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Fábula do Dia   Fábula do Dia
ED 032
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O carroceiro que gritou por Hércules com a roda na lama

O eixo afunda no atoleiro, o homem se ajoelha e chama o deus, e a voz do céu manda tirar a pedra e estalar o chicote primeiro.

O carroceiro de joelhos ao lado da roda enterrada até o eixo na lama da estrada, com a carroça de feno parada e os dois cavalos atrelados, cena da fábula do carroceiro atolado.

O carroceiro ajoelhado diante da roda atolada

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"Aide-toi, le Ciel t'aidera", escreve Jean de La Fontaine no último verso de Le Chartier embourbé, no livro VI das Fables impressas em Paris em 1668. Em português: ajuda-te, e o céu vai te ajudar.

A frase fecha um poema curto e virou provérbio corrente em francês. Quem a ouve dentro da fábula está de joelhos na lama, com a carroça parada e o deus calado em cima dele.

A história vem do corpus grego atribuído a Esopo e recebeu o número 291 no Perry Index, o índice montado por Ben Edwin Perry na obra Aesopica, publicada pela University of Illinois Press em 1952. Em grego ela se chama O boieiro e Héracles, e cabe em quatro frases.

O elenco é pequeno: um homem, uma carroça carregada, dois cavalos, uma roda enterrada até o eixo e um deus que responde sem descer da estrada. Não tem astúcia, não tem raposa e não tem animal falante.

O carroceiro não parece preguiçoso na primeira leitura. Ele carregou a carroça, pegou a estrada e caiu num trecho de lama que qualquer um cairia depois de uma noite de chuva. O que ele faz depois de atolar é a parte que a fábula julga.

Ele reza. Reza alto, reza direito, chama pelo deus mais forte que conhece e senta pra esperar. A resposta que vem do céu manda ele trabalhar antes de qualquer milagre, e manda na ordem exata.

Com criança funciona porque a cena é física. A partir dos quatro anos, qualquer criança já ficou parada na frente de um brinquedo travado chamando um adulto aos gritos, e sabe muito bem o tamanho do esforço que não fez sozinha.

Ela cabe em quarenta segundos lida devagar, e a pausa depois da primeira ordem da voz vale mais que qualquer comentário do adulto.

A fábula vem inteira aqui embaixo, da primeira volta de roda até o eixo solto, reescrita em português de hoje pra sair na sua voz sem tropeço. Depois dela vem a origem declarada, com catálogo, editores e ano de cada versão, incluindo o provérbio grego que circulava séculos antes do poema francês. E no fim, como usar a história pra falar de pedido e de esforço com quem mora com você.

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I  A Fábula do Dia

A roda, a lama e o chicote

Uma carroça carregada de feno, uma roda enterrada até o eixo num atoleiro da estrada e um deus que responde sem sair do lugar. A fábula vem completa aqui embaixo.

Um carroceiro levava uma carroça carregada de feno pela estrada de terra. Levava dois cavalos na frente e o caminho inteiro pela frente.

Tinha chovido a noite toda.

Ele viu o atoleiro de longe e achou que passava.

Tocou os cavalos e entrou.

A roda da direita afundou.

Afundou até o eixo e parou ali.

Os cavalos puxaram e escorregaram na lama.

A carroça não andou um dedo.

O carroceiro desceu da boleia e olhou a roda.

Depois subiu de volta e ficou sentado.

Começou a xingar a estrada.

Xingou a chuva, xingou os cavalos e xingou o dia em que saiu de casa.

Depois juntou as mãos e chamou por Hércules.

Hércules, gritou ele. Venha aqui e tire minha carroça deste buraco.

Disse que ninguém no mundo era mais forte que ele.

Disse que uma carroça de feno não seria nada para aqueles braços.

Então veio uma voz de cima da estrada.

A voz mandou ele descer da boleia.

Desça, disse a voz. Ande até a roda e olhe embaixo dela.

Tire a pedra que está travando o aro, disse a voz.

Era uma pedra do tamanho de um pão, encaixada entre o aro e o barro.

Ele cavou com a mão e tirou a pedra do lugar.

Depois a voz mandou ele quebrar o barro seco em volta do cubo.

Ele quebrou o barro com o cabo do chicote.

Depois a voz mandou ele abrir um sulco no chão, na frente da roda.

Ele abriu o sulco com a enxada que levava na carroça.

Depois a voz mandou ele tirar metade do feno de cima da carga.

Ele tirou o feno e deixou empilhado na beira da estrada.

Depois a voz mandou ele pôr o ombro no aro da roda.

Ele pôs o ombro.

Agora estale o chicote, disse a voz.

O carroceiro estalou o chicote.

Os cavalos puxaram, o ombro empurrou e a roda subiu.

A carroça saiu do atoleiro e parou em terra firme.

O carroceiro ficou de pé no meio da estrada, sujo de barro até o joelho.

Então a voz falou pela última vez.

Hércules ajuda quem trabalha, disse a voz.

O homem carregou o feno de volta pra carroça.

Subiu na boleia e seguiu viagem.

 
 

II  A Origem

O provérbio de Atena e o verso de 1668

Um provérbio grego sobre Atena que circulava antes de qualquer coletânea, uma fábula com número próprio no índice de Esopo, um poeta do século XVII que trocou os bois por cavalos, e uma frase francesa que virou ditado de escola.

A história aparece no corpus atribuído a Esopo com o número 291 no Perry Index, o sistema montado por Ben Edwin Perry na obra Aesopica, publicada pela University of Illinois Press em 1952. O número serve porque o título muda de língua pra língua: o boieiro e Héracles, o carreteiro e Hércules, o carroceiro atolado. O catálogo segue a fábula mesmo quando a capa troca de nome.

