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Fábula do Dia   Fábula do Dia
ED 047

100% escolheram O Pardal de Língua Cortada. Aqui está.

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O cesto leve subiu o morro nas costas do velho

Ele cuidou do pardal, aceitou o presente menor e voltou rico; ela cortou a língua da ave, quis o cesto grande e levantou a tampa antes de chegar.

Um velho japonês com um cesto de vime trançado amarrado nas costas, na saída de um bambuzal.

O velho e o cesto pequeno na saída do bambuzal

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"Me dá o menor, que a subida de volta é longa", pede o velho aos pardais do salão de bambu, no conto japonês que o inglês Algernon Bertram Mitford recolheu em Tales of Old Japan, livro publicado em Londres em 1871. Os anfitriões insistem no cesto grande. Ele recusa duas vezes e sai com o pequeno nas costas.

O conto se chama Shita-kiri Suzume, que em português é o pardal de língua cortada. Tem quatro peças e nenhum personagem batizado: um velho lenhador que cria uma ave de estimação, a mulher dele, um pardal e um bosque de bambu onde a ave mora com os seus.

A confusão começa por um pote de nori, a goma de arroz que as japonesas usavam para engomar tecido depois da lavagem. O pardal bica a goma e come quase tudo. A velha chega, vê o pote raspado, pega a tesoura e corta a língua da ave, que sai voando pela janela.

O velho vai procurar. Atravessa o campo perguntando de casa em casa até achar o bambuzal, e lá dentro é recebido como visita de honra: mesa posta, dança dos pardais, a ave de língua recosida em pé na porta. Na despedida vem o gesto que separa este conto dos outros. Os anfitriões não dão um presente: apresentam dois, iguais por fora, diferentes no peso, e mandam escolher.

O que está sendo medido ali não é bondade. O velho já tinha sido bom antes de subir o morro, e a hospitalidade já tinha pagado essa conta. A prova é outra: quanto ele pede quando ninguém está contando.

Abaixo vem a fábula inteira, do pote de goma raspado ao que pula de dentro da tampa levantada. Depois dela, a procedência: em que coletânea japonesa do século XIII aparece a versão mais antiga desse enredo, como o pardal de língua cortada chegou aos livretos ilustrados de rua, quais editores e tradutores o levaram para fora do Japão e o que os registros não conseguem datar. No encerramento, o que o peso dos dois cestos ensina sobre pedir pouco e sobre chegar em casa.

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I  A Fábula do Dia

Dois cestos no salão de bambu

Um pote de goma raspado, uma tesoura, um bosque de bambu e duas cestas de vime trançado oferecidas na porta.

O Pardal de Língua Cortada é um conto popular japonês sem nome próprio para ninguém: o velho, a velha, o pardal e os pardais da casa dele. A cena começa numa casa pobre.

Havia um velho lenhador e a mulher dele.

Moravam numa casa pequena perto do campo.

O velho criava um pardal manso.

Dava arroz cozido ao bicho todo dia.

Falava com o pardal como se fala com gente.

A velha achava a ave um estorvo.

Certa manhã ela pôs goma de arroz a ferver.

Deixou o pote esfriando no chão da cozinha.

Foi lavar roupa no riacho atrás da casa.

O pardal desceu do poleiro e bicou a goma.

Comeu quase tudo o que havia no pote.

A velha voltou e encontrou o pote raspado.

Pegou a tesoura de costura da cesta.

Segurou o pardal com a mão esquerda.

Cortou a língua da ave.

Abriu a janela e mandou o bicho embora.

O pardal voou sangrando para o campo.

O velho chegou da lenha ao cair da tarde.

Procurou o pardal no poleiro vazio.

A mulher contou o que tinha feito, sem pesar.

Ele saiu de casa na manhã seguinte.

Andou pelo campo perguntando a quem encontrava.

"Pardal, pardal, onde fica a tua pousada?"

Um homem apontou o bambuzal do outro morro.

O velho subiu o morro com as pernas cansadas.

Achou uma casa de bambu entre as varas.

O pardal veio à porta recebê-lo.

Tinha a língua tratada e falava de novo.

A família da ave pôs mesa para o visitante.

Serviram arroz, peixe e vinho de arroz.

As filhas do pardal dançaram no salão.

O velho ficou até o sol baixar.

Disse que a mulher o esperava em casa.

Os pardais trouxeram duas cestas de vime.

Uma cesta grande e uma cesta pequena.

"Leve a que o senhor quiser."

O velho olhou as duas e escolheu a pequena.

"Me dá o menor, que a subida de volta é longa."

Os pardais insistiram na cesta grande.

Ele recusou e amarrou a pequena nas costas.

Desceu o morro devagar, com o peso leve.

Abriu a cesta em casa, na frente da mulher.

Dentro havia moedas de ouro e peças de seda.

Havia coral, jade e rolos de tecido bom.

A velha perguntou quanto pesava a outra cesta.

O velho disse que era o dobro.

Ela saiu de madrugada rumo ao bambuzal.

Pediu a cesta grande antes de sentar.

Os pardais entregaram sem servir a mesa.

Ela amarrou o peso nas costas e desceu.

Parou na estrada, cansada, e levantou a tampa.

De dentro saíram cobras e assombrações.

A velha largou a cesta e correu para casa.

