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O chacal que sussurrou ao rei contra o boi
Em Kalila e Dimna, livro árabe do século 8, o leão acredita na intriga do chacal e só descobre a mentira quando o boi Chatraba já está no chão.
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O chacal Dimna ao ouvido do leão, o boi ao longe
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“Quem chega perto do rei sem ser chamado pode subir muito alto, ou cair de muito alto”, disse o chacal Dimna ao irmão Kalila, na toca que os dois dividiam à beira do pasto do leão.
Kalila pediu calma. Os dois serviam na corte sem cargo nenhum, comiam as sobras da caça real e viviam bem assim. Para que arriscar a pele por um lugar mais perto do trono?
Dimna tinha um motivo. Havia dias que o leão não saía da toca. Um som grave, vindo da beira do rio, deixava o rei parado, de orelha em pé, sem caçar.
Ninguém na corte sabia de onde vinha o som. Ninguém tinha coragem de perguntar.
Dimna pediu audiência. Disse ao leão que barulho grande nem sempre vem de bicho grande, e se ofereceu para ir ver.
Voltou com a resposta. O som era o mugido de Chatraba, um boi que um mercador tinha largado atolado na lama durante uma viagem. O animal se soltou sozinho, engordou no capim da margem e mugia por puro sossego.
O leão quis conhecer o boi. Dimna o trouxe até o trono, e Chatraba chegou de cabeça baixa, pedindo licença para viver no pasto.
O rei gostou dele na primeira conversa. Chatraba falava pouco, pensava antes de responder e não pedia nada. Em poucas semanas, o boi virou conselheiro, e o lugar ao lado do leão ficou dele.
Dimna, que tinha aberto a porta, ficou de fora.
A história foi escrita em árabe por Abdallah Ibn al-Muqaffa, um secretário persa a serviço dos califas abássidas, em Basra, por volta do ano 750. Ele traduziu de um livro persa que, por sua vez, vinha de uma coletânea indiana muito mais antiga.
Adiante, a intriga que Dimna armou contra o boi e o julgamento que veio depois. Em seguida, a viagem do livro da Índia até a Espanha e a França, e o preço que o tradutor pagou pelo que escreveu. Por fim, o que a fábula ensina sobre quem fala ao ouvido de quem decide.
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I A Fábula do Dia
A intriga que Dimna levou ao trono
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A resposta de ontem Quem publicou o conto do fogo na montanha pela primeira vez? O folclorista americano Harold Courlander e o linguista Wolf Leslau, estudioso das línguas da Etiópia. Os dois ouviram a história de narradores etíopes e a publicaram em 1950 no livro The Fire on the Mountain and Other Ethiopian Stories, pela editora Henry Holt, de Nova York, com o conto de Arha abrindo a coletânea. |
Kalila e Dimna, o livro de fábulas que Ibn al-Muqaffa escreveu em árabe no século 8, abre com a história do chacal que separa o leão do seu melhor amigo com duas mentiras bem medidas.
Dimna voltou à toca e contou o plano a Kalila. Ia afastar o boi do rei.
Kalila lembrou que o leão era forte, que Chatraba tinha chifres e que Dimna era só um chacal pequeno, sem garra para enfrentar nenhum deles.
Dimna respondeu que a força não decide tudo. Contou a história do corvo que venceu a serpente usando um colar roubado, e saiu decidido.
Foi ao leão primeiro. Fingiu relutância. Disse que trazia uma notícia ruim, que sofria por trazê-la, mas que a lealdade obrigava.
Contou que Chatraba andava conversando com os outros bichos. Que o boi achava o rei fraco. Que planejava tomar o trono.
O leão duvidou. Lembrou que tinha recebido o boi, protegido e honrado.
Dimna tinha a resposta pronta. Disse que um conselheiro honrado demais acaba se achando igual ao rei, e que um igual não demora a querer o lugar de cima.
Depois deu um sinal para o leão conferir. Quando Chatraba viesse, ia chegar de chifres baixos, pronto para o ataque.
Em seguida, Dimna foi ao boi. Com a mesma cara de pena, contou que o leão tinha decidido comê-lo e servir a carne aos cortesãos.
