao pé do tronco.

Uma castanha que rolava pela estrada ouviu o choro e parou.

Perguntou o que tinha acontecido.

Os filhotes contaram a troca, a cantiga, a árvore e o caqui verde.

A castanha prometeu ajudar.

Logo apareceu uma abelha, e ouviu a mesma história.

Também prometeu ajudar.

Depois veio o esterco de vaca, que nas versões antigas fala e anda como os outros.

Por último chegou o usu, o pilão pesado de madeira onde os japoneses socam o arroz para fazer o mochi (bolo de arroz batido).

O grupo foi até a casa do macaco enquanto ele estava fora.

Cada um escolheu um lugar.

A castanha se enterrou nas cinzas do irori, a lareira aberta no chão das casas japonesas.

A abelha se escondeu dentro do balde de água da cozinha.

O esterco se deitou na soleira da porta.

O pilão subiu no telhado, bem em cima da entrada.

Os filhotes ficaram escondidos num canto.

O macaco voltou ao entardecer, com frio.

Sentou perto do irori para se esquentar.

A castanha, aquecida pelas brasas, estourou e pulou no rosto dele.

O macaco gritou e correu até o balde para molhar a queimadura.

A abelha saiu da água e ferroou o focinho dele.

Desesperado, ele correu para a porta.

Pisou no esterco, escorregou e caiu de costas na soleira.

O pilão despencou do telhado em cima dele.

O macaco ficou preso, sem conseguir se mexer.

Os filhotes saíram do canto.

Na versão mais antiga, cortaram o macaco com as garras, como o pai tinha prometido cortar a semente.

Nos livros infantis de hoje, o macaco pede perdão, promete nunca mais enganar ninguém e devolve os caquis.

As duas versões terminam com a mesma conta paga.

 
 

II  A Origem

Do quintal japonês ao tribunal de Akutagawa

O conto circula no Japão desde a era Muromachi, entre 1336 e 1573, virou livro ilustrado no período Edo e, em 1923, ganhou uma versão em que os vingadores vão parar na cadeia.

Ninguém sabe quem contou o Saru Kani Gassen pela primeira vez. Os folcloristas japoneses o situam na tradição oral da era Muromachi, quando os xoguns Ashikaga governavam o país. Não sobrou manuscrito com autor daquele período, e por esse silêncio das fontes a origem exata segue desconhecida.

O nome diz o enredo inteiro. Saru é macaco, kani é caranguejo, e gassen quer dizer batalha. A palavra tem peso de guerra entre clãs, e o título trata a briga de quintal como confronto de samurais.

Os livros vermelhos

No período Edo, entre 1603 e 1868, o conto ganhou papel. Saiu em akahon (livros de capa vermelha), folhetos baratos com desenhos em xilogravura, vendidos para crianças nas cidades.

Nesses folhetos, o elenco de aliados variava. Algumas edições traziam uma agulha, outras uma alga escorregadia no lugar do esterco. A castanha, a abelha e o pilão quase nunca faltavam.

Em 1894, o escritor Iwaya Sazanami reuniu os contos populares mais conhecidos na coleção Nihon Mukashibanashi (Contos Antigos do Japão). A versão dele fixou a cantiga do caranguejo que as escolas repetem até hoje.

“Brote logo, semente de caqui, senão eu corto você com a tesoura.”

Iwaya Sazanami, Nihon Mukashibanashi, 1894 (tradução livre do japonês): a ameaça que o caranguejo canta para a semente, e que os filhos dele cumprem contra o macaco.

O tribunal de Akutagawa

Em 1923, Akutagawa Ryunosuke, o autor do conto que deu origem ao filme Rashomon, publicou o próprio Saru Kani Gassen. Ele começa onde a história tradicional para.

Na versão de Akutagawa, o filho do caranguejo, a castanha, a abelha e o pilão são presos depois da vingança. Vão a julgamento, e o tribunal condena o grupo pela morte do macaco. A opinião pública, no conto, aplaude a sentença.

Akutagawa escrevia num Japão que discutia a lei e a ordem depois da Primeira Guerra. A sátira perguntava se a vingança contada às crianças como justiça sobreviveria a um juiz real.

Akutagawa morreu em 1927, aos 35 anos, sem voltar ao tema. O conto tradicional nunca respondeu a essa pergunta. Seguiu sendo contado do jeito antigo, com a castanha na lareira e o pilão no telhado.

 

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III  A Lição que Fica

A conta que chega depois do caroço

O macaco ganhou as duas trocas no momento em que as fez. Comeu o bolinho na hora e comeu os caquis da árvore alheia. O prejuízo dele veio anos mais tarde, cobrado por quem ele nem tinha visto.

A primeira troca já trazia o aviso. O macaco ofereceu uma promessa em troca de comida. Quem paga com futuro recebe no presente, e quem recebe futuro fica esperando.

Quem troca o certo pelo prometido entrega a vantagem a quem escolhe quando a promessa vale.

O caranguejo cumpriu a parte dele inteira. Plantou, regou e esperou anos. O erro dele foi depender de outro para colher. Sem saber subir, entregou ao macaco a chave do próprio pé de caqui.

O macaco também errou a conta. Achou que o caranguejo estava sozinho. Não contou com os filhos, nem com a castanha que passava pela estrada, nem com a abelha, nem com o pilão.

Cada aliado era fraco sozinho. A castanha não derruba macaco, e a abelha só arde. Juntos, cada um no lugar certo da casa, fecharam todas as saídas.

Na escola, a cena aparece no colega que troca a figurinha repetida pela rara prometendo a melhor do próximo pacote. Em casa, no irmão que pede o videogame emprestado e devolve a bateria zerada.

No adulto, aparece no sócio que entra com a ideia e sai com o caixa, e no vizinho que pega a escada emprestada todo verão.

O conto também mostra o caminho de quem foi lesado. Os filhotes não enfrentaram o macaco no pé de caqui, onde ele era mais forte. Esperaram, contaram a história a quem passava e escolheram o terreno: a casa do próprio macaco, com a lareira, o balde e a porta que ele usava todo dia sem pensar.

A castanha só estourou porque o macaco sentou perto do fogo. A abelha só ferroou porque ele correu para a água. A armadilha usou os hábitos dele, um por um.

Akutagawa deixa uma segunda pergunta para os pais: a cobrança tem limite? A versão escolar de hoje, com o macaco pedindo perdão, mostra que o Japão também mudou a resposta.

Antes de ler: pergunte à criança se ela trocaria um lanche inteiro por uma semente.

Na troca: pare e pergunte o que o macaco ganhou e o que o caranguejo ganhou.

No pé de caqui: pergunte por que o caranguejo não conseguiu colher a própria fruta.

Na casa do macaco: pergunte o que cada aliado fez e por que nenhum deles bastava sozinho.

“Que troca você aceitou esperando uma árvore?”

O pé de caqui seguiu dando fruta.

O caranguejo não colheu nenhuma.

 
 
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No conto, onde a abelha se escondeu esperando a volta do macaco para casa?

ADentro do balde de água da cozinha
BNas cinzas da lareira (irori)
CNa soleira da porta
DNo telhado, acima da entrada

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