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Uma briga por água, um pedido de ajuda e um preço dito em voz alta antes de qualquer coisa acontecer.
O cavalo tinha o pasto todo para ele antes de o cervo aparecer. A grama era boa, a água era limpa e ninguém disputava nada.
O cervo chegou numa manhã e começou a comer.
Comeu perto da água, no melhor trecho.
O cavalo mandou o cervo embora.
O cervo não saiu.
Os dois se enfrentaram na beira do riacho.
O cervo era mais leve e mais rápido.
Tinha chifre, tinha salto e conhecia o mato ao redor.
O cavalo avançou de frente, com o peito.
Errou.
Avançou de novo e errou de novo.
O cervo desviou, cortou para o lado e sumiu entre as árvores.
O cavalo ficou parado no pasto, sozinho, com o flanco arranhado.
Ele podia esperar o cervo cansar do lugar.
Podia dividir a água.
Podia procurar outro pasto, que existia adiante.
Não fez nada disso.
Foi até a casa do homem que caçava na região.
Contou a briga inteira, ainda ofegante.
Pediu ajuda para expulsar o cervo do pasto.
O homem ouviu até o fim, sem pressa.
Disse que ajudava.
E disse o preço na mesma frase.
Precisava montar no lombo do cavalo.
Precisava de uma rédea para guiar.
Precisava de um freio na boca do cavalo.
E de uma sela por cima das costas.
O cavalo achou o preço pequeno perto do que ganharia.
Abaixou a cabeça e abriu a boca.
O ferro entrou frio, atravessado entre os dentes.
A correia passou pela nuca.
A sela subiu e a barrigueira apertou.
O homem montou com a lança na mão.
Saíram atrás do cervo antes do meio-dia.
O cavalo corria e o homem escolhia o caminho.
A rédea puxava para a direita e o cavalo virava para a direita.
A rédea puxava para a esquerda e o cavalo virava para a esquerda.
O cervo correu bem e correu muito.
Mas correu sozinho, e do outro lado eram dois.
Foi encurralado contra o barranco no fim da tarde.
O caçador fez o serviço de uma vez só.
O pasto voltou a ser do cavalo.
O cavalo agradeceu e pediu para descer o peso.
Pediu a sela fora, a rédea fora e o ferro fora da boca.
O homem riu.
Disse que não sabia, até aquele dia, que um cavalo servia tanto.
Puxou a rédea e levou o cavalo para casa.
Prendeu o animal na estrebaria e guardou a lança.
O cervo não voltou ao pasto.
O cavalo também não.
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