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ED 073
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O chacal que sussurrou ao rei contra o boi

Em Kalila e Dimna, livro árabe do século 8, o leão acredita na intriga do chacal e só descobre a mentira quando o boi Chatraba já está no chão.

Um chacal magro sussurra ao ouvido de um leão deitado na entrada da toca, enquanto um boi pasta na beira de um rio ao fundo.

O chacal Dimna ao ouvido do leão, o boi ao longe

▼
 

“Quem chega perto do rei sem ser chamado pode subir muito alto, ou cair de muito alto”, disse o chacal Dimna ao irmão Kalila, na toca que os dois dividiam à beira do pasto do leão.

Kalila pediu calma. Os dois serviam na corte sem cargo nenhum, comiam as sobras da caça real e viviam bem assim. Para que arriscar a pele por um lugar mais perto do trono?

Dimna tinha um motivo. Havia dias que o leão não saía da toca. Um som grave, vindo da beira do rio, deixava o rei parado, de orelha em pé, sem caçar.

Ninguém na corte sabia de onde vinha o som. Ninguém tinha coragem de perguntar.

Dimna pediu audiência. Disse ao leão que barulho grande nem sempre vem de bicho grande, e se ofereceu para ir ver.

Voltou com a resposta. O som era o mugido de Chatraba, um boi que um mercador tinha largado atolado na lama durante uma viagem. O animal se soltou sozinho, engordou no capim da margem e mugia por puro sossego.

O leão quis conhecer o boi. Dimna o trouxe até o trono, e Chatraba chegou de cabeça baixa, pedindo licença para viver no pasto.

O rei gostou dele na primeira conversa. Chatraba falava pouco, pensava antes de responder e não pedia nada. Em poucas semanas, o boi virou conselheiro, e o lugar ao lado do leão ficou dele.

Dimna, que tinha aberto a porta, ficou de fora.

A história foi escrita em árabe por Abdallah Ibn al-Muqaffa, um secretário persa a serviço dos califas abássidas, em Basra, por volta do ano 750. Ele traduziu de um livro persa que, por sua vez, vinha de uma coletânea indiana muito mais antiga.

Adiante, a intriga que Dimna armou contra o boi e o julgamento que veio depois. Em seguida, a viagem do livro da Índia até a Espanha e a França, e o preço que o tradutor pagou pelo que escreveu. Por fim, o que a fábula ensina sobre quem fala ao ouvido de quem decide.

Continue lendo ↓

 
 

I  A Fábula do Dia

A intriga que Dimna levou ao trono

A resposta de ontem

Quem publicou o conto do fogo na montanha pela primeira vez?

O folclorista americano Harold Courlander e o linguista Wolf Leslau, estudioso das línguas da Etiópia. Os dois ouviram a história de narradores etíopes e a publicaram em 1950 no livro The Fire on the Mountain and Other Ethiopian Stories, pela editora Henry Holt, de Nova York, com o conto de Arha abrindo a coletânea.

Kalila e Dimna, o livro de fábulas que Ibn al-Muqaffa escreveu em árabe no século 8, abre com a história do chacal que separa o leão do seu melhor amigo com duas mentiras bem medidas.

Dimna voltou à toca e contou o plano a Kalila. Ia afastar o boi do rei.

Kalila lembrou que o leão era forte, que Chatraba tinha chifres e que Dimna era só um chacal pequeno, sem garra para enfrentar nenhum deles.

Dimna respondeu que a força não decide tudo. Contou a história do corvo que venceu a serpente usando um colar roubado, e saiu decidido.

Foi ao leão primeiro. Fingiu relutância. Disse que trazia uma notícia ruim, que sofria por trazê-la, mas que a lealdade obrigava.

Contou que Chatraba andava conversando com os outros bichos. Que o boi achava o rei fraco. Que planejava tomar o trono.

O leão duvidou. Lembrou que tinha recebido o boi, protegido e honrado.

Dimna tinha a resposta pronta. Disse que um conselheiro honrado demais acaba se achando igual ao rei, e que um igual não demora a querer o lugar de cima.

Depois deu um sinal para o leão conferir. Quando Chatraba viesse, ia chegar de chifres baixos, pronto para o ataque.

Em seguida, Dimna foi ao boi. Com a mesma cara de pena, contou que o leão tinha decidido comê-lo e servir a carne aos cortesãos.

Chatraba não acreditou. Dimna deu a ele também um sinal: o rei ia recebê-lo com a cauda batendo no chão e os olhos vermelhos.

O boi entrou na corte com medo. Abaixou a cabeça, como faz todo boi assustado.

O leão viu os chifres baixos.

Chatraba viu a cauda batendo.

Cada um encontrou no outro a prova que o chacal tinha plantado.

A luta foi curta. O leão saltou, o boi resistiu, e Chatraba caiu.

Só então o rei sentiu o peso do que fez. Olhou o corpo do amigo e lembrou da conversa calma, da falta de ambição, dos conselhos dados sem pedir nada em troca.

Kalila, que assistia de longe, disse ao irmão que a esperteza dele tinha produzido um rei sem amigo e um amigo sem vida.

Na versão árabe, a história continua. Ibn al-Muqaffa acrescentou um capítulo inteiro, a investigação sobre Dimna, que o texto indiano não tem.

Um leopardo tinha ouvido, escondido, a conversa em que Kalila repreendia o irmão. Contou à mãe do leão, que contou ao rei.

Dimna foi levado a julgamento diante da corte. Negou tudo, argumentou bem e ganhou tempo, preso enquanto os juízes ouviam testemunhas.

