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Fábula do Dia   Fábula do Dia
ED 037
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O cavalo que aceitou sela emprestada

Ele chamou o homem para ganhar uma briga de pasto e descobriu tarde demais que o freio não sai da boca depois da vitória.

O cavalo de freio na boca e sela nas costas parado no pasto enquanto o cervo se afasta entre as árvores, cena da fábula do cavalo e do cervo.

O cavalo e o cervo na disputa do pasto

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"Olhem o freio antes de aceitar a ajuda", disse o poeta Estesícoro na praça de Himera, na Sicília, diante dos cidadãos que estavam prestes a entregar uma guarda armada a Fálaris. Em vez de argumentar, ele contou a história de um cavalo, um cervo e um caçador, e voltou a sentar.

A cena da fábula cabe num pasto. Dois animais grandes disputam a mesma água e a mesma grama. O cervo tem chifre, salto e velocidade. O cavalo tem força e orgulho, e perde mesmo assim.

O que vem depois da derrota faz a história durar dois mil e quinhentos anos. O cavalo não treina, não espera e não procura outro pasto. Ele vai atrás de alguém que odeia o cervo tanto quanto ele.

O caçador escuta o pedido com calma. Diz que ajuda, e diz o preço na mesma frase: precisa montar. Precisa que o cavalo abra a boca para o freio, aceite a rédea nas laterais e deixe a sela nas costas.

O cavalo aceita porque está com pressa e porque só consegue enxergar o cervo. A caçada funciona. O cervo cai. O cavalo ganha a disputa que abriu a história.

Aí vem a frase final, que é a razão de a fábula existir. O cavalo pede para descer o cavaleiro e tirar o ferro da boca, e ouve que não. A ajuda veio com dono, e o dono gostou do arranjo.

Com criança a história funciona por causa do gesto físico. Dá para fazer a boca abrindo para o freio com as duas mãos e mostrar que ela não fecha mais sozinha. O ouvinte pequeno entende o aperto antes de entender a política.

A leitura em voz alta pede duas vozes bem diferentes: a do cavalo, afobada, e a do caçador, lenta demais para quem tem pressa. Cabe em pouco mais de meio minuto.

A fábula vem inteira aqui embaixo, da primeira disputa na beira da água até a resposta seca do caçador. Depois dela vem a origem declarada, com o poeta que a usou como argumento político, o romano que a versificou em latim e o francês que a pôs em verso no século XVII. E no fim, o que a troca do cavalo ensina sobre aceitar força emprestada.

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I  A Fábula do Dia

O pasto que dois animais quiseram inteiro

Uma briga por água, um pedido de ajuda e um preço dito em voz alta antes de qualquer coisa acontecer.

O cavalo tinha o pasto todo para ele antes de o cervo aparecer. A grama era boa, a água era limpa e ninguém disputava nada.

O cervo chegou numa manhã e começou a comer.

Comeu perto da água, no melhor trecho.

O cavalo mandou o cervo embora.

O cervo não saiu.

Os dois se enfrentaram na beira do riacho.

O cervo era mais leve e mais rápido.

Tinha chifre, tinha salto e conhecia o mato ao redor.

O cavalo avançou de frente, com o peito.

Errou.

Avançou de novo e errou de novo.

O cervo desviou, cortou para o lado e sumiu entre as árvores.

O cavalo ficou parado no pasto, sozinho, com o flanco arranhado.

Ele podia esperar o cervo cansar do lugar.

Podia dividir a água.

Podia procurar outro pasto, que existia adiante.

Não fez nada disso.

Foi até a casa do homem que caçava na região.

Contou a briga inteira, ainda ofegante.

Pediu ajuda para expulsar o cervo do pasto.

O homem ouviu até o fim, sem pressa.

Disse que ajudava.

E disse o preço na mesma frase.

Precisava montar no lombo do cavalo.

Precisava de uma rédea para guiar.

Precisava de um freio na boca do cavalo.

E de uma sela por cima das costas.

O cavalo achou o preço pequeno perto do que ganharia.

Abaixou a cabeça e abriu a boca.

O ferro entrou frio, atravessado entre os dentes.

A correia passou pela nuca.

A sela subiu e a barrigueira apertou.

O homem montou com a lança na mão.

Saíram atrás do cervo antes do meio-dia.

O cavalo corria e o homem escolhia o caminho.

A rédea puxava para a direita e o cavalo virava para a direita.

A rédea puxava para a esquerda e o cavalo virava para a esquerda.

O cervo correu bem e correu muito.

Mas correu sozinho, e do outro lado eram dois.

Foi encurralado contra o barranco no fim da tarde.

O caçador fez o serviço de uma vez só.

O pasto voltou a ser do cavalo.

O cavalo agradeceu e pediu para descer o peso.

Pediu a sela fora, a rédea fora e o ferro fora da boca.

O homem riu.

Disse que não sabia, até aquele dia, que um cavalo servia tanto.

Puxou a rédea e levou o cavalo para casa.

Prendeu o animal na estrebaria e guardou a lança.

O cervo não voltou ao pasto.

O cavalo também não.

 
 

II  A Origem

De uma praça da Sicília até o verso francês

Um poeta grego que a usou como argumento político por volta de 550 antes de Cristo, um filósofo que a registrou como exemplo de retórica, um escravo liberto que a versificou em latim e um francês que a pôs em alexandrinos em 1668: a história do cavalo e do cervo chegou aqui por quatro mãos.