 
 

II  A Origem

Do Uji Shūi ao livro de papel crepom

Uma coletânea japonesa do século XIII com um pardal de lombo quebrado, os livretos ilustrados vendidos nas ruas de Edo, um diplomata inglês que publicou o conto em Londres em 1871 e um editor de Tóquio que o imprimiu em papel crepom a partir de 1885: o pardal de língua cortada chegou até aqui por esse caminho.

O enredo mais antigo com esse desenho está no Uji Shūi Monogatari, coletânea de contos japoneses compilada no começo do século XIII. A história se chama Koshiori Suzume, o pardal de lombo quebrado.

Nela, uma velha trata um pardal ferido por uma pedrada e o solta curado. A ave devolve uma semente de cabaça, que dá colheita farta e enche a casa de arroz. A vizinha inveja o resultado, machuca pardais de propósito e colhe cabaças cheias de insetos que picam.

O esqueleto é o mesmo do conto de hoje: dois vizinhos, o mesmo bicho e resultados opostos conforme a intenção de quem pede. O que falta ali é a tesoura e a escolha entre duas cestas.

A versão com a língua cortada e os dois cestos circulou primeiro na boca do povo e depois nos akahon, os livretos de capa vermelha impressos em madeira e vendidos baratos nas ruas de Edo, a atual Tóquio, durante o período Edo. Nesses livretos o conto já aparece com a cena das duas tsuzura, as cestas de vime trançado com tampa em que se guardava roupa.

Pardal, pardal, onde fica a tua pousada?

O Pardal de Língua Cortada, refrão tradicional do conto japonês, na forma "Suzume, suzume, oyado wa doko".

Para fora do Japão o conto saiu pela mão de Algernon Bertram Mitford, diplomata britânico em Tóquio, que publicou Tales of Old Japan em Londres em 1871 com a versão inglesa da história. O livro virou porta de entrada de vários otogibanashi, os contos de fada japoneses, no mundo de língua inglesa.

Catorze anos depois, o editor Hasegawa Takejirō começou a imprimir em Tóquio a Japanese Fairy Tale Series em chirimen-bon, o livro de papel crepom, folha amassada que imita tecido. O pardal saiu num dos primeiros volumes, com xilogravuras coloridas à mão, e virou objeto de exportação para a Europa.

Em 1901, o escocês Andrew Lang pôs o conto no The Violet Fairy Book, um dos livros de fadas coloridos que organizava. Em 1903, a tradutora japonesa Yei Theodora Ozaki publicou a própria versão em Japanese Fairy Tales, para crianças de língua inglesa.

O que os registros não datam

Nenhum documento fixa o ano em que a tesoura entrou na história. O pardal de lombo quebrado do século XIII não tem língua cortada, e os livretos de Edo já trazem a cena pronta, sem indicar quem a acrescentou.

Falta também autor. O conto não tem assinatura em nenhuma das camadas: quem o recolheu no Uji Shūi copiou material de tradição oral, e os impressores de Edo trabalhavam com histórias que já corriam de boca em boca.

Os finais divergem entre as versões impressas. Em umas a velha larga a cesta e volta para casa apavorada e sem nada; em outras ela rola morro abaixo com o peso amarrado. Nenhuma versão conhecida dá a ela um segundo cesto.

 

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III  A Lição que Fica

Quem levanta a tampa antes de chegar

O velho recusou o presente maior duas vezes e a mulher pediu o maior antes de sentar à mesa.

Repare que o prêmio não vem da bondade. O velho já tinha alimentado o pardal por anos, e os pardais já tinham pagado essa dívida com mesa posta, dança e a tarde inteira de festa. O cesto é assunto separado.

O que as cestas medem é apetite. Duas iguais por fora, uma pesada e uma leve, e a única informação que o visitante recebe é o peso. O velho escolhe pelo que aguenta carregar morro abaixo, não pelo que cabe dentro.

As duas cestas não testam quem merece receber, e sim quanto cada um pede quando a oferta é livre.

A velha erra três vezes na mesma viagem, e cada erro é pequeno. Ela pede antes de ser recebida. Escolhe o peso que não consegue subir. E levanta a tampa na estrada, a poucos passos da porta de casa.

O terceiro erro é o que fecha a história. Se ela tivesse chegado com a cesta amarrada, o conto japonês ainda teria como terminar de outro jeito, porque a tampa fechada guarda as duas possibilidades. Foi a pressa de conferir que decidiu qual delas valia.

O pardal também não é inocente no enredo, e o conto não esconde isso. A ave comeu a goma de arroz que a velha tinha preparado para o serviço do dia. O castigo passa do tamanho da falta, e é esse desencontro que move o resto.

Vale marcar o que o texto não diz. Ele não promete que o pobre fica rico nem que o avarento se arruína sempre. O aviso é estreito: quem pede pelo peso máximo carrega o peso máximo.

Antes de ler: mostre à criança o pote de goma e explique para que servia, para a raiva da velha fazer sentido depois.

Na hora do corte: leia a cena da tesoura em voz baixa e rápida, sem adjetivo, e siga adiante.

No salão de bambu: faça a pergunta do velho em ritmo de canção, repetindo as duas primeiras palavras.

Na escolha: pare com as duas cestas na porta e pergunte qual ela levaria, antes de continuar.

O adulto reconhece a cena de outra forma: no colega que aceita o projeto grande sem calcular as horas, e em quem confere o resultado cedo demais e estraga o que ainda estava de pé.

“Que presente você quis maior do que conseguia carregar?”

Os pardais voltaram ao bambuzal.

O velho guardou a cesta pequena.

A tampa ficou aberta.

 
 
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