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Fábula do Dia   Fábula do Dia
ED 025

O coração que ficou pendurado na figueira

A travessia do rio vem inteira e em português de hoje, do livro sânscrito ao verso de Benares, com a saída que o macaco inventou em cima da água.

Um macaco montado nas costas de um crocodilo no meio de um rio largo, com a figueira ao longe na margem.

Macaco nas costas do crocodilo no meio do rio

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Existe um tipo de história que só funciona porque o herói está em desvantagem total. Sem arma, sem força, sem para onde correr, e ainda por cima em cima da água, que é o lugar onde ele menos sabe se virar.

A fábula de hoje é o exemplo mais limpo que a literatura indiana produziu desse desenho. Um bicho pequeno, esperto e ágil se descobre no meio de um rio largo, montado nas costas do animal que decidiu comê-lo, sem margem por perto e sem chance nenhuma de nadar de volta.

O que ele tem é uma frase. Uma única frase, inventada na hora, que precisa ser boa o bastante para o rio inteiro voltar para trás.

Por serem histórias assim que a Índia antiga usava para ensinar príncipes, o livro em que ela mora não é infantil por acidente. Ele foi montado como manual de governo, com bicho falando no lugar de conselheiro, e a travessia de hoje ocupa o lugar de honra: abre o quarto livro inteiro, aquele que trata de perder o que já estava na mão.

A criança não pensa em governo nenhum. Ela pensa na cara do crocodilo ao descobrir que voltou o caminho inteiro à toa, e é por aí que a fábula fica.

O adulto que lê em voz alta percebe outra camada, e ela é desconfortável. O crocodilo não tem ideia própria de fazer mal. Ele passa a história inteira sendo carregado por uma vontade que não é dele, e aceita perder um amigo por não saber dizer não dentro de casa.

A história é curta, cabe em dois minutos lidos devagar e serve a partir dos cinco anos, que é quando a criança já entende a diferença entre o que se diz e o que se pretende.

Ela vem inteira aqui embaixo, do primeiro figo atirado na areia até o crocodilo parado no meio da correnteza.

Depois dela vem a origem declarada, com livro, tradutor e ano de cada versão, incluindo o verso indiano em que a figueira aparece com nome próprio. E no fim, a lição em uma frase, no tamanho da criança.

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I  A Fábula do Dia

A frase que fez o rio voltar

Um fruto doce atirado da margem, uma amizade construída dia após dia e uma travessia que muda de intenção no meio do caminho. A fábula vem completa aqui embaixo, reescrita pra sair na sua voz sem tropeço.

Na beira de um rio largo havia uma figueira carregada, e no alto dela morava um macaco que comia os frutos maduros o dia inteiro. Embaixo, na areia quente, um crocodilo tomava sol todas as tardes.

Um dia o macaco olhou para baixo e viu o bicho ali, sozinho.

Ei, você aí embaixo. Prove um desses, disse ele, e atirou um figo maduro na areia.

O crocodilo comeu, achou doce como nunca tinha provado e voltou no dia seguinte.

Assim os dois viraram amigos: o macaco escolhia os frutos do galho mais alto, e o crocodilo passava a tarde conversando na sombra.

Certa vez o macaco mandou uma porção extra de figos para a mulher do crocodilo.

Se o fruto que esse macaco come é assim tão doce, disse ela ao marido, imagine como deve ser o coração dele. Quero comer o coração do seu amigo.

O crocodilo se assustou. Ele é meu amigo, respondeu. Ele me alimenta há meses.

Ela então se deitou de lado e disse que não comeria mais nada, que ficaria ali quieta, doente, e que a culpa seria dele.

O crocodilo passou a noite acordado e de manhã foi até a figueira, com a voz mais alegre que conseguiu.

Minha mulher diz que você me alimenta há meses e nunca foi convidado para jantar na nossa casa, disse ele. Suba nas minhas costas que eu te levo.

O macaco olhou o rio largo, hesitou e desceu do galho.

Foram indo. A margem sumiu atrás deles e a água ficou funda dos dois lados.

Foi aí que o crocodilo, cheio de peso na consciência, começou a falar.

Amigo, preciso te contar uma verdade. Minha mulher não quer você para jantar. Ela quer comer o seu coração.

O macaco sentiu o corpo gelar em cima daquele casco, com água dos dois lados e nenhum galho ao alcance.

E então ele riu.

Ah, meu caro, mas por que você não falou antes?, disse ele. O coração é pesado. Ninguém carrega o próprio coração para uma visita. Deixamos todos pendurados na figueira, bem no alto, junto com os frutos.

O crocodilo parou no meio da correnteza.

Você quer dizer que veio sem ele?

Claro que vim sem ele. Volte comigo que eu pego o meu.

O crocodilo deu meia-volta e nadou o rio inteiro de novo, contente com a solução.

O macaco pulou para a areia, subiu a figueira em três saltos e sentou no galho mais alto, onde o vento batia.

Do alto, ele disse:

Seu bobo, ninguém deixa o coração pendurado em árvore. O coração anda junto com a gente para todo lugar, e o meu vai ficar aqui em cima, longe do seu rio.

E nunca mais desceu para tomar sol na areia.

 
 

II  A Origem

Do livro sânscrito ao verso de Benares

Um manual de política escrito em sânscrito por volta do século III, uma coleção budista mais antiga ainda, uma tradução inglesa de 1925 e centenas de versões espalhadas da Indonésia ao Japão: poucos rios foram atravessados tantas vezes.

