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O cochilo que a lebre tirou no meio da corrida
A lebre e a tartaruga vem inteira e em português de hoje, de Esopo a La Fontaine, com a lição da constância e a pergunta do fim.
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A tartaruga passando pela lebre adormecida
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Três palavras encerram discussão de dieta, de obra e de estudo no Brasil inteiro: devagar e sempre. Quem repete a frase quase nunca sabe que está resumindo uma corrida grega de vinte e cinco séculos atrás, disputada entre dois bichos que ninguém colocaria na mesma pista.
A mesma ideia atravessou as línguas com palavras diferentes. O inglês diz que o lento e constante ganha a corrida, o italiano diz que quem vai devagar vai são e vai longe, e o francês guardou o conselho no primeiro verso de um poema de 1668. Nenhuma dessas línguas combinou com as outras.
A cena original é curta. O texto grego cabe em menos de cem palavras, sem público, sem aposta e sem descrição do caminho. Dois animais discutindo velocidade, um dia marcado, um trecho de estrada e um resultado.
Quase tudo que a gente reconhece hoje entrou depois. A sombra da árvore, a plateia de bichos, a raposa marcando a largada. Cada século colou uma camada nova, e a fábula chegou aqui vestida de coisas que o grego nunca escreveu.
O que ficou intacto foi o mecanismo, e ele não trata de velocidade. A lebre não fica mais lenta em nenhum momento da história: ela perde por interromper. O que decide a disputa é o intervalo parado no meio do campo, não o tamanho da passada.
A fábula de hoje serve a partir dos quatro anos e leva perto de dois minutos lida em voz alta, em ritmo tranquilo. Ela vem inteira, do primeiro encontro na estrada de terra até a última palavra dita debaixo da figueira, sem corte, sem resumo e sem trecho de amostra.
Depois dela vem a origem declarada, com nome, obra e ano de cada versão que atravessou dois mil e quinhentos anos até chegar na sua tela. E no fim, a lição em uma frase, no tamanho da criança, escrita sem chamar a lebre de preguiçosa e sem cobrar nada de quem lê.
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I A Fábula do Dia
A aposta feita na beira da estrada
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Uma lebre que ri, uma tartaruga que aceita e um campo de terra com fim marcado. A fábula vem completa aqui embaixo, reescrita pra sair na sua voz sem tropeço.
Numa manhã de sol fraco, na beira de uma estrada de terra, a lebre encontrou a tartaruga atravessando o caminho. Ela parou, sentou nas patas de trás e ficou olhando o bicho se arrastar de uma margem pra outra.
A lebre riu. Disse que dava a volta no campo inteiro no tempo que a tartaruga levava pra vencer uma estrada de terra.
A tartaruga não respondeu na hora. Terminou a travessia com calma, virou a cabeça e propôs uma corrida. Da pedra branca ali do lado até a figueira grande do outro lado do campo.
A lebre riu mais alto e aceitou na mesma hora. Combinaram a largada pra quando o sol batesse na pedra, e as duas ficaram lado a lado, uma esticada e pronta, a outra com as patas curtas fincadas na terra.
No sinal, a lebre disparou. Sumiu na primeira curva, cortou o mato baixo, passou o brejo seco e chegou perto da figueira antes de a tartaruga sair de perto da pedra.
Foi aí que ela olhou pra trás. O campo inteiro estava vazio. Nem sinal do casco na estrada, nem poeira levantada, nem barulho de pata na terra.
A lebre calculou que tinha tempo de sobra. Deitou na sombra de um pé de goiaba, encostou a cabeça nas patas da frente e fechou os olhos só pra descansar as pernas. O chão embaixo da árvore estava fresco. Ela dormiu.
A tartaruga passou pela pedra branca e continuou. Uma pata, depois a outra, no mesmo ritmo, sem parar pra medir o quanto faltava e sem olhar pra trás em momento nenhum.
