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Fábula do Dia   Fábula do Dia
ED 050

1 leitor escolheu O Casaco de Nasreddin. Aqui está.

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O casaco de pele que Nasreddin mandou comer

De roupa gasta, ninguém lhe serviu nada. Ele voltou de casaco novo e deu a sopa ao casaco.

Nasreddin Hodja, de casaco de pele, mergulha a manga numa tigela de sopa diante dos convidados surpresos.

Nasreddin oferece a sopa à manga do casaco

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"Coma, meu casaco, coma", disse Nasreddin Hodja à mesa de um banquete em Akşehir, cidade da Anatólia, enquanto enfiava a manga de pele numa tigela de sopa quente. Os convidados pararam de mastigar para olhar.

Uma hora antes, o mesmo homem tinha entrado naquela sala e ninguém se mexera. Vinha do campo, com a roupa de trabalho suja de terra, e sentou num canto. Os criados passaram por ele com as bandejas cheias, várias vezes, sem parar.

O anfitrião conversava com os convidados de roupa fina. Ninguém ofereceu pão a Nasreddin, nem água, nem um lugar mais perto do fogo. Ele esperou, olhou as tigelas passando e entendeu a regra da casa sem que ninguém a dissesse.

Então levantou e saiu sem se despedir. Foi até a própria casa, trocou a roupa gasta por um casaco de pele, o melhor que tinha, e voltou pelo mesmo caminho.

Na porta, o anfitrião veio recebê-lo. Levou-o pelo braço até a cabeceira, ao lado dos convidados importantes. Os criados trouxeram sopa, carne, arroz e doces, e cada um se inclinava para servi-lo primeiro.

O título Hodja, que acompanha o nome dele em todas as versões, significa mestre ou professor em turco. Na tradição, Nasreddin era um homem letrado, que pregava na mesquita e dava aula. Nada disso tinha valido na primeira entrada.

Foi aí que ele pegou a manga do casaco e a mergulhou na tigela. Depois fez a mesma cena com o prato de carne. A sala inteira ficou em silêncio, esperando a explicação.

O conto é curto e cabe numa conversa de mesa. Abaixo vem a história inteira, com a pergunta do anfitrião e a resposta de Nasreddin. Depois, quem foi esse homem, onde a tradição o enterrou e como as histórias dele viajaram da Turquia até a Pérsia, o mundo árabe e a Europa. No encerramento, o que a manga molhada ensina sobre o jeito como a gente recebe as pessoas.

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I  A Fábula do Dia

A manga dentro da sopa

Um convite, duas entradas e uma única roupa trocada no caminho.

O Casaco de Nasreddin é um dos contos mais repetidos da tradição turca de Nasreddin Hodja, com três personagens: o próprio Nasreddin, o anfitrião do banquete e o casaco de pele. A história começa no fim de um dia de trabalho.

Nasreddin voltava da lavoura quando lembrou do banquete.

Um homem rico da cidade tinha convidado os vizinhos.

Estava tarde para passar em casa.

Ele foi do jeito que estava, com a roupa de lida.

Na porta, ninguém o recebeu.

Ele entrou sozinho e sentou num canto da sala.

Os criados passavam com bandejas de sopa e de carne.

Passavam por ele e seguiam adiante.

Nasreddin esperou.

Esperou mais um pouco.

Ninguém lhe dirigiu a palavra.

Então ele se levantou devagar e saiu.

Andou até a própria casa.

Tirou a roupa suja de terra.

Vestiu o casaco de pele, o mais bonito que tinha.

E voltou ao banquete.

Desta vez o anfitrião correu até a porta.

"Seja bem-vindo, Hodja! Que honra! Venha, sente aqui."

Levou Nasreddin até a cabeceira da mesa.

Os criados vieram depressa.

Trouxeram sopa quente, carne assada, arroz com manteiga.

Nasreddin olhou a comida.

Segurou a ponta da manga do casaco.

E a mergulhou dentro da tigela de sopa.

"Coma, meu casaco, coma."

Depois encostou a manga no prato de carne.

"Coma, meu casaco. Coma à vontade."

Os convidados pararam de comer.

O anfitrião ficou vermelho.

“Hodja, o que está fazendo? Por que dá comida ao casaco?”

Nasreddin respondeu sem pressa.

"Quando cheguei com a outra roupa, ninguém me deu nada."

"Agora voltei de casaco, e tudo apareceu na mesa."

"Então a comida não foi servida a mim. Foi servida ao casaco."

"É justo que ele coma primeiro."

Ninguém respondeu.

Nasreddin tirou a manga da sopa.

E começou a comer.

 
 

II  A Origem

De Akşehir para o mundo inteiro

Um sábio popular da Anatólia medieval, um túmulo com portão trancado e sem muros, um livro de 1480 que já o citava e um provérbio que os turcos usam até hoje: a história do casaco chegou até aqui por esse caminho.

Nasreddin Hodja é a figura mais conhecida do humor popular turco. A tradição o faz nascer em Hortu, aldeia perto de Sivrihisar, e viver em Akşehir, na região de Konya, no século XIII. Os documentos da época são poucos, e a vida dele chega quase toda pelas próprias histórias.

