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Um fruto doce atirado da margem, uma amizade construída dia após dia e uma travessia que muda de intenção no meio do caminho. A fábula vem completa aqui embaixo, reescrita pra sair na sua voz sem tropeço.
Na beira de um rio largo havia uma figueira carregada, e no alto dela morava um macaco que comia os frutos maduros o dia inteiro. Embaixo, na areia quente, um crocodilo tomava sol todas as tardes.
Um dia o macaco olhou para baixo e viu o bicho ali, sozinho.
Ei, você aí embaixo. Prove um desses, disse ele, e atirou um figo maduro na areia.
O crocodilo comeu, achou doce como nunca tinha provado e voltou no dia seguinte.
Assim os dois viraram amigos: o macaco escolhia os frutos do galho mais alto, e o crocodilo passava a tarde conversando na sombra.
Certa vez o macaco mandou uma porção extra de figos para a mulher do crocodilo.
Se o fruto que esse macaco come é assim tão doce, disse ela ao marido, imagine como deve ser o coração dele. Quero comer o coração do seu amigo.
O crocodilo se assustou. Ele é meu amigo, respondeu. Ele me alimenta há meses.
Ela então se deitou de lado e disse que não comeria mais nada, que ficaria ali quieta, doente, e que a culpa seria dele.
O crocodilo passou a noite acordado e de manhã foi até a figueira, com a voz mais alegre que conseguiu.
Minha mulher diz que você me alimenta há meses e nunca foi convidado para jantar na nossa casa, disse ele. Suba nas minhas costas que eu te levo.
O macaco olhou o rio largo, hesitou e desceu do galho.
Foram indo. A margem sumiu atrás deles e a água ficou funda dos dois lados.
Foi aí que o crocodilo, cheio de peso na consciência, começou a falar.
Amigo, preciso te contar uma verdade. Minha mulher não quer você para jantar. Ela quer comer o seu coração.
O macaco sentiu o corpo gelar em cima daquele casco, com água dos dois lados e nenhum galho ao alcance.
E então ele riu.
Ah, meu caro, mas por que você não falou antes?, disse ele. O coração é pesado. Ninguém carrega o próprio coração para uma visita. Deixamos todos pendurados na figueira, bem no alto, junto com os frutos.
O crocodilo parou no meio da correnteza.
Você quer dizer que veio sem ele?
Claro que vim sem ele. Volte comigo que eu pego o meu.
O crocodilo deu meia-volta e nadou o rio inteiro de novo, contente com a solução.
O macaco pulou para a areia, subiu a figueira em três saltos e sentou no galho mais alto, onde o vento batia.
Do alto, ele disse:
Seu bobo, ninguém deixa o coração pendurado em árvore. O coração anda junto com a gente para todo lugar, e o meu vai ficar aqui em cima, longe do seu rio.
E nunca mais desceu para tomar sol na areia.
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