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Um pote de goma raspado, uma tesoura, um bosque de bambu e duas cestas de vime trançado oferecidas na porta.
O Pardal de Língua Cortada é um conto popular japonês sem nome próprio para ninguém: o velho, a velha, o pardal e os pardais da casa dele. A cena começa numa casa pobre.
Havia um velho lenhador e a mulher dele.
Moravam numa casa pequena perto do campo.
O velho criava um pardal manso.
Dava arroz cozido ao bicho todo dia.
Falava com o pardal como se fala com gente.
A velha achava a ave um estorvo.
Certa manhã ela pôs goma de arroz a ferver.
Deixou o pote esfriando no chão da cozinha.
Foi lavar roupa no riacho atrás da casa.
O pardal desceu do poleiro e bicou a goma.
Comeu quase tudo o que havia no pote.
A velha voltou e encontrou o pote raspado.
Pegou a tesoura de costura da cesta.
Segurou o pardal com a mão esquerda.
Cortou a língua da ave.
Abriu a janela e mandou o bicho embora.
O pardal voou sangrando para o campo.
O velho chegou da lenha ao cair da tarde.
Procurou o pardal no poleiro vazio.
A mulher contou o que tinha feito, sem pesar.
Ele saiu de casa na manhã seguinte.
Andou pelo campo perguntando a quem encontrava.
"Pardal, pardal, onde fica a tua pousada?"
Um homem apontou o bambuzal do outro morro.
O velho subiu o morro com as pernas cansadas.
Achou uma casa de bambu entre as varas.
O pardal veio à porta recebê-lo.
Tinha a língua tratada e falava de novo.
A família da ave pôs mesa para o visitante.
Serviram arroz, peixe e vinho de arroz.
As filhas do pardal dançaram no salão.
O velho ficou até o sol baixar.
Disse que a mulher o esperava em casa.
Os pardais trouxeram duas cestas de vime.
Uma cesta grande e uma cesta pequena.
"Leve a que o senhor quiser."
O velho olhou as duas e escolheu a pequena.
"Me dá o menor, que a subida de volta é longa."
Os pardais insistiram na cesta grande.
Ele recusou e amarrou a pequena nas costas.
Desceu o morro devagar, com o peso leve.
Abriu a cesta em casa, na frente da mulher.
Dentro havia moedas de ouro e peças de seda.
Havia coral, jade e rolos de tecido bom.
A velha perguntou quanto pesava a outra cesta.
O velho disse que era o dobro.
Ela saiu de madrugada rumo ao bambuzal.
Pediu a cesta grande antes de sentar.
Os pardais entregaram sem servir a mesa.
Ela amarrou o peso nas costas e desceu.
Parou na estrada, cansada, e levantou a tampa.
De dentro saíram cobras e assombrações.
A velha largou a cesta e correu para casa.
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