Passou pelo mato baixo. Passou pelo brejo seco. Passou pela sombra do pé de goiaba, a um palmo da lebre adormecida, e não acelerou nem diminuiu o passo por causa da lebre.
Quando a lebre acordou, o sol já estava alto. Levantou num salto, olhou pra estrada atrás dela, não viu ninguém e correu pra figueira com tudo que tinha nas pernas.
Chegou ofegante e encontrou a tartaruga parada debaixo dos galhos, com o casco empoeirado, esperando.
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Eu não corri em nenhum momento, disse a tartaruga. Eu só não parei.
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A lebre não respondeu. Ficou de pé ali um tempo, com a respiração ainda alta, olhando a figueira, a estrada comprida e o próprio rastro fresco na poeira.
As duas voltaram pelo mesmo caminho depois, cada uma no passo que tinha. O campo continuou do mesmo tamanho e a figueira no mesmo lugar.
A única coisa que tinha mudado naquela manhã era a ordem da chegada.
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II A Origem
De Esopo ao devagar e sempre
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A fábula tem menos de cem palavras no grego, sai de lá com a moral escrita no fim, vira o verso de abertura de La Fontaine em 1668 e chega ao português como conselho de casa: devagar e sempre.
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O primeiro nome da linha é Esopo. A tradição grega o coloca no século VI antes de Cristo, escravo na ilha de Samos, contador de histórias curtas com bicho no lugar de gente. Ele não deixou livro escrito, e as fábulas circularam de boca em boca antes de alguém sentar pra registrar.
No índice que os estudiosos usam hoje, montado por Ben Edwin Perry, esta história leva o número 226 e o título A tartaruga e a lebre. A ordem do título é essa mesmo: no grego, quem abre a cena é a tartaruga.
A versão grega é seca. Os dois animais discutem quem é mais rápida, marcam o dia e o lugar, e a lebre confia tanto nas próprias pernas que deita na beira do caminho pra dormir. A tartaruga anda sem parar e passa por ela.
O grego ainda traz a moral escrita no fim, coisa que as versões seguintes largaram: o esforço vence muitas vezes a natureza que não se cuidou.
A árvore descrita, a plateia de bichos e a raposa marcando a largada ficaram de fora do texto antigo. Todos esses detalhes entraram nas releituras dos séculos seguintes.
Por mais de mil anos a história viajou nas coleções escolares copiadas à mão na Europa, em latim e sempre curta.
O verso francês que pegou
Em 1668, em Paris, Jean de La Fontaine publicou Fables choisies, mises en vers. A lebre e a tartaruga está no livro VI, na fábula 10, e faz uma coisa rara no volume inteiro: começa pela moral em vez de terminar nela.
O primeiro verso virou provérbio francês antes do resto do poema chegar ao fim.
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Rien ne sert de courir; il faut partir à point.
De nada adianta correr, o que vale é partir na hora certa.
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Jean de La Fontaine, Fables choisies, mises en vers, livro VI, fábula 10, Paris, 1668. A tradução acima segue a leitura corrente do texto em domínio público.
O resto do poema é uma crônica de vaidade. A lebre de La Fontaine deixa a tartaruga sair na frente de propósito, para pastar e farejar o vento, e só lembra da corrida quando o tempo já acabou.
A tartaruga dele ainda provoca na chegada, perguntando de que serviu a velocidade e o que seria da lebre com uma casa nas costas.
No Brasil, quem levou o texto pra boca do adulto foi Monteiro Lobato. Em Fábulas, de 1922, as histórias saem contadas por Dona Benta pras crianças do sítio, e o fim de cada uma é o comentário de quem ouviu, não uma moral em letra grande.
O provérbio sobreviveu melhor que a fábula. Devagar e sempre virou frase feita em português, slow and steady wins the race virou frase feita em inglês, e as duas dizem a mesma coisa: o que conta é continuar.
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