Kalila adoeceu de desgosto durante a prisão do irmão e não resistiu.

Uma segunda testemunha confirmou a conversa, e o chacal foi condenado.

 
 

II  A Origem

Da Índia a Basra, e de Basra a Paris

O livro nasceu na Índia como manual para príncipes, passou pelo persa e pelo árabe e chegou às fábulas de La Fontaine, que citou o sábio indiano Pilpay como fonte.

A raiz está no Panchatantra (os cinco livros, em sânscrito), coletânea indiana atribuída ao brâmane Vishnu Sharma. A data exata é desconhecida: nenhum manuscrito original sobreviveu, e os estudiosos situam a composição entre o século 3 antes de Cristo e o século 3 depois.

A moldura conta que um rei chamado Amarashakti tinha filhos que não aprendiam nada. Vishnu Sharma prometeu ensinar a eles, em seis meses, a arte de governar, usando histórias de bichos.

O primeiro dos cinco livros se chama Mitrabheda (a separação dos amigos). É a história do leão, do boi e dos dois chacais, que no sânscrito se chamam Karataka e Damanaka.

O caminho pelo persa

No século 6, o rei persa Cosroes I mandou o médico Burzoe à Índia buscar o livro. Burzoe voltou com uma tradução em pálavi (o persa médio, língua da corte sassânida).

Essa versão persa se perdeu. Sobraram dela duas filhas: uma tradução em siríaco feita ainda no século 6 e a tradução árabe de Ibn al-Muqaffa, feita dois séculos depois.

Os chacais mudaram de nome na viagem. Karataka virou Kalila, Damanaka virou Dimna, e o título árabe ficou com os dois.

O tradutor que pagou caro

Ibn al-Muqaffa nasceu persa, chamado Rozbeh, e se converteu ao islã adulto. Trabalhou como secretário de governadores abássidas e escreveu cartas sobre como um governante devia tratar seus conselheiros.

Por volta de 756, o governador de Basra, Sufyan ibn Muawiya, mandou executá-lo. As crônicas árabes contam que a ordem teve o aval do califa al-Mansur, irritado com um documento que o tradutor redigiu. Ibn al-Muqaffa tinha cerca de 36 anos.

Muitos leitores veem no capítulo do julgamento de Dimna, ausente do texto indiano, um recado do tradutor à corte que ele servia: a intriga não fica sem punição.

Do árabe à Europa

Em 1251, o príncipe Alfonso, futuro Alfonso X de Castela, mandou verter o livro para o castelhano, como Calila e Digna. Por volta de 1270, João de Cápua fez a versão latina, Directorium vitae humanae (guia da vida humana), que espalhou a história pela Europa.

“Je dirai par reconnaissance que j'en dois la plus grande partie à Pilpay, sage indien.”

Jean de La Fontaine, Fábulas, advertência do segundo volume, 1678: “Direi por gratidão que devo a maior parte delas a Pilpay, sábio indiano.”

Pilpay era a forma europeia de Bidpai, o sábio que narra as histórias do livro e que o texto árabe chama de Baidaba.

 

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III  A Lição que Fica

Quem fala ao ouvido de quem decide

O leão não matou Chatraba por maldade. Matou porque recebeu duas frases e um sinal, e não foi conferir com o próprio boi.

Dimna nunca mentiu sobre um fato que o rei pudesse checar. Mentiu sobre intenções. Intenção não se prova, só se suspeita.

O sinal fez o resto. Chifre baixo, para um boi com medo, é o jeito normal de entrar numa sala. Para um leão avisado, virou ameaça.

Quem decide ouvindo uma voz só acaba vendo no acusado a prova que mandaram procurar.

A fábula mostra também o motivo da intriga. Dimna não queria o trono. Queria de volta o lugar perto do rei, que ele mesmo tinha dado ao boi.

Kalila viu tudo e avisou. Avisar não bastou. Ficou na toca enquanto o irmão andava pela corte, e pagou junto.

Na escola, a cena aparece no colega que conta à professora o que o outro teria dito dela, sem ninguém ter ouvido. Em casa, no filho que corre avisar que o irmão vai quebrar o brinquedo, antes de o irmão encostar nele.

No trabalho, aparece no recado que chega ao chefe pelo corredor: fulano anda falando que a área é mal gerida. O chefe entra na reunião com o sinal na cabeça e enxerga ataque em qualquer pergunta.

O leão tinha uma saída que não usou: chamar Chatraba e perguntar. O boi tinha passado meses respondendo a tudo com calma. Teria respondido também a essa pergunta.

Ler a fábula com uma criança é treinar a pausa entre ouvir e acreditar.

Antes de ler: pergunte à criança o que ela faz quando alguém conta algo ruim sobre um amigo.

Na visita de Dimna ao leão: pare e pergunte por que o chacal fala de planos, e não de algo que o boi fez.

No encontro dos chifres baixos: pergunte se o boi estava atacando ou com medo.

No julgamento: pergunte por que Kalila, que não mentiu, também sofreu.

“Qual recado de corredor você já levou ao trono sem conferir com o boi?”

Dimna morreu na prisão.

 
 
Quiz da edição

No texto, qual sinal Dimna deu ao leão pra identificar que Chatraba vinha atacar?

ACom a cauda batendo no chão e os olhos vermelhos
BRugindo alto antes de entrar na corte
CCom os chifres baixos, pronto para o ataque
DDeitado, fingindo estar doente

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