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O cavalo fugido do velho da fronteira

No Huainanzi, livro chinês de 139 antes de Cristo, cada desgraça na casa do velho vira sorte, e cada sorte vira desgraça.

Um velho chinês de túnica parado na porta de uma casa de barro, olhando um cavalo que volta pela estepe seguido de outros cavalos.

O velho na porta, o cavalo voltando da estepe

▼
 

“Quem garante que a fuga não vira sorte?”, perguntou o velho aos vizinhos, na porta da própria casa, à beira da fronteira norte da China, no dia em que o cavalo sumiu.

Os vizinhos tinham vindo consolar. Um cavalo, naquela terra seca, valia a lavoura de uma família. Era o bem mais caro da casa. Sem ele, não havia como levar grão ao mercado, nem como escapar depressa se os cavaleiros do norte descessem.

O animal tinha escapado de noite. As pegadas iam reto para o outro lado da linha, rumo às estepes dos hu (os povos nômades que criavam cavalos e viviam em tendas).

Atravessar atrás dele era loucura. Do lado de lá, um chinês sozinho virava prisioneiro, ou não voltava.

O velho não foi atrás. Também não chorou. Recebeu os vizinhos, ouviu as condolências e devolveu a pergunta, que deixou a roda inteira calada.

A gente da aldeia o conhecia bem. Ele tinha fama de ler sinais, de entender o rumo das estações e o humor do céu. Ninguém o tinha visto errar feio.

Mesmo assim, perder o cavalo e chamar a perda de possível sorte parecia teimosia de velho. Os vizinhos saíram balançando a cabeça.

Ele morava ali com um único filho, rapaz forte, que gostava de montar mais do que de qualquer outro trabalho. Para o filho, o cavalo era o melhor da casa.

Os chineses de hoje chamam o velho de Sai Weng (o velho da fronteira, em mandarim). Ninguém registrou como ele se chamava de verdade. Ficaram o lugar onde morava e a pergunta que fez.

Adiante, o que aconteceu com o cavalo, com o filho e com a aldeia nos meses seguintes. Depois, o livro que guardou a fábula e o príncipe que mandou escrevê-lo. Por fim, o que a pergunta do velho ensina a quem lê junto com uma criança.

Continue lendo ↓

 
 

I  A Fábula do Dia

O cavalo que voltou com outros

O Huainanzi (Os mestres de Huainan), livro chinês apresentado ao imperador Wu por volta de 139 antes de Cristo, conta a história de Sai Weng, o velho da fronteira, em três viradas que cabem em poucas linhas.

Passaram-se alguns meses. Numa manhã, o cavalo apareceu na estrada, vindo do norte, sozinho no começo, depois com companhia.

Atrás dele vinham cavalos dos hu, animais de boa raça, mais altos e mais rápidos do que os da aldeia. O texto chinês fala em junma (corcéis de raça), e muitas versões modernas resumem a tropa numa égua selvagem.

Os vizinhos voltaram, agora para dar os parabéns. A casa mais pobre da rua tinha virado dona da melhor tropa da fronteira.

O velho respondeu com a pergunta virada do avesso: “Quem garante que a sorte não vira desgraça?”

Ninguém entendeu. Riqueza nova, cavalos de graça, e nenhum vizinho enxergava perigo naquilo.

Na fronteira, um corcel de raça valia mais que uma colheita inteira. Ter vários fazia da casa um alvo, cobiçada pelos vizinhos e pelos ladrões.

O filho viu os animais e não quis outra vida. Saía todo dia para montar os cavalos novos, ainda bravos, acostumados ao campo aberto e a nenhum dono.

Um deles o derrubou. O rapaz caiu de mau jeito e quebrou o osso da coxa.

A perna ficou torta. Num tempo sem cirurgião, osso de coxa mal colado deixava o homem manco pelo resto da vida.

Os vizinhos vieram de novo, agora com pena. O único filho do velho, que ia cuidar dele na velhice, não andaria direito nunca mais.

O velho repetiu a primeira pergunta: “Quem garante que a desgraça não vira sorte?”

Passou um ano.

Os hu atravessaram a fronteira em grande número, a cavalo, armados de arco. Não vinham roubar gado. Vinham para a guerra.

O governo convocou todo homem capaz de puxar o arco. Os rapazes da aldeia seguiram para a linha de frente.

O Huainanzi registra o saldo com secura: dos homens que moravam perto da fronteira, nove em cada dez morreram.

O filho do velho ficou. Homem manco não servia na cavalaria nem aguentava a marcha, e os recrutadores passaram pela casa sem levá-lo.

Pai e filho atravessaram a guerra juntos, vivos, na mesma casa de onde o cavalo tinha fugido.

 
 

II  A Origem

O príncipe de Huainan e seus sábios

O livro foi encomendado por Liu An, neto do fundador da dinastia Han, que reuniu sábios na sua corte para escrever um manual completo de governo.