O registro mais antigo não está num livro de fábulas. Está na Retórica de Aristóteles, livro II, onde o filósofo explica como um orador usa uma história inventada para provar um ponto real.

O episódio que ele conta é público. Os cidadãos de Himera, na Sicília, tinham decidido dar a Fálaris poder de general e uma guarda pessoal armada. Estesícoro, poeta da cidade, subiu para falar contra a decisão e contou a fábula do cavalo que aceitou o freio para vencer o cervo.

A conclusão do poeta, no relato de Aristóteles, fecha o argumento sem explicar nada: cuidado para não acontecer com vocês o mesmo que aconteceu com o cavalo. Fálaris ficou conhecido depois como o tirano de Agrigento.

Vós já tendes o freio, pois elegestes um general com guarda pessoal. Se aceitardes também a sela, isto é, se vos submeterdes a Fálaris, estareis perdidos.

Aristóteles, Retórica, livro II, capítulo 20, século IV antes de Cristo.

A coleção grega em prosa atribuída a Esopo guarda a mesma história com o número 269 no índice de Ben Edwin Perry, o catálogo que os estudiosos usam para localizar cada fábula antiga. Ali o final é seco e o cavalo termina servindo ao homem.

Fedro, escravo liberto na Roma do século I, pôs a história em versos latinos no livro IV das suas Fábulas. Na versão dele o adversário do cavalo é um javali que suja a água do bebedouro, e o fecho carrega a frase que ficou: enquanto quis vingança, o cavalo encontrou servidão eterna.

Horácio tratou do mesmo enredo na Epístola I, 10, dirigida a Aristio Fusco, e tirou dele uma lição sobre liberdade e dinheiro: quem foge da pobreza vendendo a própria autonomia carrega um dono pelo resto da vida.

Por que o catálogo guarda esta fábula numa entrada própria

O que o índice separa aqui é a ordem dos fatos: a perda não vem do inimigo, vem do aliado, e chega depois da vitória, quando o perdedor já saiu de cena.

Jean de La Fontaine publicou a versão francesa em 1668, no livro IV das Fábulas escolhidas, com o título Le Cheval s'étant voulu venger du Cerf. Ele abre a fábula com uma tese sobre o tempo em que os animais mandavam em si mesmos e fecha lembrando que o cavalo ganhou a briga e perdeu o campo.

Babrio, que escreveu fábulas gregas em verso por volta do século II, registra a mesma armação com o cervo, e nas versões medievais latinas ela reaparece nos manuscritos do chamado Rômulo, a coleção que alimentou as escolas da Europa por séculos.

Na tradição brasileira a história circulou pelas seletas escolares do século XIX e início do XX, quase sempre com a moral impressa embaixo, e é dela que vem o hábito de chamar o cavalo de vingativo antes de reparar no caçador.

 

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III  A Lição que Fica

O preço que foi dito antes e escutado depois

A moral que costuma vir colada nesta fábula é a mais fácil de todas: quem busca vingança acaba se prejudicando. Dita assim, ela deixa o caçador de fora, e o caçador é quem sai ganhando.

Repare que ninguém enganou o cavalo. O preço foi dito em voz alta, na frente dele, antes de qualquer corrida: freio, rédea e sela.

O cavalo ouviu cada palavra e concordou. Ele não foi vítima de letra miúda, foi vítima da própria pressa em resolver uma disputa que não tinha prazo nenhum.

A troca que ele fez não foi força por ajuda. Foi controle permanente por um resultado de um dia, e o único bem que mudou de mãos para sempre foi a boca dele.

Tem uma segunda camada, e é a que costuma incomodar o adulto. O cavalo ganhou de verdade. O cervo saiu do pasto, a água ficou livre e a disputa acabou exatamente como ele queria.

O problema é que a vitória chegou junto com um cavaleiro nas costas, e o cavaleiro não tinha prazo de saída. Vitória e perda vieram no mesmo pacote, no mesmo dia, com a mesma assinatura.

Vale dizer também o que a história não ensina. Ela não diz para recusar ajuda nem para resolver tudo sozinho. O ponto é anterior: existe ajuda que devolve o pasto e existe ajuda que troca de dono o animal, e a diferença entre as duas está no que sai de você quando a briga termina.

Antes de começar: diga a idade e o tempo em voz alta. A partir dos cinco anos, pouco mais de meio minuto.

Na hora do pedido: faça a voz do cavalo rápida e a voz do caçador bem devagar. A diferença de ritmo já entrega quem está no controle.

Na hora do freio: mostre com as mãos a boca abrindo para o ferro entrar. É o gesto que a criança guarda da história inteira.

Na hora do fim: pare depois que o caçador diz que não solta o cavalo e conte até três antes da última frase.

O adulto que lê conhece o mesmo pasto no sócio que entrou para resolver uma briga e ficou com metade da empresa, no empréstimo tomado para ganhar uma disputa curta e pago por dez anos, e no investidor que chega no pior mês e sai com a cadeira de quem decide.

“Quem está segurando a sua rédea depois que a briga acabou?”

O cervo saiu do pasto.

A água ficou limpa.

O cavalo venceu a disputa.

O freio ficou.

 
 

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BMontar, com freio na boca, rédea e sela
CMetade da caça como pagamento
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