O texto grego chegou até nós pelas coletâneas de manuscritos bizantinos, reunidas e editadas por Émile Chambry na edição Ésope, Fables, publicada pela Les Belles Lettres em Paris em 1927. É a edição de referência do grego nas universidades francesas.

A versão grega é seca. Um boieiro leva um carro por uma estrada de aldeia, o carro cai num barranco e ele fica parado sem fazer nada, chamando Héracles aos gritos. O deus aparece e manda ele pegar no eixo e tocar os bois, e diz que rezar sem trabalhar não move carro nenhum. Não tem chuva da noite anterior, não tem pedra embaixo do aro, não tem feno descarregado. São quatro frases.

Antes da coletânea já corria em Atenas um provérbio com o mesmo recado, dito de Atena e não de Héracles: com Atena, mexa também a mão. Ele está registrado nas coletâneas de provérbios atribuídas a Zenóbio, reunidas por Ernst von Leutsch e Friedrich Schneidewin no Corpus Paroemiographorum Graecorum, publicado em Göttingen em 1839.

Quem transformou a cena em poema foi Jean de La Fontaine, em Le Chartier embourbé, publicado como fábula 18 do livro VI das Fables, em Paris, em 1668. Ele deu endereço à história, colocou o atoleiro perto de Quimper-Corentin, na Baixa Bretanha, e fechou o texto com uma sentença que a França repete até hoje:

Aide-toi, le Ciel t'aidera.

Ajuda-te, e o céu vai te ajudar.

Jean de La Fontaine, Le Chartier embourbé, Fables, livro VI, fábula 18, 1668.

A ordem que vem antes do milagre

A voz do céu não discute teologia com o carroceiro. Ela dá ordens curtas, em sequência, e cada uma cabe nas mãos de um homem sozinho: tire a pedra, quebre o barro, abra o sulco, alivie a carga, ponha o ombro. A força divina entra na última linha, quando já não faz diferença nenhuma se ela entrou.

Na Inglaterra, a história circulou como Hercules and the Carter nas coletâneas de Fables of Aesop traduzidas por Roger L'Estrange e publicadas em Londres em 1692, no grupo das fábulas curtas sobre esforço e oração.

A mesma sentença atravessou o inglês em outra roupa. Algernon Sidney escreveu que Deus ajuda quem se ajuda nos Discourses Concerning Government, publicados em Londres em 1698, e Benjamin Franklin imprimiu a frase no Poor Richard's Almanack de 1736, na Filadélfia. Em português ela virou ajuda-te que Deus te ajudará, e está em livro escolar brasileiro desde o século XIX, quase sempre com a moral apertada numa linha só embaixo do texto.

 

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III  A Lição que Fica

A pedra que ninguém desceu para ver

A moral impressa embaixo desta fábula costuma ser curta e inútil: ajude-se a si mesmo. Dita assim, ela vira palmada verbal em quem pediu socorro e joga fora a pergunta que a história realmente faz.

Repare no que o carroceiro fez. Ele carregou a carga, atrelou os cavalos, escolheu a estrada e pediu ajuda quando atolou. Pedir ajuda não é o erro dele, e a fábula em momento nenhum ri da oração. O que ela marca é o instante seguinte: ele sentou de volta na boleia e ficou esperando com as mãos limpas.

A pedra estava embaixo da roda o tempo inteiro. Ninguém precisava de força divina pra tirar uma pedra do tamanho de um pão de dentro do barro, e o homem só descobriu a pedra depois que desceu pra olhar.

A voz do céu não tirou a carroça do atoleiro. Ela deu cinco ordens, e as cinco cabiam nas mãos do homem que já estava parado ali.

Tem uma segunda camada, e é a que costuma incomodar o adulto. A fábula não manda recusar ajuda. Ela não elogia quem carrega tudo sozinho por orgulho e não promete que esforço basta pra todo atoleiro. Ela faz outra pergunta: o que aquele homem específico já podia ter feito, com as mãos que tinha, antes de gastar a voz gritando.

Vale dizer também o que a história não ensina. Tem carga que não sai com ombro nenhum, e pedir gente, guincho, dinheiro ou perdão é resposta certa em muito atoleiro da vida adulta. O carroceiro da fábula não estava nesse caso. Ele tinha enxada, chicote, dois cavalos e uma pedra ao alcance da mão.

Antes de começar: diga a idade e o tempo em voz alta. A partir dos quatro anos, quarenta segundos.

Na hora do atoleiro: conte devagar a roda afundando, os cavalos escorregando e o homem sentando de novo na boleia. A repetição do senta e grita é o que faz a criança rir.

Na hora da voz: pare. Diga as cinco ordens uma por uma, com pausa entre elas, como quem passa uma receita.

Na hora da pergunta: pergunte à criança o que ela teria feito primeiro. Ela vai escolher uma das cinco ordens, e o motivo que ela der vale mais que o seu.

O adulto que lê conhece o mesmo atoleiro na mensagem que espera resposta há três semanas e nunca foi cobrada, no exame marcado e não remarcado, na conta parada em cima da mesa e no currículo pronto que ninguém mandou. A pedra costuma estar ao alcance da mão, e ninguém desceu da boleia pra olhar.

A fábula grega termina sem punir o carroceiro.

Hércules não aparece de corpo.

O feno volta pra carroça.

A roda gira.

“Qual pedra você ainda não tirou de baixo da sua roda?”

 
 

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Na fábula, o que estava travando o aro da roda enterrada, e que a voz mandou o carroceiro cavar e tirar primeiro?

AUma raiz grossa presa no barro
BUm tronco pequeno debaixo do eixo
CUma pedra do tamanho de um pão
DUm pedaço de ferro enferrujado

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