O túmulo atribuído a ele fica em Akşehir e virou atração. Tem um portão grande, com cadeado, e nenhum muro em volta: qualquer um entra pelos lados. Os moradores dizem que a obra é a última piada do Hodja.

Um dos registros escritos mais antigos que o mencionam é o Saltukname, livro de aventuras do guerreiro Sarı Saltuk compilado por Ebu'l-Hayr Rumi por volta de 1480. Ali Nasreddin já aparece como personagem conhecido, o que indica que as histórias corriam de boca em boca antes disso.

As coletâneas com as piadas reunidas, chamadas letâif (em turco antigo, anedotas espirituosas), circularam em manuscritos nos séculos seguintes. Cada copista acrescentava as que ouvia, e muitas histórias de outros povos acabaram atribuídas ao Hodja.

Um conto, vários nomes

A figura atravessou fronteiras e mudou de roupa. Na Pérsia e na Ásia Central ele é Mulla Nasruddin; no mundo árabe, as histórias parecidas pertencem a Juha, um tolo esperto que a tradição árabe já conhecia antes do século X. Na Bósnia e nos Bálcãs, ficou Nasradin Hodža.

Essa troca de nomes tem explicação simples. Um contador que conhecia uma boa piada de Juha, ao chegar a uma cidade turca, passava a contá-la com Nasreddin, porque era esse o herói que a plateia reconhecia. A mesma anedota ganhava assim três ou quatro donos, cada um na sua língua.

O conto do casaco vive em quase todas essas versões. Às vezes o anfitrião é um governador, às vezes um comerciante, e o casaco pode ser uma túnica bordada. A manga molhada e a frase dirigida à roupa não mudam.

Na Turquia, a frase virou provérbio e se usa sozinha, sem contar a história.

Ye kürküm ye.

Provérbio turco da tradição de Nasreddin Hodja, "Come, meu casaco, come", dito quando alguém é tratado pela aparência e não pela pessoa.

No Ocidente, a divulgação mais ampla veio pelo escritor Idries Shah, que publicou em inglês The Exploits of the Incomparable Mulla Nasrudin (As Façanhas do Incomparável Mulla Nasrudin) em 1966. Shah apresentava as piadas como pequenas lições de sabedoria sufi (a corrente mística do islã).

Em Akşehir, o Hodja virou patrimônio da cidade. Há estátua dele montado no burro, lojas com o rosto dele na fachada e um festival anual com teatro e contação de histórias. Crianças turcas aprendem as anedotas na escola, e a do casaco está entre as primeiras.

A pessoa real por trás das histórias continua incerta. Faltam registros civis do século XIII na Anatólia, e boa parte das anedotas foi atribuída ao Hodja depois da morte dele. Os estudiosos tratam Nasreddin como um homem que provavelmente existiu e um personagem que cresceu muito além dele.

 

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III  A Lição que Fica

Quem foi convidado à mesa

O anfitrião serviu o casaco, e Nasreddin só mostrou a ele o que tinha feito.

Repare que Nasreddin não reclama na primeira entrada. Não pede comida, não se apresenta como mestre, não briga com os criados. Ele sai e volta, e deixa a sala ver a diferença sozinha.

A resposta dele também não acusa ninguém pelo nome. Ele apenas diz o que aconteceu: a roupa gasta não recebeu nada, o casaco recebeu tudo. A conclusão fica para quem ouve, e o anfitrião ouve primeiro.

O banquete não recebeu um homem, recebeu um casaco.

O humor funciona porque o gesto é absurdo e a lógica é perfeita. Dar sopa a uma roupa é ridículo. Mas se a comida veio por causa da roupa, a roupa tem mais direito a ela do que o dono. O riso e a vergonha chegam na mesma hora.

O conto também não salva Nasreddin por ser importante. O título de mestre não mudou nada na primeira entrada. Só a pele de carneiro mudou. A história mostra que ninguém na sala olhou para a pessoa, nem quando ela voltou.

O casaco escolhido também diz algo. Na Anatólia de inverno duro, um casaco de pele custava caro e mostrava de longe quem tinha dinheiro. Era o sinal mais fácil de ler numa sala cheia, e foi justamente por ele que o anfitrião se guiou.

Antes de ler: pergunte à criança se ela já foi tratada diferente por causa da roupa que usava.

Na primeira entrada: peça que ela repare quem ofereceu comida a Nasreddin.

Na manga dentro da sopa: pare a leitura e pergunte por que ele fez essa cena.

No fim: pergunte como ela recebe um colega novo que chega de roupa simples.

O adulto reconhece a cena no restaurante que atende rápido a mesa do terno, na loja que ignora o cliente de chinelo e na reunião em que a opinião só vale depois do crachá.

“Na sua casa, quem é servido primeiro: a pessoa ou a roupa?”

Nasreddin comeu a sopa.

O casaco secou no caminho de volta.

 
 
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Segundo o texto, o que chama atenção no túmulo atribuído a Nasreddin Hodja em Akşehir?

AFica escondido numa floresta e só abre no dia do festival
BFoi construído no século XX pela prefeitura da cidade
CTem portão grande com cadeado, mas nenhum muro ao redor
DGuarda a espada e o burro empalhado do Hodja

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