A versão canônica vem do Panchatantra, coleção sânscrita de fábulas atribuída a Vishnu Sharma e datada pelos estudiosos entre os séculos III e V. Ela abre o quarto livro da obra, chamado Labdhapranasham, que se traduz por perda do que já foi ganho.

O detalhe do título muda a leitura. Quem perde de verdade não é o macaco, e sim o crocodilo, que tinha uma amizade rendendo fruto doce todos os dias e sai da história sem amigo, sem figo e sem jantar.

A tradução inglesa mais lida é a de Arthur W. Ryder, publicada pela University of Chicago Press em 1925, que batiza os dois personagens: o macaco Boca Vermelha e o crocodilo Boca Feroz. A reconstrução acadêmica do texto original é de Franklin Edgerton, em The Panchatantra Reconstructed, de 1924.

Um detalhe some na travessia até o português. No sânscrito a árvore não é uma figueira, e sim uma jamboleira, a árvore do jambolão roxo e doce. A figueira entrou nas versões contadas fora da Índia porque era a árvore que o ouvinte conhecia.

Existe uma versão ainda mais antiga no cânone budista, o Sumsumara Jataka, número 208 da coleção, traduzido para o inglês sob direção de Edward B. Cowell em 1895. Ali quem quer o coração é uma crocodila do rio Ganges, e o macaco vive na margem, em Benares.

O verso que o macaco recita no fim do Jataka é o pedaço mais citado da história:

Rose-apple, jack-fruit, mangoes too across the water there I see; enough of them, I want them not; my fig is good enough for me.

Jambo, jaca e manga também, do outro lado da água eu vejo; chega deles, não os quero; o meu figo já me basta.

Sumsumara Jataka, número 208, em The Jataka, or Stories of the Buddha's Former Births, edição dirigida por Edward B. Cowell, Cambridge University Press, 1895.

A mesma travessia em outros mares

O desenho viajou junto com os comerciantes. Na Indonésia o crocodilo carrega um macaco branco, na Coreia e no Japão a dupla vira tartaruga e macaco a serviço do rei do mar, e o órgão cobiçado passa a ser o fígado.

O mesmo caminho levou o Panchatantra para o persa por volta de 570, dali para o árabe no Kalila wa Dimna de Ibn al-Muqaffa, no século VIII, e do árabe para o latim e para as línguas europeias, o que faz dele um dos livros mais traduzidos que existem.

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III  A Lição que Fica

O que não se carrega para dentro da água

A moral que costuma ser colada nesta fábula é curta e meio inútil: cuidado com falsos amigos. O crocodilo não é falso amigo nenhum. Ele gostava do macaco e passou uma noite sem dormir antes de fazer o que fez.

Repare no que a história mostra de verdade. O crocodilo não tem plano próprio. Ele executa a vontade de outra pessoa, contra o que ele mesmo acha, e ainda entrega o plano no meio do caminho porque a consciência não aguenta o peso.

O macaco vence por um motivo específico: ele não discute, não implora e não acusa. Ele aceita a informação nova sem se revoltar e usa a única vantagem que ainda tinha em cima do rio, que era a boa-fé do crocodilo.

Ninguém ganha uma discussão sentado nas costas de quem decide o caminho. O que dá para fazer é oferecer um motivo para o caminho voltar.

Tem uma segunda camada aqui, e é a mais fina da fábula inteira. O macaco descobre no meio da água que a amizade dele nunca foi só com o crocodilo. Ela envolvia uma casa que ele nunca visitou e uma pessoa que decidia por baixo do rio.

Vale dizer o que a fábula não faz. Ela não ensina a criança a desconfiar de todo mundo. O macaco desce da figueira, faz amizade e passa meses bem dividindo o que tinha de sobra, e nada disso é apagado no fim. A criança percebe a diferença entre uma história que manda fechar a porta e uma história que ensina a olhar quem mais mora do outro lado dela.

Antes de começar: diga a idade e o tempo em voz alta. A partir dos cinco anos, perto de dois minutos.

Na hora do primeiro figo: faça o gesto de atirar o fruto lá de cima e espere a criança fingir que pega. A amizade tem que ser construída na frente dela.

Na hora do convite: baixe a voz e fale mais devagar que o normal. A criança percebe sozinha que tem alguma intenção errada no jeito do crocodilo, e é o melhor momento da leitura.

Na hora da frase do coração: pare depois de dizer que o coração ficou pendurado na figueira. Deixe a criança rir antes de continuar, porque é o pedaço que ela vai repetir a semana inteira.

O adulto que lê conhece a mesma travessia. O sócio que muda de ideia depois de conversar com alguém em casa, o contrato bom que azeda numa reunião da qual você não participou.

A lição em uma frase: quando alguém já te levou para o meio do rio, grite menos e pense mais rápido, porque a saída quase sempre é dar ao outro um bom motivo para voltar.

“Que decisão sua está sendo tomada hoje numa sala onde você não entra?”

 
 
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O caminho que leva a criança da tela até o primeiro livro lido sozinha.

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Na fábula, que desculpa o macaco inventa para explicar por que não trouxe o coração?

ADisse que a mulher do crocodilo pediu para guardá-lo em casa
BDisse que o coração afunda na água e por isso ficou em terra
CDisse que o coração ficou pendurado na figueira, junto com os frutos
DDisse que só leva o coração quando visita amigos de confiança

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