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O cervo de 2 quilos e a fila de crocodilos no rio
No conto malaio, Sang Kancil inventa uma ordem do rei, põe os crocodilos em fila e atravessa o rio pisando neles.
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Sang Kancil salta de lombo em lombo no rio
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“O rei Sulaiman mandou contar todos os crocodilos deste rio”, gritou Sang Kancil da margem barrenta, numa floresta da península malaia, com a água subindo até as raízes das árvores.
Sang Kancil era um kancil (o cervo-rato, um bicho de casco do tamanho de um gato pequeno, que pesa por volta de 2 quilos). Tinha pernas finas como gravetos, olhos grandes e nenhum chifre para se defender.
Naquela manhã, ele estava com fome. Do outro lado do rio, as árvores carregavam frutas maduras, e o cheiro atravessava a água junto com o vento.
O problema era o rio. As chuvas da estação tinham enchido o leito, e a correnteza descia marrom, larga e funda, arrastando galhos inteiros.
Um cervo-rato não nada contra uma correnteza assim. E, mesmo que nadasse, o rio tinha dono.
Debaixo da água moravam os crocodilos. Ficavam boiando com só os olhos de fora, parados como troncos, esperando qualquer bicho distraído que viesse beber.
Sang Kancil conhecia a fama deles. Muito veado, porco-do-mato e macaco já tinha entrado na água para não sair mais.
Ele andou de um lado para o outro na margem, olhando as frutas, olhando o rio, olhando os olhos que apareciam e sumiam na superfície.
Não tinha força, não tinha tamanho, não tinha dente. Tinha uma ideia, e a ideia precisava de uma mentira bem contada.
Então ele subiu numa pedra, encheu o peito e gritou para a água a ordem do rei, como se a carregasse escrita numa folha de palmeira.
Os olhos pararam de afundar. Um a um, os crocodilos foram subindo para ouvir quem falava em nome de Sulaiman.
Como o menor bicho da floresta conseguiu atravessar o rio sobre as costas dos maiores caçadores dele está na primeira faixa. Depois vem a origem do conto e o parente japonês dele, com mais de mil anos. Por último, o que a travessia ensina quando se lê com uma criança ao lado.
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I A Fábula do Dia
Satu, dua, tiga
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Sang Kancil e os Crocodilos, conto popular da Malásia e da Indonésia, começa quando o chefe dos crocodilos sobe à tona e pergunta para que o rei quer saber quantos eles são.
O chefe era o maior de todos, com o couro coberto de lodo e uma cicatriz no focinho. Desconfiou na hora daquele bichinho em cima da pedra.
Sang Kancil não piscou. Explicou que o rei Sulaiman ia dar uma festa para todos os animais e queria mandar carne para cada crocodilo do rio, sem faltar nenhum.
Para a entrega dar certo, alguém precisava contar. E o rei tinha escolhido Sang Kancil para a tarefa.
O chefe pensou na carne. Pensou que, se ficasse algum crocodilo de fora da conta, ficaria também sem a parte dele da festa.
Mandou chamar todos. Do fundo do rio, das margens e das curvas mais distantes, os crocodilos foram chegando até a água ficar cheia de costas escuras.
A fila na água
Sang Kancil disse que, daquele jeito, amontoados, não dava para contar direito. Pediu que se alinhassem lado a lado, de uma margem até a outra, como uma ponte.
Os crocodilos obedeceram. Encostaram os corpos um no outro, focinho de um junto da cauda do vizinho, até a fila tocar a terra do outro lado.
O cervo-rato desceu da pedra e pulou no primeiro lombo. “Satu!”, contou ele (um, em malaio).
Pulou no segundo. “Dua!” (dois). Pulou no terceiro. “Tiga!” (três).
Foi assim, de costas em costas, gritando cada número para o rio inteiro escutar, com as patinhas escorregando no couro molhado.
Os crocodilos ficavam imóveis, orgulhosos, cada um esperando ouvir o próprio número para garantir a carne da festa.
Do outro lado
No último lombo, Sang Kancil deu um salto comprido e caiu na margem seca, perto das árvores carregadas de frutas.
Virou-se para o rio e agradeceu a ponte. Contou que o rei não tinha mandado ordem nenhuma, que festa nenhuma ia acontecer, e que ele só queria chegar às frutas.
O chefe dos crocodilos bateu a cauda na água com tanta raiva que a fila se desfez. Mas o cervo-rato já estava longe, entre as raízes, com a boca cheia.
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II A Origem O rei, o cervo e a lebre
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O rei da mentira de Sang Kancil é Sulaiman, o nome que os muçulmanos da Malásia e da Indonésia dão ao rei Salomão da Bíblia, a quem a tradição islâmica atribui a fala com os animais.
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Por esse detalhe, quem ouvia o conto entendia por que os crocodilos obedeceram. Uma ordem de Sulaiman não se discutia, nem no fundo do rio.
O conto pertence a um ciclo inteiro. Sang Kancil é o herói esperto de dezenas de histórias contadas na Malásia, na Indonésia, em Brunei e no sul da Tailândia.
Um bicho real
O kancil existe. A ciência o chama de Tragulus kanchil, e ele vive nas florestas do Sudeste Asiático, onde se esconde no mato baixo e sai para comer folhas e frutas caídas.
É um dos menores animais de casco do planeta. Na falta de força, sobra cautela: ao menor barulho, ele some no meio das folhas.
O macho não tem chifre, mas carrega dois caninos compridos na boca, pontudos como agulhas, que usa nas brigas com outros machos. Contra um crocodilo, servem de pouco.
Quem contava as histórias olhava para esse bicho miúdo e cercado de predadores e o imaginava vencendo tigres, crocodilos e elefantes com a cabeça.
A história escrita
As aventuras do cervo-rato foram copiadas à mão no Hikayat Pelanduk Jenaka (A história do cervo-rato esperto, sendo hikayat a narrativa em prosa da literatura malaia e pelanduk um sinônimo de kancil).
Nesse texto, ele chega a se proclamar rei da floresta e a julgar as brigas entre os outros bichos, sempre pela astúcia.
Em outras histórias do mesmo ciclo, ele engana o tigre fingindo guardar o cinto do rei, que era uma cobra enrolada, e, preso no fundo de um poço, convence o elefante a pular lá dentro para fugir do céu que ia cair, e sai pisando nas costas dele.
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“Satu, dua, tiga, empat, lima, enam, tujuh, lapan, sembilan, sepuluh.”
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Contagem do conto, de autoria anônima, como as crianças malaias ainda repetem ao ouvir a história: “Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez.”
O parente do Japão
O Japão guarda uma travessia quase igual. O Kojiki (Registro de Assuntos Antigos), compilado em 712, conta a lebre branca de Inaba, que queria sair da ilha de Oki para o continente.
A lebre convenceu os wani (monstros do mar, lidos como tubarões ou crocodilos) a se alinharem para que ela contasse quem tinha a família maior. Atravessou pulando sobre eles.
A diferença está no último passo. A lebre se gabou da mentira antes de tocar a terra, e o último wani arrancou o pelo dela inteiro. Sang Kancil só falou com os pés no chão seco.
Na Malásia, o bicho virou símbolo nacional da esperteza. Em 1994, a montadora Perodua lançou um carro pequeno e barato batizado Kancil, o primeiro modelo da marca.
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