Liu An nasceu por volta de 179 antes de Cristo e herdou o reino de Huainan, no vale do rio Huai, região que hoje fica na província de Anhui. Era neto de Liu Bang, o camponês que fundou a dinastia Han.

Na corte, ele sustentava letrados, magos e estudiosos de várias escolas. O Livro de Han, crônica escrita por Ban Gu no século 1, fala em milhares de hóspedes vivendo à custa do príncipe.

Desse grupo saiu o Huainanzi, em 21 capítulos. Liu An levou a obra ao sobrinho, o jovem imperador Wu, em 139 antes de Cristo, quando foi à capital Chang'an prestar homenagem.

O imperador gostou do presente e guardou o livro em segredo na biblioteca do palácio, segundo o mesmo Livro de Han.

O livro mistura astronomia, geografia, guerra, música e política. A base é o taoísmo (a escola do Dao, o caminho que rege a natureza), com pedaços do pensamento de Confúcio e de outras escolas.

O capítulo dezoito

A fábula está no capítulo 18, chamado Renjian xun (lições sobre o mundo dos homens). O capítulo inteiro é feito de casos curtos sobre gente que ganhou perdendo ou perdeu ganhando.

O velho, no texto, entende de shu (as artes de prever, como a leitura de sinais). A habilidade dele não serve para adivinhar o desfecho. Serve para não fechar o julgamento cedo.

Por trás está a ideia de yin e yang (as duas forças opostas que se alternam em tudo, como sombra e sol): quando uma chega ao máximo, começa a virar a outra.

“故福之為禍,禍之為福,化不可極,深不可測也。”

Huainanzi, capítulo 18, por volta de 139 antes de Cristo: “Assim a sorte vira desgraça e a desgraça vira sorte; a mudança não tem limite, e sua profundidade não se pode medir.”

O destino de Liu An

O próprio Liu An não teve a sorte do velho. Em 122 antes de Cristo, acusado de tramar uma revolta contra o imperador Wu, tirou a própria vida antes de ser preso, e o reino de Huainan foi extinto.

Uma lenda posterior contou outra versão: Liu An teria tomado um elixir e subido ao céu, e os cães e as galinhas que lamberam o resto do pote subiram junto. A tradição atribui a ele também a invenção do tofu, sem documento da época que prove.

A fábula sobreviveu ao autor. Séculos depois, virou um chengyu (provérbio de quatro caracteres): sai weng shi ma, “o velho da fronteira perdeu o cavalo”.

As crianças chinesas aprendem a expressão na escola. A frase costuma vir com o complemento “como saber se não é sorte?”, dito quando alguém lamenta uma perda recente.

 

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III  A Lição que Fica

A pergunta no lugar da sentença

O velho nunca disse que a fuga era boa. Disse apenas que ninguém sabia ainda. A diferença parece pequena e muda a história inteira.

Os vizinhos erraram três vezes, sempre do mesmo jeito: julgaram cada fato no dia em que ele chegou. Choraram o cavalo, festejaram a tropa, lamentaram a perna.

O velho esperou nas três. A espera dele tinha uma conta simples por trás: um fato só ganha peso quando chega o seguinte.

Quem fecha o julgamento no primeiro dia julga sem ver a segunda metade.

A fábula também não promete final feliz. Nove em cada dez rapazes da fronteira não voltaram. A sorte do velho veio junto com a desgraça de quase todas as casas vizinhas, e o texto não esconde.

Na escola, a cena aparece na prova que deu errado e levou o aluno a mudar o jeito de estudar. Em casa, no passeio cancelado pela chuva que virou a tarde de jogo de tabuleiro mais lembrada do ano.

No trabalho, aparece na vaga perdida que deixou a pessoa livre para a oferta seguinte. E aparece ao contrário, na promoção comemorada que trouxe junto o chefe impossível.

O texto não manda o leitor fingir que a perda não dói. O velho perdeu o cavalo de verdade e viu o filho mancar. A pergunta dele só adia a sentença, sem negar o fato.

Também não há truque de adivinho. Ele não sabia que os hu viriam, nem que a perna salvaria o rapaz. Sabia só que o primeiro capítulo de uma história raramente é o último.

Ler a fábula com uma criança é treinar a frase do velho para os dias ruins e também para os bons. Quatro paradas ajudam na leitura.

• Na fuga do cavalo: peça um palpite, a casa ficou mais pobre ou só esperando?

• Na chegada da tropa: pergunte por que o velho não comemorou com os vizinhos.

• Na queda do filho: pergunte o que os vizinhos sentiram e o que o velho respondeu.

• Na convocação: pergunte se a perna quebrada continuou sendo desgraça.

“Qual perda sua ainda está esperando o fato seguinte?”

A perna nunca sarou.

 
 
Quiz da edição

Segundo o Huainanzi, de cada dez homens que moravam perto da fronteira, quantos morreram na guerra contra os hu?

ACinco
BTrês
CNove
DNenhum

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