Chatraba não acreditou. Dimna deu a ele também um sinal: o rei ia recebê-lo com a cauda batendo no chão e os olhos vermelhos.
O boi entrou na corte com medo. Abaixou a cabeça, como faz todo boi assustado.
O leão viu os chifres baixos.
Chatraba viu a cauda batendo.
Cada um encontrou no outro a prova que o chacal tinha plantado.
A luta foi curta. O leão saltou, o boi resistiu, e Chatraba caiu.
Só então o rei sentiu o peso do que fez. Olhou o corpo do amigo e lembrou da conversa calma, da falta de ambição, dos conselhos dados sem pedir nada em troca.
Kalila, que assistia de longe, disse ao irmão que a esperteza dele tinha produzido um rei sem amigo e um amigo sem vida.
Na versão árabe, a história continua. Ibn al-Muqaffa acrescentou um capítulo inteiro, a investigação sobre Dimna, que o texto indiano não tem.
Um leopardo tinha ouvido, escondido, a conversa em que Kalila repreendia o irmão. Contou à mãe do leão, que contou ao rei.
Dimna foi levado a julgamento diante da corte. Negou tudo, argumentou bem e ganhou tempo, preso enquanto os juízes ouviam testemunhas.
Kalila adoeceu de desgosto durante a prisão do irmão e não resistiu.
Uma segunda testemunha confirmou a conversa, e o chacal foi condenado.
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II A Origem
Da Índia a Basra, e de Basra a Paris
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O livro nasceu na Índia como manual para príncipes, passou pelo persa e pelo árabe e chegou às fábulas de La Fontaine, que citou o sábio indiano Pilpay como fonte.
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A raiz está no Panchatantra (os cinco livros, em sânscrito), coletânea indiana atribuída ao brâmane Vishnu Sharma. A data exata é desconhecida: nenhum manuscrito original sobreviveu, e os estudiosos situam a composição entre o século 3 antes de Cristo e o século 3 depois.
A moldura conta que um rei chamado Amarashakti tinha filhos que não aprendiam nada. Vishnu Sharma prometeu ensinar a eles, em seis meses, a arte de governar, usando histórias de bichos.
O primeiro dos cinco livros se chama Mitrabheda (a separação dos amigos). É a história do leão, do boi e dos dois chacais, que no sânscrito se chamam Karataka e Damanaka.
O caminho pelo persa
No século 6, o rei persa Cosroes I mandou o médico Burzoe à Índia buscar o livro. Burzoe voltou com uma tradução em pálavi (o persa médio, língua da corte sassânida).
Essa versão persa se perdeu. Sobraram dela duas filhas: uma tradução em siríaco feita ainda no século 6 e a tradução árabe de Ibn al-Muqaffa, feita dois séculos depois.
Os chacais mudaram de nome na viagem. Karataka virou Kalila, Damanaka virou Dimna, e o título árabe ficou com os dois.
O tradutor que pagou caro
Ibn al-Muqaffa nasceu persa, chamado Rozbeh, e se converteu ao islã adulto. Trabalhou como secretário de governadores abássidas e escreveu cartas sobre como um governante devia tratar seus conselheiros.
Por volta de 756, o governador de Basra, Sufyan ibn Muawiya, mandou executá-lo. As crônicas árabes contam que a ordem teve o aval do califa al-Mansur, irritado com um documento que o tradutor redigiu. Ibn al-Muqaffa tinha cerca de 36 anos.
Muitos leitores veem no capítulo do julgamento de Dimna, ausente do texto indiano, um recado do tradutor à corte que ele servia: a intriga não fica sem punição.
Do árabe à Europa
Em 1251, o príncipe Alfonso, futuro Alfonso X de Castela, mandou verter o livro para o castelhano, como Calila e Digna. Por volta de 1270, João de Cápua fez a versão latina, Directorium vitae humanae (guia da vida humana), que espalhou a história pela Europa.
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“Je dirai par reconnaissance que j'en dois la plus grande partie à Pilpay, sage indien.”
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Jean de La Fontaine, Fábulas, advertência do segundo volume, 1678: “Direi por gratidão que devo a maior parte delas a Pilpay, sábio indiano.”
Pilpay era a forma europeia de Bidpai, o sábio que narra as histórias do livro e que o texto árabe chama de Baidaba.
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